quinta-feira, junho 28, 2012

O perigo dos coriscos


Dentro da cabeça há coisas
que, de uma forma muito delicada,
nos recomendam prudência,
entidades muito antigas que nos 

advertem para o perigo dos coriscos, 
para o problema das intermitências 
entre a memória e o dizer, 
realidades que não se podem 
referir numa palavra ou num texto
mas ainda assim assumimos a questão
avançamos rumo ao precipício
pegamos na caneta e no papel
e arriscamos a combustão
.
MG 2012


Poemário orçamental [12]


Eras perita a vender palavras
abaixo do preço de mercado,
oferecias poesias
sem calcular as consequências 
os estragos, o alcance
a dimensão, o seu custo real
.
MG 201

terça-feira, junho 26, 2012

Poemário orçamental [11]


A verdadeira aliteração
dos dias de hoje
é ser capaz de
dizer sem medo
que o dinheiro
não dura já do modo
que durava antigamente
que os vendedores
de sonhos estão doentes
dir-se-ía enfermos
criaturas domesticadas
sem estratégia extraordinária
para impedir
a ausência de amor
.
MG 2012

sexta-feira, junho 22, 2012

Poemário orçamental [10]


O dever
de retracção nos gastos
constrange os poetas
da novíssima geração
recomenda-lhes
contenção nas palavras,
uma poesia mais austera
.
MG 2012

Poemário orçamental [9]


Um poema que só enunciasse derrapagens
incumprimentos das metas fixadas
(aliás, um poema tem metas?)
que fosse ele próprio frouxo
mais frouxo do que o previsto
a causa da recessão
 que não parasse de aumentar
a dívida das contas gerais
que persistisse na instabilidade
e que fosse tão inconstante quanto possível
que obrigasse permanentemente
a ajustamentos estruturais:
seria esse o poema mais moderno de todos
busca incessante de todo e qualquer
poeta da contemporaneidade
.
MG 2012

quinta-feira, junho 21, 2012

Poemário orçamental [8]


Um país que recusasse
os setenta e seis milhões de poemas
que constituem um determinado
plano de ajuda financeira
indispensável ao equilíbrio 
das nossas contas públicas
.
MG 2012

quarta-feira, junho 20, 2012

Poemário orçamental [7]



Um plano de ajuda financeira
que ditasse o equilíbrio
das contas públicas:
um país
que nos oferecesse
setenta e seis mil
milhões de poemas

.
MG 2012

terça-feira, junho 12, 2012

Poemário orçamental [6]


E apesar do clima
de incerteza
ainda fomos a tempo 
de inverter as perdas, 
de garantir o retorno 
do investimento:
fechámos a sessão
do dia em alta,
capitalizámos
o nosso amor
.
MG 2012

quinta-feira, junho 07, 2012

Poemário orçamental [5]


Um resgate inevitável:
o cenário mais indicado
depois dos juros da dívida
terem assumido um novo máximo
na realidade do nosso amor
.
MG 2012

quarta-feira, maio 30, 2012

Poemário orçamental [4]

Merecias apenas
este poema mínimo,
a remuneração
mais baixa que por lei
estava obrigado a pagar
pelo tempo e esforço gastos
na lavra do nosso amor
.
MG 2012

segunda-feira, maio 28, 2012

Poemário orçamental [3]



Gostava muito de dizer
que os seus poemas
actuavam à escala global
tinham potencial de crescimento
um valor de mercado
incomensurável
mas a verdade é que
sempre que os publicava
sentia-se a caminhar
a passos largos
em direcção ao colapso 
financeiro
.
MG 2012

Poemário orçamental [2]


Terás de inventar
uma resposta credível
quando o gerente de contas
te perguntar
para quê mais investimento
num poema que já não rende
.
MG 2012

Poemário orçamental [1]


Sempre que me
beijas os pés
a economia contrai-se
.
MG 2012

quarta-feira, maio 16, 2012

Poemário prostibular



Declaro o prostíbulo clandestinamente aberto.
Aquele que desejar possuir uma destas meninas, faça o favor de dizer.

Título: Poemário prostibular
Edição de autor / 100 exemplares numerados
Encomendas: miguelangelogodinho@gmail.com / 7,00€

sexta-feira, maio 11, 2012

rascunhos [3]


a vida
cada vez mais
um arranhão
uma queda serena
em direcção ao charco

admito: é tarde agora
e estou cansado do lodo
do silêncio pardo
das horas
.
MG 2012

quarta-feira, maio 09, 2012

rascunhos [2]


É fácil erguer uma catedral
mais difícil é construir
um poema
.
MG 2012

rascunhos [1]

À noite todas as horas
tomam conta de mim
de mansinho
os assombros
revelações violentas
línguas torcidas
dentro da boca
palavras soltas
a poesia selvagem
da lua infiltrada
pelo dorso das marés

fazes-me falta, sabias

terça-feira, maio 01, 2012

Poemário prostibular

Disponível a partir da próxima semana.
.

Título: Poemário prostibular
Edição de autor / 100 exemplares numerados
Encomendas: miguelangelogodinho@gmail.com / 7,00€

sexta-feira, março 23, 2012

«In an artist's studio»

One face looks out from all his canvases,
One selfsame figure sits or walks or leans:
We found her hidden just behind those screens,
That mirror gave back all her loveliness.
A queen in opal or in ruby dress,
A nameless girl in freshest summer-greens,
A saint, an angel -- every canvas means
The same one meaning, neither more nor less.
He feeds upon her face by day and night,
And she with true kind eyes looks back on him,
Fair as the moon and joyful as the light:
Not wan with waiting, not with sorrow dim;
Not as she is, but was when hope shone bright;
Not as she is, but as she fills his dream.

Christina Rossetti

domingo, março 04, 2012

Antes que seja tarde demais
.

1. Nunca sabemos quão perto estamos do fim. Nos vários domínios da vida, estamos todos tão ligados por esta certeza. Todos. Tudo. Uma relação que parece tão harmoniosa e que, de um momento para o outro, se interrompe, acaba; um ser que, possuidor de uma vida aparentemente interminável mas que, sem razão consistente, falece; uma verdade tão coerente e que, de momento para o outro, é aniquilada por outra mais certeira.

2. Passamos a vida a ser surpreendidos pela vida. É o vizinho que deixou a mulher, depois de tantos anos em comum, dois filhos, um relacionamento estável, ninguém diria; o irmão que nunca teve problemas de saúde, tinha deixado de fumar há um ano, assim que fez trinta – conforme prometido, ganhara o hábito de correr na mata dia sim, dia não. De repente, um problema grave detectado num exame de rotina, seis meses de vida, no máximo, uma desgraça.

3. A vida prega-nos partidas, sabemo-lo, puxa-nos o tapete a toda hora mas somos os primeiros a irritar-nos com as partidas que a vida nos prega, dona e senhora de um mundo que parece rolar desgovernado, sem um curso pré-definido, sem uma mão aparente, sem dó de ninguém. E toda a gente espera por um sinal que preceda a decadência, por uma preparação apropriada, uma despedida que seja, antes de uma partida não anunciada, um adeus antes do fim.

4. Tarde demais percebemos que quase nunca fomos capazes de ouvir as palavras ditas em silêncio, de sentir os sinais, entender os indícios, de ler nas entrelinhas, de perceber o que estava diante dos nossos olhos. A vida corre a uma velocidade que não nos deixa perceber os avisos. Se ao menos nos permitissem uma visão mais apurada, essas forças ocultas que mandam no mundo. Mas tudo vai correr bem. Amanhã será um novo dia. Acalma-te. Tenta relaxar que amanhã será um novo dia. Ainda que o pessimismo das horas que passam nos queira fazer crer o contrário, amanhã será um novo dia. O mundo não pára de girar, tudo se repete, isto roda mas volta sempre ao mesmo lugar, é uma volta de 360 graus, tudo se irá repetir, noutras coordenadas, num outro dia, outras caras, outra realidade.

5. Passamos metade da vida à espera que a vida passe e outra metade à espera que ela se detenha. Corremos atrás do tempo não para apanhá-lo mas para que ele não nos deixe para trás, não nos passe a perna, para que não se esqueça de nós. E é tão fácil perdermo-nos na imensidão das nossas rotinas, nos instantes das nossas escolhas, tantas vezes imponderadas, na seriedade das coisas às quais atribuímos tanta importância mas que não têm importância nenhuma. Tantas vezes nos orientamos num caminho errado, damos atenção a quem não nos quer como devia. E quando damos por nós estamos gastos, envelhecidos, denegridos pelo sonho que deixámos voar, já cá não está quem amávamos.

6. A nossa vida não é só a nossa vida. É muito mais que isso. É fácil esquecermo-nos de coisas, factos, memórias, de pessoas que fazem ou fizeram, num determinado momento, parte da nossa vida. E é tão simples inventarmos mil e uma maneiras de nos olvidarmos que somos parte daqueles que nos aturaram ou aturam todos os dias, devemos-lhes muito, muito mais do que aquilo que achamos que devemos, somos uma parte deles, somos o que somos por causa deles. Lembremo-nos da nossa enorme capacidade de nos surpreendermos, de nos maravilharmos com um sorriso amigo, de estendermos a mão a alguém que precise dela. A vida é aquilo que quisermos fazer com ela, que soubermos fazer dela, antes que seja tarde demais, antes que nos apercebamos «das coisas que perdemos no fogo», antes que os dias que passam passem e não voltem mais. E não voltem mais.


Publicado no Jornal do Baixo Guadiana (Março 2012)