hoje em dia, tudo se resume a uma tabela de excel, números, pessoas, abstracções. como se todas as coisas pudessem ser algarismos, tabelas nas quais se analisam convergências, tendências, aumentos ou recuos. é assim com a dívida, é assim com as falências, é assim com as taxas de desemprego, com as mortes e os nascimentos. números. tudo cresce, tudo diminui. é assim. os números aumentam ou diminuem. tudo bem. é assim, a vida: taxas que crescem ou diminuem. números. de acordo com o último relatório anual de segurança interna, divulgado no passado mês de março, entre 2011 e 2012, o número de participações de violência doméstica diminuiu, passando da 28.980 para 26.084, enquanto o número de homicídios conjugais aumentou de 27 para 37, no mesmo período. aumentaram, portanto, os números de mortes pelo companheiro. mortes pelo companheiro: de 27 para 37. mais 10. é assim. números. este sábado mais uma mulher de 59 anos foi assassinada com tiros de caçadeira pelo marido, na localidade de formigais, no concelho de ourém. é assim: números.
.
MG 2013
sábado, maio 18, 2013
quarta-feira, maio 15, 2013
agora mesmo
agora mesmo pareceu-me ter outra vez metade dos trinta e quase quatro que tenho já em cima e lembrei-me do tempo dos cigarros fumados nos bancos do liceu, daqueles que de barriga vazia batiam na cabeça quando entrávamos para a aula das oito e meia, das tardes em que pela calada assistíamos a filmes obscenos, não dos que agora passam em todos os telejornais da noite mas daqueles que víamos às escondidas e que arrumávamos numa gaveta recôndita, por trás da estante dos livros ou debaixo do colchão com medo que se soubesse que os víamos. agora mesmo bateu-me a saudade dos dias em que as paixões rolavam à velocidade da luz, aquelas que nos cegavam e que dizíamos serem para sempre mas que nunca foram para mais de um mês. agora mesmo fui criança outra vez e, metido neste gabinete recôndito, pus-me a redigir um poema do fundo da algibeira, convicto de que isso seria muito mais valioso e essencial do que o cumprimento de tarefas necessárias nestes projectos fundamentais já que isto da vida só acontece uma vez - cada vez me convenço mais, e da maneira que isto está, mais cedo ou mais tarde vão rolar cabeças, deus queira que sejam as dos que merecem que isto com um filho para criar seria muito mais complicado. agora mesmo, quase que sem aviso – parece que estas coisas surgem assim do nada – apeteceu-me sorver tudo de uma só vez, extinguir todas as coisas más que me reserva esta breve passagem, lamber as memórias antigas para que elas me entrem outra vez na barriga como um gelado, e gritar em alto e bom som a inaudita ideia do cardoso: ah, como é linda a puta da vida
.
MG 2013
terça-feira, abril 23, 2013
o que nos vem à cabeça
ideias brancas, ideias ainda cheias de nada, a folha a levar com a matéria bruta, o produto cru, a palavra primeira, o acto de pensar, algo que acontece primordialmente na cabeça, podia despejar toneladas de tudo aqui para cima mas
não sei o que se sucederia depois, se resultaria, se se extrairia alguma coisa
desse acto, se não seria apenas uma conduta de desespero, com certeza que sim,
uma atitude irreflectida, um movimento imponderado, afinal nenhum texto se
escreve sozinho, um livro precisa sempre de alguém que lhe ordene as ideias, as
palavras, alguém que ponha ordem no que se quer dizer, ou talvez não, talvez redigir
também possa ser apenas um debitar do que nos vêm à cabeça, escrever é pensar,
afinal, ou não é, às vezes penso que escrever pode ser somente isto mesmo, uma desarrumação,
um alvoroço, uma coisa em construção, algo que vai acontecendo à medida que vai
acontecendo, isto que para aqui se está passar
.
MG 2013
sexta-feira, abril 19, 2013
não basta mudar as moscas
não basta mudar as moscas, temos de remover a merda, era o
que gritava o cartaz de um popular, funcionário público, aplicado no seu
trabalho, descontente com o facto do governo trocar apenas o trinco que servia a frente de ataque e, deixando tudo como estava, mais uma vez decidiu mudar as regras ao
jogo, corrompendo o jogo, contornando as decisões das mais altas instâncias
que o condenaram pelo insucesso das suas políticas, decidindo assim reter, para
lá do que já ficou para trás, mais cinco meses de subsídio de férias ou de
natal, já nem se sabe, e que era seu por natureza, do seu trabalho, de um
acordo entre as partes, sem pagar juros por isso, como se de um empréstimo forçado
dos trabalhadores e pensionistas ao estado se tratasse, o funcionário a dizer, ora tomem lá meus
amigos, andamos todos à rasquinha de dinheiros mas não faz mal, mal conseguimos que o
ordenado chegue para as contas mas não há problema, ora tomem lá meus amigos,
logo nos pagam quando puderem, não basta mudar as moscas, temos de remover a
merda, era o que gritava o cartaz e a inquietação de um popular
.
MG 2013
não queiras, não queiras
não queiras ficar doente, terás um azar terrível, sofrerás
um revés conjecturável, ninguém correrá em teu auxilio, quando pensares que te
irão salvar ninguém estará lá para te salvar, ninguém te irá amparar, ninguém
te poderá livrar do mal, a máquina não terá disponibilidade para te ajudar, quem
és tu para pensares que te poderiam salvar, que te iriam salvar, quem te mandou
adoecer, ninguém te irá socorrer, não mereces que te socorram, não descontaste
o suficiente para mereceres uma protecção, um salvamento, isso aqui já não se
usa, não se usa porque não pagaste, porque não contribuíste, quem te diz a ti
que contribuíste, o sistema não se lembra, ninguém se lembra, não há registo,
não temos registo de ti, tu não existes, não mereces existir, não alimentaste o
sistema como queriam que o alimentasses, onde é que pensas que vais, assim
doente, não queremos aqui doentes, isto aqui não é para doentes, isto aqui não
é para ti, querias uma caminha quentinha, aqui não há caminhas quentinhas, não
temos nada para te oferecer, aqui não temos nada para ti, se estás doente e a
precisar, não estivesses, quem te julgas para enfermar, a doença aqui não tem
lugar, tu aqui não tens lugar
.
MG 2013
quinta-feira, abril 18, 2013
não lhe venham agora dizer
só lhes ficava bem admitirem a manifesta incompetência, lia-se isso na cara da dona maria, era por demais óbvia aquela expressão deprimida,
uma simples expressão, um olhar humilde de derrota, de desgraça, coitada,
cinquenta anos e sem dinheiro para alimentar os filhos, agora, depois de uma
vida inteira de trabalho duro, que forte aquele olhar, um olhar capaz de nos
fazer experimentar os calos que transportava nas mãos, as lágrimas que lhe caem
dos olhos todas as noites, a preocupação por não estar a ser capaz de aguentar
a dura realidade, se esta gente ao menos fosse capaz de reconhecer os erros
sucessivos, a porcaria que têm vindo – todos –
a fazer, um olhar que desejava que fossem homens o suficiente para
admitir que talvez não fosse má ideia irem pregar para outra paróquia, para um
lugar distante deste em que ela se encontra, em que se encontram as pessoas que
todos os dias têm de sofrer com os erros desta gente, erros cada vez mais
evidentes, desta corja, deste bando de abutres que teimam em sugar o pouco ou
nada que ainda resta, eles e o resto da equipa que serve interesses externos,
interesses maiores, muito maiores do que todos aqueles que como ela agora não
sabem o que fazer da vida, não sabem o que fazer da vida, não é a dona maria a
culpada desta merda, não são as donas marias as culpadas desta merda, porquê
que tem de ser elas a pagar a factura, porquê que têm de ser elas a pagar a
factura, não lhe venham agora dizer que não há verdadeiros culpados nesta história,
não lhe venham agora dizer
.
MG 2013
quarta-feira, abril 17, 2013
mundo de agora
ia escrever que coisas pouco interessantes se passam fora dos
livros, mas a verdade é que tudo se passa fora dos livros, a vida acontece é fora
dos livros e a realidade supera em muito a ficção, só de livros não podemos
viver nós, os livros contam coisas interessantes mas dos livros já ninguém
extrai nada, é por demais óbvio, cada vez mais óbvio, parece até que já ninguém
lê, que já ninguém quer ler, ninguém quer aprender, os personagens deste mundo real
andam todos em silêncio, prostrados, o palco da vida mais que pede acção, solicita
um enredo credível, vozes que se ouçam, vozes que se façam ouvir, alguém que
acorde o mundo e os seus actores que isto anda tudo diminuído, alguém que chore
em cena, que grite em desespero, alguém que seja qualquer coisa, que seja ele
próprio, que seja capaz de ser ele próprio, alguém que ame, que saiba amar, que queira amar, alguém que rasgue as páginas dos
livros, mais que não seja, alguém que pegue numa caneta e escreva um poema, por
muito mau que seja será sempre um poema, alguém que que se desalinhe que isto
de alinhamentos estamos todos fartos, fartos do tédio, onde é que anda o amor,
os valores, essa coisa que em tempos se chamou de humanidade, a generosidade, o
próximo, a preocupação com o próximo, a preocupação, a simples preocupação,
e já que se fala disso, todos temos direito à vida, a uma vida, a uma vida
digna, o raio que os parta se isto assim é que é o caminho, o caminho é outra
coisa, é sermos capazes de dizer basta, basta de estarmos rendidos, já basta o
que basta, porra, é triste mas por algum motivo vou sempre bater aqui: estarei
cansado disto tudo, não, não estou, quero é outra coisa, quero é outra coisa
melhor, um mundo melhor que este de agora, se não fossem os livros, a
família e os amigos, não sei como me aguentaria neste mundo de agora
.
MG 2013
segunda-feira, abril 15, 2013
pequenos por natureza
não é erro de grafia, é só que nos últimos tempos tem-me
apetecido escrever apenas com minúsculas, não porque queira demonstrar a minha singularidade
intelectual ou, pelo contrário, de uma forma alegórica, revelar a minha modéstia,
mas porque acho que pode existir uma certa sublimidade no poder de um
texto encolhido, um texto que não exalte certas partes das palavras, as
primeiras letras, ou as letras primeiras, porque considero que não existem letras
que mereçam ser maiores que outras, um pouco como nós próprios, não há uns mais
que os outros, é certo que existem líderes, dirigentes e subordinados, mas a
verdade é que quem se pinta de grande tantas vezes acaba por ser muito mais
pequeno do que os pequenos que são já assim por natureza, quem se amplifica ou
é amplificado, tantas vezes, sem se aperceber, mais não faz do que reduzir-se, e,
no fim de contas, o mundo das palavras é o mundo das pessoas, e as pessoas, sendo
todas iguais, são todas diferentes, não precisam de se fazerem ou que as façam
grandes para serem vistas.
.
MG 2013
sexta-feira, abril 12, 2013
Repetição
A falta de mulher é uma coisa do
caraças, e o que, e o que, e o que, e o que, e o que – que gaguez fodida,
fodida-da-da, que lhe entrava, especialmente quando alguma coisa o punha
nervoso – e o que ele queria mesmo era passar-lhe a mão pelo pêlo, àquela
vizinha que costumava despir-se todos os dias, sempre à mesma hora, no prédio em
frente, queria jogar-lhe a manápula à penugem, àquele botãozinho ardente,
arrimar-se a ela, roçar-se feito bichano, esfregar-se naquele corpinho de
cetim, que tesão aquele corpinho de cetim, aquela menina tão jasmim, mas não
sabia como, sempre que abria a boca punha-se a repetir as coisas que nem um
disco riscado, repetir que nem um disco riscado, repetir que nem um disco
riscado, tão intelectual e com este defeito na linguagem-gem, para além de
nunca ter sequer alguma vez beijado alguém, tirando aquela vez em que uma prima
mais afoita, numa tarde de verão de há muito, lhe saltou para cima, louca para
experimentar a carne, e ele, sem saber o que fazer, nervoso
que nem um pau, quase morria do coração, enquanto aquela vadia lhe mexia por
entre as pernas e o devorava, abocanhando-lhe todas as partes escondidas para
ver se o provocava, se lhe roubava algum acanhamento, se o transformava num
homem, se o punha a falar direito. E que desvario, aquele, o rapaz não merecia estar
a sucumbir de vontade, ai minha santíssima, aquela mulher tinha logo que morar ali em frente, e de ser uma loucura, e de o pôr demente de desejo, e
de se despir sempre àquela hora, na precisa hora em que ele também ali estava, todos
os dias, no prédio em frente, com o membro do meio de fora, cinco dedos a esfregarem a
coisa, a repetir desvairadamente não o que não lhe conseguia dizer mas uma
manobra de afagamento, a mão direita para a frente e para trás, para a frente
e para trás, para a frente e para trás, antes que ela se metesse para dentro e se escondesse outra
vez.
.
MG 2013
segunda-feira, abril 08, 2013
Aprender
O que eu queria mesmo era aprender. Aprender o que fosse possível aprender, absorver tudo o que me rodeava, incorporar conhecimento, saber o porquê das coisas, talvez um dia tudo aquilo que já soubesse de antemão, por muito pouco que fosse, me pudesse vir a ser útil, actuar a meu favor. Já estudar, só mais tarde lhe ganhei o gosto, quando percebi que de outra forma seria muito difícil, impossível, custoso que nem o raio, perceber certas coisas que a vida do dia-a-dia não oferece, não explica, não justifica, ou então sou eu que não percebo, não chego lá, não compreendo, não falo a mesma língua. Cedo descobri que era preciso ler, ler muito, ler muito mesmo, ler tudo o que conseguisse, meter-me dentro dos livros, jogar-me de cabeça, deixar-me cair lá para dentro, não só porque lendo com certeza outros mundos me seriam apresentados, e eu gostava muito de ter a oportunidade de conhecer outros mundos, todos aqueles que fosse possível conhecer, de preferência de borla, sem gastar o dinheiro que não tinha, nem tenho ainda, mundos diferentes do meu, porque o meu tantas vezes era uma chatice, mas porque percebi que esses mundos seriam muito mais interessantes do que aqueles que todos os dias temos de aturar, os mundos desinteressantes das pessoas óbvias, das pessoas fúteis, das pessoas que nos aparecem à frente, que temos de aturar, o nosso mundo, afinal, o mundo das pessoas que se querem meter no nosso caminho, bem sei que há umas que acabamos por perceber que ainda bem que se meteram à nossa frente, acabamos sempre por ter surpresas, e no que toca a pessoas, tantas vezes nos enganamos, para bem e para o mal, mas eu sei, o caminho é de todos, o caminho faz-se caminhando e se caminhamos todos juntos, não há outra hipótese, aliás, temos mesmo de caminhar todos juntos, é um risco que temos de correr. Mas o meu caminho é o meu caminho, que me desculpem essas pessoas que não interessam, eu tenho a certeza que nada tenho que ver com eles, com essa gente que só empata, com essa gente que não se preocupa, que não quer saber, que se está nas tintas, que acha que não tem mais nada para aprender, que já aprendeu tudo, que tudo sabe sobre tudo, saber tudo ninguém sabe, coitado daquele que julga saber tudo, já pouco consegue aprender para lá do pouco que já aprendeu.
.
MG 2013
.
MG 2013
sexta-feira, abril 05, 2013
Oh as casas as casas as casas
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
.
Ruy Belo
terça-feira, abril 02, 2013
Doze anos
Faz
agora doze anos que te conheci. E só sei dizer que o amor não é
fácil de compreender, fácil de explicar, o teu amor, o meu amor, o
amor que tenho por ti, sei lá como explicar isto, o nosso amor, esta
coisa que nos impede de perdermos o norte neste percurso que fazemos
todos os dias, há tanto tempo. Ainda por cima a mensagem que
queremos que seja uma mensagem fácil de ser entendida costuma vir
sempre como que codificada – é assim com todos, não é?, nunca
nos percebemos a cem por cento um ao outro, às vezes nem a
cinquenta, até parece que falamos línguas diferentes, nunca tenho a
certeza plena que te amo como querias que te amasse, nem que tu me
amas como eu queria que tu me amasses, mas no fundo eu sei que sim,
quer dizer, eu acho que sim, e a verdade é que nunca nos sentimos
confortáveis em afirmar que tudo isto é verdade, o nosso amor não
aconteceu à primeira vista, como se costuma dizer, nunca acontece,
pois não?, embora eu ache que não esteve longe disso, acho que foi
antes um clarão que nos deixou imóveis, estáticos, deslumbrados,
um arrebatamento que não sabemos como explicar, se calhar até
talvez tenha sido como normalmente acontece, só sei que ficámos
apavorados por não sabermos lidar com a situação, putos inseguros,
adolescentes meia-leca que reagem com o peito e não com a razão, e
agora, que fazer quando te chateias comigo e dizes que só te apetece
é fugir de mim, largar-me, dizes-me que eu não sirvo, que sou muito
insensível, um tremendo fogo de vista? A gente só precisa de alguém
que acredite em nós, a gente só precisa de acreditarmos em nós
próprios, de acreditarmos um no outro, de alguém que nos acompanhe
ao fim do mundo se for preciso, que vá connosco a todo o lado, que
caia connosco no abismo se tiver que cair, e que nos ampare quando
estivermos quase a chegar, quase a bater no fundo, e que lá bem no
fundo nos coloque uma almofada por baixo, que nos agarre no braço,
que nos diga julgas que já é hora de partires?, não ainda não é,
não, não te preocupes que eu estou aqui contigo, não te deixo ir.
É disso que precisamos: de sentirmos que temos ali alguém do nosso
lado, alguém verdadeiro, um aliado, um parceiro, um cúmplice nas
asneiras que a toda a hora cometemos, eu preciso de ti e tu de mim, e
é por isso que eu sei que te amo, e é por isso que eu sei que me
amas, é por isso que eu sei que ainda me aturas, doze anos depois e
já com um filho, um filho lindo, um mundo novo, porque ainda que às
vezes digas que já não me queres, que já não gostas de mim, que
já estás cansada disto tudo, eu sei que não é verdade, eu sei
porque também digo essas coisas, toda a gente diz, essas asneiras,
se queres que te diga, eu estou mas é cansado de nunca me cansar de
ti. E eu sei que tu também. Eu sei que tu também.
.
MG 2013
terça-feira, março 26, 2013
Para que a coisa resulte
No tempo das
colheitas
o importante
é arranjar forma
de pôr as
gentes a oferecer
seis partes
das seis que
estão a germinar
ainda está
por criar
um imposto sobre
a civilização
uma taxa mediterrânica
uma prestação
sobre o gaspacho
que lhe retraia
todo o sabor
há que
pensar em abutres
para que a
coisa
resulte em
conformidade
inventar um mecanismo
agiota
que limite o
livre pensar
há que
circunscrever
a imaginação,
prever
uma taxa
administrativa
sobre os
legumes do barrocal
temos de
congeminar
um tributo
sobre os refogados
confiscar-lhes
o aroma
a excelência
do paladar
há que
forçar a pobreza
que isto
assim
não vamos a
lado nenhum
assim, realmente
não vamos a
lado nenhum
.
MG 2013
terça-feira, março 19, 2013
Como se tivéssemos medo
Segundo consta,
a raiz etimológica do
termo «cagaço» provém
do verbo «cagar» acrescido
do substantivo
comum «aço».
Como se tivéssemos
medo de algum dia
ser possível obrar esse
duro metal,
medo de ficarmos empanzinados,
medo que ele fique entalado,
medo de não conseguir executar
o serviço até ao fim
ou que possa doer tanto
que o pânico
nos destrua
o sonho de uma evacuação
tranquila
.
MG 2013
a raiz etimológica do
termo «cagaço» provém
do verbo «cagar» acrescido
do substantivo
comum «aço».
Como se tivéssemos
medo de algum dia
ser possível obrar esse
duro metal,
medo de ficarmos empanzinados,
medo que ele fique entalado,
medo de não conseguir executar
o serviço até ao fim
ou que possa doer tanto
que o pânico
nos destrua
o sonho de uma evacuação
tranquila
.
MG 2013
segunda-feira, março 18, 2013
Se existem batutas que comandam
Pois então,
as verdades são ambíguas
e muito temos que reflectir:
sobre as intransigências e os incêndios,
os náufragos e as borrascas,
sobre o porquê de haver rios
que correm ao contrário,
e vontades impostas por soberanos
com consequências em seus súbditos,
sobre oportunidades desperdiçadas
e se existem batutas que comandam
maestros
.
MG 2013
sábado, março 16, 2013
quarta-feira, março 13, 2013
Cães que ladram
Cães que ladram
descontentes
com a descida do petróleo
cães em luto
pela queda do investimento
cães que arfam
no calor estival do progresso
cães que em sofrimento
mijam nas dunas
tentando sinalizar territórios
e acompanhar
os níveis de desenvolvimento
.
MG 2013
segunda-feira, março 11, 2013
O importante já não é só
agora
o importante já não é só
o programa de salvação
os projectos de mobilização
a moral dos discursos de cidadania
agora
o importante é garantir
uma bóia de salvação
mil pessoas por metro quadrado
lavar os pobres
contar os cobres
e sorrir
.
MG 2013
o importante já não é só
o programa de salvação
os projectos de mobilização
a moral dos discursos de cidadania
agora
o importante é garantir
uma bóia de salvação
mil pessoas por metro quadrado
lavar os pobres
contar os cobres
e sorrir
.
MG 2013
sexta-feira, março 08, 2013
Dizer em português
Dizem por aí
que vai ser difícil
fazer crescer salários
produzir acréscimos
de produtividade
mas eu cá
só tenho orgulho
na poesia
no instituto do mar
e da atmosfera
e acredito piamente
em todos
aqueles que são capazes
de destruir palavras,
de dizer em português:
happiness is not
beyond the horizon
over the seas
happiness happens when
we fuck the system
.
MG 2013
que vai ser difícil
fazer crescer salários
produzir acréscimos
de produtividade
mas eu cá
só tenho orgulho
na poesia
no instituto do mar
e da atmosfera
e acredito piamente
em todos
aqueles que são capazes
de destruir palavras,
de dizer em português:
happiness is not
beyond the horizon
over the seas
happiness happens when
we fuck the system
.
MG 2013
Subscrever:
Mensagens (Atom)

