domingo, maio 02, 2010

Ainda que imaginemos mundos (31)

Poderão tentar imprimir-nos uma verdade
ao silêncio que nos orienta o olhar,
uma chama que nos presida às obsessões
mas o rigor nunca será exacto

todas as nossas paixões:
haverá sempre uma imprecisão
nunca nos poderão descortinar
um segredo profundo e antigo
um caminho percorrido

ainda que nos queiram translúcidos
e que nos exijam como a água de um manancial intacto:
o nosso trajecto, a nossa pessoa

nesta pungente sequência de dias
guarda-se sempre um ledo balão de oxigénio
uma coisa só nossa para respirarmos
por entre a excessiva poluição

quinta-feira, abril 29, 2010

[Na ordem do dia]

(Segundo parece)

O problema são os ratings
e o contexto internacional
a Grécia que já se enterrou
com a economia numa espiral

(e, no entanto, talvez)

o problema sejam os excessos
os consórcios e as concessões
as seringadas de capital
e os contratos de milhões

(digo eu)

quarta-feira, abril 28, 2010

Ainda que imaginemos mundos (30)

Quis um dia seguir em silêncio
na vida, logo que me apercebi que te perdera

e assim esculpi
um percurso de sombras: a demência
que se assolou

Morreste-me sem aviso,
sem que te pudesse libertar

e que raio de claridade agora,
a serena vida dos outros

Que bom seria se para sempre
tudo se desenrolasse numa ilusão,
que pudesse existir eternidade
na paz dos novos dias
longe do vazio da minha pessoa

domingo, abril 25, 2010

Ainda que imaginemos mundos (29)

Tantas vezes sou só o silêncio
de uma memória antiga,
por debaixo do tapete,
num olhar distante.
Viajo sem destino,
sem sair do mesmo lugar
mas sou só uma vertigem,
um desejo de gritar o teu nome,
o delírio de ainda te sentir aqui

domingo, abril 18, 2010

Ainda que imaginemos mundos (28)

uma breve brisa de devastação
ainda me desenraíza do conforto
desta vida que escolhi
com a facilidade que se vê:
ainda recupero
os teus olhos vermelhos, assim,
perversos numa sombra sem fim,
numa alucinação interminável,
no desejo de lascívia, na inquietação
de um fantasma intemporal,
na irrealidade de nós dois, sepultados
para sempre na carne.
mas deixa-te estar,
por favor deixa-te estar que a minha loucura
de agora é este desejo,
a obsessão, nós sempre na guerra de sempre,
o sangue.
e a violência não está só nessa memória,
está nos dezoito, nos dezanove, nos vinte e cinco - não,
afinal não importa para nada a idade.
o começo da decadência
foi aperceber-me que te perdi
- é por isso que há sempre uma brisa de ruína
na deliciosa vertigem da memória:
a destruição torna-se sempre mais evidente
quando me apercebo de mim
e da impossibilidade do teu regresso

terça-feira, abril 13, 2010

Things we lost in the fire. Não me lembro de um título tão bom (para a vida) in a long time.

quarta-feira, março 31, 2010

Ainda que imaginemos mundos (28)

E se os trinta às vezes fossem
como que uma transparência sempre opaca
e a vida sempre ao contrário,
um barco a remar contra a maré dos dias,
nada daquilo que um dia imaginámos ser?
A adolescência só se vive mesmo uma vez
agora acredito
e alguns dos nossos maiores sonhos
nunca se haverão de realizar.
Coragem marinheiro
coragem que o mar é bravo

domingo, março 28, 2010

“Death is not an event in life: we do not live to experience death. If we take eternity to mean not infinitive temporal duration but timelessness, then eternal life belongs to those who live in the present. Our life has no end in just the way in which our visual field has no limits.”

Ludwig Wittgenstein (1889 — 1951)

Um sítio brilhante para descobrir a vida e o pensamento deste filósofo austríaco.

segunda-feira, março 22, 2010

Ainda que imaginemos mundos (27)

Estou sempre atrasado para a vida.
E continuo a torturar-me por um atalho
para uma memória arcaica, pelo teu regresso:
o verdadeiro delito da carne.
Esquece-me que eu prometo nunca te esquecer,
continuas sendo um fogo celeste.
Ensinaste-me o mundo
e agora já só permanece a vontade constante
de retorno, a toda a hora
e a demora constante, a ilusão
de mim próprio.
Bem sei que já não existo,
que já tudo se consumiu,
mas a verdadeira transgressão
continua a ser o teu nome, dito em silêncio

quarta-feira, março 17, 2010

E se o vento fosse apenas uma metáfora?

segunda-feira, março 15, 2010

Ainda que imaginemos mundos (26)

Limito-me a deixar que tudo aconteça,
que o mundo role desgovernado
na procura de uma realidade sincera
que me inunde outra vez.
Talvez assim não me desmorone,
talvez me aperceba pouco da eminência da morte
porque o teu nome me escapou.
E a vidinha assim vai correndo, entretanto,
por entre a calçada, numa ilusão.
Percorro o mesmo asfalto todos os dias
sem questionar a razão da decadência mas
nos teus olhos antigos, uma ferida aberta,
uma alucinação sanguínea, a verdade verdadeira,
e o rigor da memória:
há sempre uma vertigem por estancar,
sempre a mesma vertigem, os dezanove,
o felino suor dos dezanove, os teus olhos

domingo, março 07, 2010



PORTICO QUARTET
22 Março
Teatro de S. Luiz
Lisboa

Uma mistura de jazz espacial, de uma profundidade celestial, e um quase-minimalismo instrumental. Continuam a tocar de vez em quando em Southbank (Londres), de borla.
A sua aparente simplicidade musical possui a rara capacidade de jogar com as nossas mais profundas emoções: uma pérola.

A não perder.

quinta-feira, março 04, 2010



Rasguemos o veludo dos dias
com um pouco de rock selvagem.
Porquê? Porque sim, só porque sim.

terça-feira, março 02, 2010

Do acordo ortográfico

Em Outubro último, numa das viagens de regresso de Picadilly Circus a St. Pancras, dois indianos troçavam vivamente deste mundo em que actualmente vivemos. De repente, um deles dispara, indignado, uma frase de guerrilha: «language is depending on economical progress». Nunca mais me esqueci dessa verdade tão internacional.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Ainda que imaginemos mundos (25)

Na ilusão desta tarde agreste
somos outra vez assim: perpétuos
mas esta verdade é como o tempo,
que se esfuma sempre.
Onde andas desde aquele dia
em que nos sentimos uma última vez?
Onde andas meu amor selvagem?
Um pássaro longínquo que passa
anuncia-me sempre o teu regresso
e aqui me descubro, alheio, a olhar os dias.
É sempre assim quando um desejo feroz
se impõe e os teus olhos irrompem:
o reflexo de uma inocência celeste,
um objecto inominável, uma coisa,
uma esquina, um clarão:
tudo me traz de volta o teu cheiro.
Mas gosto de pensar
que seremos sempre um só
sempre que um de nós quiser

sábado, fevereiro 20, 2010

Ainda que imaginemos mundos (24)

Os dias parecem-me sempre incompletos.
nada acontece, nada de importante, nada de mais
são sempre as mesmas caras,
no mesmo sítio, sempre no sítio: é o costume:
segunda das nove e vinte às cinco e meia
terça das nove às cinco e trinta e cinco
quarta das nove e vinte às cinco e quarenta e cinco
quinta das nove e um quarto às seis
sexta das nove e meia às cinco.
e hoje é sábado e aqui me vejo sentado, outra vez
de caneta em punho a contar a semana ao papel.
Amanhã será o dia em que mais me parece
que os dias são incompletos

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

O senhor está de volta. Em grande.

Gil Scott Heron



So if you see the vulture coming
flying circles in your mind
remember there is no escaping
for he will follow close behind
only promise will be a battle:
a battle for your soul and mine..

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Ainda que imaginemos mundos (23)

Não importa que os dias se extingam
sem que nos apercebamos da sua passagem
enquanto fixamos uma caixa negra,
das nove às cinco, a troco de capital,
já que esta vida se sucede a favor
de uma suposta felicidade.
Ensinaram-nos que se faiscarmos diariamente
numa loucura prenunciada
então um dia poderemos ser grandes senhores,
ricos patrões, proprietários abastados
recheados de contentamento

se alguém, como tu,
estas palavras ler e pensar:
que verdade esta que aqui se diz
então que rasgue os dias de poesia
e queime este mundo obtuso
onde muitos vivem a julgar
que com ideias destas nos distraímos
de uma prometida ilusão de veraneio

a vida não só será bela
se tivermos bagulho no bolso:
pelo menos é o consta deste meu delírio
Penso, logo faísco.

domingo, fevereiro 07, 2010

Paradise circus: o circo do paraíso.

Nova música, do novo albúm de Massive attack. Brilhante. Bem ao estilo de Mezzanine.




Ainda que imaginemos mundos (22)

Só esperávamos um dia ser capazes
de incapacitar a força dos nossos olhos
(ou talvez não)

queríamos qualquer coisa que nos inventasse outra vez:
talvez assim esquecêssemos a podridão
deste mundo enfermo
onde tantas vezes nos imaginamos outros
onde tentamos refrescar a ilusão,
onde tudo é incompreensível,
onde tantas vezes nos escondemos:
há sempre um muro invisível a separar-nos de nós

que bom seria se a claridade resplandecesse,
se uma força imensa nos inundasse com a nossa presença
(ou talvez não) assim: nus e impuros
assim: sujos de nós

tantas coisas se disseram, coisas sem sentido
e os outros, incrédulos (eles no fundo sabem)
mas no fundo nada sabem de nós

se ao menos um dia nos deixássem ser
o que um dia quisemos ser
talvez o tempo regressasse de novo àquele tempo sem tempo
à volúpia daquela verdade arcaica
mas no fundo sabemos claramente que nunca,
nunca mais podemos ser nós