quarta-feira, fevereiro 27, 2013

As feridas//as cicatrizes

As feridas, as cicatrizes
o amor, a vida
a nossa vida
os dias que se sucedem
deitamo-nos na cama que fazemos
diz-me se és feliz, diz-me 
se estás feliz, diz-me que és 
feliz, diz-me que somos felizes
eu acredito em ti, eu sou feliz
eu acho que sou feliz
eu tenho mais anos do que 
aqueles que penso que tenho
será sempre assim, os anos
os dias, os minutos, uma vida, a vida
a nossa vida. 
Não tarda, acabou. 
Não tarda, acabou. 
Não tarda
.
MG 2013

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Poema//mina

Há poemas tão minados
que sempre que lhes pomos os olhos em cima
rebentam-nos na cara
.
MG 2013

ah, os atributos

Ah, os atributos antropomórficos 
dos mercados: eles andam 
excitados, descontentes, torcem 
o nariz, reagem violentamente 
às boas e às más notícias e 

castigam
castigam
castigam

entram em pânico
e não cumprem regras
desobedecem a leis e valores
têm desejos e influenciam
os ambientes à sua volta e

manipulam
manipulam
manipulam

mas os mercados não são gente
muito menos deuses do Olimpo
ainda que comam pessoas
pessoas que se deixam devorar
de tão convencidas que estão
que os mercados são para comer
.
MG 2013

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Dias à cabeça


Carrego dias
à cabeça
mas o que mais
me custa
é resistir
ao infinito
a poesia maniqueísta
a balbúrdia
dos telejornais
.
MG

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Como explicar

Como explicar
a vida

basta a verdade
a poesia

e o amor

o puto a mostrar-te
a toda a hora
sem palavras
que é filho
da tua birra
do percurso
que escolheste

e mudar-lhe as fraldas
é como quem muda
palavras de um poema

acaba por ser
sempre
da mesma maneira

às tantas
torna-se mecânico

a prática
resolve a questão

com o poema
também é assim

queres é vê-lo
nascer crescer transformar-se
para poderes dizer
que foste tu
o responsável
não sabes bem do quê
.
MG

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Recorte de um poema antigo

Não é a memória que tropeça no poema 
é o poema que emerge sempre
em viva voz da clara luz dos teus olhos
.
MG

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Era preciso um tempo

era preciso um tempo para nós
outra vez
alguém que nos soubesse explicar 
a nós próprios
um tempo em que nos pudéssemos despir 
de quem somos
todos os dias
era preciso que tivéssemos tempo
e que nos ouvíssemos
que soubéssemos gritar na noite escura
era preciso que fossemos mais nós
era preciso sermos crianças
outra vez
.
MG

Olhar o mundo

Se para olharmos
o mundo 
hoje em dia
é preciso distorcermos 
o olhar
já que o mundo
ele próprio
se apresenta torto
pois que o distorçamos
mas não nos desviemos
nunca
daquilo que verdadeiramente
importa

.
MG

sábado, dezembro 15, 2012

Armas//poemas

Todas as armas
fossem poemas
e, aí sim
seríamos livres
para atingir
quem quiséssemos
na cabeça ou
no coração


.


MG 2012

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Poemas mimados

Há poemas
tão mimados
que sempre que
lhes impomos limites
regras e horários
fazem birra
e não nos saem
mesmo
da cabeça
.
MG 2012

quinta-feira, dezembro 13, 2012

a cair

uma ideia
recorrente
.
sentirmo-nos
a cair
do mundo
abaixo
.
MG 2012

os dias acabam

os dias
acabam sempre
por rasgar-nos
a farda
.
MG 2012

Poemas//incendios

Há poemas
que são
incendios
.
MG 2012

Numa situação

Numa situação 
de desespero 
a tudo 
se recorre,
principalmente 
à poesia
.
MG 2012

Poemas//minas

Há poemas
que estão minados
sem aviso
a verdade 
das palavras
rebenta-nos 
em cima
.
MG 2012

sábado, dezembro 08, 2012

[Um poema para o meu amor]


Há um verdadeiro potencial
destrutivo
em tudo aquilo que escrevemos,
dizemos, vertemos
pela boca
um discurso
capaz de desmantelar
a assertividade do nosso amor
a força desta coisa enorme
e a verdade é que
é quase impossível destruí-lo
mas uma simples distracção
é uma armadilha
um mero descuido tem a força
de confundir a utopia
das nossas certezas
e da pior forma possível
nos convencemos
que não há doutrinas
ultra-revolucionárias
livros capazes de nos ensinar
certificados que comprovem
a ciência da unificação
contemos apenas
com o programa rigoroso
do nosso olhar
e deixemos-nos andar
assim
porque como se diz
por aí
enquanto isto dura
é doçura
.
MG 2012

sábado, dezembro 01, 2012

a mecânica das coisas

a verdade é que
resvalamos 
mais facilmente 
para o sonho
sempre que 
mergulhamos 
fundo na vida
e torna-se fácil
falar da solidão
recordarmos o início
de tudo, a mecânica
das coisas
em dias nebulosos
daqueles em que
nada de importante
acontece


.


MG 2012

terça-feira, novembro 20, 2012

um fogo selvagem

o amor é um fogo selvagem
primeiro custa a atear
depois não dás conta dele
.
MG 2012

quinta-feira, novembro 15, 2012

de olhos bem abertos

um dia 
a nossa voz
inundará de verdade
o mundo 
a realidade
das casas erguidas
com gritos de amor
não desanimemos
que nada se vai 
assim sem mais 
nós não ardemos 
só porque nos querem
de olhos bem fechados
é imensamente forte
aquilo que construímos
e nada extingue
o calor das palavras
a necessária respiração 
de um texto como este
as chamas são 
o nosso refúgio
o fogo das nossas conquistas
a queimar
uma qualquer 
folha de papel
um dia o medo
será a nossa força
um falcão
de asas ao vento
voando livre
vendo o mundo 
de cima
.
MG 2012

quinta-feira, novembro 01, 2012

1 de novembro

Em Faro morava em frente ao cemitério. Via-o de cima, de um quarto andar. Tinha uma vizinha que quando o sol se punha não saía de casa. Entrava no prédio pela porta de trás. A minha mãe costumava dizer-lhe - ainda diz - que não temos de ter medo de quem já partiu. Quem por cá ainda anda é muito mais perigoso. Lembrei-me disso porque hoje é dia de recordar os nossos que já partiram, nós que havemos de partir. É tempo disso tudo, sem medos. É tempo de pensarmos que um dia estaremos todos juntos outra vez, num lugar qualquer, num tempo que não existe. Como sempre foi o tempo, antes de cá virmos, e depois, quando partirmos: uma coisa que não existe.