quinta-feira, dezembro 13, 2012

a cair

uma ideia
recorrente
.
sentirmo-nos
a cair
do mundo
abaixo
.
MG 2012

os dias acabam

os dias
acabam sempre
por rasgar-nos
a farda
.
MG 2012

Poemas//incendios

Há poemas
que são
incendios
.
MG 2012

Numa situação

Numa situação 
de desespero 
a tudo 
se recorre,
principalmente 
à poesia
.
MG 2012

Poemas//minas

Há poemas
que estão minados
sem aviso
a verdade 
das palavras
rebenta-nos 
em cima
.
MG 2012

sábado, dezembro 08, 2012

[Um poema para o meu amor]


Há um verdadeiro potencial
destrutivo
em tudo aquilo que escrevemos,
dizemos, vertemos
pela boca
um discurso
capaz de desmantelar
a assertividade do nosso amor
a força desta coisa enorme
e a verdade é que
é quase impossível destruí-lo
mas uma simples distracção
é uma armadilha
um mero descuido tem a força
de confundir a utopia
das nossas certezas
e da pior forma possível
nos convencemos
que não há doutrinas
ultra-revolucionárias
livros capazes de nos ensinar
certificados que comprovem
a ciência da unificação
contemos apenas
com o programa rigoroso
do nosso olhar
e deixemos-nos andar
assim
porque como se diz
por aí
enquanto isto dura
é doçura
.
MG 2012

sábado, dezembro 01, 2012

a mecânica das coisas

a verdade é que
resvalamos 
mais facilmente 
para o sonho
sempre que 
mergulhamos 
fundo na vida
e torna-se fácil
falar da solidão
recordarmos o início
de tudo, a mecânica
das coisas
em dias nebulosos
daqueles em que
nada de importante
acontece


.


MG 2012

terça-feira, novembro 20, 2012

um fogo selvagem

o amor é um fogo selvagem
primeiro custa a atear
depois não dás conta dele
.
MG 2012

quinta-feira, novembro 15, 2012

de olhos bem abertos

um dia 
a nossa voz
inundará de verdade
o mundo 
a realidade
das casas erguidas
com gritos de amor
não desanimemos
que nada se vai 
assim sem mais 
nós não ardemos 
só porque nos querem
de olhos bem fechados
é imensamente forte
aquilo que construímos
e nada extingue
o calor das palavras
a necessária respiração 
de um texto como este
as chamas são 
o nosso refúgio
o fogo das nossas conquistas
a queimar
uma qualquer 
folha de papel
um dia o medo
será a nossa força
um falcão
de asas ao vento
voando livre
vendo o mundo 
de cima
.
MG 2012

quinta-feira, novembro 01, 2012

1 de novembro

Em Faro morava em frente ao cemitério. Via-o de cima, de um quarto andar. Tinha uma vizinha que quando o sol se punha não saía de casa. Entrava no prédio pela porta de trás. A minha mãe costumava dizer-lhe - ainda diz - que não temos de ter medo de quem já partiu. Quem por cá ainda anda é muito mais perigoso. Lembrei-me disso porque hoje é dia de recordar os nossos que já partiram, nós que havemos de partir. É tempo disso tudo, sem medos. É tempo de pensarmos que um dia estaremos todos juntos outra vez, num lugar qualquer, num tempo que não existe. Como sempre foi o tempo, antes de cá virmos, e depois, quando partirmos: uma coisa que não existe.

é tempo sei lá já do quê

às vezes apetece-me encher 
isto de linques
e pensamentos apolíticos 
mas que raio
disso estamos todos fartos. 
A partir de agora só bombas,
querosene, gasolina,
verilaites verbais
e coqueteiles holofotes.
Raios ta partam
se o mundo está feio
e eu não quero torná-lo mais
feio do que ele já é
quero contribuir
para uma limpeza necessária
um feicelift
as palavras por si só
estão a mais
é preciso mais acção,
pluralidade, mais revoltas
partidárias
é tempo de nos amarmos
outra vez
é tempo sei lá
já do quê
.
MG 2012

segunda-feira, outubro 22, 2012

A força dos ventos


e como custa
a selvajaria dos dias
o desrespeito e a ignorância
a poesia renascentista
em tempos de desilusão
a força dos ventos favoráveis
na ilusão de alguns
quando a borrasca
é mais que evidente

e como custa
ser suplente num jogo
para o qual fomos
convocados à força
a potência da verdade
as mãos atadas
no corpo caído
enquanto tudo
arde
.
MG 2012

agora que penso nisso


agora que penso nisso
a sério
se calhar não é assim
tão mau
é por uma causa
maior
um portugal moderno
ao jeito
sul-europeu
.
MG 2012

Poemário orçamental [24]


Este podia muito bem ter sido
mais um poema de amor
escrito a pensar em ti

não tivesse sido ele redigido
sob um clima de austeridade
e as palavras fossem já
tão caras ou difíceis de obter

achei mais prudente não avançar
tamanho foi o receio de não ser capaz
de honrar esse outrora
tão mais fácil compromisso
.
MG 2012

quarta-feira, setembro 19, 2012

Das equivalências

Um raio 
que os parta
é equivalente
(tem o mesmo 
número de créditos)
que um puta 
que os pariu
.
MG 2012

Poemário orçamental [23]


A poesia:
um paraíso fiscal
uma região autónoma
livre de tributação
.
MG 2012

Poemário orçamental [22]


um poema que pudesse
ser abatido
em sede de irs
.
MG 2012

se calhar não é assim tão mau


agora que penso nisso
a sério
se calhar não é assim
tão mau
é por uma causa
maior
um portugal moderno
ao jeito
sul-europeu
.
MG 2012

terça-feira, setembro 04, 2012

Das touradas


Do que neste preciso
momento sinto a falta
para animar a tarde
deste escritório submisso
é de uma touradazita
um cavalo em fúria
a entrar porta adentro
alguém de casaco pimpão
atestado de lantejoulas
bandarilha em riste
gritando
puta que pariu
àquele que inventou
o trabalho
.
MG 2012

segunda-feira, setembro 03, 2012

Da violência conjugal / Poemário orçamental [21]


Ela bem tentou explicar-lhe
o problema
de uma forma simples
e descontraída:
em qualquer país civilizado
se estivesse a ser julgada
por um crime passional, orçamental
ou qualquer coisa parecida,
o Estado podia achar
que queria fugir
e, por isso,
tentava impedi-la,
retirando-lhe o passaporte.

O passaporte, ao contrário
do que muita gente pensa,
é uma concessão
e não um direito.

O amor deles devia ter
funcionado numa lógica semelhante 
mas com uma pequena diferença:
devia ter sido, sim, uma entrega temporária, 
condicionada
a um determinado conjunto
de regras ou leis
que, por norma,
e como em qualquer relação civilizada,
podiam ter sido
revogáveis; o passaporte, 
no entanto,
era uma coisa que nunca 
ele lhe deveria ter confiscado
quando a atingiu
com dois tiros na loucura 
do amor

MG 2012