À noite todas as horas
tomam conta de mim
de mansinho
os assombros
revelações violentas
línguas torcidas
dentro da boca
palavras soltas
a poesia selvagem
da lua infiltrada
pelo dorso das marés
fazes-me falta, sabias
quarta-feira, maio 09, 2012
terça-feira, maio 01, 2012
Poemário prostibular
Disponível a partir da próxima semana.
.
Título: Poemário prostibular
Edição de autor / 100 exemplares numerados
Encomendas: miguelangelogodinho@gmail.com / 7,00€
.
Título: Poemário prostibular
Edição de autor / 100 exemplares numerados
Encomendas: miguelangelogodinho@gmail.com / 7,00€
sexta-feira, março 23, 2012
«In an artist's studio»
One face looks out from all his canvases,
One selfsame figure sits or walks or leans:
We found her hidden just behind those screens,
That mirror gave back all her loveliness.
A queen in opal or in ruby dress,
A nameless girl in freshest summer-greens,
A saint, an angel -- every canvas means
The same one meaning, neither more nor less.
He feeds upon her face by day and night,
And she with true kind eyes looks back on him,
Fair as the moon and joyful as the light:
Not wan with waiting, not with sorrow dim;
Not as she is, but was when hope shone bright;
Not as she is, but as she fills his dream.
Christina Rossetti
One face looks out from all his canvases,
One selfsame figure sits or walks or leans:
We found her hidden just behind those screens,
That mirror gave back all her loveliness.
A queen in opal or in ruby dress,
A nameless girl in freshest summer-greens,
A saint, an angel -- every canvas means
The same one meaning, neither more nor less.
He feeds upon her face by day and night,
And she with true kind eyes looks back on him,
Fair as the moon and joyful as the light:
Not wan with waiting, not with sorrow dim;
Not as she is, but was when hope shone bright;
Not as she is, but as she fills his dream.
Christina Rossetti
domingo, março 04, 2012
Antes que seja tarde demais
.
1. Nunca sabemos quão perto estamos do fim. Nos vários domínios da vida, estamos todos tão ligados por esta certeza. Todos. Tudo. Uma relação que parece tão harmoniosa e que, de um momento para o outro, se interrompe, acaba; um ser que, possuidor de uma vida aparentemente interminável mas que, sem razão consistente, falece; uma verdade tão coerente e que, de momento para o outro, é aniquilada por outra mais certeira.
2. Passamos a vida a ser surpreendidos pela vida. É o vizinho que deixou a mulher, depois de tantos anos em comum, dois filhos, um relacionamento estável, ninguém diria; o irmão que nunca teve problemas de saúde, tinha deixado de fumar há um ano, assim que fez trinta – conforme prometido, ganhara o hábito de correr na mata dia sim, dia não. De repente, um problema grave detectado num exame de rotina, seis meses de vida, no máximo, uma desgraça.
3. A vida prega-nos partidas, sabemo-lo, puxa-nos o tapete a toda hora mas somos os primeiros a irritar-nos com as partidas que a vida nos prega, dona e senhora de um mundo que parece rolar desgovernado, sem um curso pré-definido, sem uma mão aparente, sem dó de ninguém. E toda a gente espera por um sinal que preceda a decadência, por uma preparação apropriada, uma despedida que seja, antes de uma partida não anunciada, um adeus antes do fim.
4. Tarde demais percebemos que quase nunca fomos capazes de ouvir as palavras ditas em silêncio, de sentir os sinais, entender os indícios, de ler nas entrelinhas, de perceber o que estava diante dos nossos olhos. A vida corre a uma velocidade que não nos deixa perceber os avisos. Se ao menos nos permitissem uma visão mais apurada, essas forças ocultas que mandam no mundo. Mas tudo vai correr bem. Amanhã será um novo dia. Acalma-te. Tenta relaxar que amanhã será um novo dia. Ainda que o pessimismo das horas que passam nos queira fazer crer o contrário, amanhã será um novo dia. O mundo não pára de girar, tudo se repete, isto roda mas volta sempre ao mesmo lugar, é uma volta de 360 graus, tudo se irá repetir, noutras coordenadas, num outro dia, outras caras, outra realidade.
5. Passamos metade da vida à espera que a vida passe e outra metade à espera que ela se detenha. Corremos atrás do tempo não para apanhá-lo mas para que ele não nos deixe para trás, não nos passe a perna, para que não se esqueça de nós. E é tão fácil perdermo-nos na imensidão das nossas rotinas, nos instantes das nossas escolhas, tantas vezes imponderadas, na seriedade das coisas às quais atribuímos tanta importância mas que não têm importância nenhuma. Tantas vezes nos orientamos num caminho errado, damos atenção a quem não nos quer como devia. E quando damos por nós estamos gastos, envelhecidos, denegridos pelo sonho que deixámos voar, já cá não está quem amávamos.
6. A nossa vida não é só a nossa vida. É muito mais que isso. É fácil esquecermo-nos de coisas, factos, memórias, de pessoas que fazem ou fizeram, num determinado momento, parte da nossa vida. E é tão simples inventarmos mil e uma maneiras de nos olvidarmos que somos parte daqueles que nos aturaram ou aturam todos os dias, devemos-lhes muito, muito mais do que aquilo que achamos que devemos, somos uma parte deles, somos o que somos por causa deles. Lembremo-nos da nossa enorme capacidade de nos surpreendermos, de nos maravilharmos com um sorriso amigo, de estendermos a mão a alguém que precise dela. A vida é aquilo que quisermos fazer com ela, que soubermos fazer dela, antes que seja tarde demais, antes que nos apercebamos «das coisas que perdemos no fogo», antes que os dias que passam passem e não voltem mais. E não voltem mais.
Publicado no Jornal do Baixo Guadiana (Março 2012)
domingo, fevereiro 19, 2012
Antologia de poesia «Algarve - 12 Poetas a Sul do Século XXI»
Sairá em breve (ainda sem apresentações marcadas) a antologia de poesia «Algarve - 12 Poetas a Sul do Século XXI» (Editora Livros Capital), antologia que representa aquilo que alguns dos mais importantes poetas do Algarve (naturais ou adoptados) fizeram nos últimos anos.
A antologia contempla poetas com obra de poesia publicada até à primeira década do século XXI e, para além de dez poemas por autor com respectiva biografia, tem ainda um ensaio crítico sobre cada poeta, ensaio esse escrito por outro poeta.
O prefácio é de António Carlos Cortez, poeta, professor e crítico literário.
Poetas antologiados:
António Ramos Rosa
Casimiro de Brito
Fernando Esteves Pinto
Gastão Cruz
José Carlos Barros
Manuel Madeira
Miguel Godinho
Nuno Júdice
Pedro Afonso
Rui Dias Simão
Tiago Nené
Vítor Gil Cardeira
Sairá em breve (ainda sem apresentações marcadas) a antologia de poesia «Algarve - 12 Poetas a Sul do Século XXI» (Editora Livros Capital), antologia que representa aquilo que alguns dos mais importantes poetas do Algarve (naturais ou adoptados) fizeram nos últimos anos.
A antologia contempla poetas com obra de poesia publicada até à primeira década do século XXI e, para além de dez poemas por autor com respectiva biografia, tem ainda um ensaio crítico sobre cada poeta, ensaio esse escrito por outro poeta.
O prefácio é de António Carlos Cortez, poeta, professor e crítico literário.
Poetas antologiados:
António Ramos Rosa
Casimiro de Brito
Fernando Esteves Pinto
Gastão Cruz
José Carlos Barros
Manuel Madeira
Miguel Godinho
Nuno Júdice
Pedro Afonso
Rui Dias Simão
Tiago Nené
Vítor Gil Cardeira
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Os 10 melhores livros que li em 2011:
Michel Houllebecq – O mapa e o território
Damon Galgut – Um quarto desconhecido
Patti Smith - Apenas miúdos
Fernando Esteves Pinto – Brutal
Maria Dulce Cardoso - O retorno
Ricardo Adolfo – Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas
Ricardo Adolfo – Mizé – Antes galdéria do que normal e remediada
Haruki Murakami – 19Q4
Bret Easton Elis – Menos que zero
Bret Easton Elis – Quartos imperiais
Michel Houllebecq – O mapa e o território
Damon Galgut – Um quarto desconhecido
Patti Smith - Apenas miúdos
Fernando Esteves Pinto – Brutal
Maria Dulce Cardoso - O retorno
Ricardo Adolfo – Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas
Ricardo Adolfo – Mizé – Antes galdéria do que normal e remediada
Haruki Murakami – 19Q4
Bret Easton Elis – Menos que zero
Bret Easton Elis – Quartos imperiais
quarta-feira, julho 20, 2011
Os teus olhos latinos
A cegueira de um amor antigo:
como me lembro
dos teus olhos latinos,
da memória
que o tempo simplificou.
Não sei que utopia te comanda agora
mas a verdade
é que ainda recordo
a luz, o rubor
aquela coisa que alumiava
os dias
o contentamento que descobríamos
nem que fosse
num recanto de um poema
MG 2011
segunda-feira, maio 09, 2011
Eu não sou «rasca»
Acabo de me descobrir num site de alguém que desconheço. E acho que gostei do que descobri.
http://marafado.wordpress.com/2011/04/08/dias-de-um-jovem-que-nao-e-rasca/
Acabo de me descobrir num site de alguém que desconheço. E acho que gostei do que descobri.
http://marafado.wordpress.com/2011/04/08/dias-de-um-jovem-que-nao-e-rasca/
domingo, maio 01, 2011
Se tudo aquilo existiu então ainda existe (2)
se ainda não tinhas determinado o teu amor
bastava teres-me olhado de frentee terias visto que falava rigor
ter-te-ias reconhecido nos meus olhos
e sentido
a brisa oblíqua de um amor eterno
que pungia o ar
o teu nome no meu
a densidade do olhar
porque na verdade
eu fui tu
e agora
no arrulhar da memória
ainda me demoro em ti
no teu corpo débil
o rio do tempo
o corrupio das horas
a distância que nos separa
de nada importa
porque se tudo aquilo existiu
então ainda existe
então ainda existe
MG 2011
terça-feira, abril 26, 2011
era preciso um tempo para nós
era preciso um tempo para nós
outra vez
alguém que nos soubesse explicar a nós próprios
um tempo em que nos pudéssemos despir
de quem somos
todos os dias
era preciso que tivéssemos tempo
e que nos ouvíssemos
que soubéssemos gritar na noite escura
era preciso sermos crianças
outra vez
era preciso que fossemos mais nós
era preciso, outra vez
MG 2011
era preciso um tempo para nós
outra vez
alguém que nos soubesse explicar a nós próprios
um tempo em que nos pudéssemos despir
de quem somos
todos os dias
era preciso que tivéssemos tempo
e que nos ouvíssemos
que soubéssemos gritar na noite escura
era preciso sermos crianças
outra vez
era preciso que fossemos mais nós
era preciso, outra vez
MG 2011
terça-feira, abril 19, 2011
Poema manchado de ti
bandido na noite celeste
arlequim
monarca deste tempo só meu
amante idealista
(um poeta do asfalto)
trovador de instantes
num perverso desejo de viver
caneta papel e um grito de mim
e porque de um corpo nu
pouco mais há a dizer,
a tua inocência
na fresca humidade toldada:
o teu nome
no silêncio do quarto
a resvalar das sombras.
o poema acontece
outra vez
manchado de ti
MG 2011
terça-feira, abril 12, 2011
Brutal
Fernando Esteves Pinto
Ulisseia / 2011
«Brutal é um romance onde se representam todos os traumas da infância, da adolescência e da idade adulta resultantes da decadência humana: violência doméstica, abuso sexual e disfunção emocional. Brutal tem como base narrativa dois personagens que são um só – um jovem e um velho, duas idades da mesma pessoa, ambos fascinados pelo teatro – que, no cenário das suas próprias vidas, dramatizam impiedosamente os momentos que fundamentam e marcam as suas existências. Nesse palco do romance são postos em causa e analisados, até à humilhação de se sentirem culpados um do outro, na relação perversa que ambos sentem pela natureza humana. É um duelo entre a maldade e o remorso, onde o amor e a escrita são meros figurantes.»
segunda-feira, março 07, 2011
Se tudo aquilo existiu então ainda existe (I)
Agora tudo é indiferente
as pálpebras são incapazes
de segurar o sono;
é como um cortejo antigo
que devolve nomes vazios
e sem que me dê conta
regresso
sem pensar em nada
ao subúrbio onde cresci
às lições da professora zézinha
mas entretanto algo mudou
já não protesto quando me vejo sozinho
o resto não conta
(houve tanta gente que se foi)
e porque a memória é feita de nós todos
nunca me despedi verdadeiramente de ninguém
MG 2011
Verdade entre parêntesis
Nas revoltas adolescentes
a consciência de que tudo era possível
nos enredos que inventávamos
sem medo das cicatrizes.
As palavras tolas foram as mais saborosas
(e eu guardei-te para sempre o olhar)
na cegueira dos voos nocturnos
por entre os pinhais que ainda ardem
incessantemente como sangue.
Descobria o teu nome em todas as esquinas
e continuava a escrever o mesmo poema
sem preocupações,
sem que nada me incomodasse.
O suor dos nossos corpos, os disfarces inspirados,
e os antigos jogos de sedução
que não morreram e não me deixaram morrer…
A luz é eterna na fragilidade dos sonhos
e os amores antigos são tão selvagens
MG 2011
sábado, março 05, 2011
Do silêncio
ao fim do dia sentas-te em silêncio
e pensas o pensamento;
pensas o poema, o acto de pensar
e o silêncio, o teu próprio silêncio;
e pensas no silêncio daqueles que talvez
devessem ter dito alguma coisa
num determinado momento da tua vida;
porque o silêncio só é perfeito para quem quer dizer,
não para quem quer ouvir
Miguel Godinho
Subscrever:
Mensagens (Atom)




