segunda-feira, setembro 22, 2008

Os nossos dias (18)

Neste recinto engulo os gritos e enterro
as alucinações na surdez destas paredes
uma voz que aqui se derrame logo se perde
neste espaço que parece um poço
onde os sonhos morrem afogados à nascença

(outra vez o telefone)

Sim, muito boa tarde, faça o favor de dizer
(logo agora que estava prestes a encontrar-me)
Olá, Sr. Engenheiro, como está? É um prazer ouvi-lo de novo
claro que vou rever o seu dossier
deixarei esse assunto pronto ainda hoje

na aflição de ser alguém
uma profunda sensação de desespero
quem sou eu como é que aqui cheguei
no que é que me tornei
para quê esta hipocrisia?

(a duplicidade a devorar-me as ideias)

talvez um dia a demência me percorra
ou será que já lá estou?


Miguel Godinho

quinta-feira, setembro 18, 2008

Os nossos dias (17)

Definho solitário neste gabinete recôndito
enquanto o mundo me escorre
pela gordura das mãos

nestes dias de fastio
pouco mais me acompanha
para além da ilusão
no caminho da melancolia


(o telefone toca)


Sim senhor engenheiro, diga
(agora não - por favor - deixe-me definhar em paz)
claro que sim, senhor engenheiro
tratarei prontamente da pendência dos seus assuntos
(que lhe limpem o cuzinho é o que mais lhe dá prazer
agora não - por favor - deixe-me sangrar sozinho)


claro que sim senhor engenheiro
sempre que precisar


Miguel Godinho

domingo, setembro 14, 2008

Uma nova geração de poetas?
O poeta, o verdadeiro poeta, quanto a mim, deve desinteressar-se (no sentido de se sentir obrigado a retorquir só para produzir efeito entre pares) sobre aquilo “que realmente precisa de envelhecer”. A produção poética é filha do tempo de quem a produz. Um poeta que é novo (com menos de quarenta anos) não deve escrever no sentido de se fazer passar por velho, não deve procurar a afirmação através de uma maturidade fingida. O próprio conceito de maturidade é extremamente relativo - veja-se, por exemplo, o caso de Rimbaud. Quanto a mim, o poeta deve olhar, ver e bradar, reflectir, e dizer da forma que melhor o satisfaz e que lhe for mais sincera, da forma que se sentir impelido a fazê-lo. Um poeta é uma pessoa e uma pessoa é filha do seu próprio tempo. E a poesia só carece de autenticidade. O problema é que a visão portuguesa actual erigida pelos “senhores maturos e estabelecidos” se refere aos poetas emergentes como pessoas que, “surgindo primeiramente, em eventos colectivos cheios de gente, organizados por gente que já foi emergente, os emergentes seniores, e que só organizam eventos com emergentes, acham que os emergentes fazem poesia só para poderem dizer que também trabalham com gente”. Visão soberba. E, assim sendo, esses “senhores seniores da poesia” perderam o objectivo de romper barreiras, de deitar abaixo muros, no fundo, do propósito da poesia - que é o que fazem (geralmente) esses poetas emergentes. Quando, na apresentação de sábado (do livro do Pedro Afonso, o “Ainda aqui este lugar”), no Pátio das Letras, em Faro, me referi ao Pedro como um poeta emergente, estava fora desta discussão tola sobre a “nova poesia portuguesa”…
Quanto a mim, a nova poesia portuguesa, é aquela que se esta a fazer hoje em dia. E existe efectivamente uma nova geração de poetas portugueses que estão a tentar afirmar-se. O Pedro é um deles. O “novo”, enquanto “novidade”, só se poderá perceber quando passar a ser velho. É interessante verificar-se que o novo, quando se institui como tal, passa a ser velho. É hora desses “senhores maturos e estabelecidos” ou que pretendem fazer passar-se por tal (talvez o problema seja esse), permitirem e assumirem isso mesmo, por muito que custe a essa elite de “senhores poetas”. Permitam-me dizer-lhes, de uma forma muito carinhosa: “Fuck you”. A poesia também existe nesta brilhante fórmula da língua inglesa, basta usá-la no contexto certo. O Sr. Berardo sabe disso.

Miguel Godinho

sexta-feira, setembro 12, 2008

Os nossos dias (16)

No caminho que todos os dias faço
de casa para o trabalho
vejo-me sentado na esquina
a olhar a minha pressa
eu e só eu e mais ninguém a correr
(talvez nem seja eu)
a atender o telefone a vestir as calças
no emprego a fazer a barba
a escovar os dentes ainda
no banho a atender o telefone
é o Sr. Engenheiro
está tudo pronto Sr. Engenheiro
acho que está tudo pronto
são nove horas e eu ainda aqui
estou a caminho Sr. Engenheiro
só mais cinco minutos
ao cuidado do Sr. Engenheiro
com os melhores cumprimentos
o despacho tem parecer favorável
sim, eu já te telefono meu amor
agora não posso, estou ao telefone
sim eu passo no talho e compro as febras
vou-me deitar que amanhã às oito
outra vez, outra vez, outra vez

Miguel Godinho

sexta-feira, setembro 05, 2008

Sábado
13 de Setembro
21h30

Pátio de Letras

Faro

quarta-feira, setembro 03, 2008

Depois de um longo período introspectivo, eis que regresso com o meu tema preferido...

Os nossos dias (15)

Estou sim, muito bom dia senhor engenheiro,
faça o favor de dizer

(nada no espírito que valha a pena expressar
a caneta resvala-me da mão enquanto me perco
no infinito. O vazio do papel, um espelho
uma ausência enquanto atendo senhores engenheiros)

claro que sim, senhor engenheiro, sempre que o desejar

(uma carreira fingida que resplandece

numa sociedade aberrante
só para saldar as múltiplas despesas

de uma vida aparentemente burguesa)

adeus, muito boa tarde, senhor engenheiro
faça o favor de ligar sempre que quiser


Miguel Godinho

segunda-feira, julho 07, 2008

Tesão

Consegues saborear o suor da flor do loendro
numa tarde de verão?
É que, sabes, o que me apetecia mesmo
era perder-me no despudor do seu vermelho
e roçar-me até cair na incandescência de suas pétalas

Miguel Godinho

quinta-feira, julho 03, 2008

segunda-feira, junho 30, 2008

Uma gaveta desarrumada

Quando me olhas, sinto-me

uma gaveta desarrumada
é como se os teus olhos fossem
mãos à procura de mim
por entre todas as coisas
sem interesse que fui
colocando no meu interior

Miguel Godinho

Sonar Festival 2008

Estive lá

sexta-feira, junho 27, 2008

Os nossos dias (14)
[A pocilga]

Há madames que cheiram mal
apesar da sua extrema higiene
e senhores com bom ar
mas com nariz de bacorinho
há de tudo neste mar
de badalhocos por onde navego
só de olhar já tenho comichão

Às vezes penso que sou eu que
imagino porcos em todo o lado
mas ainda agora na mesa atrás
ouvi alguém grunhir bem alto
- um café, por favor, que o sol já queima
e a praia não espera

com tanto suíno a querer ser
atendido ao mesmo tempo
mais valia ter tentado outra pocilga

Miguel Godinho

quinta-feira, junho 26, 2008

Os nossos dias (13)
[Ontem transpus a noite]

Ontem transpus a noite com a mente repleta de sonhos
e na penumbra das sombras adormeci
nada nem ninguém capaz de me obstruir as intenções
nunca uma necessidade de salvação tão colossal
lambi um dedo cheio de cores e de vida
e de luz, como quem beija um gelado
e ali me demorei à espera dos vultos enquanto contemplava o infinito
rápidos movimentos sanguíneos num percurso determinado
e o presente-agora comandado pelo desejo e as ideias a vaguearem
por entre as ruas entrelaçadas numa dormência
o riso das pessoas chegou mesmo a coçar-me a cabeça
e seus cabelos adormentaram-me a viagem
vastas porções de transeuntes a esquecerem-se de mim
enquanto lhes gritava ao ouvido palavras de silêncio
na vida tudo passa, tudo morre (assim que nasce), tudo mesmo
as ideias são assim e a noite de ontem também foi
um minuto desde que a galguei com a mente repleta de sonhos
até que me esqueci de vez de mim ao percorrer todos os bailes
cheguei inclusive a olhar-me lá de cima
(a vertigem de nós próprios é uma sobremesa deliciosa)
toda a gente de braços no ar à espera deles mesmos
num carrossel de fantasias a descarrilar toneladas de impressões
(a dopamina subiu bastante o valor por litro
e nem nós nem ninguém nas ruas com um camião encostado em protesto
não há ninguém para defender esta esfera sectorial)
foi assim a minha noite, toda a noite e mais um pouco do outro dia
à espera que os lobos à solta uivassem mais alto que eu
foi assim a minha noite, a caminhar na solidão

Miguel Godinho

terça-feira, junho 24, 2008

Barcelona

Sempre que desta pequeníssima terra saio
uma tesoura de vida dilacera
a fina membrana exterior
enquanto a íris se abre desmesuradamente
na tua presença

a consciência de um caminho inútil por percorrer
ainda e só para me enxergar
na sombra e na intensidade desta ilusão

um raio de nostalgia
no vórtice das memórias de um tempo antigo
distrai-se na alucinação de um futuro melhor

mas

eis que tu aqui uma vez mais
me olhas nos olhos
enquanto carpido por não ser
honesto comigo mesmo

queria apenas dar o passo e voar
para essa terra onde me sinto vivo

Miguel Godinho


segunda-feira, junho 16, 2008

A ilha de Tavira

Uma sagres à beira mar
na ardência da tarde dormente.
Nesta praia as ostras habitam no meio
das pernas e os lagartos movimentam-se
por entre as dunas, em jornadas viris,
dançando nas ondas caniculares,
bamboleando-se por entre os fartos farfalhos
daqueles que pouco se importam
com preconceitos alheios

Aqui pouco mais há para fazer
para além de olharmos o trânsito
e de nos sentirmos longe
contemplando o azul do mar
de tocha na mão

Miguel Godinho

quarta-feira, junho 04, 2008

Os nossos dias (12)
[Nada mais para além da ausência]

Nada mais para além da ausência
vazio solene de histórias em branco
num silêncio outorgante da verdade

uma voz, uma só voz de mistério
na penumbra do imenso chão de pedra
a percorrer a apatia de uma vontade cansada

às vezes penso que me escapei de mim
fiquei preso às cordas de um passado ofegante
num grito de sangue a manchar a memória

rasgo sempre a luz e a sombra retorna
acabo sempre por cair no nada e em mim
nada mais para além da ausência

Miguel Godinho

quarta-feira, maio 28, 2008

Os nossos dias (11)

Uma fatiota de segunda a sexta
e a mentira evidente na ordem dos dias
lembro-me disso quando me deito
de barriga para cima na secretária
e quando cumpro tarefas
em projectos essenciais

(a minuta já está completa, senhor engenheiro
falta apenas o senhor engenheiro assinar)

uma faca nas mãos do tempo
a assassinar a métrica dos dias
tenho ganho muitas rugas nos testículos
por mil euros ao fim do mês
acho que os neurónios já se esqueceram de respirar
pelo menos consigo pagar os créditos
e ser feliz ao fim de semana

Miguel Godinho

sábado, maio 24, 2008

[“O mais profundo é a pele”]

É esta a fina pele que me separa dos outros
uma membrana que transpira
o meu nome inscrito
na efemeridade das circunstâncias

queria fender as palavras e a vida
para senti-la de outra forma
e percorrer a calosidade escondida nessas pesquisas
nessas ideias que me renovam

Miguel Godinho

[Ao Pedro Afonso, a Deleuze e a Foucault]

sexta-feira, maio 23, 2008

O cheiro metálico das axilas

Queria que a madrugada não cessasse de se branquear
enquanto o cheiro a penumbra não me percorresse todos os poros

e que eu sorvesse a nébula matinal de um só turno
consumindo a vida sem consequências

com esse pretexto se acenderiam os olhos para sempre
e se permitiria o olhar sem perturbações

um som misterioso continua a palmilhar a dormência nasal
enquanto me esqueço que existo

no cheiro metálico das axilas a verdade constrói-se
no momento em que se aprende a contemplar a mentira

Miguel Godinho

quarta-feira, maio 21, 2008

O porquê das conversas (2)

Se eu tivesse certezas sobre quem sou

não haveria necessidade na escrita deste novo texto
não precisaria de me vasculhar por entre mais palavras

Se as convicções que me alinham fossem óbvias ao olhar
não arriscaria este texto vezes sem conta - já me lembrei
o porquê desta conversa

Miguel Godinho

terça-feira, maio 20, 2008

O porquê das conversas

Se eu tivesse certezas sobre quem sou

não haveria necessidade na escrita deste texto
não precisaria de me vasculhar por entre as palavras

Se as convicções que me alinham fossem óbvias ao olhar
não riscaria este texto vezes sem conta - já nem sei bem
o porquê desta conversa

Miguel Godinho