Esta escrita sou eu
Esta escrita é algo mais
que um conjunto de palavras
jogadas no papel,
é uma inquietação que sinto,
é um desejo de resgate de um tempo antigo,
uma necessidade de compreensão
do que me trouxe até aqui.
Esta escrita não é apenas a inocência
das palavras que a compõem,
não é indiferença
nem uma crítica à desconfiança de quem
vê neste hábito um propósito absurdo.
É a vontade de alguém que quer ler o mundo e
que se quer olhar de frente,
é o mais sincero intento de dizer
o que a boca não diz.
Esta escrita é o meu olhar,
é a minha boca nas minhas mãos,
é a minha voz no papel.
Esta escrita é a minha forma
de ouvir o que tenho a dizer
sobre mim próprio.
Esta escrita sou eu.
segunda-feira, dezembro 28, 2009
segunda-feira, dezembro 21, 2009
Um sítio a descobrir. Pela música, pela arte.
http://www.little-dragon.se/
Sobre os Little Dragon:
"On occasional full moons the pine trees would light up in neon auras of lime and turquoise and the ground would shake with a steady rumble. The tiny creature grew into a little dragon. It wrestled with the large wind sometimes. The heat of its breath would weave in with the cool air and make patterns in the sky. Although the creature was a powerful little beast it was light as a feather and would often sleep on the leaf flowing in the breeze.
And there it would dream in a dream. These dreams were without visuals and haunted by sounds. electric sounds and beats would pump its little heart and make her sleep walk around the forest like a ghost dancing in the night.
And the aching of this lonely creatures heart would be reflected in bittersweet melodies both haunting and happy."
By Ulla Tom Tom
http://www.little-dragon.se/
Sobre os Little Dragon:
"On occasional full moons the pine trees would light up in neon auras of lime and turquoise and the ground would shake with a steady rumble. The tiny creature grew into a little dragon. It wrestled with the large wind sometimes. The heat of its breath would weave in with the cool air and make patterns in the sky. Although the creature was a powerful little beast it was light as a feather and would often sleep on the leaf flowing in the breeze.
And there it would dream in a dream. These dreams were without visuals and haunted by sounds. electric sounds and beats would pump its little heart and make her sleep walk around the forest like a ghost dancing in the night.
And the aching of this lonely creatures heart would be reflected in bittersweet melodies both haunting and happy."
By Ulla Tom Tom
domingo, dezembro 20, 2009
Ainda que imaginemos mundos (16)
Merecemos ao menos
uma parcela de contentamento
nesta infelicidade de estarmos vivos
por agora deixem-nos
apenas ser quem somos
nem que para isso tenhamos de inventar
uma verdade mal alinhada
Nesta incerteza do amanhã
uma angústia pela impossibilidade
de retorno a uma inocência fugitiva
e o desejo de irrealidade
a toda a hora, a todo o instante.
Lembro-me de um dia
alguém dizer que seria fácil
mas de repente ficámos sozinhos
e esquecemos que seriamos
eternas crianças rebeldes
ou impúberes adultos
numa perpetua negação
De repente a vida faz algum sentido ao som de:
Wild beasts
"All the King's men"
Merecemos ao menos
uma parcela de contentamento
nesta infelicidade de estarmos vivos
por agora deixem-nos
apenas ser quem somos
nem que para isso tenhamos de inventar
uma verdade mal alinhada
Nesta incerteza do amanhã
uma angústia pela impossibilidade
de retorno a uma inocência fugitiva
e o desejo de irrealidade
a toda a hora, a todo o instante.
Lembro-me de um dia
alguém dizer que seria fácil
mas de repente ficámos sozinhos
e esquecemos que seriamos
eternas crianças rebeldes
ou impúberes adultos
numa perpetua negação
De repente a vida faz algum sentido ao som de:
Wild beasts
"All the King's men"
sábado, dezembro 19, 2009
sexta-feira, dezembro 18, 2009
Um poema de um poeta esquecido de Cacela:
Desilusão
Para quê altos troféus, glória dourada?
Se jamais hei-de, um dia, possuir,
No meu incerto e árido porvir,
A companheira ideal, a Desejada?
Se, em nossa curta ou longa caminhada,
Só do pequeno ou grande amor o rir
É o único bem que faz brotar, florir
Graça etérea, em eterna madrugada!
Que, em eflúvios, arroubos de ternura,
Desce suavemente ao coração,
Ungindo-o de prazer e de ventura.
Tudo o mais é poeira, é ilusão,
Que, ao mais leve sinal, se transfigura
A emergir-nos da dor na escuridão.
Adolfo C. Gago
Desilusão
Para quê altos troféus, glória dourada?
Se jamais hei-de, um dia, possuir,
No meu incerto e árido porvir,
A companheira ideal, a Desejada?
Se, em nossa curta ou longa caminhada,
Só do pequeno ou grande amor o rir
É o único bem que faz brotar, florir
Graça etérea, em eterna madrugada!
Que, em eflúvios, arroubos de ternura,
Desce suavemente ao coração,
Ungindo-o de prazer e de ventura.
Tudo o mais é poeira, é ilusão,
Que, ao mais leve sinal, se transfigura
A emergir-nos da dor na escuridão.
Adolfo C. Gago
terça-feira, dezembro 15, 2009
Ainda que imaginemos mundos (15)
Vou querer sentir-te sempre assim
mesmo que um dia o mundo desabe
espero que esta minha dor nunca te caia em cima
e que o rigor que em nós nunca floresceu
não te faça sentir que o teu nome não me pertenceu
Evidentemente que renasço sempre da cicatriz
de teus lábios, essa marca intemporal
enquanto te sinto crescer todos os dias
a toda a hora, na memória
e te imagino na sombra, no oriente desta ilusão
Às vezes esqueço-me
que ainda que engendre histórias
existirás sempre na nostalgia dos meus sonhos,
numa verdade intemporal
Vou querer sentir-te sempre assim
mesmo que um dia o mundo desabe
espero que esta minha dor nunca te caia em cima
e que o rigor que em nós nunca floresceu
não te faça sentir que o teu nome não me pertenceu
Evidentemente que renasço sempre da cicatriz
de teus lábios, essa marca intemporal
enquanto te sinto crescer todos os dias
a toda a hora, na memória
e te imagino na sombra, no oriente desta ilusão
Às vezes esqueço-me
que ainda que engendre histórias
existirás sempre na nostalgia dos meus sonhos,
numa verdade intemporal
segunda-feira, dezembro 14, 2009
Ainda que imaginemos mundos (14)
O mal foi nunca ter tido a capacidade de acreditar,
acreditar em si, acreditar nos outros, acreditar no que a vida
lhe pudesse um dia vir a trazer, acreditar, tão somente acreditar
o mal talvez tivesse sido ele próprio, uma ameaça para si próprio:
tudo na vida sempre lhe pareceu uma inutilidade
uma violenta carência trazia-lhe constantemente à memória
uma revolta antiga e a necessidade de se reprovar,
de reprovar os outros, de reprovar tudo aquilo que a vida
lhe pudesse um dia vir a trazer, de reprovar, tão somente reprovar
o mal talvez também estivesse nos outros,
uma ameaça para si próprio:
tudo na vida sempre lhe pareceu uma futilidade
e assim viveu cansado de tudo, de si próprio,
dos outros, da vida, desse mal de nunca
ter conseguido ser o que talvez pudesse ter sido
se ao menos tivesse tentado
Bon Iver - "The wolves Act I & II"
Jagjaguwar Records
O mal foi nunca ter tido a capacidade de acreditar,
acreditar em si, acreditar nos outros, acreditar no que a vida
lhe pudesse um dia vir a trazer, acreditar, tão somente acreditar
o mal talvez tivesse sido ele próprio, uma ameaça para si próprio:
tudo na vida sempre lhe pareceu uma inutilidade
uma violenta carência trazia-lhe constantemente à memória
uma revolta antiga e a necessidade de se reprovar,
de reprovar os outros, de reprovar tudo aquilo que a vida
lhe pudesse um dia vir a trazer, de reprovar, tão somente reprovar
o mal talvez também estivesse nos outros,
uma ameaça para si próprio:
tudo na vida sempre lhe pareceu uma futilidade
e assim viveu cansado de tudo, de si próprio,
dos outros, da vida, desse mal de nunca
ter conseguido ser o que talvez pudesse ter sido
se ao menos tivesse tentado
Bon Iver - "The wolves Act I & II"
Jagjaguwar Records
terça-feira, dezembro 08, 2009
Ainda que imaginemos mundos (13)
É quase noite. E na derradeira claridade do dia
uma fadiga invisível perturba a paz de uma memória inocente:
tu diante de mim, como se fossemos eternos.
Tudo aconteceu numa dormência antiga,
às vezes parece que em resultado de uma vontade alheia.
Estes últimos raios de luz cintilam no horizonte
e ofuscam-me o olhar, mas ainda vejo, lá longe, o mar.
Consigo escutar o som das ondas e o rumor dos pássaros:
um cenário que me traz de volta
o teu olhar mortífero, aquele olhar de sangue.
Tanto havia para dizer. Mas eu não sabia dizer.
Como haveria de saber dizer aquilo que só agora sei dizer?
Há uma obscuridade remota nas memórias que tenho de ti
que sempre regressa nesta altura do ano,
quando os dias se tornam menores e a luz do dia fica mais frouxa.
Recordo-me num silêncio irreal, como num sonho antigo.
Mas as imagens são tão claras e translúcidas
e os contornos da tua face tão nítidos.
Queria dizer-te palavras de amor, dizer-te que
ainda te sinto da mesma forma, dizer-te que continuas aqui
e que esse carinho que só tu me sabias dar
está tão presente quanto esta imagem que agora regressa, outra vez.
Eu devia ter uns oito anos e tu, uns vinte e quatro.
Foi um final de ano frio, aquele, e no turbilhão da memória
ainda consigo sentir a chuva a invadir-me o cabelo.
É impressionante como a percepção que tenho do momento
consegue até trazer-me o teu cheiro de volta:
uma mistura de âmbar e lavanda,
um cheiro antigo e ondulante de um amor materno e primeiro,
nem sei bem como explicar. Sei apenas que era verdadeiro,
tão verdadeiro quanto esta memória.
Recordo-me de tudo na perfeição e imagino-te de novo aqui
mas reconheço a impossibilidade. Partiste sem aviso,
sem nada dizer, sem um último adeus.
Como dói agora, a tua ausência.
É quase noite. E na derradeira claridade do dia
uma fadiga invisível perturba a paz de uma memória inocente:
tu diante de mim, como se fossemos eternos.
Tudo aconteceu numa dormência antiga,
às vezes parece que em resultado de uma vontade alheia.
Estes últimos raios de luz cintilam no horizonte
e ofuscam-me o olhar, mas ainda vejo, lá longe, o mar.
Consigo escutar o som das ondas e o rumor dos pássaros:
um cenário que me traz de volta
o teu olhar mortífero, aquele olhar de sangue.
Tanto havia para dizer. Mas eu não sabia dizer.
Como haveria de saber dizer aquilo que só agora sei dizer?
Há uma obscuridade remota nas memórias que tenho de ti
que sempre regressa nesta altura do ano,
quando os dias se tornam menores e a luz do dia fica mais frouxa.
Recordo-me num silêncio irreal, como num sonho antigo.
Mas as imagens são tão claras e translúcidas
e os contornos da tua face tão nítidos.
Queria dizer-te palavras de amor, dizer-te que
ainda te sinto da mesma forma, dizer-te que continuas aqui
e que esse carinho que só tu me sabias dar
está tão presente quanto esta imagem que agora regressa, outra vez.
Eu devia ter uns oito anos e tu, uns vinte e quatro.
Foi um final de ano frio, aquele, e no turbilhão da memória
ainda consigo sentir a chuva a invadir-me o cabelo.
É impressionante como a percepção que tenho do momento
consegue até trazer-me o teu cheiro de volta:
uma mistura de âmbar e lavanda,
um cheiro antigo e ondulante de um amor materno e primeiro,
nem sei bem como explicar. Sei apenas que era verdadeiro,
tão verdadeiro quanto esta memória.
Recordo-me de tudo na perfeição e imagino-te de novo aqui
mas reconheço a impossibilidade. Partiste sem aviso,
sem nada dizer, sem um último adeus.
Como dói agora, a tua ausência.
quinta-feira, novembro 26, 2009
Crónica publicada no Jornal do Baixo Guadiana (Dezembro 2009)
Os nossos dias
Perguntaram-me há dias se estava disposto a escrever para este jornal uma crónica sobre o livro de poesia que editei há pouco tempo. A princípio não achei muito boa ideia porque poderia parecer que queria explicá-lo e, como saberão, um livro de poesia não se explica. No entanto, como dei uma entrevista há pouco tempo para outro jornal, pensei pegar, como ponto de partida, em algumas afirmações que constam na mesma e desenvolver as ideias que, no fundo, estão na base daquilo que o livro trata. Isto dito assim, parece que não me largam, o que não é verdade, que fique bem claro. Nem sei tão pouco se essa mesma entrevista saiu cá para fora (adoro esta expressão: sair para fora) porque não me avisaram em que número seria publicada nem se o jornal existe mesmo, pois nunca tinha ouvido falar dele…Mas adiante.
O livro, que é o meu primeiro, na sua essência, grita que somos iguais todos os dias, e é isso que realmente nos incomoda, que incomoda a minha geração. Parece-nos que a vida é assim e que será sempre assim: monótona e aborrecida. É um mal desta geração que nasceu e cresceu sem preocupações de maior. Estamos enfadados e movemo-nos por vontades cujas motivações desconhecemos. Poderá então dizer-se que o que deste livro (e também desta crónica) saiu resulta nem sei bem do quê, da vida, talvez, da realidade, do sonho ou da falta dele. Talvez seja esse o grande problema da minha geração: a falta de um sonho maior. Pediram-me que escrevesse e foi isto que me apeteceu dizer, peço-vos desculpa. Aliás, é sempre isto que me apetece dizer: não sabemos muito bem - a minha geração não sabe muito bem - o que andamos aqui a fazer. Talvez apenas à espera de nós próprios.
A propósito da minha geração pouca coisa haverá a dizer. Vivemos divididos por uma apatia causada pelo vazio de um mundo de rotinas angustiantes (porque nunca as tivemos nem quem nos ensinasse a tê-las), um mundo carregado de estímulos e cada vez mais virtual e outro que ficou lá atrás algures no passado e que não volta mais. A juventude perdida, as loucuras adolescentes, a vida.
Os trinta acontecem agora num momento sério de transição dessa “vida” para a “vidinha”. De repente somos adultos, sérios e responsáveis e nunca ninguém nos ensinou a interiorizar a necessidade de assim o sermos. A arrogância, a inveja e a hipocrisia que reinam neste mundo real do dia-a-dia a vir ao de cima e nós desarmados. E sofremos porque o interessante da vida ficou na adolescência, no mundo dos sonhos inocentes. Perguntam-me então o que se pode esperar da vida e deste livro que agora editei: talvez um livro negro mas não derrotista, provavelmente apenas um livro de confronto comigo próprio e pouco mais. A vida a olhar-me nos olhos. A vida transposta para o papel. Os trinta que já não são os vinte e muito menos os dezoito. Mas são quase. Os quarenta serão assim também. Será?
Desde que me lembro, a minha escrita sempre funcionou como uma espécie de auto-terapia. Sempre escrevi para dizer a mim próprio. E, nesse sentido, acho que este livro foi, como não poderia deixar de ser, mais uma tentativa de procura interior, uma tentativa de chegar àquilo que realmente sou, de questionamento daquilo que me faz feliz, daquilo que fui e do que quero ser. Acho que faz falta pensarmo-nos mais, questionarmo-nos, olharmo-nos ao espelho, para que percebamos com mais clareza quem somos, de onde vimos, para onde queremos ir. Essa procura pode ser às vezes uma tarefa complicada: podemos deparar-nos com aquilo que durante muito tempo não quisemos ver. Mas servirá sempre para nos situarmos melhor na realidade em que nos inserimos. Do confronto entre aquilo que acontece no dia-a-dia com a memória, dá-se o choque e é por isso que o livro é composto por duas partes: “Os nossos dias” seguido de “Os lugares antigos”. É a partir do choque resultante do confronto desses dois momentos que nos situamos na vida. É disso que fala a minha poesia e é disso que fala o livro.
De repente temos trinta e somos exactamente a mesma pessoa. A questão é que agora já estamos integrados num mundo completamente diferente: a determinada altura apercebemo-nos de uma maneira violentíssima que este mundo das pessoas adultas, distintas, sérias e responsáveis é um mundo agressivo, é um mundo de brilhantinas. E, no fundo, a grande dificuldade da vida (e a minha grande dificuldade, ultimamente) é lidar com isso, é integrar-me nesse mundo, nesse mundo do qual também faço parte, do qual sou parte.
Apesar de agora publicar este livro, acho que pouco sei sobre literatura, não tanto como queria. Gosto de ler e leio o que vem ao meu encontro. E, como disse, escrevo porque sinto necessidade de dizer a mim próprio. Conheço alguma coisa dos clássicos mas o que gosto mesmo é dos poetas franceses do final do século XIX e dos portugueses do século XX. Há também muito bons poetas portugueses ainda vivos e em acção, muitos fazem parte da minha geração, e falam de temas com os quais me identifico: do tédio, da dissimulação, do absurdo, da vida. Aos trinta anos (outra vez a história dos trinta) já conheci grandes poetas que nunca pegaram numa caneta. Tenho grandes amigos que são dos maiores poetas que já conheci, e nem sequer sabem que «há» de «haver» se escreve com «h». Acho que a poesia existe nos olhos de quem a vê e sente, não na caneta de quem a escreve e, nesse sentido, sinto-me bem por ter sido capaz de pôr no papel aquilo que sinto, sem pretensões.
Para terminar, poderei dizer que o livro terá uma conclusão implícita: por causa da perda irreparável da adolescência, da impossibilidade de retorno aos sonhos da juventude, haverá sempre um vazio que nos acompanha, um vazio para a vida. Seremos sempre nós a olharmos para nós e, como diria Ruy Belo, sempre cães “fustigado(s) a farejar a fuga / desta diária saga que nos suga”. Só nos resta um caminho: o de tentarmos ser felizes, pelo menos aos olhos de nós próprios. Os outros dirão de sua justiça, se quiserem. E nós acreditamos ou somos felizes. Das duas, uma.
Perguntaram-me há dias se estava disposto a escrever para este jornal uma crónica sobre o livro de poesia que editei há pouco tempo. A princípio não achei muito boa ideia porque poderia parecer que queria explicá-lo e, como saberão, um livro de poesia não se explica. No entanto, como dei uma entrevista há pouco tempo para outro jornal, pensei pegar, como ponto de partida, em algumas afirmações que constam na mesma e desenvolver as ideias que, no fundo, estão na base daquilo que o livro trata. Isto dito assim, parece que não me largam, o que não é verdade, que fique bem claro. Nem sei tão pouco se essa mesma entrevista saiu cá para fora (adoro esta expressão: sair para fora) porque não me avisaram em que número seria publicada nem se o jornal existe mesmo, pois nunca tinha ouvido falar dele…Mas adiante.
O livro, que é o meu primeiro, na sua essência, grita que somos iguais todos os dias, e é isso que realmente nos incomoda, que incomoda a minha geração. Parece-nos que a vida é assim e que será sempre assim: monótona e aborrecida. É um mal desta geração que nasceu e cresceu sem preocupações de maior. Estamos enfadados e movemo-nos por vontades cujas motivações desconhecemos. Poderá então dizer-se que o que deste livro (e também desta crónica) saiu resulta nem sei bem do quê, da vida, talvez, da realidade, do sonho ou da falta dele. Talvez seja esse o grande problema da minha geração: a falta de um sonho maior. Pediram-me que escrevesse e foi isto que me apeteceu dizer, peço-vos desculpa. Aliás, é sempre isto que me apetece dizer: não sabemos muito bem - a minha geração não sabe muito bem - o que andamos aqui a fazer. Talvez apenas à espera de nós próprios.
A propósito da minha geração pouca coisa haverá a dizer. Vivemos divididos por uma apatia causada pelo vazio de um mundo de rotinas angustiantes (porque nunca as tivemos nem quem nos ensinasse a tê-las), um mundo carregado de estímulos e cada vez mais virtual e outro que ficou lá atrás algures no passado e que não volta mais. A juventude perdida, as loucuras adolescentes, a vida.
Os trinta acontecem agora num momento sério de transição dessa “vida” para a “vidinha”. De repente somos adultos, sérios e responsáveis e nunca ninguém nos ensinou a interiorizar a necessidade de assim o sermos. A arrogância, a inveja e a hipocrisia que reinam neste mundo real do dia-a-dia a vir ao de cima e nós desarmados. E sofremos porque o interessante da vida ficou na adolescência, no mundo dos sonhos inocentes. Perguntam-me então o que se pode esperar da vida e deste livro que agora editei: talvez um livro negro mas não derrotista, provavelmente apenas um livro de confronto comigo próprio e pouco mais. A vida a olhar-me nos olhos. A vida transposta para o papel. Os trinta que já não são os vinte e muito menos os dezoito. Mas são quase. Os quarenta serão assim também. Será?
Desde que me lembro, a minha escrita sempre funcionou como uma espécie de auto-terapia. Sempre escrevi para dizer a mim próprio. E, nesse sentido, acho que este livro foi, como não poderia deixar de ser, mais uma tentativa de procura interior, uma tentativa de chegar àquilo que realmente sou, de questionamento daquilo que me faz feliz, daquilo que fui e do que quero ser. Acho que faz falta pensarmo-nos mais, questionarmo-nos, olharmo-nos ao espelho, para que percebamos com mais clareza quem somos, de onde vimos, para onde queremos ir. Essa procura pode ser às vezes uma tarefa complicada: podemos deparar-nos com aquilo que durante muito tempo não quisemos ver. Mas servirá sempre para nos situarmos melhor na realidade em que nos inserimos. Do confronto entre aquilo que acontece no dia-a-dia com a memória, dá-se o choque e é por isso que o livro é composto por duas partes: “Os nossos dias” seguido de “Os lugares antigos”. É a partir do choque resultante do confronto desses dois momentos que nos situamos na vida. É disso que fala a minha poesia e é disso que fala o livro.
De repente temos trinta e somos exactamente a mesma pessoa. A questão é que agora já estamos integrados num mundo completamente diferente: a determinada altura apercebemo-nos de uma maneira violentíssima que este mundo das pessoas adultas, distintas, sérias e responsáveis é um mundo agressivo, é um mundo de brilhantinas. E, no fundo, a grande dificuldade da vida (e a minha grande dificuldade, ultimamente) é lidar com isso, é integrar-me nesse mundo, nesse mundo do qual também faço parte, do qual sou parte.
Apesar de agora publicar este livro, acho que pouco sei sobre literatura, não tanto como queria. Gosto de ler e leio o que vem ao meu encontro. E, como disse, escrevo porque sinto necessidade de dizer a mim próprio. Conheço alguma coisa dos clássicos mas o que gosto mesmo é dos poetas franceses do final do século XIX e dos portugueses do século XX. Há também muito bons poetas portugueses ainda vivos e em acção, muitos fazem parte da minha geração, e falam de temas com os quais me identifico: do tédio, da dissimulação, do absurdo, da vida. Aos trinta anos (outra vez a história dos trinta) já conheci grandes poetas que nunca pegaram numa caneta. Tenho grandes amigos que são dos maiores poetas que já conheci, e nem sequer sabem que «há» de «haver» se escreve com «h». Acho que a poesia existe nos olhos de quem a vê e sente, não na caneta de quem a escreve e, nesse sentido, sinto-me bem por ter sido capaz de pôr no papel aquilo que sinto, sem pretensões.
Para terminar, poderei dizer que o livro terá uma conclusão implícita: por causa da perda irreparável da adolescência, da impossibilidade de retorno aos sonhos da juventude, haverá sempre um vazio que nos acompanha, um vazio para a vida. Seremos sempre nós a olharmos para nós e, como diria Ruy Belo, sempre cães “fustigado(s) a farejar a fuga / desta diária saga que nos suga”. Só nos resta um caminho: o de tentarmos ser felizes, pelo menos aos olhos de nós próprios. Os outros dirão de sua justiça, se quiserem. E nós acreditamos ou somos felizes. Das duas, uma.
Miguel Godinho
O livro “Os nossos dias seguido de Os lugares antigos” foi editado pela Editora 4 Águas em Agosto de 2009.
terça-feira, novembro 24, 2009
Ainda que imaginemos mundos (12)
E apesar da densa nuvem negra
que solenementente abria a manhã
o teu olhar inaugurava a claridade
numa enorme interpelação de dor.
Via-te junto a mim, como numa paisagem alva
de um outro mundo
e não, não desejava essa realidade em que falecia
a todo o instante.
Era duro sermos nós a toda a hora,
ainda é duro sermos nós
mas e agora? O que fazer quando nos apercebemos
que nada mais subsiste
para além da melancolia?
Miguel Godinho
E apesar da densa nuvem negra
que solenementente abria a manhã
o teu olhar inaugurava a claridade
numa enorme interpelação de dor.
Via-te junto a mim, como numa paisagem alva
de um outro mundo
e não, não desejava essa realidade em que falecia
a todo o instante.
Era duro sermos nós a toda a hora,
ainda é duro sermos nós
mas e agora? O que fazer quando nos apercebemos
que nada mais subsiste
para além da melancolia?
Miguel Godinho
segunda-feira, novembro 23, 2009
Ainda que imaginemos mundos (11)
Enquanto grito o silêncio desta evidente submissão
prostro-me vergo-me deito-me calo-me
de frente para ti imagino-me eu outra vez
mas na revolta amarga da memória,
o cenário animal
sempre o cenário animal
É estranho como ainda assim
desejo o regresso dessa ausência elegante
e uma outra verdade que aquiete o cilício.
Eu num novo eu
ou a vida num mundo ao contrário
Miguel Godinho
Enquanto grito o silêncio desta evidente submissão
prostro-me vergo-me deito-me calo-me
de frente para ti imagino-me eu outra vez
mas na revolta amarga da memória,
o cenário animal
sempre o cenário animal
É estranho como ainda assim
desejo o regresso dessa ausência elegante
e uma outra verdade que aquiete o cilício.
Eu num novo eu
ou a vida num mundo ao contrário
Miguel Godinho
quarta-feira, novembro 18, 2009
Este sábado lá estarei no Campo Pequeno.
(...)
Toy-like people make me boy-like
Toy-like people make me boy-like
They're invisible, when the trip it flips
They get physical, way below my lips
And everything you got hoi-poloi like
Now you're lost and you're lethal
And now's about the time you gotta leave all
These good people...dream on
(...)
sábado, novembro 14, 2009
sexta-feira, novembro 13, 2009
Ainda que imaginemos mundos (9)
É uma guerra sensível:
os teus olhos nos meus
enquanto a recordação de que há idades
cor de rubi e um fogo pueril acontecem
fora do tempo, dentro de nós
no esplendor da vida delicada das mulheres
e de uma amarga demência
de sermos homens juvenis
para sempre
e o calor dos teus lábios
nesta treva intemporal
apenas prova que é uma guerra sensível:
os teus olhos nos meus
Miguel Godinho
É uma guerra sensível:
os teus olhos nos meus
enquanto a recordação de que há idades
cor de rubi e um fogo pueril acontecem
fora do tempo, dentro de nós
no esplendor da vida delicada das mulheres
e de uma amarga demência
de sermos homens juvenis
para sempre
e o calor dos teus lábios
nesta treva intemporal
apenas prova que é uma guerra sensível:
os teus olhos nos meus
Miguel Godinho
terça-feira, novembro 10, 2009
Ainda que imaginemos mundos* (8)
Se ao menos um incêndio
pudesse aliviar os nossos nomes
inscritos nestas manhãs de sangue
e a memória não pousasse sobre as palavras
viveríamos menos ausentes
não concordas meu amor?
Isto a vida é só um jogo de paciência e de cintura
neste caminho abreviado.
Sabes, todos os dias parece que acordo cansado
depois de longas noites de tensões
e nunca te sinto aqui
* O conjunto passou a ter agora esta designação, em substituição d' "Os mesmos dias"
Se ao menos um incêndio
pudesse aliviar os nossos nomes
inscritos nestas manhãs de sangue
e a memória não pousasse sobre as palavras
viveríamos menos ausentes
não concordas meu amor?
Isto a vida é só um jogo de paciência e de cintura
neste caminho abreviado.
Sabes, todos os dias parece que acordo cansado
depois de longas noites de tensões
e nunca te sinto aqui
* O conjunto passou a ter agora esta designação, em substituição d' "Os mesmos dias"
terça-feira, outubro 27, 2009
Os mesmos dias (7)
Por favor impeçam-nos de viver
neste mundo que se anuncia
não consintam o que de novo aí vem
arredem-nos daqui, levem-nos convosco
ou pelo menos permitam-nos a vida
enquanto rasgamos os olhos
na procura dessa outra realidade
andamos sempre tão sumidos
não descobrimos a passagem
para essoutro mundo perdido
que alguém jurou existir
(não este que se anuncia)
diante desta ilusão
rosáceas repletas de espinhos
haverá algo tão profundo
que nem um sonho consiga abarcar?
(não este mundo que se anuncia)
nós a querermos ser só nós
nós a querermos ser só nós
nós a querermos ser só nós
quantas vezes será necessário repetir?
(não neste mundo que se anuncia)
Miguel Godinho
Por favor impeçam-nos de viver
neste mundo que se anuncia
não consintam o que de novo aí vem
arredem-nos daqui, levem-nos convosco
ou pelo menos permitam-nos a vida
enquanto rasgamos os olhos
na procura dessa outra realidade
andamos sempre tão sumidos
não descobrimos a passagem
para essoutro mundo perdido
que alguém jurou existir
(não este que se anuncia)
diante desta ilusão
rosáceas repletas de espinhos
haverá algo tão profundo
que nem um sonho consiga abarcar?
(não este mundo que se anuncia)
nós a querermos ser só nós
nós a querermos ser só nós
nós a querermos ser só nós
quantas vezes será necessário repetir?
(não neste mundo que se anuncia)
Miguel Godinho
quinta-feira, outubro 22, 2009
(…) Esta noite os teus passos irromperam outra vez, desconcertados, na minha direcção. É estranho como os teus tentáculos me protegeram um dia. Tolheste-me a vida para sempre mas lá regressarei outra vez, desfeito. É estranho.
Agora circulo na solidão. E tu regressas sempre assim, pela calada, e eu permito a tua ausência e sou feliz porque... sinto-me vivo nestas tuas investidas nocturnas em que me atacas. Existo só nestes dias de inoperância mas ainda te imagino aqui, da mesma forma, intemporal. Onde habitas que eu já não sei? Já nada sei sobre nós…
A verdade é que a tua face ainda dirige os meus sonhos e eu de medo vou dissolvendo a escuridão desta quimera com o suor que me brota do olhar. E o teu olhar fora do tempo, como um projéctil perdido... Ah, o teu olhar... (…)
Agora circulo na solidão. E tu regressas sempre assim, pela calada, e eu permito a tua ausência e sou feliz porque... sinto-me vivo nestas tuas investidas nocturnas em que me atacas. Existo só nestes dias de inoperância mas ainda te imagino aqui, da mesma forma, intemporal. Onde habitas que eu já não sei? Já nada sei sobre nós…
A verdade é que a tua face ainda dirige os meus sonhos e eu de medo vou dissolvendo a escuridão desta quimera com o suor que me brota do olhar. E o teu olhar fora do tempo, como um projéctil perdido... Ah, o teu olhar... (…)
segunda-feira, outubro 19, 2009
Os mesmos dias (6)
Que silêncio é este que putrifica a ideia
e que memória é esta que resvala em silêncio
os silêncios aliviam sempre os meus dias ricos de
um cantar mudo e de medo apodreço
juntamente com a memória
ver-te ao longe, ver-te ao longe tão longe de mim
e varrer-te de mim para longe de mim, mais uma vez
estavas sempre junto de mim quando tudo desabava
e agora dizes-me que te tornaste eterna
lá longe enquanto a chuva lava o teu olhar
e eu me esqueço de nós
por agora
Miguel Godinho
Que silêncio é este que putrifica a ideia
e que memória é esta que resvala em silêncio
os silêncios aliviam sempre os meus dias ricos de
um cantar mudo e de medo apodreço
juntamente com a memória
ver-te ao longe, ver-te ao longe tão longe de mim
e varrer-te de mim para longe de mim, mais uma vez
estavas sempre junto de mim quando tudo desabava
e agora dizes-me que te tornaste eterna
lá longe enquanto a chuva lava o teu olhar
e eu me esqueço de nós
por agora
Miguel Godinho
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