domingo, março 07, 2010



PORTICO QUARTET
22 Março
Teatro de S. Luiz
Lisboa

Uma mistura de jazz espacial, de uma profundidade celestial, e um quase-minimalismo instrumental. Continuam a tocar de vez em quando em Southbank (Londres), de borla.
A sua aparente simplicidade musical possui a rara capacidade de jogar com as nossas mais profundas emoções: uma pérola.

A não perder.

quinta-feira, março 04, 2010



Rasguemos o veludo dos dias
com um pouco de rock selvagem.
Porquê? Porque sim, só porque sim.

terça-feira, março 02, 2010

Do acordo ortográfico

Em Outubro último, numa das viagens de regresso de Picadilly Circus a St. Pancras, dois indianos troçavam vivamente deste mundo em que actualmente vivemos. De repente, um deles dispara, indignado, uma frase de guerrilha: «language is depending on economical progress». Nunca mais me esqueci dessa verdade tão internacional.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Ainda que imaginemos mundos (25)

Na ilusão desta tarde agreste
somos outra vez assim: perpétuos
mas esta verdade é como o tempo,
que se esfuma sempre.
Onde andas desde aquele dia
em que nos sentimos uma última vez?
Onde andas meu amor selvagem?
Um pássaro longínquo que passa
anuncia-me sempre o teu regresso
e aqui me descubro, alheio, a olhar os dias.
É sempre assim quando um desejo feroz
se impõe e os teus olhos irrompem:
o reflexo de uma inocência celeste,
um objecto inominável, uma coisa,
uma esquina, um clarão:
tudo me traz de volta o teu cheiro.
Mas gosto de pensar
que seremos sempre um só
sempre que um de nós quiser

sábado, fevereiro 20, 2010

Ainda que imaginemos mundos (24)

Os dias parecem-me sempre incompletos.
nada acontece, nada de importante, nada de mais
são sempre as mesmas caras,
no mesmo sítio, sempre no sítio: é o costume:
segunda das nove e vinte às cinco e meia
terça das nove às cinco e trinta e cinco
quarta das nove e vinte às cinco e quarenta e cinco
quinta das nove e um quarto às seis
sexta das nove e meia às cinco.
e hoje é sábado e aqui me vejo sentado, outra vez
de caneta em punho a contar a semana ao papel.
Amanhã será o dia em que mais me parece
que os dias são incompletos

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

O senhor está de volta. Em grande.

Gil Scott Heron



So if you see the vulture coming
flying circles in your mind
remember there is no escaping
for he will follow close behind
only promise will be a battle:
a battle for your soul and mine..

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Ainda que imaginemos mundos (23)

Não importa que os dias se extingam
sem que nos apercebamos da sua passagem
enquanto fixamos uma caixa negra,
das nove às cinco, a troco de capital,
já que esta vida se sucede a favor
de uma suposta felicidade.
Ensinaram-nos que se faiscarmos diariamente
numa loucura prenunciada
então um dia poderemos ser grandes senhores,
ricos patrões, proprietários abastados
recheados de contentamento

se alguém, como tu,
estas palavras ler e pensar:
que verdade esta que aqui se diz
então que rasgue os dias de poesia
e queime este mundo obtuso
onde muitos vivem a julgar
que com ideias destas nos distraímos
de uma prometida ilusão de veraneio

a vida não só será bela
se tivermos bagulho no bolso:
pelo menos é o consta deste meu delírio
Penso, logo faísco.

domingo, fevereiro 07, 2010

Paradise circus: o circo do paraíso.

Nova música, do novo albúm de Massive attack. Brilhante. Bem ao estilo de Mezzanine.




Ainda que imaginemos mundos (22)

Só esperávamos um dia ser capazes
de incapacitar a força dos nossos olhos
(ou talvez não)

queríamos qualquer coisa que nos inventasse outra vez:
talvez assim esquecêssemos a podridão
deste mundo enfermo
onde tantas vezes nos imaginamos outros
onde tentamos refrescar a ilusão,
onde tudo é incompreensível,
onde tantas vezes nos escondemos:
há sempre um muro invisível a separar-nos de nós

que bom seria se a claridade resplandecesse,
se uma força imensa nos inundasse com a nossa presença
(ou talvez não) assim: nus e impuros
assim: sujos de nós

tantas coisas se disseram, coisas sem sentido
e os outros, incrédulos (eles no fundo sabem)
mas no fundo nada sabem de nós

se ao menos um dia nos deixássem ser
o que um dia quisemos ser
talvez o tempo regressasse de novo àquele tempo sem tempo
à volúpia daquela verdade arcaica
mas no fundo sabemos claramente que nunca,
nunca mais podemos ser nós

quinta-feira, fevereiro 04, 2010



Há coisas que nos marcam para sempre.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Há escritores tão macacos (perdoem-me os macacos, que nenhuma culpa têm no cartório) que às vezes parece que transformam a idiotice na sua imagem de marca. Não só no papel, mas também na imagem que projectam de si próprios. Nesta questão, a idade nem sempre é uma condicionante, mas quase sempre é um factor de importância maior.
Não queiramos ser aquilo que não sabemos ser. Porque soa a macaquice. O que é facto é que estes idiotas (que sabem sê-lo com verdadeira classe de idiotas, diga-se de passagem), muitas vezes, são transportados, por enredos onde as operações de charme muito têm a dizer, para um (mini) estrelato idiota. E eles gostam. E falam disso (porque na realidade não sabem escrever). E são felizes.
Deixemo-los serem idiotas. Ao menos, à falta de algo melhor, dá-nos um assunto para escrever.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Ainda que imaginemos mundos (21)

A claridade nunca
verbaliza o perfume
ou desenha o sublime
enquanto a idade passa por mim.
Ainda assim
por debaixo da sombra
tento percorrer o rigor
mas acabo por preferir
o investimento na ilusão,
na vontade de uma outra coisa,
na vontade de ser eu, e é assim
que desligo da realidade.
Poderei algum dia chegar
de onde vim, perceber
para onde vou,
e porque sou?
Talvez uma ausência eterna
me impeça de perceber este lugar
mas sossego, porque um dia
a verdade permanecerá
no silêncio destas palavras

terça-feira, janeiro 12, 2010

"(...) o mal dos escritores é, se nada têm a dizer, não silenciarem esperando, pacientemente, por eles."

Sebastião Alba, Albas, Lisboa: Quasi, p.40.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Ainda que imaginemos mundos (20)

Ao anoitecer, na mansidão da memória,
é mais fácil transpor a fronteira.
No revolver dos sonhos,
a claridade das ilusões, e a certeza:
tudo se torna evidente ao cair do dia,
quando nos perdemos no tempo
e temos dezoito, outra vez
e temos cinquenta, ou cem,
mas temos dezoito, outra vez.
De que importa a solidão de agora
quando a noite assim traz
de volta a loucura,
quando nos apercebemos que não há idades
para nos sentirmos vivos

domingo, janeiro 10, 2010

Ainda que imaginemos mundos (19)

Sou eu a razão da minha insónia,
da indefinição de uma verdade inquinada,
que cresceu, cresceu, cresceu,
numa elevação insuspeita.
Como anseio por algo que devolva
aquela errática adolescência
e a cessação da perversão
que alimenta o ardor.
Vem de há muito este tédio
e talvez mereça a inquietude,
este terror que me sugou a memória,
mas já basta, que a tempestade é evidente.
Bem sei que a solução
em mim se encontra, mas reformei-me,
talvez para sempre, e esqueci-me
de algumas caras antigas:
o meu sonho de agora
é só sentir-me eu, outra vez

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Ainda que imaginemos mundos (18)

Sempre te agradou o silêncio
de um olhar mortal
e nas palavras absentistas
que proferias,
nunca soube se por prazer
se por defeito,
eu a definhar
na quietude,
desarmado e impotente,
nas ardentes reminiscências do sangue.
Ainda resistes ao tempo,
e nesse teu olhar
experimento agora, outra vez,
os nossos mundos longínquos
(que até se tocaram).
Por um momento-instante,
neste frio invernal,
uma ideia antiga:
tudo se transfigura
mas tu, eterna,
em mim permaneces, qual rainha indecisa.
Se algum dia te conheci,
continuas sendo ilusão.
A verdade é que te descubro sempre
no delírio dos dias.

domingo, janeiro 03, 2010

Ainda que imaginemos mundos (17)


A culpa não é nossa. Nunca é nossa.
O ruído das nossas vidas sempre foi difuso
e a distância sempre nos consumiu o olhar
mas naquela noite perdi-me (perdemo-nos)
e na verdade convulsa que nos unia,
uma vontade, que ainda perdura.
Imaginei-te eterna, numa estrada intemporal
mas na clandestinidade deste longo caminho
é já difícil sentir-te: o vazio.
Sob a chuva dos dias, para sempre,
a perfeição da tua ausência a escorrer-me
pela face. E na lentidão da vida,
neste fim do horizonte, uma certeza:
hei-de reencontrar-te
numa manhã inquieta,
para, solenemente, tudo recomeçar.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Esta escrita sou eu

Esta escrita é algo mais
que um conjunto de palavras
jogadas no papel,
é uma inquietação que sinto,
é um desejo de resgate de um tempo antigo,
uma necessidade de compreensão
do que me trouxe até aqui.
Esta escrita não é apenas a inocência
das palavras que a compõem,
não é indiferença
nem uma crítica à desconfiança de quem
vê neste hábito um propósito absurdo.
É a vontade de alguém que quer ler o mundo e
que se quer olhar de frente,
é o mais sincero intento de dizer
o que a boca não diz.
Esta escrita é o meu olhar,
é a minha boca nas minhas mãos,
é a minha voz no papel.
Esta escrita é a minha forma
de ouvir o que tenho a dizer
sobre mim próprio.
Esta escrita sou eu.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Um sítio a descobrir. Pela música, pela arte.

http://www.little-dragon.se/

Sobre os Little Dragon:

"On occasional full moons the pine trees would light up in neon auras  of lime and turquoise and the ground would shake  with a steady rumble. The tiny creature grew into a little dragon.  It wrestled with the large wind sometimes. The heat of its breath would weave in with the cool air and make patterns in the sky. Although the creature was a powerful little beast it was light as a feather and would often sleep on the leaf flowing in the breeze.



And there it would dream in a dream. These dreams were without visuals and haunted by sounds.  electric sounds and beats would pump its little  heart and make her sleep walk around the forest like a ghost dancing in the night.


And the aching of this lonely creatures heart would be reflected in bittersweet melodies both haunting and happy."  


By Ulla Tom Tom

domingo, dezembro 20, 2009

Ainda que imaginemos mundos (16)

Merecemos ao menos
uma parcela de contentamento
nesta infelicidade de estarmos vivos
por agora deixem-nos
apenas ser quem somos
nem que para isso tenhamos de inventar
uma verdade mal alinhada

Nesta incerteza do amanhã
uma angústia pela impossibilidade
de retorno a uma inocência fugitiva
e o desejo de irrealidade
a toda a hora, a todo o instante.

Lembro-me de um dia
alguém dizer que seria fácil
mas de repente ficámos sozinhos
e esquecemos que seriamos
eternas crianças rebeldes
ou impúberes adultos
numa perpetua negação



De repente a vida faz algum sentido ao som de:
Wild beasts
"All the King's men"