quinta-feira, agosto 01, 2013

as borbulhas dos dezoito

e viver às vezes mais parecia ser uma forma de sobreviver, de aturarmos os dias, de permanecermos à espera que alguma coisa acontecesse, que o tempo transfigurasse o vagar da realidade: era preciso combater a serenidade do mundo, oferecer-lhe resistência, e como adorávamos subverter os minutos, anarquizar as horas, as longas horas de espera, nunca mais acontecia nada, nunca mais era outro dia, queríamos tanto que fosse outro dia, que os dias se sucedessem, mas era tudo tão lento, era tudo tão demorado, e para onde foi essa morosidade?, para onde?, tudo isso parece agora tão distante apesar de se conservar tão presente, os dezoito, aquela tranquilidade em colisão com as nossas revoltas interiores: aquilo foi uma idade tão lixada, as borbulhas dos dezoito, os tumultos adolescentes, as primeiras desilusões de amor, as enormes decepções de amor, as cicatrizes que ainda são visíveis, a descoberta da perversidade das pessoas, a necessidade de invenção de uma personalidade adulta, a ausência de instrumentos adequados para lidar com o mundo, e eis que aqui me encontro agora, mas onde é que eu estou agora? onde é que eu estou agora?
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mg 2013

quarta-feira, julho 31, 2013

a inocência a regressar

a inocência perdemo-la quando o rigor do mundo nos explode na cara, aos dezanove, no dia em que o nosso primeiro grande amor nos transmite a mais dura das verdades: «já não te amo», quando alguém próximo nos parte e ficamos desamparados sabendo que nunca mais seremos os mesmos sem a presença dessa pessoa, quando percebemos que o mundo é hipócrita, que as pessoas são feitas de duplicidades e dissimulações e nós nunca teremos a capacidade, as ferramentas para lidar com isso, quando nos apercebemos da vertigem da vida na constatação de que a partir desse momento passaremos a olhá-la ao contrário, procurando percorrê-la em percurso inverso, em contraciclo, tentando aproveitar todos os instantes porque mais ou cedo mais tarde tudo acaba, todos partem, tudo morre, não fica cá ninguém, e eis que então nos nasce o primeiro filho e tudo se altera, tudo volta a fazer sentido, renascemos nesse dia, o puto que nos irá chamar «papá», as lágrimas nos olhos porque essa palavra te atinge com uma brutalidade transcendente na cara, uma palavra que canta, a totalidade dessa palavra, a responsabilidade melodiosa que ela te transmite, «papá: anda», e tu andas, «papá: dá», e tu dás, «papá: dança», e tu danças, e parece que refloresces, e percebes o caminho que tens de percorrer, o sentido das coisas, a inocência a regressar - transformada - mas a inocência a regressar
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mg 2013

aquilo que conta está cá dentro

dizia-me ontem o zé joão, mais ou menos assim (e faço minhas as suas palavras): «e vêm-me agora falar de pessoas boas: essas boas pessoas, importantes, de boas famílias, que agora gostam de brincar aos pobrezinhos, ninguém nasce boa pessoa só por ser uma pessoa «bem nascida», essas pessoas que se julgam e julgam os outros pelo estatuto que julgam ter, o que apetece dizer é que queremos mais é que o estatuto se lixe, puta que os pariu mais a merda dos estatutos e aquela conversa do social e das boas famílias, das kikis e das tétés, sempre me fez espécie essa história das boas famílias, eu conheço bem a merda das boas famílias, e cheira tão mal ou pior do que a das outras, eu conheço bem os estatutos e o que aguenta quem não tem direito a ter estatuto, eu nasci à margem dos estatutos, eu nasci desestatutado mas de cabeça erguida, e continuo a pagar a merda dos estatutos dos outros, a merda dos estatutos dos outros, aquilo que conta está cá dentro, e eles, muitas vezes não têm nada lá dentro para além das notas»
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mg 2013

segunda-feira, julho 29, 2013

tu vales muito

às vezes parece-te que as pessoas são feitas de pedra, que são compactas, feitas de uma rocha sólida, de uma substância densa, que nelas se pode confiar, mas vais a ver e as pessoas tantas vezes são feitas de vento ou de água, de vapor, as pessoas são compostas de substâncias instáveis que facilmente se alteram, que facilmente se modificam, as pessoas tantas vezes se esfumam sempre que pensamos que nelas nos podemos apoiar, as pessoas arredondam-se, são esquivas, as pessoas furtam-se, se não diz-me quantas vezes te sentiste ludibriado, enganado, quantas vezes experimentaste a desilusão na tentativa de perceber as pessoas? de que falamos quando falamos de pessoas? de tanta coisa, mas muitas vezes de volatilidade, de jactância, de intoxicação: cuidado com certas pessoas, elas estão à tua volta, tu sabe-lo, tu sente-lo, às vezes é por demais evidente mas o coração não permite compreender o que os olhos há muito vêem, bem sei que tantas vezes custa a admitir, até porque tantas vezes nem a ti te conheces – tu tantas vezes nem sabes quem és, quem és?, por onde andas? tens-te questionado ultimamente? - e embora te custe a admitir, também tu sabes que facilmente te podes transformar numa outra pessoa, também tu sabes que se quiseres te podes subtrair: a verdade é que há pessoas que valem zero, há pessoas que valem zero, mas tu vales muito, nunca te esqueças que tu vales muito
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mg 2013

quarta-feira, julho 24, 2013

temos dezoito para sempre

nós só queríamos que tudo acontecesse rapidamente, queríamos viver no limite, queríamos ver o limite, gostávamos de transpor o limite, a fronteira de nós próprios, debruçarmo-nos sobre nós próprios, e era grande a vertigem, tantas vezes nos trespassámos na tontura do existir, a vida desenrolava-se na expectativa de nos deixarmos cair em tudo menos na rotina, tentávamos espezinhar a rotina, triturar os dias, e havia uma vontade louca de viver, acima de tudo viver, nutrirmo-nos de vida, alimentarmo-nos de amor, acima de tudo amor, nunca nos cansámos de oferecer amor, e é por isso que ainda hoje esses dias fazem tanto sentido, essa adolescência opulenta, essa adolescência preenchida de tanta coisa, essa adolescência repleta de tudo, esses amigos que tantos disparates fizeram, que tanto tudo fizeram, esses amigos que apesar de distantes, continuam muito amigos, porque a loucura não acabou, sempre que nos encontramos tudo regressa, e temos dezoito outra vez, e temos dezoito para sempre, temos dezoito para sempre
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mg 2013

terça-feira, julho 23, 2013

o tempo por entre as fendas

os dias já foram tão grandes, as horas que não passavam, o vagar do mundo, tudo a demorar-se eternamente, o tempo que se deixava ficar, pachorrento, o tempo deitado sobre nós, o tempo que não escorria, os meses que gotejavam, era tudo tão arrastado, nós a rastejarmos pelos sítios à espera que a vida se acelerasse, que tudo pudesse acontecer mais rapidamente, nós e o tédio sempre de mãos dadas, e agora é a velocidade que parece estar constantemente a galgar os interstícios das horas, por entre as fendas, as coisas sempre a lembrarem que «estamos a ficar velhos», estamos pois, ainda ontem tivemos dezoito anos e estávamos enfastiados, agora parece que não há tempo para nada, para onde foi o tempo?, agora já não há horas vagas, só segundos ou minutos, o dia começa e não tarda já acabou, os meses sucedem-se à velocidade da luz, o tempo agora é supersónico, e é verdade: estamos a ficar velhos, caraças, temos filhos, temos contas para pagar, temos preocupações e vemos a vida a passar-nos à frente com uma corda atada ao nosso pescoço, a vida a correr connosco, a gritar-nos ao ouvido: despacha-te a viver, anda daí, despacha-te a viver que não tarda já viveste tudo aquilo a que tinhas direito, não tarda já viveste tudo aquilo a que tinhas direito
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mg 2013

terça-feira, julho 16, 2013

o que me vale, o que me vale és tu


talvez até seja fácil, tu bem tentas fazer-me crer que é simples suprimir as evidências, aquilo que temos diante dos olhos, o mundo de todos os dias, tu bem tentas dizer-me descansa que isso passa, relaxa que isso passa, descontrai-te, tranquiliza-te que isso tudo se esvai, o mundo não tarda será outro, mas a verdade é que  não passa, tudo se intensifica, nada se altera, caraças, nada se altera, é tudo igual os dias todos, é tudo o mesmo, é sempre mais do mesmo, o mundo cão, as pessoas cão, tudo cão, o que me vale és tu a fazer-me crer que é simples suprimir as evidências, aquilo que temos diante dos olhos, o mundo de todos os dias , tu bem tentas dizer-me descansa que isso passa, relaxa que isso passa, descontrai-te, tranquiliza-te que isso tudo se esvai, o mundo não tarda será outro, mas a verdade é que  não passa, tudo se intensifica, nada se altera, caraças, nada se altera, é tudo igual os dias todos, é tudo o mesmo, é sempre mais do mesmo, o mundo cão, as pessoas cão, tudo cão, o que me vale és tu, o que me vale és tu
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MG 2013

sábado, junho 22, 2013

que nunca hás-de

sabes bem que o mundo não acaba sem que tu acabes, que o mundo de hoje está bem diferente daquilo que era o mundo quando o sentiste pela primeira vez - lembras-te de como era o mundo quando o sentiste pela primeira vez? - sabes bem que nunca hás-de saber nada bem, que tudo muda, o mundo muda sem que dês por isso, o mundo muda sem que te apercebas que o mundo muda, o mundo fica diferente, tudo está diferente, até tu estás diferente, até tu estás diferente
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MG 2013

quarta-feira, junho 19, 2013

quando um fogo em ti começar a arder

quando um fogo em ti começar a arder, e a alastrar, e sentires que a claridade se começa a espalhar, deixa que a combustão se propague, que essa postura se expanda, deixa que fulgure, que resplandeça, que alastre, que se faça luz, há luz em ti, não sentes?, deixa que ela brote, deixa que o teu íntimo se derrame pelo espaço, o que de mais privado existe em ti, deixa, consente que essa luz se dissemine, abdica de tudo o que é mais pessoal, oferece o que de mais denso existe em ti, concede, faz-te público, oferece-te a nós, é isso que te torna grande, essa capacidade, é isso que faz de ti um criador, é isso que queremos que nos ofereças, o teu momento, é essa a tua oportunidade, a tua primeira e última, o teu momento, é agora, aproveita esse momento que pode não haver outro, essa tua luz, há luz em ti, não sentes?
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MG 2013

em querermos podemos

no brasil sai-se agora à rua para pedir pouco, e nós também pedimos pouco – o que pedimos nós? – justiça social, consideração pelas pessoas, pela classe trabalhadora, e dignidade, qualidade de vida, saúde para todos, menos corrupção, menos corrupção, caraças, uma distribuição mais equitativa de tudo o que é essencial – o que é que é essencial? – há tanta coisa que é essencial, uma redemocratização, que se fale verdade, que quem nos conduz seja frontal, que não nos enganem, que não nos enganem, queremos gente capaz, nós somos jovens e exigimos tudo aquilo que nos prometeram e não cumpriram, e são tantos, há tantos anos, os que nos prometeram e não cumpriram, queremos o nosso dinheiro gasto de forma coerente e racional, não queremos cortes cegos e depois ver o dinheiro que não gastam connosco ser gasto em show-off, um país para inglês ver, e não queremos só por querer, queremos porque achamos que temos direito, que temos direitos, e temos deveres, temos muitos deveres e agora, o nosso dever principal é este: falarmos, exigirmos, exigirmo-nos, querermos, e em querermos podemos, em querermos podemos
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MG 2013

terça-feira, junho 18, 2013

se te instala o caos

parece-me que as coisas se começam a tornar cada vez mais claras: se ao menos sentíssemos que nos ouviam – ninguém nos ouve realmente – que escutavam as nossas preocupações –  quais são as nossas preocupações? – que se importavam com aquilo que estamos a sentir agora – o que é que estamos a sentir agora? – que pudessem levar em conta as nossas inquietações; se ao menos se apercebessem do nosso desconforto, da desilusão, do desencanto, da frustração, da relevância das nossas ideias, actualmente pousadas apenas num simples desejo de autonomia e de liberdade, de necessidade de um mundo melhor, de mais humanidade – as pessoas precisam de mais humanidade, de se libertar das ofensivas dos telejornais, da brutalidade urbana, deste mundo assente na violência visual, as pessoas precisam de se sentirem livres – sentes-te livre? – não precisam de jogos políticos, da disputa desenfreada pelo poder, as pessoas abominam estas democracias de algibeira, estes democratas, a hipocrisia de quem nos conduz – quem é que nos conduz realmente? – de se desenvencilhar destes senhores cheios de orientações económicas e liberais; nunca te esqueças que a palavra é uma arma, a tua palavra é uma arma, a tua prosa, a tua poesia, a tua capacidade de pensar, de fazer frente com o intelecto, mostra-lhes isso, mostra-te isso, enche-te disso, dessa fúria, desse desejo que as coisas mudem, ostenta a teu insatisfação, mostra que não há forma de te imporem nada, que não há barreiras, não há, ninguém te segura, porque tu és livre e tão depressa estás calmo e passivo como a seguir se te instala o caos, tão depressa estás calmo e passivo como a seguir se instala o caos
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MG 2013

sexta-feira, junho 14, 2013

nós desenhámos a tragédia

isto tudo só faz sentido – isto não faz sentido nenhum – quando nos lembramos que o mundo foi inventado por nós e para nós, o mundo foi inventado por nós e para nós, para sermos felizes, para que a vertigem acontecesse no exacto momento em que nos apercebêssemos disto que aqui se diz: que nunca estamos sozinhos, nós nunca estamos sozinhos – não estaremos sempre sozinhos? – e que entretanto continuamos todos aqui, os de agora e os que já partiram, para que quando nos sentíssemos empurrados pelo vento – às vezes sentimo-nos empurrados por todos, pelo vento, essa poderosa metáfora que nos posiciona no mundo, que nos faz perceber que nós próprios é que somos efémeros, e inventássemos outros nomes para as coisas, forjássemos memórias na expectativa de que tudo isto fosse remediável. mas isto não é remediável, a saudade consome-nos sempre, o tempo nunca volta para trás, os dias prescrevem – os dias nunca prescrevem, as noites nunca acabam - as noitesnunca acabavam sem que celebrássemos tudo quanto houvesse para celebrar. e havia muito para celebrar - celebremos, celebremos outra vez, abriguemo-nos no amor, naquela loucura antiga. porra, como tenho saudades daquela loucura antiga, dos dezoito, da irresponsabilidade, da ponte da sé que levava a sítio nenhum levando-nos a todo o lado, saudades da ria que estava sempre ali à mão numa espécie de cumplicidade, uma miragem, nós todas as noites deitados lado a lado, de cabeça para cima, para o céu, a ver as estrelas a parirem sonhos enquanto tudo isso já foi e já nada nos pertence, a nossa vida agora é um museu, a nossa vida é o que é, nós desenhámos a tragédia de nos tornarmos adultos, nós desenhámos a tragédia de nos tornarmos adultos
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MG 2013

terça-feira, junho 11, 2013

o dia de amanhã

talvez nem seja tão difícil assim, virarmos as costas e desligarmos, sintonizarmos uma outra frequência, admitirmos a incompatibilidade, a desarmonia, a desconexão no meio desta selva, na dissonância da vidinha de todos os dias: desalinhemo-nos, deformemo-nos, desformemo-nos, desenformemo-nos, mas afinal quem é que quer ser perfeito todos os dias, andar com um sorriso pálido só porque o protocolo de estarmos vivos assim o exige, quem é que quer ser coerente a toda a hora, quem é que gosta de riscas ao meio, eu não gosto, eu não sei, eu não quero, eu não faço questão de acordar penteadinho depois de um sonho, eu gosto é de me perder na demência de ter de ser eu próprio, eu quero é espreitar para lá do horizonte de mim próprio, olhar o abismo e saltar, cair no vazio, eu não quero saber se atinjo todos os dias os objectivos, se estou apto, se sou capaz, claro que sou capaz, se toda a gente me compreende – às vezes até falo mandarim, não é importante que sejamos claros, nós não queremos ser sempre claros, o erro também tem o seu interesse, a sombra, o lado negro das coisas, o lado escuro de nós próprios, a bruma, que pouca gente nos entenda, um bom livro é constituído por partes que primeiro não fazem sentido e depois nos atingem na cara, um poema explode-nos sempre na cara, as palavras estão sempre armadilhadas, as palavras são bombas, tal como a vida também está sempre minada: nós nunca sabemos o dia de amanhã, nós nunca sabemos o dia de amanhã, portanto, guardemos o melhor só para quem nos merece, o melhor só para quem nos merece
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mg 2013

sábado, junho 08, 2013

a morte no gerúndio

é preciso começar pelo princípio, é quase uma obrigação fundamental, a base de todas as coisas: tentarmos perceber a verdade sobre nós próprios, se somos verdadeiros, se não nos andamos a enganar, se queremos realmente ser quem somos - quem somos? - se vale a pena tudo isto, se estamos habilitados a ser nós próprios, se queremos ser nós próprios, és feliz? já te perguntaste se és realmente feliz, se estás bem contigo próprio, se não vives uma ilusão, um engano barato, já te questionaste se te basta seres quem julgas ser, quem tens sido, se te bastas a ti próprio, se te ficas por aí, não estarás em falta contigo próprio, com os teus, não te estará a escapar qualquer coisa, tens falado verdade contigo próprio ultimamente? tens sido sério? não te estarás a esquecer de qualquer coisa, do sonho, daquele sonho, de ti, do que prometeste a ti próprio aqui há tempos, sabes que tudo se dissipa, tudo isto se vai, tudo se acaba sem darmos por isso, não levamos nada daqui, nada de nada, isto passa tudo tão rápido, a morte no gerúndio, já dizia o herberto, a morte no gerúndio caraças, a verdade é essa: vamos morrendo todos os dias, vamos morrendo todos os dias, ao menos que morramos de pé, como as árvores
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MG 2013

sexta-feira, junho 07, 2013

o mar ao fundo

aprende-se muita coisa com certas pessoas, muitas vezes sem que tenhamos consciência imediata do valor daquilo que estamos a aprender, e continuo a dizer que um bom professor não é aquele que nos ensina muitas coisas que depois, mais tarde, se esquecem, um bom professor é aquele que não se limita a debitar informação, factos atrás de factos, coisas por cima de coisas, um bom professor ensina-nos a gostar, aponta-nos percursos possíveis, abre-nos janelas, um bom professor é capaz de nos mostrar a importância de qualquer coisa sem nos vender ou impor essa coisa, um bom professor ensina-nos a sentir as coisas e por entre tantos caminhos que me indicou, registo o imenso valor humano e o facto de ter sido um verdadeiro «algarvista», alguém que se debruçava todos os dias, em todos os momentos, sobre o algarve, esse bocado de terra que tanto gostava de incluir em todas as conversas, sempre presente no modo de reflectir – agradavelmente circular, e no jeito de falar – moço da vila, esse algarve que ele tanto gostava de defender, porque era o seu, esse algarve que era o nosso, esse algarve que tem o mar ao fundo, como gostava de repetir
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MG 2013

segunda-feira, junho 03, 2013

a barraca dos tiros

soube esta manhã que lhe chamavam a «barraca dos tiros», o espaço montado na saída norte de santa rita, local onde trabalho, aldeia da freguesia de vila nova de cacela, concelho de vila real de santo antónio, na fronteira com a conceição de tavira, terra muito bem frequentada há mais ou menos há 60 anos, durante as «curas de santa rita», um evento que acontecia no verão, com o pretexto de se tratarem as pessoas que sofriam de males nos ouvidos, e onde se instalava tudo o que era passível de ser comprado, vendido, negociado e apreciado, folia todo o santo dia e noite, festa rija, bailes, comes e bebes de vários tipos, vinho, muito vinho, bolos, homens e senhoras de todas as proveniências, meninos e meninas, sãos e menos válidos, burros e cavalos, animais de todo o tipo, carroças e carros de mula, tendas e barraquinhas. ainda hoje as anciãs da aldeia recordam com saudade essa festa que para ali se montava todos os anos, e se lembram da mítica «barraca dos tiros», que punha «os homens parvos» por causa das meninas do norte que nela se vinham instalar especialmente para a ocasião; de como nestes dias o raio das moças, belas e espadaúdas, montavam aquela banca para se ocuparem das carências sexuais dos (seus) homens
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MG 2013

NOVO LIVRO DE HERBERTO HELDER: O QUE INTERESSA É QUE VAI ESGOTAR

http://www.orgialiteraria.org/2013/06/novo-livro-de-herberto-helder-o-que.html

sexta-feira, maio 31, 2013

monólogo, 3

podia ser mais um dia, um dia igual aos outros, uma extensão de tempo que acontece sem que se dê por isso, esse tempo que passa por nós e nos põe velhos sem que nos apercebamos, mas amanhã terá um significado diferente, amanhã será o dia dos putos, o dia dos nossos filhos, amanhã será uma daquelas ocasiões que traduzem a felicidade de podermos ver a descendência a crescer, uma semente de nós que brota e se desenvolve e se fortalece a cada dia que passa, e nós a sentirmos que o puto que pusemos no mundo tem a sorte de poder ser feliz, ainda que o tenhamos de expor à merda que hoje em dia o rodeia, aos entraves que lhe criámos e continuamos a criar, que alguém lhe criou, mas deixa isso da mão, aproveita a felicidade de te poderes olhar ao espelho e te veres em ponto pequeno, nós somos um pouco mais nós ao vermos o reflexo desse sonho que se concretizou: olha para ti, miguel, tens trinta e três e tens aí um tu em ponto pequeno, tens uma família, e és feliz, aproveita que amanhã é dia de saíres para o campo, para a praia, e dares um chuto na bola com essa relíquia, estima-a bem e ela estimar-te-á bem também, oferece-lhe amor e experiências e não objectos e desfruta porque amanhã é dia de, também tu, seres puto outra vez

segunda-feira, maio 27, 2013

espreita-se os jornais e não é difícil perceber que não é só a questão da crise e a perversidade que dali advém - da crise e dos jornais, o horizonte tentacular dos seus efeitos, a extrema direita de novo assanhada e, à semelhança de outros tempos, a conquistar adeptos insuspeitos para as suas trincheiras, a alemanha agora com um programa de crédito para as nossas empresas, a alemanha, sim, a alemanha, e com a possibilidade de participar no seu capital, ou seja, de poder vir a mandar nelas, mas como é que se pode alinhar neste esquema?; é a crescente xenofobia, a violência gratuita, os radicalismos idiotas, a merda toda a vir ao de cima outra vez, não aprendemos nada nestes últimos cem anos, será que alguma vez aprendemos alguma coisa? até na poesia se sentem os sinais da merda que abrilhanta os nossos tempos: mas porque é que o novo livro do herberto hélder tem de ser tão caro, essa celebridade tenebrosa da poesia, mais parece um aproveitamento comercial da qualidade literária de um artista maior, os leitores a pagarem uma gula editorial, qual agarrados que dão o cu e as calças pela próxima dose de libertação.
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MG 2013

sexta-feira, maio 24, 2013

monólogo, 2 [ou isto não dura para sempre]


esquece por um instante os anos que carregas e abandona todos os compromissos que assumiste, todos os deveres e obrigações de agora, desresponsabiliza-te, iliba-te de convenções, anarquiza-te nem que seja por um segundo, grita se te apetece gritar, não te preocupes com os outros porque os gritos são para ser ouvidos, não queiras saber se a tua obrigação é estares alerta, ninguém morrerá se te desfocares por um instante, fecha os olhos se necessário, desata-te da rotina que te obriga a ser quem és, de que vale seres quem és se já não és livre, se já desististe de sonhar com o que gostarias de um dia vir a ser, depois de seres o que sabes já ter sido? já te apercebeste que os anos te vão roubando, lentamente, todas as memórias, tudo se vai esfumando, tudo se vai esbatendo, não te venham com merdas agora que esta mensagem servirá apenas para anunciar que fechaste a porta aos que insistem em oferecer-te amarras, cobrir-te de correntes, agrilhoar-te ao mundo de todos os dias, à tela do computador, à televisão que insiste em pôr-te cada vez mais burro, desliga a televisão, destrói a televisão, vais ver que de repente se fará luz na tua cabeça, quando alguém te tentar repreender, já sabes o que fazer, carregas no interruptor, está mesmo aqui esse interruptor, és tu quem o controla, a autoridade és tu, basta desligares por um segundo, esquecer que já és crescido, que sabes tudo, tu não sabes nada, tu tens dezasseis, faz como se tivesses outra vez dezasseis, anarquiza-te, desliga-te e sê feliz, sê feliz que isto não dura para sempre
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MG 2013