quinta-feira, novembro 01, 2012

1 de novembro

Em Faro morava em frente ao cemitério. Via-o de cima, de um quarto andar. Tinha uma vizinha que quando o sol se punha não saía de casa. Entrava no prédio pela porta de trás. A minha mãe costumava dizer-lhe - ainda diz - que não temos de ter medo de quem já partiu. Quem por cá ainda anda é muito mais perigoso. Lembrei-me disso porque hoje é dia de recordar os nossos que já partiram, nós que havemos de partir. É tempo disso tudo, sem medos. É tempo de pensarmos que um dia estaremos todos juntos outra vez, num lugar qualquer, num tempo que não existe. Como sempre foi o tempo, antes de cá virmos, e depois, quando partirmos: uma coisa que não existe.

é tempo sei lá já do quê

às vezes apetece-me encher 
isto de linques
e pensamentos apolíticos 
mas que raio
disso estamos todos fartos. 
A partir de agora só bombas,
querosene, gasolina,
verilaites verbais
e coqueteiles holofotes.
Raios ta partam
se o mundo está feio
e eu não quero torná-lo mais
feio do que ele já é
quero contribuir
para uma limpeza necessária
um feicelift
as palavras por si só
estão a mais
é preciso mais acção,
pluralidade, mais revoltas
partidárias
é tempo de nos amarmos
outra vez
é tempo sei lá
já do quê
.
MG 2012

segunda-feira, outubro 22, 2012

A força dos ventos


e como custa
a selvajaria dos dias
o desrespeito e a ignorância
a poesia renascentista
em tempos de desilusão
a força dos ventos favoráveis
na ilusão de alguns
quando a borrasca
é mais que evidente

e como custa
ser suplente num jogo
para o qual fomos
convocados à força
a potência da verdade
as mãos atadas
no corpo caído
enquanto tudo
arde
.
MG 2012

agora que penso nisso


agora que penso nisso
a sério
se calhar não é assim
tão mau
é por uma causa
maior
um portugal moderno
ao jeito
sul-europeu
.
MG 2012

Poemário orçamental [24]


Este podia muito bem ter sido
mais um poema de amor
escrito a pensar em ti

não tivesse sido ele redigido
sob um clima de austeridade
e as palavras fossem já
tão caras ou difíceis de obter

achei mais prudente não avançar
tamanho foi o receio de não ser capaz
de honrar esse outrora
tão mais fácil compromisso
.
MG 2012

quarta-feira, setembro 19, 2012

Das equivalências

Um raio 
que os parta
é equivalente
(tem o mesmo 
número de créditos)
que um puta 
que os pariu
.
MG 2012

Poemário orçamental [23]


A poesia:
um paraíso fiscal
uma região autónoma
livre de tributação
.
MG 2012

Poemário orçamental [22]


um poema que pudesse
ser abatido
em sede de irs
.
MG 2012

se calhar não é assim tão mau


agora que penso nisso
a sério
se calhar não é assim
tão mau
é por uma causa
maior
um portugal moderno
ao jeito
sul-europeu
.
MG 2012

terça-feira, setembro 04, 2012

Das touradas


Do que neste preciso
momento sinto a falta
para animar a tarde
deste escritório submisso
é de uma touradazita
um cavalo em fúria
a entrar porta adentro
alguém de casaco pimpão
atestado de lantejoulas
bandarilha em riste
gritando
puta que pariu
àquele que inventou
o trabalho
.
MG 2012

segunda-feira, setembro 03, 2012

Da violência conjugal / Poemário orçamental [21]


Ela bem tentou explicar-lhe
o problema
de uma forma simples
e descontraída:
em qualquer país civilizado
se estivesse a ser julgada
por um crime passional, orçamental
ou qualquer coisa parecida,
o Estado podia achar
que queria fugir
e, por isso,
tentava impedi-la,
retirando-lhe o passaporte.

O passaporte, ao contrário
do que muita gente pensa,
é uma concessão
e não um direito.

O amor deles devia ter
funcionado numa lógica semelhante 
mas com uma pequena diferença:
devia ter sido, sim, uma entrega temporária, 
condicionada
a um determinado conjunto
de regras ou leis
que, por norma,
e como em qualquer relação civilizada,
podiam ter sido
revogáveis; o passaporte, 
no entanto,
era uma coisa que nunca 
ele lhe deveria ter confiscado
quando a atingiu
com dois tiros na loucura 
do amor

MG 2012

segunda-feira, agosto 27, 2012

Poemário orçamental [20]


Dizes-me que não sabes
o que se passa com o mundo
connosco
nós somos a metáfora do mundo
um lábio contra o outro
numa incessante contenda
pela posse da matéria concreta,
do corpo metafísico.
Não há dinheiro que compre
o amor
nem amor que devolva
a verdade
.
MG 2012

segunda-feira, agosto 20, 2012

Um poema para Raymond Carver / Poemário orçamental [19]


Os melhores vocábulos
os mais rigorosos
não se podem comprar
vender ou negociar;
a dificuldade em ajustar
uma vírgula
que nos permita respirar
por entre a turbulência
das palavras, a articulação do ar.
Há que ser hábil
na complexidade do dizer
expor sem querer ludibriar
as verdades amplas do olhar

Para Raymond Carver

MG 2012

Poemário orçamental [18]


Abandonar os poemas
ditos às prestações
e regularizar de vez
as dívidas afectivas
contraídas em momentos
de desorientação emocional.
De ora em diante,
apenas palavras genuínas
assanhadas de paixão
e a verdade, sincera e descontraída
mais tudo aquilo que possa
amortizar os calotes de amor
.
MG 2012

Poemário orçamental [17]


A poesia
é um investimento
de alto risco:
há sempre
a possibilidade
de perdermos
o chão
.
MG 2012

Poemário orçamental [16]


Uma verdadeira negociante de emoções
um dia disseste-me que gostavas
do hipnotismo da poesia
de traficar tumultos do coração
de aceitar propostas ousadas
ainda hoje era capaz de me endividar
só para que me resgatasses
da crise dos dias
.
MG 2012

segunda-feira, julho 02, 2012

Boris Chimp 504 vs Miguel Godinho

Performance audiovisual, som e imagem do hiper-espaço de Boris + escrita e declamação de poemas marotos do Miguel Godinho.
(apresentação do livro "Poemário Prostibular")

Sabado 23/06/2012 - Faro / Artistas


O perigo dos coriscos


Dentro da cabeça há coisas
que, de uma forma muito delicada,
nos recomendam prudência,
entidades muito antigas que nos
advertem para o perigo dos coriscos,
para o problema das intermitências
entre a memória e o dizer,
realidades que não se podem referir 
numa palavra ou num texto
mas ainda assim assumimos a questão
avançamos rumo ao precipício
pegamos na caneta e no papel
e arriscamos a combustão
.
MG 2012

Poemário orçamental [15]


Um poeta-economista:
sabia perfeitamente
que o poema
tal como o dinheiro
devia ser um meio de troca
de difícil falsificação
utilizado para acumular valores
facilmente fraccionado
e constantemente
redistribuído
.
MG 2012

Poemário orçamental [14]


Largar-te o poema
na boca
deixá-lo operar
até que a beleza
destruidora 
das palavras
lhe revele
o seu valor real
.
MG 2012