quinta-feira, janeiro 18, 2007

Primeiramente
Aquilo que procuro primeiramente ao ler um poema não é perceber o que o poeta estava a sentir ao escrever o texto. Pretendo sim que o poema me transmita algo, que me desperte algum tipo de emoção, que comunique comigo, que me acenda uma luz interior. No fundo, quero que o poema seja capaz de me arrancar algum tipo de agitação interior – é dessa forma que entendo que se deva processar o primeiro contacto. No fundo, espero que o poema me transmita uma imagem emotiva, sensorial. Primeiro o poema comunica comigo, por si só. Depois e só depois, o poeta e o seu poema.
O mesmo se aplica à pintura, à escultura e a todas as artes. É a obra isolada que deve comunicar primeiramente e não o artista. Para mim, o valor da obra reside nela mesma. Só depois me interesso por contextualizar a obra na vida, no sentir do artista. É certo que tudo na vida tem um contexto e deve ser entendido como tal, mas também é certo que a arte tem o poder de se abstrair do seu contexto para se fazer valer autonomamente. Porque no fundo, o seu contexto somos nós e não apenas quem a executou.
Miguel Godinho

1 comentário:

Tânia Pereira disse...

Concordo!Mas continuo a achar que entre a aparição e o resultado final, quem faz é muito instrumento e pouco ponte entre a arte (enquanto conceito filosófico de criação e de algo criado ter de ser belo)e o artista (enquanto executor)!