quinta-feira, outubro 03, 2013

xixi, caminha

ora aqui fica
mais um poema do zé joão:
«verdade seja dita, porra.
isto a vida é mesmo assim.
um dia acordamos, criamos um filho,
outro, outro, e depois mais um.
damos por nós cheios de cabelo branco,
a barriga inchou, a coisa já não levanta.
e pronto, a seguir
xixi, caminha.»

terça-feira, outubro 01, 2013

essas gravatas não vos acrescentam valor

um dia serás capaz de borrar o plano traçado, de inverter o rumo da tua vida e dizer que o mundo não deve ser aquilo que tu não queres que o mundo seja, serás capaz de assumir que a brancura e as pessoas brancas não existem, que o conforto em que vives é ilusório, que tu nunca estiveste verdadeiramente confortável, bem sentado ou raio que te parta, porque de sofás desfundados está o teu mundo cheio, de candura, dessa gente bem lavada e asseadinha, gente que gosta muito de espreitar para dentro de si própria e só sentir o cheiro a rosas quando o que lá existe é apenas lixo, e então talvez te sintas na disposição de dizer: pronto, é hoje que vou ser audaz, é hoje que vou ser aquilo que me apetece ser, já chega de submissão, de mentira - e quantas vezes não há mentira por detrás das tuas ilusões, o livro da tua vida não se pode escrever com palavras ininteligíveis e personagens em quem não confias: basta que tu não és mais capaz de viver assim, rodeado de todas essas coisas ocas e pessoas óbvias, tu queres mais é que se dane a perfeição, tu já estás farto dessa gente que só sabe é ver-se ao espelho e besuntar-se de brilhantina e vamos ver se não te levantas um dia azedo e com a coragem suficiente para confrontá-los com a verdade: vocês não valem nada, nem para lavar o chão prestam, essas gravatas não vos acrescentam qualquer valor
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mg 2013

segunda-feira, setembro 30, 2013

uma mãe com ar de casa

uma mãe com ar de casa, um edifício de habitação que lentamente se vai arruinando e tão depressa se transformará em escombros; o que nos conforta é a perfeita consciência de que haverá sempre uma beleza fértil, um legado, uma paisagem afectiva que se produz, nos pormenores, nos pequenos gestos, a atenção que ela nos foi prestando durante anos, a singularidade sentimental da herança que se preocupou em construir, a magia edificante que sempre brotará das suas mãos, da sua alma, dessa coisa que em si produzia amor, o brilho que emana da sua arquitectura emocional; e não há palavras capazes de explicar, tudo em si é representativo daquilo que nos dá, que nos deu, do que ela é, do que ela foi, do que sempre será; e pensamos muito no que aconteceria se de repente um infortúnio qualquer no-la roubasse, sabendo que à medida que vamos crescendo isso virá a acontecer; e porque ela nos faz muita falta, e toda a gente a quer muito, ninguém sabe, ninguém está nunca preparado, ninguém consegue sequer imaginar a sua ausência, como se ela fosse uma espécie de campo magnético, um valor central, um incêndio, as coisas mais antigas de que nos lembramos têm todas a sua marca, ela está lá sempre, o seu sorriso, os seus olhos, a sua luz, e não nos sai da cabeça a hipótese da sua extinção, o simples reconhecimento de que ela findará, de que ela terminará - tudo terminará, quando menos se espera já se acabou
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mg 2013

sexta-feira, setembro 27, 2013

desta vez o raio que os parta

dizia-me hoje o zé joão, mais ou menos assim, na sua última acção de campanha pela abstenção: «o território dos políticos é lixado. ou isso ou as pessoas são estúpidas. de certeza que toda a gente vai repetir a mesma asneira: acreditam em tudo aquilo que lhes prometem, por amor de deus, aceitar o embuste… eu, nem sequer vou lá pôr a cruz e depois quero ver como é. a merda agarrada aos sapatos, isso limpa-se, agora pôr lá um bandalho quatro anos que promete mundos e fundos... eu cá vou votar bem, mas vou votar bem mesmo: vou votar no raio que os parta a todos. esta vai ser a minha forma de continuar a ter forças, de me manter vivo, e são, e capaz de me olhar ao espelho e ver um sentido nisto tudo. acreditem que sim. cada vez mais sou incapaz de aguentar a intrujice, foram desleais para mim, para todos, às vezes até parece que fomos ludibriados por crueldade, ou por prazer. aqueles filhos da puta. todos. precisávamos de tão pouco e tudo deitámos a perder autorizando aqueles pulhas a agarrar o poder. desta vez não me enganam. desta vez, o raio que os parta»
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mg 2013

quinta-feira, setembro 26, 2013

perder o chão dá-nos a certeza

confirmo-te que sim, que continuaremos sempre a fazer coisas absolutamente erradas, coisas que poderão vir a correr mal, até porque se correrem mal é porque nunca poderiam ter corrido bem, podemos sempre julgar que aprendemos com isso, quando na verdade nunca aprendemos nada e voltamos sempre a repetir tudo uma e outra vez: as mesmas asneiras, os disparates de sempre; seremos sempre jovens inconscientes e instáveis, felizes na imprudência e no descuido, e é tão bom precipitarmo-nos de uma escarpa, como se fossemos mesmo a tombar, sentirmos aquele frio na barriga de quase perdermos o chão, porque sentir que se está mesmo a perder o chão dá-nos a certeza de que a sorte não nos pertence, que não somos de modo algum senhores do nosso destino; e tudo faremos para não vivermos só de dias óbvios e calculáveis, teremos filhos teimosos que darão continuidade às nossas vidas de indefinição, e que nos trarão com certeza muitas dores de cabeça, partirão coisas e serão muito rebeldes, porque a rebeldia é sinónimo de liberdade; e seremos felizes na indeterminação, porque de indeterminação é feita a vida, de imprevisibilidade, de encostas abruptas, de dúvidas, do resultado dos descuidos e dos desacertos, se não que interesse teria o mundo se nos joelhos não transportássemos todos os rasgões das nossas quedas
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mg 2013

quarta-feira, setembro 18, 2013

a verdade que nos vendem

sempre tive um prazer enorme em expor o engano que se esconde por trás de uma grande certeza e a verdade é que nunca quis ser um homem de fato e gravata, um desses senhores graves, cansados do trabalho, cheios de soluções para tudo, com uma vontade imensa de mandar no mundo. sempre vi por detrás disso uma frustração, o descontentamento de filhos que toda a vida ansiaram por um pouco de atenção, por um simples «gosto muito de ti», uma mulher que nunca ouviu nem ouvirá um “és tudo para mim”. sempre gostei dos dias de chuva no verão, mas agora, cada vez mais, parece que a única coisa que me interessa é a clandestinidade, insurgir-me perante a verdade que nos querem vender a toda a hora e sonho muito com o dia em que, de espada em riste, feito guerreiro medieval, obrigarei pessoas que não querem saber de ninguém a trabalhar para nós, da mesma forma que agora trabalhamos para eles, porque se há coisas que odeio são conjecturas, a economia dos números, os ajustamentos e as necessidades de requalificação: o que é preciso é flexibilizar-lhes a alma, ensinar-lhes que só o amor e a felicidade é que contam, e que há um caminho alternativo à democracia da subordinação
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mg 2013

terça-feira, setembro 17, 2013

há qualquer coisa

já sabias que mais cedo ou mais tarde haveria de escrever um texto meloso como este; porque constantemente fazes questão de me lembrar que todos os dias devemos empenhar-nos na construção de um mundo só nosso - não de uma casa, não de uma conta bancária, não de uma mentira, mas de um mundo - um mundo inteiro cheio de coisas imensas, cheio de amor, cheio de tudo aquilo que conseguirmos meter lá dentro, cheio de vida; porque daqui a uns anos vamos com certeza ser capazes de nos comover com esta história; porque esta é a história que vamos querer contar aos nossos filhos (e que vamos querer que eles se encarreguem depois de contar às gerações futuras), esta é a história que nos emociona sempre que pensamos na grande probabilidade da mesma se vir a realizar, e nos faz chorar – mesmo quando não há nada para chorar – ao imaginarmos a remota hipótese dela não se vir a concretizar; porque a verdade é que todos os dias devemos ser capazes de chorar por tudo e por nada – saber chorar é uma qualidade, tentarmos ser felizes porque o que importa é sermos felizes – saber ser feliz também dá trabalho – e aceitarmos o que a vida nos dá e desejarmos sempre mais e mais felicidade, agarrarmos a vida pela mão, deixarmo-nos conduzir por ela, não permitimos que nada nos escape: esta é a nossa vida e não há-de haver outra; um dia saberemos reconhecer a importância de tudo isto quando olharmos para trás e nos revirmos: se ainda agora podemos constatar que o amor não encolheu, é porque há qualquer coisa de mágico e de imortal nesta nossa simples pretensão, há qualquer coisa de mágico em nós
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mg 2013

quinta-feira, setembro 12, 2013

os dias lácteos

já foram claros, os dias, lácteos, irreflectidos, já houve um tempo em que era fácil compreender a luminosidade das horas, em que todos os minutos podiam trazer coisas novas. tudo isso naturalmente terminou: a ideia de que nunca as rotinas haveriam de ter lugar, de que nada se extinguiria, que o primeiro amor seria para a vida, mas porque é que o primeiro amor nunca é para a vida, como é que as certezas se tornaram tão frágeis, como é que a realidade passou a reflectir apenas a ausência, a falta de qualquer coisa – há sempre qualquer coisa que falta – onde é que anda agora aquela claridade que em tempos existiu, porque é que agora constantemente sentimos que já não somos os mesmos (quando nós nunca fomos sempre os mesmos), que nós já não somos aquela pessoa (se nós nunca fomos sempre aquela pessoa), como é que o silêncio agora está tão presente, o aflitivo ruído do silêncio, a insuficiência dos afectos, as frases sempre entre-cortadas, as meias-verdades que inundam o vazio dos espaços, a incapacidade em gerir as palavras, como é que se gere as palavras?, a certeza de que tudo tende para um fim, a consciência de que nada regressa ao mesmo lugar, que o amor é um conceito propenso ao desastre, que tudo há-de ser efémero, que a vida é uma transição, e eu sei lá o que é a vida: o que é mesmo a vida?, o que é mesmo a vida que eu cada vez percebo menos e nunca ninguém me chegou realmente a explicar?
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mg 2013

quarta-feira, setembro 04, 2013

está tudo igual

está tudo igual, sabemos perfeitamente que o futuro ainda não começou nem começará brevemente, que o amanhã custará a chegar, aquele dia em que seremos felizes, centralmente felizes, diversamente felizes, imensamente felizes; tudo persiste nestes minutos que passam, o eixo das horas rola justamente sobre nós, em cima de nós - está tudo igual - nada se alterou, tudo nos oprime, esta realidade densa, indisciplinada, a inevitabilidade do mundo, as coisas modernas que só servem para nos iludir, já não há questões fundamentais, tudo é secundário, os procedimentos urbanos, o poder económico a mandar em ti: faz isto, compra isto, olha para isto, desliga-te daquilo, vai para aqui, vai para ali; a desconsideração pela história e pela cultura, a irrelevância – tudo é irrelevante, as verdades que conhecíamos, os nossos – quem são os nossos agora?, tudo partiu ou está para partir: somos voláteis e não dialogamos mais, isso não traz felicidade, isso não dá dinheiro, isso não conta mais, o que importa é descontarmos, darmos o desconto, ignorarmos e sermos ignorantes, ignorarmos e sermos ignorantes
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mg 2013

porque esta história dos óscares do turismo tem mais que se lhe diga

jornal do baixo guadiana | setembro | 2013

segunda-feira, setembro 02, 2013

artigo 53

Quer-me parecer que o artigo 53 da Constituição está sob fogo, esse malandro, é a razão de todos os males. Diz o mesmo que "é garantida aos trabalhadores a segurança no emprego, sendo proibidos os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos". Um corte orçamental tem de facto força suficiente para acabar com a segurança no emprego porque, se não há dinheiro para pagar salários, não pode haver segurança no emprego. Contudo, também pode ser considerado um motivo que advém de uma decisão política porque, enquanto acto político, o corte orçamental é decidido por uma administração – o Governo, mas com base em indicações fornecidas pelos serviços. Como tal, permitindo que os cortes de pessoal na função pública se processem por razões de racionalidade económica, deixa que te vejam como inconveniente numa câmara ou num instituto, deixa; deixa que te vejam como incómodo num departamento, deixa. Se numa empresa tens de alinhar na política da empresa e não há problema de maior, porque a política da empresa é a política do lucro (à partida, ninguém que dê lucro à empresa será dispensado, independentemente da sua cor política, das suas motivações ideológicas; até porque numa empresa saudável, as questões colocadas pelos funcionários são, no mínimo, avaliadas), no Estado, qualquer coisa que não seja a política de quem manda, é uma má política. E uma má política é sempre uma má política. Imaginem-nos a todos bem alinhadinhos nas boas políticas de quem manda: que bom que seria, que bem que funcionaria tudo isto
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mg 2013

quinta-feira, agosto 29, 2013

nunca nada alguma vez

o ideal era um dia sermos capazes de inverter o processo: começarmos primeiro pela memória amarga, percorrermos então o desgosto amoroso, a escoriação, depois, aí sim: apaixonarmo-nos perdidamente, reservarmos aquela luz que nos cegou num primeiro instante para o último momento e de repente virarmos a cara e nem sequer percebermos que nunca nada alguma vez nos aconteceu - nada: desconhecermo-nos absoluta e completamente
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mg 2013

quarta-feira, agosto 28, 2013

um dedo médio

e talvez em descobrindo aquilo que te põe realmente radiante, te devas deixar consumir por isso, deixa que isso te mate, deixa-te morrer assim, bem devagar, devagarinho, e com certeza morrerás mais feliz se esticares um dedo médio bem esticadinho, com a palma da mão encolhida e virada para cima, sempre que sintas que te querem mal, que te desejam mal, que sintas que te estão a menosprezar
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mg 2013

quarta-feira, agosto 21, 2013

o coveiro está à coca

Luiz Pacheco // GEORGE, João Pedro (2011) - "Puta que os pariu! A biografia de Luis Pacheco", Tinta da China, Lisboa.

isto que eu tenho agora

então não há por aí alguém que me explique porque é que a vida nos troca sempre as voltas, é perita em derrubar-nos as convicções, pois que eu nunca me imaginei pai de filhos, uma pessoa com responsabilidades, deveres de gente adulta – e já serei eu adulto? é que parece que cada vez mais a veia paternal toma conta de mim, se apodera das minhas determinações, são tantas as saudades do puto logo depois que dele me separo que a verdade é que há uma franca vontade de lhe dar uma irmã, de me oferecer muitas mais dores de cabeças destas, eu quero é fazer-me velho rodeado disto que tenho agora que é muito bom e está bem assim
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mg 2013

terça-feira, agosto 13, 2013

quinta-feira, agosto 08, 2013

todos gostamos muito

ainda assim, parece-me que serão sempre muitos os interessados em prosseguir com a sua banal vidinha: falando mal de toda a gente desde que se levantam até que se deitam, quando a sua própria vida não é mais do que uma fiel reprodução da vida dos outros, lixar tudo e todos, porque a desgraça alheia é a sua mais sincera razão de satisfação; serão sempre muitos os que continuam a preferir passar horas, dias, anos, vidas inteiras enfiados em gabinetes recônditos, envoltos em papéis e mais papéis, afundados em toneladas de conteúdos irrelevantes, sem nunca terem tempo nem vontade nem disposição para a família, para depois um dia perceberem que nunca foram sequer capazes de olhar os filhos nos olhos ou perceber a razão de estes nunca terem conseguido relacionar-se emocionalmente com eles; e, segundo parece, todos gostamos muito de andar a chorar o estado do mundo sem que nunca tenhamos tentado fazer nada por ele, todos gostamos muito de andar a lamentar a situação em que nos encontramos sem que nunca tenhamos tentado fazer nada por nós
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mg 2013

sexta-feira, agosto 02, 2013

o mundo era aquilo que nós quiséssemos

conseguias deixar-me sempre tão desarmado com as tuas ideias simples sobre a vida que levávamos, sobre os dias que me pareciam tão vazios, dias desertos, dias que se prolongavam interminavelmente, nós sentados, tardes inteiras sentados junto à linha do comboio a olhar a ria e os barcos que de um lado para o outro rasgavam as águas, sentados à espera que o amanhã chegasse, quem disse que o amanhã nunca haveria de chegar, quem disse que esses dias não haveriam de dar lugar a dias diferentes, tu a esclareceres que o mundo era assim porque éramos jovens e estávamos entediados, o mundo não seria sempre assim, o mundo era aquilo que nós quiséssemos que o mundo fosse, haveríamos de descobrir que o mundo se viria a tornar naquilo que nós quisemos, que há sempre uma altura para tudo, cada vez me convenço mais que há uma altura para tudo, que o mundo de facto se torna naquilo que nós desejamos, as escolhas somos nós que as fazemos, a responsabilidade é nossa, ainda que nem sempre tenhamos consciência que a responsabilidade é nossa
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mg 2013

quinta-feira, agosto 01, 2013

as borbulhas dos dezoito

e viver às vezes mais parecia ser uma forma de sobreviver, de aturarmos os dias, de permanecermos à espera que alguma coisa acontecesse, que o tempo transfigurasse o vagar da realidade: era preciso combater a serenidade do mundo, oferecer-lhe resistência, e como adorávamos subverter os minutos, anarquizar as horas, as longas horas de espera, nunca mais acontecia nada, nunca mais era outro dia, queríamos tanto que fosse outro dia, que os dias se sucedessem, mas era tudo tão lento, era tudo tão demorado, e para onde foi essa morosidade?, para onde?, tudo isso parece agora tão distante apesar de se conservar tão presente, os dezoito, aquela tranquilidade em colisão com as nossas revoltas interiores: aquilo foi uma idade tão lixada, as borbulhas dos dezoito, os tumultos adolescentes, as primeiras desilusões de amor, as enormes decepções de amor, as cicatrizes que ainda são visíveis, a descoberta da perversidade das pessoas, a necessidade de invenção de uma personalidade adulta, a ausência de instrumentos adequados para lidar com o mundo, e eis que aqui me encontro agora, mas onde é que eu estou agora? onde é que eu estou agora?
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mg 2013

quarta-feira, julho 31, 2013

a inocência a regressar

a inocência perdemo-la quando o rigor do mundo nos explode na cara, aos dezanove, no dia em que o nosso primeiro grande amor nos transmite a mais dura das verdades: «já não te amo», quando alguém próximo nos parte e ficamos desamparados sabendo que nunca mais seremos os mesmos sem a presença dessa pessoa, quando percebemos que o mundo é hipócrita, que as pessoas são feitas de duplicidades e dissimulações e nós nunca teremos a capacidade, as ferramentas para lidar com isso, quando nos apercebemos da vertigem da vida na constatação de que a partir desse momento passaremos a olhá-la ao contrário, procurando percorrê-la em percurso inverso, em contraciclo, tentando aproveitar todos os instantes porque mais ou cedo mais tarde tudo acaba, todos partem, tudo morre, não fica cá ninguém, e eis que então nos nasce o primeiro filho e tudo se altera, tudo volta a fazer sentido, renascemos nesse dia, o puto que nos irá chamar «papá», as lágrimas nos olhos porque essa palavra te atinge com uma brutalidade transcendente na cara, uma palavra que canta, a totalidade dessa palavra, a responsabilidade melodiosa que ela te transmite, «papá: anda», e tu andas, «papá: dá», e tu dás, «papá: dança», e tu danças, e parece que refloresces, e percebes o caminho que tens de percorrer, o sentido das coisas, a inocência a regressar - transformada - mas a inocência a regressar
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mg 2013