quinta-feira, novembro 27, 2008


O blog http://lugaresdosul.blogspot.com/ distinguiu este blog com o PRÉMIO DARDOS.


O Prémio Dardos consiste em "reconhecer os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.


Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve:


1. - Exibir a distinta imagem;

2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;

3. - Escolher quinze (15) outros blogs aos quais entregar o Prémio Dardos.


Nesse sentido, assim que possa, procederei à escolha dos 15 blogs aos quais atribuirei o prémio.

sexta-feira, novembro 21, 2008

I am Jack's Smirking Revenge

Os nossos dias [22]

Deixemo-nos ir em nós próprios
à espera de sermos só nós próprios

This is your life and it’s ending one minute at a time
Only after disaster can you be resurrected
It’s only after you lost everything
that you’re free to do anything

tudo acaba um dia, mon amour
é bom que não nos preocupemos em demasia
só por causa da negligência, antes do fim
puxemos fogo às aparências, mon amour
deixemos que nos cunhem o semblante
eles que se fodam, mon amour

eles que se fodam

Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 17, 2008

Os nossos dias (21)

A intensidade a cada esquina do corpo
nesse teu olhar bélico onde
cada imagem sabe a sexo
ou não fosses tu a metáfora da carne

sempre que te visito na memória
há uma ferida que se infecta:
o teu nome impúdico a salivar na boca
num aroma genital que me afoga a razão

nos espinhosos dias que se sucedem

aprendemos a deitar-nos de novo naquela cama
permitindo a pornografia da memória

Miguel Godinho

quarta-feira, novembro 12, 2008

Eras tu a virgem solene

Nos ventos negros da distância
o ajuste selvático da memória
e à parte da ilusão, o som da loucura


eras tu a virgem solene que apodreceu na recordação
ver-te ao longe é como ver-te ao perto
continuas arruinada numa esfera inerte
quase como naquele quarto quente
onde começámos corroídos logo à partida

no entender de quem julgava ver-nos nus
foi sempre assim meu amor, meu velho amor
mas o tempo cicatrizou-nos esse amor
ao menos ainda
consigo redigir sem borrar o teu nome
nesta folha branca e imaculada

Miguel Godinho

quarta-feira, novembro 05, 2008

O pulsar ardente das mãos espancadas

Ainda te vejo ao canto da loja
por entre os lenhos húmidos
dos alvoreceres coimbrães
e apetece-me agora dizer-te no silêncio:
claro que os dias são breves
e que o mundo gira sempre
à mesma velocidade
claro que o tempo se demorou
no pulsar ardente das mãos espancadas
que trémulas aguardaram
as chuvas da velhice

Tudo se esgotou de uma forma indizível
tal como me disseste: para o ano já cá não
estarias de novo de braços abertos
à espera que a vida te levasse.
Afinal, desde sempre foste tu quem carregou

a vida às costas

Miguel Godinho

quinta-feira, outubro 23, 2008

Queria ser o que escrevo. Entretanto vou-me contentando em escrever o que sou.

Miguel Godinho

segunda-feira, outubro 06, 2008

A metamorfose

A metamorfose geralmente acontece na segunda metade
dos vintes, quando nos apercebemos da absoluta necessidade
de morrer um dia, quando começa a apetecer
a toda a hora gritar que estamos atulhados e que queremos
a inocência de volta porque o silêncio interior
se torna já impossível de suportar e os incidentes antigos
complicados de esconder. De dois tipos as mutações,

qualquer um deles, de ingresso obrigatório: a perda definitiva
da limpidez e a transformação gradual do nosso ser numa coisa
que nunca mais olhará para trás sempre que a vida colocar
de frente a possibilidade de obter mais e mais e mais

e sempre mais, mesmo que para isso se torne necessário
recorrer à navalhada nas costas de alguém;
ou a passagem por um longo período de desnorte mas que
mais tarde poderá dar acesso ao paraíso do nosso ser onde

a toda a hora é possível para sempre ser o que quisermos ser,
e sê-lo despreocupados com o desenrolar da viagem,
extasiados pelos sonhos adolescentes que decidimos recuperar
e viver, conscientes da sua absoluta necessidade, custe o que
custar, doa a quem doer. Há no entanto, um terceiro caminho,
que evita qualquer um dos primeiros: arrematar-se a viagem,
fechando os olhos e dormindo para sempre na quietude
do silêncio eterno, protegidos da violência da memória
e da necessidade de mutações.

Miguel Godinho

sábado, outubro 04, 2008

Os nossos dias (20)

(no regresso a casa, ao fim do dia,
gostamos sempre de reflectir um pouco
sobre mais este dia com que Deus nos abençoou
enquanto não chegamos para comer, dormir e esquecer)


Um dia atrás do outro a caminhar errantes
pelo trilho da cegueira
ultimamente são assim os nossos dias
trajados de um veludo rasgado
num anseio constante
por um devir melhor preenchido
nada mais falhado que esperar
pelos efeitos da luz dos dias
tudo isso se consome
pouco tempo depois de nascer

Aquilo que mais cedo ou mais tarde
acabamos por descobrir
é que apenas nos dão permissão
para marchar descalços
num chão repleto de vidros

As ilusões – os dias são feitos disso
e a penumbra – porquê que ninguém fala disso? Da distância
que nos separa do sonho inocente

(o Sr. Engenheiro acha que faz parte da sua função
limitar-nos a liberdade de raciocínio
e o Sr. Doutor também se sente na obrigação
de nos impor regras nas convicções
cada vez mais formatadas, como convém
a pretexto de mais um projecto
de relevada importância. Queria, antes de mais,
deixar o meu apreço a esses senhores
tão importados em ensinar-nos
um pouco de etiqueta comportamental)


Os nossos dias são cinzentos
mas vivemos e calamos
como que com medo
vá-se lá saber do quê
talvez de nos descobrirmos
no meio do esterco

Miguel Godinho
Aqui vos deixo o texto que resultou da apresentação do 1º livro de poesia do Pedro Afonso, "Ainda aqui este lugar".
Ainda aqui este lugar

É com grande orgulho que assisto à edição do primeiro livro de poesia deste grande amigo, de longa data, que é o Pedro Afonso. Este jovem e emergente poeta algarvio nasceu em Faro, em 1979, e é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas. É um dos membros fundadores do sulscrito, círculo literário do Algarve, faz parte da direcção editorial da revista literária Sulscrito e está representado na Antologia de Novos Poetas Algarvios – Do Solo ao Sul, editada pela ARCA (2006), na Antologia de Poesia Portuguesa Actual – Poema Poema, editada em Espanha (traduzido para castelhano) e na Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, editada pela Exodus, em 2008. Publica ainda regularmente no blogue A pedra, que mantém desde 2007.
Sou amigo do Pedro desde os onze / doze anos, desde o tempo em que começámos a questionar o mundo. Frequentámos a mesma escola preparatória e desde então tornámo-nos fortes amigos, atravessando juntos os momentos mais interessantes das nossas vidas – a adolescência, a juventude. Quase a partir do momento em que nos conhecemos, passámos a reunir-nos frequentemente para descobrir e partilhar a vida, as ilusões e as desilusões, os sucessos e os insucessos, as felicidades e as infelicidades de cada um. Apercebi-me desde logo que uma das características que melhor define a sua personalidade é a necessidade constante de se questionar, e, nesse sentido, de se enfrentar e/ou de se confrontar, quer para testar e perceber os seus limites e/ou limitações, quer para perceber o que há para além deles/as. Por isso mesmo, contava já que, de alguma forma, este livro que agora publica, seguisse essa mesma atitude.
“Ainda aqui este lugar” é um conjunto de poemas que se apresenta reunido numa obra de confrontação entre dois eus que existem em dois momentos temporais distintos, o eu-de-agora e o eu-de-ontem, mas que se confrontam no plano liso da percepção mental (onde não existe uma noção de ontem, de hoje ou de amanhã - conceitos normalmente entendidos de forma autónoma e separados entre si). Veja-se o excerto do poema da pág. 17 (“o mundo é um novelo na minha memória lisa”). O presente é pensado aqui em confronto com o passado, mas numa tábua lisa/plana de continuidade perceptiva – o agora, onde os conceitos de passado e presente se juntam num só, conforme referia atrás. Talvez por isso, o passado não tenha neste livro uma expressão rigorosa, um momento exacto, já que no livro não se verifica uma única referência a um momento específico do passado.
Assim sendo, este é, também, um livro de memória mas não de memórias, uma abordagem ao que foi e que não volta a ser da mesma forma (essa certeza transparece ao longo de toda a obra - há uma plena consciência disso mesmo), as imagens com que esse passado se faz representar hoje em dia e o efeito que elas produzem no entendimento da vida.
O método empregue para o objectivo proposto - o de se tentar compreender o presente olhando para o passado - revela-se extremamente semelhante ao método arqueológico. Veja-se o excerto do poema presente na pág. 47: “(…) assim procuro por debaixo das minhas / raízes onde cotão e memórias crescem / mas nada por lá está onde é possível ver / há coisas que caem e aparecem no sentir / onde os olhos e o faro não trabalham no saber”. Note-se aqui, conforme se referia atrás, essa clara ideia de reinvenção da memória. Em todo o caso, o acto de revisitação conduz-nos sempre a uma reinvenção, e logicamente a uma reinscrição – a chave para a compreensão do livro e a justificação para o próprio título do mesmo – “Ainda aqui este lugar”. Esse lugar que o título aponta não é um lugar físico, é antes um lugar abstracto: é o lugar da memória que continuará a ser continuamente e continuadamente visitado e a ser apreendido e concebido de forma diferente.
A finalidade deste livro é, quanto a mim, a tentativa de um posicionamento mais sólido no momento presente, a compreensão de quem se é hoje, através de um mergulho na memória (o confronto).
Justamente como referia atrás, e tal como numa escavação arqueológica, o método empregue aqui é o da demarcação do terreno/território afectivo e/ou emocional, através da aplicação de uma quadrícula bem definida nos elementos que compõem esse território afectivo, para, de seguida, se prosseguir para o estudo pormenorizado de cada um deles - as 4 estruturas / partes que dividem a obra:
A moradia – que, quanto a mim, traduz o emaranhado emocional onde agora nos movemos (veja-se o excerto do poema da pág. 25 “a mesa espera-te posta / a cada manhã lucente / e o que nela se acumula / são os restos depostos / de uma humanidade”);
O muro – traduzindo talvez a distância / o tempo (pág. 9 “já só a sombra daquele fogo / na distância que se adensa / ou talvez as mãos ainda sujas / que atravessam regressando / do fumo o toque resistente / inflamado na pele fresca da infância / talvez de pedras brancas erigido / um muro que te corte a memória / e te guie as águas rápidas / pela rua da qual o reflexo vigio”);
A casa ao fundo – talvez as primeiras emoções, aquilo que facilmente se dissipa da memória (pág.51 “(…) o rápido brilho secreto / de uma evaporação absoluta / aqui / resta a sombra / das coisas em queda”);
A imitação do jardim – o que se consegue recuperar através desse revisitar da memória / das memórias – (pág. 39 “o sol rasga por entre as árvores / um tigrado exótico no chão do jardim / pombos pavões patos passos de flor / e de dentro de um arbusto móvel / sai uma coisa qualquer viva de sangue / se ficam pegadas neste chão tão ido / é porque alguém lhes segue a sombra”).
Portanto, aquilo que o Pedro faz é “desentulhar” as sucessivas camadas de terra e de pó para, por fim, deixar á vista a estrutura que o define hoje em dia e que foi sendo engrandecida e/ou empobrecida ao longo do tempo: a “moradia” onde hoje habita. Veja-se o poema da pág.30: “É neste corredor cego / de atravessar os dias / que os pesadelos nos tocam / as pestanas vivos na escuridão / um sangue escorrido / que te acompanha o frio / pegadas do teu corpo sempre”.
Assim sendo, “ainda aqui este lugar” é uma declaração de que somos o resultado de sucessivas camadas sensitivas, de um amontoado de experiências acumuladas ao longo da vida. E sendo este um tema tão difícil de ser expresso verbalmente, este é, também por isso, um livro compacto, de uma densidade absoluta. Aludindo a uma das nossas referências adolescentes, diria mesmo que aquilo que o Pedro procura transmitir é que “o que éramos ainda somos, mas o que somos, não sabemos”.
Assim sendo, queria por último deixar uma palavra de apreço à editora “4 águas” que tornou possível este livro e que, da mesma forma, também hoje aqui se estreia na sua actividade editorial, ao Fernando Esteves Pinto e ao Victor Cardeira pela excelente iniciativa que teve no sentido de contribuir para a expressão dos autores algarvios e, mais uma vez dar os parabéns a este grande amigo que é o Pedro Afonso e desejar-lhe o maior sucesso na sua carreira literária que agora, com a edição deste livro, adquire um novo fôlego.

Miguel Godinho

quarta-feira, outubro 01, 2008

Os nossos dias (19)

Podes até sentir-te absoluto na imensa
frescura dos dias que se sucedem
mas a febre que te assola sempre que te
descobres por detrás dos processos
pousados na prateleira é suficiente
para te desaprumar o corpo e é precisamente
aí que acordas da dormência diária
para ver a luz ao fim do túnel

(Sem aviso prévio, a porta abre-se e não tens tempo para terminar o pensamento onde o poema se estava a desenhar)

Sim, senhor engenheiro, em que posso ajudá-lo?
Claro que sim, às quatro terei o procedimento revisto

Na impossibilidade de regresso ao poema
um cafezinho ao fundo das escada
- é só mais uma manhã onde te encontras
e depois te perdes

Miguel Godinho

segunda-feira, setembro 22, 2008

Os nossos dias (18)

Neste recinto engulo os gritos e enterro
as alucinações na surdez destas paredes
uma voz que aqui se derrame logo se perde
neste espaço que parece um poço
onde os sonhos morrem afogados à nascença

(outra vez o telefone)

Sim, muito boa tarde, faça o favor de dizer
(logo agora que estava prestes a encontrar-me)
Olá, Sr. Engenheiro, como está? É um prazer ouvi-lo de novo
claro que vou rever o seu dossier
deixarei esse assunto pronto ainda hoje

na aflição de ser alguém
uma profunda sensação de desespero
quem sou eu como é que aqui cheguei
no que é que me tornei
para quê esta hipocrisia?

(a duplicidade a devorar-me as ideias)

talvez um dia a demência me percorra
ou será que já lá estou?


Miguel Godinho

quinta-feira, setembro 18, 2008

Os nossos dias (17)

Definho solitário neste gabinete recôndito
enquanto o mundo me escorre
pela gordura das mãos

nestes dias de fastio
pouco mais me acompanha
para além da ilusão
no caminho da melancolia


(o telefone toca)


Sim senhor engenheiro, diga
(agora não - por favor - deixe-me definhar em paz)
claro que sim, senhor engenheiro
tratarei prontamente da pendência dos seus assuntos
(que lhe limpem o cuzinho é o que mais lhe dá prazer
agora não - por favor - deixe-me sangrar sozinho)


claro que sim senhor engenheiro
sempre que precisar


Miguel Godinho

domingo, setembro 14, 2008

Uma nova geração de poetas?
O poeta, o verdadeiro poeta, quanto a mim, deve desinteressar-se (no sentido de se sentir obrigado a retorquir só para produzir efeito entre pares) sobre aquilo “que realmente precisa de envelhecer”. A produção poética é filha do tempo de quem a produz. Um poeta que é novo (com menos de quarenta anos) não deve escrever no sentido de se fazer passar por velho, não deve procurar a afirmação através de uma maturidade fingida. O próprio conceito de maturidade é extremamente relativo - veja-se, por exemplo, o caso de Rimbaud. Quanto a mim, o poeta deve olhar, ver e bradar, reflectir, e dizer da forma que melhor o satisfaz e que lhe for mais sincera, da forma que se sentir impelido a fazê-lo. Um poeta é uma pessoa e uma pessoa é filha do seu próprio tempo. E a poesia só carece de autenticidade. O problema é que a visão portuguesa actual erigida pelos “senhores maturos e estabelecidos” se refere aos poetas emergentes como pessoas que, “surgindo primeiramente, em eventos colectivos cheios de gente, organizados por gente que já foi emergente, os emergentes seniores, e que só organizam eventos com emergentes, acham que os emergentes fazem poesia só para poderem dizer que também trabalham com gente”. Visão soberba. E, assim sendo, esses “senhores seniores da poesia” perderam o objectivo de romper barreiras, de deitar abaixo muros, no fundo, do propósito da poesia - que é o que fazem (geralmente) esses poetas emergentes. Quando, na apresentação de sábado (do livro do Pedro Afonso, o “Ainda aqui este lugar”), no Pátio das Letras, em Faro, me referi ao Pedro como um poeta emergente, estava fora desta discussão tola sobre a “nova poesia portuguesa”…
Quanto a mim, a nova poesia portuguesa, é aquela que se esta a fazer hoje em dia. E existe efectivamente uma nova geração de poetas portugueses que estão a tentar afirmar-se. O Pedro é um deles. O “novo”, enquanto “novidade”, só se poderá perceber quando passar a ser velho. É interessante verificar-se que o novo, quando se institui como tal, passa a ser velho. É hora desses “senhores maturos e estabelecidos” ou que pretendem fazer passar-se por tal (talvez o problema seja esse), permitirem e assumirem isso mesmo, por muito que custe a essa elite de “senhores poetas”. Permitam-me dizer-lhes, de uma forma muito carinhosa: “Fuck you”. A poesia também existe nesta brilhante fórmula da língua inglesa, basta usá-la no contexto certo. O Sr. Berardo sabe disso.

Miguel Godinho

sexta-feira, setembro 12, 2008

Os nossos dias (16)

No caminho que todos os dias faço
de casa para o trabalho
vejo-me sentado na esquina
a olhar a minha pressa
eu e só eu e mais ninguém a correr
(talvez nem seja eu)
a atender o telefone a vestir as calças
no emprego a fazer a barba
a escovar os dentes ainda
no banho a atender o telefone
é o Sr. Engenheiro
está tudo pronto Sr. Engenheiro
acho que está tudo pronto
são nove horas e eu ainda aqui
estou a caminho Sr. Engenheiro
só mais cinco minutos
ao cuidado do Sr. Engenheiro
com os melhores cumprimentos
o despacho tem parecer favorável
sim, eu já te telefono meu amor
agora não posso, estou ao telefone
sim eu passo no talho e compro as febras
vou-me deitar que amanhã às oito
outra vez, outra vez, outra vez

Miguel Godinho

sexta-feira, setembro 05, 2008

Sábado
13 de Setembro
21h30

Pátio de Letras

Faro

quarta-feira, setembro 03, 2008

Depois de um longo período introspectivo, eis que regresso com o meu tema preferido...

Os nossos dias (15)

Estou sim, muito bom dia senhor engenheiro,
faça o favor de dizer

(nada no espírito que valha a pena expressar
a caneta resvala-me da mão enquanto me perco
no infinito. O vazio do papel, um espelho
uma ausência enquanto atendo senhores engenheiros)

claro que sim, senhor engenheiro, sempre que o desejar

(uma carreira fingida que resplandece

numa sociedade aberrante
só para saldar as múltiplas despesas

de uma vida aparentemente burguesa)

adeus, muito boa tarde, senhor engenheiro
faça o favor de ligar sempre que quiser


Miguel Godinho

segunda-feira, julho 07, 2008

Tesão

Consegues saborear o suor da flor do loendro
numa tarde de verão?
É que, sabes, o que me apetecia mesmo
era perder-me no despudor do seu vermelho
e roçar-me até cair na incandescência de suas pétalas

Miguel Godinho

quinta-feira, julho 03, 2008

segunda-feira, junho 30, 2008

Uma gaveta desarrumada

Quando me olhas, sinto-me

uma gaveta desarrumada
é como se os teus olhos fossem
mãos à procura de mim
por entre todas as coisas
sem interesse que fui
colocando no meu interior

Miguel Godinho