segunda-feira, setembro 02, 2013

artigo 53

Quer-me parecer que o artigo 53 da Constituição está sob fogo, esse malandro, é a razão de todos os males. Diz o mesmo que "é garantida aos trabalhadores a segurança no emprego, sendo proibidos os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos". Um corte orçamental tem de facto força suficiente para acabar com a segurança no emprego porque, se não há dinheiro para pagar salários, não pode haver segurança no emprego. Contudo, também pode ser considerado um motivo que advém de uma decisão política porque, enquanto acto político, o corte orçamental é decidido por uma administração – o Governo, mas com base em indicações fornecidas pelos serviços. Como tal, permitindo que os cortes de pessoal na função pública se processem por razões de racionalidade económica, deixa que te vejam como inconveniente numa câmara ou num instituto, deixa; deixa que te vejam como incómodo num departamento, deixa. Se numa empresa tens de alinhar na política da empresa e não há problema de maior, porque a política da empresa é a política do lucro (à partida, ninguém que dê lucro à empresa será dispensado, independentemente da sua cor política, das suas motivações ideológicas; até porque numa empresa saudável, as questões colocadas pelos funcionários são, no mínimo, avaliadas), no Estado, qualquer coisa que não seja a política de quem manda, é uma má política. E uma má política é sempre uma má política. Imaginem-nos a todos bem alinhadinhos nas boas políticas de quem manda: que bom que seria, que bem que funcionaria tudo isto
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mg 2013

quinta-feira, agosto 29, 2013

nunca nada alguma vez

o ideal era um dia sermos capazes de inverter o processo: começarmos primeiro pela memória amarga, percorrermos então o desgosto amoroso, a escoriação, depois, aí sim: apaixonarmo-nos perdidamente, reservarmos aquela luz que nos cegou num primeiro instante para o último momento e de repente virarmos a cara e nem sequer percebermos que nunca nada alguma vez nos aconteceu - nada: desconhecermo-nos absoluta e completamente
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mg 2013

quarta-feira, agosto 28, 2013

um dedo médio

e talvez em descobrindo aquilo que te põe realmente radiante, te devas deixar consumir por isso, deixa que isso te mate, deixa-te morrer assim, bem devagar, devagarinho, e com certeza morrerás mais feliz se esticares um dedo médio bem esticadinho, com a palma da mão encolhida e virada para cima, sempre que sintas que te querem mal, que te desejam mal, que sintas que te estão a menosprezar
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mg 2013

quarta-feira, agosto 21, 2013

o coveiro está à coca

Luiz Pacheco // GEORGE, João Pedro (2011) - "Puta que os pariu! A biografia de Luis Pacheco", Tinta da China, Lisboa.

isto que eu tenho agora

então não há por aí alguém que me explique porque é que a vida nos troca sempre as voltas, é perita em derrubar-nos as convicções, pois que eu nunca me imaginei pai de filhos, uma pessoa com responsabilidades, deveres de gente adulta – e já serei eu adulto? é que parece que cada vez mais a veia paternal toma conta de mim, se apodera das minhas determinações, são tantas as saudades do puto logo depois que dele me separo que a verdade é que há uma franca vontade de lhe dar uma irmã, de me oferecer muitas mais dores de cabeças destas, eu quero é fazer-me velho rodeado disto que tenho agora que é muito bom e está bem assim
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mg 2013

terça-feira, agosto 13, 2013

quinta-feira, agosto 08, 2013

todos gostamos muito

ainda assim, parece-me que serão sempre muitos os interessados em prosseguir com a sua banal vidinha: falando mal de toda a gente desde que se levantam até que se deitam, quando a sua própria vida não é mais do que uma fiel reprodução da vida dos outros, lixar tudo e todos, porque a desgraça alheia é a sua mais sincera razão de satisfação; serão sempre muitos os que continuam a preferir passar horas, dias, anos, vidas inteiras enfiados em gabinetes recônditos, envoltos em papéis e mais papéis, afundados em toneladas de conteúdos irrelevantes, sem nunca terem tempo nem vontade nem disposição para a família, para depois um dia perceberem que nunca foram sequer capazes de olhar os filhos nos olhos ou perceber a razão de estes nunca terem conseguido relacionar-se emocionalmente com eles; e, segundo parece, todos gostamos muito de andar a chorar o estado do mundo sem que nunca tenhamos tentado fazer nada por ele, todos gostamos muito de andar a lamentar a situação em que nos encontramos sem que nunca tenhamos tentado fazer nada por nós
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mg 2013

sexta-feira, agosto 02, 2013

o mundo era aquilo que nós quiséssemos

conseguias deixar-me sempre tão desarmado com as tuas ideias simples sobre a vida que levávamos, sobre os dias que me pareciam tão vazios, dias desertos, dias que se prolongavam interminavelmente, nós sentados, tardes inteiras sentados junto à linha do comboio a olhar a ria e os barcos que de um lado para o outro rasgavam as águas, sentados à espera que o amanhã chegasse, quem disse que o amanhã nunca haveria de chegar, quem disse que esses dias não haveriam de dar lugar a dias diferentes, tu a esclareceres que o mundo era assim porque éramos jovens e estávamos entediados, o mundo não seria sempre assim, o mundo era aquilo que nós quiséssemos que o mundo fosse, haveríamos de descobrir que o mundo se viria a tornar naquilo que nós quisemos, que há sempre uma altura para tudo, cada vez me convenço mais que há uma altura para tudo, que o mundo de facto se torna naquilo que nós desejamos, as escolhas somos nós que as fazemos, a responsabilidade é nossa, ainda que nem sempre tenhamos consciência que a responsabilidade é nossa
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mg 2013

quinta-feira, agosto 01, 2013

as borbulhas dos dezoito

e viver às vezes mais parecia ser uma forma de sobreviver, de aturarmos os dias, de permanecermos à espera que alguma coisa acontecesse, que o tempo transfigurasse o vagar da realidade: era preciso combater a serenidade do mundo, oferecer-lhe resistência, e como adorávamos subverter os minutos, anarquizar as horas, as longas horas de espera, nunca mais acontecia nada, nunca mais era outro dia, queríamos tanto que fosse outro dia, que os dias se sucedessem, mas era tudo tão lento, era tudo tão demorado, e para onde foi essa morosidade?, para onde?, tudo isso parece agora tão distante apesar de se conservar tão presente, os dezoito, aquela tranquilidade em colisão com as nossas revoltas interiores: aquilo foi uma idade tão lixada, as borbulhas dos dezoito, os tumultos adolescentes, as primeiras desilusões de amor, as enormes decepções de amor, as cicatrizes que ainda são visíveis, a descoberta da perversidade das pessoas, a necessidade de invenção de uma personalidade adulta, a ausência de instrumentos adequados para lidar com o mundo, e eis que aqui me encontro agora, mas onde é que eu estou agora? onde é que eu estou agora?
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mg 2013

quarta-feira, julho 31, 2013

a inocência a regressar

a inocência perdemo-la quando o rigor do mundo nos explode na cara, aos dezanove, no dia em que o nosso primeiro grande amor nos transmite a mais dura das verdades: «já não te amo», quando alguém próximo nos parte e ficamos desamparados sabendo que nunca mais seremos os mesmos sem a presença dessa pessoa, quando percebemos que o mundo é hipócrita, que as pessoas são feitas de duplicidades e dissimulações e nós nunca teremos a capacidade, as ferramentas para lidar com isso, quando nos apercebemos da vertigem da vida na constatação de que a partir desse momento passaremos a olhá-la ao contrário, procurando percorrê-la em percurso inverso, em contraciclo, tentando aproveitar todos os instantes porque mais ou cedo mais tarde tudo acaba, todos partem, tudo morre, não fica cá ninguém, e eis que então nos nasce o primeiro filho e tudo se altera, tudo volta a fazer sentido, renascemos nesse dia, o puto que nos irá chamar «papá», as lágrimas nos olhos porque essa palavra te atinge com uma brutalidade transcendente na cara, uma palavra que canta, a totalidade dessa palavra, a responsabilidade melodiosa que ela te transmite, «papá: anda», e tu andas, «papá: dá», e tu dás, «papá: dança», e tu danças, e parece que refloresces, e percebes o caminho que tens de percorrer, o sentido das coisas, a inocência a regressar - transformada - mas a inocência a regressar
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mg 2013

aquilo que conta está cá dentro

dizia-me ontem o zé joão, mais ou menos assim (e faço minhas as suas palavras): «e vêm-me agora falar de pessoas boas: essas boas pessoas, importantes, de boas famílias, que agora gostam de brincar aos pobrezinhos, ninguém nasce boa pessoa só por ser uma pessoa «bem nascida», essas pessoas que se julgam e julgam os outros pelo estatuto que julgam ter, o que apetece dizer é que queremos mais é que o estatuto se lixe, puta que os pariu mais a merda dos estatutos e aquela conversa do social e das boas famílias, das kikis e das tétés, sempre me fez espécie essa história das boas famílias, eu conheço bem a merda das boas famílias, e cheira tão mal ou pior do que a das outras, eu conheço bem os estatutos e o que aguenta quem não tem direito a ter estatuto, eu nasci à margem dos estatutos, eu nasci desestatutado mas de cabeça erguida, e continuo a pagar a merda dos estatutos dos outros, a merda dos estatutos dos outros, aquilo que conta está cá dentro, e eles, muitas vezes não têm nada lá dentro para além das notas»
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mg 2013

segunda-feira, julho 29, 2013

tu vales muito

às vezes parece-te que as pessoas são feitas de pedra, que são compactas, feitas de uma rocha sólida, de uma substância densa, que nelas se pode confiar, mas vais a ver e as pessoas tantas vezes são feitas de vento ou de água, de vapor, as pessoas são compostas de substâncias instáveis que facilmente se alteram, que facilmente se modificam, as pessoas tantas vezes se esfumam sempre que pensamos que nelas nos podemos apoiar, as pessoas arredondam-se, são esquivas, as pessoas furtam-se, se não diz-me quantas vezes te sentiste ludibriado, enganado, quantas vezes experimentaste a desilusão na tentativa de perceber as pessoas? de que falamos quando falamos de pessoas? de tanta coisa, mas muitas vezes de volatilidade, de jactância, de intoxicação: cuidado com certas pessoas, elas estão à tua volta, tu sabe-lo, tu sente-lo, às vezes é por demais evidente mas o coração não permite compreender o que os olhos há muito vêem, bem sei que tantas vezes custa a admitir, até porque tantas vezes nem a ti te conheces – tu tantas vezes nem sabes quem és, quem és?, por onde andas? tens-te questionado ultimamente? - e embora te custe a admitir, também tu sabes que facilmente te podes transformar numa outra pessoa, também tu sabes que se quiseres te podes subtrair: a verdade é que há pessoas que valem zero, há pessoas que valem zero, mas tu vales muito, nunca te esqueças que tu vales muito
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mg 2013

quarta-feira, julho 24, 2013

temos dezoito para sempre

nós só queríamos que tudo acontecesse rapidamente, queríamos viver no limite, queríamos ver o limite, gostávamos de transpor o limite, a fronteira de nós próprios, debruçarmo-nos sobre nós próprios, e era grande a vertigem, tantas vezes nos trespassámos na tontura do existir, a vida desenrolava-se na expectativa de nos deixarmos cair em tudo menos na rotina, tentávamos espezinhar a rotina, triturar os dias, e havia uma vontade louca de viver, acima de tudo viver, nutrirmo-nos de vida, alimentarmo-nos de amor, acima de tudo amor, nunca nos cansámos de oferecer amor, e é por isso que ainda hoje esses dias fazem tanto sentido, essa adolescência opulenta, essa adolescência preenchida de tanta coisa, essa adolescência repleta de tudo, esses amigos que tantos disparates fizeram, que tanto tudo fizeram, esses amigos que apesar de distantes, continuam muito amigos, porque a loucura não acabou, sempre que nos encontramos tudo regressa, e temos dezoito outra vez, e temos dezoito para sempre, temos dezoito para sempre
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mg 2013

terça-feira, julho 23, 2013

o tempo por entre as fendas

os dias já foram tão grandes, as horas que não passavam, o vagar do mundo, tudo a demorar-se eternamente, o tempo que se deixava ficar, pachorrento, o tempo deitado sobre nós, o tempo que não escorria, os meses que gotejavam, era tudo tão arrastado, nós a rastejarmos pelos sítios à espera que a vida se acelerasse, que tudo pudesse acontecer mais rapidamente, nós e o tédio sempre de mãos dadas, e agora é a velocidade que parece estar constantemente a galgar os interstícios das horas, por entre as fendas, as coisas sempre a lembrarem que «estamos a ficar velhos», estamos pois, ainda ontem tivemos dezoito anos e estávamos enfastiados, agora parece que não há tempo para nada, para onde foi o tempo?, agora já não há horas vagas, só segundos ou minutos, o dia começa e não tarda já acabou, os meses sucedem-se à velocidade da luz, o tempo agora é supersónico, e é verdade: estamos a ficar velhos, caraças, temos filhos, temos contas para pagar, temos preocupações e vemos a vida a passar-nos à frente com uma corda atada ao nosso pescoço, a vida a correr connosco, a gritar-nos ao ouvido: despacha-te a viver, anda daí, despacha-te a viver que não tarda já viveste tudo aquilo a que tinhas direito, não tarda já viveste tudo aquilo a que tinhas direito
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mg 2013

terça-feira, julho 16, 2013

o que me vale, o que me vale és tu


talvez até seja fácil, tu bem tentas fazer-me crer que é simples suprimir as evidências, aquilo que temos diante dos olhos, o mundo de todos os dias, tu bem tentas dizer-me descansa que isso passa, relaxa que isso passa, descontrai-te, tranquiliza-te que isso tudo se esvai, o mundo não tarda será outro, mas a verdade é que  não passa, tudo se intensifica, nada se altera, caraças, nada se altera, é tudo igual os dias todos, é tudo o mesmo, é sempre mais do mesmo, o mundo cão, as pessoas cão, tudo cão, o que me vale és tu a fazer-me crer que é simples suprimir as evidências, aquilo que temos diante dos olhos, o mundo de todos os dias , tu bem tentas dizer-me descansa que isso passa, relaxa que isso passa, descontrai-te, tranquiliza-te que isso tudo se esvai, o mundo não tarda será outro, mas a verdade é que  não passa, tudo se intensifica, nada se altera, caraças, nada se altera, é tudo igual os dias todos, é tudo o mesmo, é sempre mais do mesmo, o mundo cão, as pessoas cão, tudo cão, o que me vale és tu, o que me vale és tu
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MG 2013

sábado, junho 22, 2013

que nunca hás-de

sabes bem que o mundo não acaba sem que tu acabes, que o mundo de hoje está bem diferente daquilo que era o mundo quando o sentiste pela primeira vez - lembras-te de como era o mundo quando o sentiste pela primeira vez? - sabes bem que nunca hás-de saber nada bem, que tudo muda, o mundo muda sem que dês por isso, o mundo muda sem que te apercebas que o mundo muda, o mundo fica diferente, tudo está diferente, até tu estás diferente, até tu estás diferente
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MG 2013

quarta-feira, junho 19, 2013

quando um fogo em ti começar a arder

quando um fogo em ti começar a arder, e a alastrar, e sentires que a claridade se começa a espalhar, deixa que a combustão se propague, que essa postura se expanda, deixa que fulgure, que resplandeça, que alastre, que se faça luz, há luz em ti, não sentes?, deixa que ela brote, deixa que o teu íntimo se derrame pelo espaço, o que de mais privado existe em ti, deixa, consente que essa luz se dissemine, abdica de tudo o que é mais pessoal, oferece o que de mais denso existe em ti, concede, faz-te público, oferece-te a nós, é isso que te torna grande, essa capacidade, é isso que faz de ti um criador, é isso que queremos que nos ofereças, o teu momento, é essa a tua oportunidade, a tua primeira e última, o teu momento, é agora, aproveita esse momento que pode não haver outro, essa tua luz, há luz em ti, não sentes?
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MG 2013

em querermos podemos

no brasil sai-se agora à rua para pedir pouco, e nós também pedimos pouco – o que pedimos nós? – justiça social, consideração pelas pessoas, pela classe trabalhadora, e dignidade, qualidade de vida, saúde para todos, menos corrupção, menos corrupção, caraças, uma distribuição mais equitativa de tudo o que é essencial – o que é que é essencial? – há tanta coisa que é essencial, uma redemocratização, que se fale verdade, que quem nos conduz seja frontal, que não nos enganem, que não nos enganem, queremos gente capaz, nós somos jovens e exigimos tudo aquilo que nos prometeram e não cumpriram, e são tantos, há tantos anos, os que nos prometeram e não cumpriram, queremos o nosso dinheiro gasto de forma coerente e racional, não queremos cortes cegos e depois ver o dinheiro que não gastam connosco ser gasto em show-off, um país para inglês ver, e não queremos só por querer, queremos porque achamos que temos direito, que temos direitos, e temos deveres, temos muitos deveres e agora, o nosso dever principal é este: falarmos, exigirmos, exigirmo-nos, querermos, e em querermos podemos, em querermos podemos
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MG 2013

terça-feira, junho 18, 2013

se te instala o caos

parece-me que as coisas se começam a tornar cada vez mais claras: se ao menos sentíssemos que nos ouviam – ninguém nos ouve realmente – que escutavam as nossas preocupações –  quais são as nossas preocupações? – que se importavam com aquilo que estamos a sentir agora – o que é que estamos a sentir agora? – que pudessem levar em conta as nossas inquietações; se ao menos se apercebessem do nosso desconforto, da desilusão, do desencanto, da frustração, da relevância das nossas ideias, actualmente pousadas apenas num simples desejo de autonomia e de liberdade, de necessidade de um mundo melhor, de mais humanidade – as pessoas precisam de mais humanidade, de se libertar das ofensivas dos telejornais, da brutalidade urbana, deste mundo assente na violência visual, as pessoas precisam de se sentirem livres – sentes-te livre? – não precisam de jogos políticos, da disputa desenfreada pelo poder, as pessoas abominam estas democracias de algibeira, estes democratas, a hipocrisia de quem nos conduz – quem é que nos conduz realmente? – de se desenvencilhar destes senhores cheios de orientações económicas e liberais; nunca te esqueças que a palavra é uma arma, a tua palavra é uma arma, a tua prosa, a tua poesia, a tua capacidade de pensar, de fazer frente com o intelecto, mostra-lhes isso, mostra-te isso, enche-te disso, dessa fúria, desse desejo que as coisas mudem, ostenta a teu insatisfação, mostra que não há forma de te imporem nada, que não há barreiras, não há, ninguém te segura, porque tu és livre e tão depressa estás calmo e passivo como a seguir se te instala o caos, tão depressa estás calmo e passivo como a seguir se instala o caos
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MG 2013

sexta-feira, junho 14, 2013

nós desenhámos a tragédia

isto tudo só faz sentido – isto não faz sentido nenhum – quando nos lembramos que o mundo foi inventado por nós e para nós, o mundo foi inventado por nós e para nós, para sermos felizes, para que a vertigem acontecesse no exacto momento em que nos apercebêssemos disto que aqui se diz: que nunca estamos sozinhos, nós nunca estamos sozinhos – não estaremos sempre sozinhos? – e que entretanto continuamos todos aqui, os de agora e os que já partiram, para que quando nos sentíssemos empurrados pelo vento – às vezes sentimo-nos empurrados por todos, pelo vento, essa poderosa metáfora que nos posiciona no mundo, que nos faz perceber que nós próprios é que somos efémeros, e inventássemos outros nomes para as coisas, forjássemos memórias na expectativa de que tudo isto fosse remediável. mas isto não é remediável, a saudade consome-nos sempre, o tempo nunca volta para trás, os dias prescrevem – os dias nunca prescrevem, as noites nunca acabam - as noitesnunca acabavam sem que celebrássemos tudo quanto houvesse para celebrar. e havia muito para celebrar - celebremos, celebremos outra vez, abriguemo-nos no amor, naquela loucura antiga. porra, como tenho saudades daquela loucura antiga, dos dezoito, da irresponsabilidade, da ponte da sé que levava a sítio nenhum levando-nos a todo o lado, saudades da ria que estava sempre ali à mão numa espécie de cumplicidade, uma miragem, nós todas as noites deitados lado a lado, de cabeça para cima, para o céu, a ver as estrelas a parirem sonhos enquanto tudo isso já foi e já nada nos pertence, a nossa vida agora é um museu, a nossa vida é o que é, nós desenhámos a tragédia de nos tornarmos adultos, nós desenhámos a tragédia de nos tornarmos adultos
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MG 2013