sexta-feira, abril 05, 2013
Oh as casas as casas as casas
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
.
Ruy Belo
terça-feira, abril 02, 2013
Doze anos
Faz
agora doze anos que te conheci. E só sei dizer que o amor não é
fácil de compreender, fácil de explicar, o teu amor, o meu amor, o
amor que tenho por ti, sei lá como explicar isto, o nosso amor, esta
coisa que nos impede de perdermos o norte neste percurso que fazemos
todos os dias, há tanto tempo. Ainda por cima a mensagem que
queremos que seja uma mensagem fácil de ser entendida costuma vir
sempre como que codificada – é assim com todos, não é?, nunca
nos percebemos a cem por cento um ao outro, às vezes nem a
cinquenta, até parece que falamos línguas diferentes, nunca tenho a
certeza plena que te amo como querias que te amasse, nem que tu me
amas como eu queria que tu me amasses, mas no fundo eu sei que sim,
quer dizer, eu acho que sim, e a verdade é que nunca nos sentimos
confortáveis em afirmar que tudo isto é verdade, o nosso amor não
aconteceu à primeira vista, como se costuma dizer, nunca acontece,
pois não?, embora eu ache que não esteve longe disso, acho que foi
antes um clarão que nos deixou imóveis, estáticos, deslumbrados,
um arrebatamento que não sabemos como explicar, se calhar até
talvez tenha sido como normalmente acontece, só sei que ficámos
apavorados por não sabermos lidar com a situação, putos inseguros,
adolescentes meia-leca que reagem com o peito e não com a razão, e
agora, que fazer quando te chateias comigo e dizes que só te apetece
é fugir de mim, largar-me, dizes-me que eu não sirvo, que sou muito
insensível, um tremendo fogo de vista? A gente só precisa de alguém
que acredite em nós, a gente só precisa de acreditarmos em nós
próprios, de acreditarmos um no outro, de alguém que nos acompanhe
ao fim do mundo se for preciso, que vá connosco a todo o lado, que
caia connosco no abismo se tiver que cair, e que nos ampare quando
estivermos quase a chegar, quase a bater no fundo, e que lá bem no
fundo nos coloque uma almofada por baixo, que nos agarre no braço,
que nos diga julgas que já é hora de partires?, não ainda não é,
não, não te preocupes que eu estou aqui contigo, não te deixo ir.
É disso que precisamos: de sentirmos que temos ali alguém do nosso
lado, alguém verdadeiro, um aliado, um parceiro, um cúmplice nas
asneiras que a toda a hora cometemos, eu preciso de ti e tu de mim, e
é por isso que eu sei que te amo, e é por isso que eu sei que me
amas, é por isso que eu sei que ainda me aturas, doze anos depois e
já com um filho, um filho lindo, um mundo novo, porque ainda que às
vezes digas que já não me queres, que já não gostas de mim, que
já estás cansada disto tudo, eu sei que não é verdade, eu sei
porque também digo essas coisas, toda a gente diz, essas asneiras,
se queres que te diga, eu estou mas é cansado de nunca me cansar de
ti. E eu sei que tu também. Eu sei que tu também.
.
MG 2013
terça-feira, março 26, 2013
Para que a coisa resulte
No tempo das
colheitas
o importante
é arranjar forma
de pôr as
gentes a oferecer
seis partes
das seis que
estão a germinar
ainda está
por criar
um imposto sobre
a civilização
uma taxa mediterrânica
uma prestação
sobre o gaspacho
que lhe retraia
todo o sabor
há que
pensar em abutres
para que a
coisa
resulte em
conformidade
inventar um mecanismo
agiota
que limite o
livre pensar
há que
circunscrever
a imaginação,
prever
uma taxa
administrativa
sobre os
legumes do barrocal
temos de
congeminar
um tributo
sobre os refogados
confiscar-lhes
o aroma
a excelência
do paladar
há que
forçar a pobreza
que isto
assim
não vamos a
lado nenhum
assim, realmente
não vamos a
lado nenhum
.
MG 2013
terça-feira, março 19, 2013
Como se tivéssemos medo
Segundo consta,
a raiz etimológica do
termo «cagaço» provém
do verbo «cagar» acrescido
do substantivo
comum «aço».
Como se tivéssemos
medo de algum dia
ser possível obrar esse
duro metal,
medo de ficarmos empanzinados,
medo que ele fique entalado,
medo de não conseguir executar
o serviço até ao fim
ou que possa doer tanto
que o pânico
nos destrua
o sonho de uma evacuação
tranquila
.
MG 2013
a raiz etimológica do
termo «cagaço» provém
do verbo «cagar» acrescido
do substantivo
comum «aço».
Como se tivéssemos
medo de algum dia
ser possível obrar esse
duro metal,
medo de ficarmos empanzinados,
medo que ele fique entalado,
medo de não conseguir executar
o serviço até ao fim
ou que possa doer tanto
que o pânico
nos destrua
o sonho de uma evacuação
tranquila
.
MG 2013
segunda-feira, março 18, 2013
Se existem batutas que comandam
Pois então,
as verdades são ambíguas
e muito temos que reflectir:
sobre as intransigências e os incêndios,
os náufragos e as borrascas,
sobre o porquê de haver rios
que correm ao contrário,
e vontades impostas por soberanos
com consequências em seus súbditos,
sobre oportunidades desperdiçadas
e se existem batutas que comandam
maestros
.
MG 2013
sábado, março 16, 2013
quarta-feira, março 13, 2013
Cães que ladram
Cães que ladram
descontentes
com a descida do petróleo
cães em luto
pela queda do investimento
cães que arfam
no calor estival do progresso
cães que em sofrimento
mijam nas dunas
tentando sinalizar territórios
e acompanhar
os níveis de desenvolvimento
.
MG 2013
segunda-feira, março 11, 2013
O importante já não é só
agora
o importante já não é só
o programa de salvação
os projectos de mobilização
a moral dos discursos de cidadania
agora
o importante é garantir
uma bóia de salvação
mil pessoas por metro quadrado
lavar os pobres
contar os cobres
e sorrir
.
MG 2013
o importante já não é só
o programa de salvação
os projectos de mobilização
a moral dos discursos de cidadania
agora
o importante é garantir
uma bóia de salvação
mil pessoas por metro quadrado
lavar os pobres
contar os cobres
e sorrir
.
MG 2013
sexta-feira, março 08, 2013
Dizer em português
Dizem por aí
que vai ser difícil
fazer crescer salários
produzir acréscimos
de produtividade
mas eu cá
só tenho orgulho
na poesia
no instituto do mar
e da atmosfera
e acredito piamente
em todos
aqueles que são capazes
de destruir palavras,
de dizer em português:
happiness is not
beyond the horizon
over the seas
happiness happens when
we fuck the system
.
MG 2013
que vai ser difícil
fazer crescer salários
produzir acréscimos
de produtividade
mas eu cá
só tenho orgulho
na poesia
no instituto do mar
e da atmosfera
e acredito piamente
em todos
aqueles que são capazes
de destruir palavras,
de dizer em português:
happiness is not
beyond the horizon
over the seas
happiness happens when
we fuck the system
.
MG 2013
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
Qualquer coisa que lhes restabeleça
Também as palavras
por vezes carecem
de antioxidantes
qualquer coisa
que lhes restabeleça
o seu significado original
.
MG 2013
por vezes carecem
de antioxidantes
qualquer coisa
que lhes restabeleça
o seu significado original
.
MG 2013
Está provado
Está provado
que as dificuldades conjunturais
podem facilmente
conduzir-nos à poesia,
à modernidade
em todo o seu esplendor
está provado
que há verdade
nas políticas comuns
nas políticas comuns
na austeridade
do enquadramento
do enquadramento
está provada
a utilidade dos baldes
cheios de estrume
distribuídos pelas múltiplas
salas de reunião
salas de reunião
está provado
que se concretizam
que se concretizam
as previsões de crescimento
nos horóscopos
e nos telejornais
e nos telejornais
está provado
que eu sempre quis
ser um euro-cidadão
levar uma bofetada económica
ver Paris à noite, embebedar-me
nos bistrôs do quartier-latin
.
MG 2013
quarta-feira, fevereiro 27, 2013
As feridas//as cicatrizes
As feridas, as cicatrizes
o amor, a vida
a nossa vida
os dias que se sucedem
deitamo-nos na cama que fazemos
diz-me se és feliz, diz-me
se estás feliz, diz-me que és
feliz, diz-me que somos felizes
eu acredito em ti, eu sou feliz
eu acho que sou feliz
eu tenho mais anos do que
aqueles que penso que tenho
será sempre assim, os anos
os dias, os minutos, uma vida, a vida
a nossa vida.
Não tarda, acabou.
Não tarda, acabou.
Não tarda
.
MG 2013
o amor, a vida
a nossa vida
os dias que se sucedem
deitamo-nos na cama que fazemos
diz-me se és feliz, diz-me
se estás feliz, diz-me que és
feliz, diz-me que somos felizes
eu acredito em ti, eu sou feliz
eu acho que sou feliz
eu tenho mais anos do que
aqueles que penso que tenho
será sempre assim, os anos
os dias, os minutos, uma vida, a vida
a nossa vida.
Não tarda, acabou.
Não tarda, acabou.
Não tarda
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MG 2013
terça-feira, fevereiro 26, 2013
Poema//mina
Há poemas tão minados
que sempre que lhes pomos os olhos em cima
rebentam-nos na cara
.
MG 2013
que sempre que lhes pomos os olhos em cima
rebentam-nos na cara
.
MG 2013
ah, os atributos
Ah, os atributos antropomórficos
dos mercados: eles andam
excitados, descontentes, torcem
o nariz, reagem violentamente
às boas e às más notícias e
castigam
castigam
castigam
entram em pânico
e não cumprem regras
desobedecem a leis e valores
têm desejos e influenciam
os ambientes à sua volta e
manipulam
manipulam
manipulam
mas os mercados não são gente
muito menos deuses do Olimpo
ainda que comam pessoas
pessoas que se deixam devorar
de tão convencidas que estão
que os mercados são para comer
.
MG 2013
dos mercados: eles andam
excitados, descontentes, torcem
o nariz, reagem violentamente
às boas e às más notícias e
castigam
castigam
castigam
entram em pânico
e não cumprem regras
desobedecem a leis e valores
têm desejos e influenciam
os ambientes à sua volta e
manipulam
manipulam
manipulam
mas os mercados não são gente
muito menos deuses do Olimpo
ainda que comam pessoas
pessoas que se deixam devorar
de tão convencidas que estão
que os mercados são para comer
.
MG 2013
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Dias à cabeça
Carrego
dias
à
cabeça
mas
o que mais
me
custa
é
resistir
ao
infinito
a
poesia maniqueísta
a
balbúrdia
dos
telejornais
.
MG
segunda-feira, janeiro 28, 2013
Como explicar
Como explicar
a vida
basta a verdade
a poesia
e o amor
o puto a mostrar-te
a toda a hora
sem palavras
que é filho
da tua birra
do percurso
que escolheste
e mudar-lhe as fraldas
é como quem muda
palavras de um poema
acaba por ser
sempre
da mesma maneira
às tantas
torna-se mecânico
a prática
resolve a questão
com o poema
também é assim
queres é vê-lo
nascer crescer transformar-se
para poderes dizer
que foste tu
o responsável
não sabes bem do quê
.
MG
a vida
basta a verdade
a poesia
e o amor
o puto a mostrar-te
a toda a hora
sem palavras
que é filho
da tua birra
do percurso
que escolheste
e mudar-lhe as fraldas
é como quem muda
palavras de um poema
acaba por ser
sempre
da mesma maneira
às tantas
torna-se mecânico
a prática
resolve a questão
com o poema
também é assim
queres é vê-lo
nascer crescer transformar-se
para poderes dizer
que foste tu
o responsável
não sabes bem do quê
.
MG
quinta-feira, janeiro 24, 2013
Recorte de um poema antigo
Não é a memória que tropeça no poema
é o poema que emerge sempre
em viva voz da clara luz dos teus olhos
.
MG
é o poema que emerge sempre
em viva voz da clara luz dos teus olhos
.
MG
quarta-feira, janeiro 16, 2013
Era preciso um tempo
era preciso um tempo para nós
outra vez
alguém que nos soubesse explicar
a nós próprios
um tempo em que nos pudéssemos despir
de quem somos
todos os dias
era preciso que tivéssemos tempo
e que nos ouvíssemos
que soubéssemos gritar na noite escura
era preciso que fossemos mais nós
era preciso sermos crianças
outra vez
.
MG
outra vez
alguém que nos soubesse explicar
a nós próprios
um tempo em que nos pudéssemos despir
de quem somos
todos os dias
era preciso que tivéssemos tempo
e que nos ouvíssemos
que soubéssemos gritar na noite escura
era preciso que fossemos mais nós
era preciso sermos crianças
outra vez
.
MG
Olhar o mundo
Se para olharmos
o mundo
hoje em dia
é preciso distorcermos
o olhar
já que o mundo
ele próprio
se apresenta torto
pois que o distorçamos
mas não nos desviemos
nunca
daquilo que verdadeiramente
importa
.
MG
o mundo
hoje em dia
é preciso distorcermos
o olhar
já que o mundo
ele próprio
se apresenta torto
pois que o distorçamos
mas não nos desviemos
nunca
daquilo que verdadeiramente
importa
.
MG
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