sexta-feira, fevereiro 23, 2007


Patrimónios hidráulicos algarvios – memórias de outros tempos

O acesso à água tem sido uma preocupação constante ao longo dos tempos. Desde tempos pré-históricos que o Homem tenta “controlar” o acesso à água, inventando maneiras de a “ter à sua disposição”, tentando sempre fixar-se o mais próximo possível desta. Assim, nas descobertas arqueológicas, verificamos que os povoados mais antigos se situam quase sempre junto a um curso de água. A grande maioria dos vestígios arqueológicos ligados à ocupação humana dos territórios aparece perto destes.
Entre os romanos, já se edificavam, com frequência, cisternas, mas principalmente aquedutos e barragens (muitas delas exageradamente robustas), para assegurar o abastecimento de água às cidades e villae, num esforço de garantir o seu abastecimento. Mas antes disso, já os egípcios tinham desenvolvido complicados sistemas de canais e diques que chegavam a percorrer centenas de quilómetros para abastecer zonas pobres em água. E antes ainda, é bem provável que as regiões ao norte da Mesopotâmia já detivessem importantes conhecimentos hidráulicos. Mas é sabido que foram os povos árabes aqueles que se celebrizaram pelas tecnologias de aproveitamento das águas ainda que não se possa atribuir a estes a “invenção” dos elementos de elevar e transportar a água, conforme sustentam as teorias tradicionais. Foram eles possivelmente os responsáveis pela introdução de alguns destes elementos na península ibérica mas o grande desenvolvimento destas tecnologias resulta de toda uma construção de saberes provenientes de tempos anteriores, como se percebe. Este facto estará em muito ligado ao tipo de clima que as regiões de onde são oriundos apresentam, à irregularidade das chuvas, à inacessibilidade da água, à escassez da mesma, à instabilidade do clima. Podemos por isso, afirmar que os árabes difundiram o uso dos poços e dos sistemas elevatórios de água, ao passo que os romanos se singularizaram no aproveitamento das águas de superfície.
O Algarve beneficiou muito com todos estes desenvolvimentos e todas estas sucessivas introduções de novas tecnologias relacionadas com o aproveitamento das águas. Aqui, soube-se aproveitar e melhorar todas as tecnologias ligadas ao aproveitamento da água para a irrigação dos terrenos agrícolas e para todos os consumos domésticos. Desde cedo se edificaram complexos sistemas de irrigação dos terrenos e de aproveitamento das águas das chuvas e dos mananciais subterrâneos. Na região, temos testemunhos edificados provenientes do período romano (barragens / açudes), passando por cisternas construídas pelos árabes, e muitíssimos outros elementos que foram sendo construídos até ao séc. XX, de onde se destacam as canhas, um elemento subterrâneo de condução das águas ainda não estudado na nossa região e de possível introdução árabe.
Hoje em dia, é bastante evidente que fontes, poços, noras, aquedutos, tanques, cisternas, represas, moinhos de água, são formas arquitectónicas que individualizam a paisagem da nossa região, afirmando a forma como o homem se relacionava com o território utilizando o seu engenho e arte no aproveitamento da água para a sua sobrevivência e actividades. E digo relacionava uma vez que a realidade hoje em dia é bastante diferente. Embora muitos desses elementos ainda existam, têm hoje em dia uma apresentação totalmente distinta em relação ao seu aspecto de há cerca de cinquenta anos atrás – o abandono causado pelo desuso é uma evidência clara, nos dias que correm.
Num trabalho realizado recentemente pude verificar que existem no concelho de Vila Real de Santo António para cima de 400 elementos (noras, poços, cisternas, tanques, etc) distribuídos um pouco por todo o concelho (que é relativamente pequeno, comparado com outros da mesma região). A maioria estava desaproveitada. Grande parte em ruína. Alguns reformulados, tendo a força motriz e alguns dos materiais de construção sido substituídos. Uma fatia considerável associada ainda a lendas e à religiosidade popular. Todos eles com muitas memórias inscritas.
Torna-se extremamente importante estimular a reflexão da comunidade relativamente à importância que têm os patrimónios hidráulicos. Ainda que seja muito difícil recuperar todos estes elementos, deve sem dúvida reafirmar-se a necessidade de revitalização e a utilidade cultural que têm. O levantamento, registo e estudo dos elementos da cultura material ligados à água, que o homem utilizou e/ou utiliza para beber, lavar e regar é um meio de preservação, mas no mundo actual em que vivemos (principalmente nesta região) é muito difícil proteger fisicamente estes elementos. Ainda que se apresentem como testemunhos da forma como o homem se relacionou com o território utilizando o seu engenho e arte no aproveitamento da água para a sua sobrevivência e actividades, as necessidades actuais são outras e o valor que se atribui por cá à preservação da memória ainda é muito reduzido. A factura que se acabará por pagar, caso não se faça nada para alterar a progressiva situação de abandono destes patrimónios, resultará no esquecimento desta realidade que outras gerações viveram e, no fundo, na perda de mais uma realidade na essência que nos define, enquanto algarvios e enquanto mediterrânicos.

Miguel Godinho

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