Naquela ponte escrevíamos as tardes conduzindo os barcos que lavravam a ria ao cais da memória ao longe uma casa isolada no verde das águas devolvia a brancura da cal e o clamor da luz recortava sempre o silêncio das sombras em frente da casa o estreito desenhado nos canais diluindo no mar o céu e a terra
Miguel Godinho
terça-feira, janeiro 08, 2008
Subtrair a espera à espera
Desesperar (ou subtrair a espera à espera) com o tempo às costas e ruir
assomar-me no beirado da memória e ruir
todas as horas que passaram foram séculos
sempre que me aproximo de ti (em pensamentos) esqueço-me da ruína
reconstruo o tempo
e a seguir a ruína
Miguel Godinho
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Da importância das raízes
Fumarias agora com prazer o pensativo cigarro da memória sentado na cadeira imóvel da casa dos teus avós (esses que nunca chegaste a conhecer) se alguém te tivesse ensinado o caminho para lá se chegar
Assim, em vez de passares a vida a sonhar com uma bela conta bancária talvez pedisses apenas a essa entidade suprema que nos protege a todos do perigo da insanidade para não te esqueceres dos seus nomes
dessa forma talvez deixassem de te doer tanto os neurónios sempre que tentas compreender o sentido da vida
Ainda nem tinha começado e já querias que acabasse
os horizontes de fogo as promessas de conquista do mundo e as viagens a sítio nenhum
todas essas horas em que te arruinavas em pensamentos eram muitas horas
camuflavas os compassos diários e as tarefas por cumprir
a vida
o bolor surgia-te nas goelas e aqueles assombros nocturnos…
ainda nem tinha começado e já querias que acabasse
Miguel Godinho
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Do que se diz
Eles queriam apenas poder dizer “dissestes” e “masturbas o sexo” sem que ninguém lhes chateasse os cornos com teorias da literatura e conjecturas gramaticais
Cá para mim (Que nenhum purista leia isto) a linguagem (ou a língua, whatever) é como um garfo serve para comer e encher a barriga
foda-se
Miguel Godinho
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Da claridade
Sentiste a manhã em tons de cinza antes dos olhos se abrirem e tiveste receio que o acordar fosse demasiado violento.
Neste último sonho da noite uma inscrição: “bem vindo ao cantar das sombras, no silêncio dos dias encontrarás as palavras que te dirão quem és”
Mais uma visão da casa em ruína e a consciência da plenitude na escuridão cerrada dos sonhos – uma calma em que te descobres constantemente perdido, uma busca incessante pelo nome das coisas, pelo teu nome.
A vida pareceu-te de repente uma estrada estreita e a manhã que te desligava da poesia nocturna, uma ponte.
Talvez as respostas viessem só com a claridade talvez as palavras que te diriam quem és não existissem no mundo dos sonhos talvez fossem apenas horas de acordar para mais um dia Miguel Godinho
sexta-feira, dezembro 21, 2007
Ainda os dezanove
Numa química transitória esse teu olhar antigo na minha direcção
como se me sussurrasses despindo-me com palavras surdas ao ouvido trazendo de volta a arte da transgressão dos dezanove.
Reavivas-me a nostalgia da tarde em que me vi lá longe e logo depois tão perto dentro de ti a olhar-te as entranhas, dentro de mim e da minha inocência
não valias nada e ainda assim te recordo em tons violeta numa mancha que o tempo insiste em guardar numa das gavetas da memória
Miguel Godinho
quarta-feira, dezembro 19, 2007
No seguimento da proposta feita pelo Pedro Afonso (na qual me pedia para nomear os meus 6 filmes de eleição), respondida no primeiro post de ontem, esqueci-me de nomear um 7º que de maneira nenhuma poderia ficar de fora. Até porque se falamos da 7ª Arte, talvez não seja má ideia escolher 7 filmes (?). Assim sendo, e utilizando a mesma justificação que já foi referida nesse mesmo post, o meu 7º filme de eleição é:
Trainspotting - de Danny Boyle
terça-feira, dezembro 18, 2007
O cenário
Desbravámos atónitos os dezanove de cigarro na mão a olhar a ria de frente e a sua quietude numa mansidão incendiada por horizontes de fogo. Um barco que passava rasgava sempre um percurso perpétuo nas aquaestradas dos sonhos vespertinos enquanto a vida se sucedia lá fora inquieta e nós aqui alheios a tudo menos ao momento
talvez se colhendo nesses tempos a constância ainda agora pudéssemos lá regressar da mesma forma, com dezanove de novo e ver as marés
Miguel Godinho
Aceitando o desafio do Pedro Afonso, aqui seguem então os meus 6 filmes de eleição. Devo dizer que os referidos encontram-se a par de muitos outros. No entanto, serão estes talvez aqueles que mais fortemente marcaram a minha personalidade. Quem me conhece e já viu os filmes saberá dizer porquê. Nesse sentido, foram parte integrante da minha aprendizagem da vida. Fazem por isso parte da minha maneira de ver hoje as coisas. Lições, portanto. É isso que retiro dos filmes.
Kids – de Larry Clark
Lost in translation – de Sofia Coppola
A Clockwork Orange – de Stanley Kubrik
Pulp Fiction – de Quentin Tarantino
La Haine – de Mathieu Kassovitz
Crash – de David Cronenberg
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Das ausências
Queria apenas que me tivesses deixado explicar-te a carência para que agora não necessitasse desta conversa muda ou da percepção da incapacidade em abordar ainda e sempre este assunto
há palavras que custam tanto a dizer e há assuntos que são tão difíceis de recordar como este que há tanto tempo tento discutir contigo pai
logo logo serei capaz ou talvez nem valha a pena talvez seja melhor levares contigo o meu silêncio eterno afinal foi essa a tua maior lição com os teus silêncios me ensinaste a emudecer
Miguel Godinho
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Tu antes de ti
Enterras-te nas areias movediças num mergulho abrupto
penetras-te e destapas o negrume
o som metálico do nada no fundo do abismo e o escuro da noite
Deixemos a música explicar o que as palavras não sabem
O nosso nome
O nosso nome por debaixo do tronco e da raiz secreta
ele há sempre alguém que também se apaga junto com a árvore
nesse momento quando o som do derrube introduz o silêncio perpétuo não há direito a palavras
a eternidade encarrega-se de as escrever numa outra língua inteligível para nós que por cá vamos ficando à espera da nossa hora Miguel Godinho
terça-feira, dezembro 11, 2007
Do alto dos oitentas
E então subitamente enquanto rachava lenha do alto das suas 82 primaveras a imagem num relance devolvida pelo reflexo da janela da velha carrinha: a inocência adolescente essa que não tarda custaria a lembrar apertada pelo espartilho do tempo como se numa plena visão de consciência o tronco lhe pudesse saltar dos pés e a serra acidentalmente fender-lhe a memória separando-o de vez desses vestígios que já começavam a esgotar-se
A infância é breve, dizia-me enquanto pegava de novo no cepo e se absorvia na tarefa que há praticamente 70 anos cumpre todos os Invernos.
Miguel Godinho [alterado por engano na versão]
segunda-feira, dezembro 10, 2007
A cidade branca
Na cidade branca tudo é mais nítido as formas, as cores, os cheiros, eu em mim, translúcido
nas breves formas da manhã austera rasgada pelo violento endoidecer eu em mim a olhar para mim na cidade branca a enlouquecer em mim foda-se
Miguel Godinho
domingo, dezembro 09, 2007
O fogo
Esperarei sempre por ti no fogo. E lembrar-me-ei sempre da dor que nos marcava. Sabia bem que o teu nome era fácil de pronunciar e que muitas eram as rosas no meu colo. - Por onde andas hoje à noite?
Insisto em vociferar uma vez mais o teu nome na fria noite que se ergue. Se a chuva não cobrisse a vidraça desta forma os meus olhos arderiam nas chamas desta memória.
Miguel Godinho
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Tunning
Nos cruzamentos verbais as palavras dizem-se a alta velocidade