terça-feira, abril 28, 2009

Os mesmos dias (2)

Quase nunca o mundo é um mundo melhor joaquim
quase sempre nos deparamos com a arrogância
gente grande aos olhos deles próprios

dancemos loucos na procura de um Deus maior
na procura de uma verdade evidente
dessas que custam pouco a imaginar
o mundo é a ignorância do amanhã
é a vontade de nos escondermos joaquim
nada mais para além disso

Miguel Godinho

domingo, abril 26, 2009

Os mesmos dias (1)

A canalha com que me dou
pouco liga à integridade que sempre nos corrói
anda sempre tudo tão azul sempre a sorrir
sempre de calcinha de pinça e camisa aos quadradinhos
sempre de segunda a sexta-feira

uma cagada de um pássaro valente seria mais interessante
a escorrer-nos pelo focinho
enquanto nos desligamos da memória
a olhar o correio da manhã
e a dizer isto a crise está para durar

a vida é mesmo assim joaquim
um dia nasce-se outro dia morre-se
é preciso é coragem para atravessar o breve momento
que nos separa da intemporalidade

Miguel Godinho

sábado, abril 18, 2009

quinta-feira, abril 16, 2009

quinta-feira, abril 09, 2009

Skalpel - Break In

Na Polónia faz-se boa música

terça-feira, abril 07, 2009

Fechado para descanso do pessoal

segunda-feira, março 23, 2009




Texto da apresentação de “Privado”, de Fernando Esteves Pinto
Faro, Pátio de Letras, 20 de Março, 2009




Miguel Godinho



Devo dizer que a sensação que me fica sempre após a leitura de um texto ou de um livro do Fernando é que a escrita lhe serve antes de mais de terapia (ou de psicoterapia), na medida em que trata sempre questões / problemas extremamente humanos, problemas reais, relacionados com as perturbações ou as dificuldades com que todos nos deparamos pelo simples facto de estarmos vivos e nos inter-relacionarmos uns com os outros.
O Fernando escreveu num outro livro seu o que para mim esclarece de alguma forma a razão da sua escrita (ainda que nas palavras de uma personagem de ficção por si inventada). Passo a citar esse trecho (do livro “Sexo entre mentiras”):
“(…) isto sou eu a pensar (…). Apetece-me desmontar pessoas. (…) Tu sabes que eu só escrevo como se fizesse uma limpeza emocional (…). Tenho este hábito de recuperar o humano para me alimentar dos seus fracassos. Estou onde está o sofrimento, tu sabes, mas as palavras são ainda a minha defesa. Sempre quis saber muito sobre os outros, muito para além do humano, e agora julgo não saber nada sobre mim, nada numa terrível consciência de viver por eles as suas tristezas. Quem me lê não imagina o sofrimento que foi preciso condensar num tempo escrito para que tudo voltasse a ter uma vida que escapasse à ficção de existir no meu pensamento. Peço silêncio para as minhas palavras.” Duas ideias-chave a destacar do que se disse: A vontade de desmontar pessoas (de percebê-las) e a escrita como limpeza emocional.
O Fernando não perde tempo com temas fáceis, com questões de algibeira, com matérias dóceis. O pensamento, a reflexão, a repercussão do olhar, os desequilíbrios interiores, as fragilidades, as debilidades das relações humanas, as fraquezas e as obsessões são assuntos transversais nos seus textos. Talvez por isso a sua escrita seja uma escrita psicológica, marcadamente circunspecta, onde as evidências da vida são reveladas por vezes de forma nocturnal mas com um realismo despido de preconceitos, e tratadas com um ligeiro toque de sarcasmo, fazendo-nos tantas vezes rir de nós próprios, da nossa pequenez. Este livro que aqui nos reúne é mais uma vez testemunho disso mesmo.
“Privado” é um ensaio ficcionado que retrata a vida de um casal desgastado, corrompido pelo passar do tempo, pelo tédio e pelas rotinas de vinte anos de vida em comum. A “familiaridade afectiva” (palavras de FEP) que se criou em torno destas duas pessoas, em substituição da paixão dos primeiros tempos, fez com que o sexo entre quem já se conhece demasiado bem se tivesse tornado um lugar desconfortável, visto terem deixado de existir a sedução e o desejo, dando lugar á monotonia, à insipidez, ao enfadamento. A sexualidade transformou-se num frete, fruto da sucessão dos dias que tornaram a vida fastidiosa, fruto da morte progressiva do erotismo.
Através do narrador que progressivamente nos vai introduzindo na história conjugal de Olga, uma mulher mal amada pelo marido, que se entrega a um sem número de fantasias como forma de inventar uma nova relação e de passar por cima do descontentamento, vamos percebendo o “compromisso de enganos em que se traduz este amor”, viciado e desgastado pelo tempo. O narrador aqui funciona quase como um psicólogo (e este é o traço mais marcado na escrita do Fernando) que, através de uma escrita densa, profunda, de confrontação, vai questionando constantemente as verdades da vida, desta vidinha que todos levamos, do que nos move, do que nos percorre, daquilo que não se diz, do que faz falta dizer, do que se pensa, da forma como se pensa. Assim, nota-se em toda esta obra uma profunda análise dos afectos, das questões colocadas pela consciência da personagem, da perversidade das suas fantasias como forma de contornar a artificialidade e da decadência sexual deste casal que tenta enganar os sentimentos reais a pretexto de um matrimónio estável, como se quer.
Assim sendo, as tentativas por parte de Olga no sentido de recuperar uma sexualidade honesta, sincera e acima de tudo real, parecem-nos por vezes ridículas, mas colocam-nos perante um drama em que tão facilmente nos revemos, da necessidade de afastar o tédio através da quebra da rotina. É nesse sentido que Olga inventa jogos de sedução frustrados entre o casal; que tenta até recorrer à violência simulada como forma de estimular o desejo, encenando uma sexualidade sem regras mas onde as regras já estão mais que pré-definidas, propondo o visionamento de filmes pornográficos mas onde o estímulo se esvoaça logo à partida em resultado da impossibilidade de sentir o mesmo fogo das personagens das películas. Imagina ainda provocações dissimuladas em desejos carnais onde joguinhos risíveis mais não logram do que evidenciar as verdades manifestas do cansaço dos dois.
Talvez por tudo isto o narrador não use nunca a expressão “fazer amor” entre este casal, preferindo termos como a “cópula” ou outros mais lascivos (como “foder”) no sentido de, por um lado, evidenciar o facto do sexo entre este casal se ter tornado numa obrigação conjugal, e de, por outro, apresentar ao leitor a dimensão real do afecto entre os dois, onde o empachamento da relação fez com que o amor se esfumasse, dando lugar a uma mera carência fisiológica. Nesse sentido e de uma forma brilhante, o narrador dá o exemplo de, num daqueles dias, ao marido de Olga lhe apetecer simplesmente (e passo a citar)

“ter sexo, mas uma coisa rápida e directa, sem preliminares. Um acto que não implicasse a procura do prazer através duma poética da sexualidade. Aproximar-se e desfrutar o corpo de Olga, como se não tivesse de analisar exaustivamente a própria poesia do instante. Olga também não estava para complexidades. A abordagem simplificada, instintiva e primária elevava-a a um ponto mais alto na escala do erotismo. Não haveria lirismo encenado nem fingimento a encobrir o aborrecimento e a preguiça.”

Tudo, portanto, na mais pura da sinceridade, entre os dois. Seria apenas (desculpem a expressão) “descarregar” e já está. Até porque, como diz o narrador-Fernando num momento mais à frente, num outro apontamento quase psicanalítico, “o sexo não programado é um bom motivo de experimentação neste tipo de atitude. Evita-se uma sobrecarga psicológica, sem culpa formada sobre quem deu ou recebeu mais prazer. A preparação intensiva num acto sexual pode levar a um enfraquecimento do desempenho. Mas também pode ser uma causa de prematuridade orgástica”. Como se o que na realidade fizesse falta fosse um pouco de imprevisibilidade, de romper com o estabelecido, de uma reinvenção. Observe-se esta constatação de uma profunda exactidão, escrita numa poética sublime, sobre a sexualidade possível entre este casal, no fundo de tantos e tantos casais que se imaginam outros como forma de reinventarem a sua sexualidade: “O amor que eles sentiam um pelo outro era mesmo uma fantasia. Eles não se amavam. Eles favoreciam as suas próprias necessidades sexuais numa troca de corpos para que cada um deles pudesse sonhar à sua maneira. O sonho de ambos era uma galeria de imagens provocantes que os fazia sentir na presença de estranhos”. Recuperando uma afirmação do Fernando presente num outro livro seu e a propósito do que se disse, (novamente do “Sexo entre mentiras”), “o amor é uma guloseima que se derrete no coração. Se soubéssemos tudo sobre a pessoa que amamos, se calhar nunca tínhamos querido amá-la incondicionalmente. O amor dura enquanto ainda houver matéria desconhecida no outro”. Já se percebeu que o tema da sexualidade está muitas vezes presente na escrita do Fernando, e muitas vezes sob a forma da sexualidade no limite da tolerância, a sexualidade corrompida ou por outro lado, a sexualidade necessária.
Em Privado encontra-se uma estrutura semelhante em todos os capítulos, baseada mais ou menos na seguinte fórmula: primeiro o narrador introduz um problema na relação conjugal do casal (que poderia ser um qualquer casal que se ature há muito tempo), para de seguida o abordar, problematizando-o do ponto de vista psicológico, sugerindo por fim uma maneira / uma forma do casal lidar com ele, expondo as contradições, a degradação das atitudes, a dissimulação, a impostura, a incapacidade em contornar a questão enquanto ao mesmo tempo prefere continuar a ignorá-la. Se pensarmos bem, este método é utilizado também pelos psicólogos.
Assim sendo, é fácil qualquer um rever-se nestas problemáticas apresentadas no livro, pela precisão com que o Fernando aqui a apresenta. Interessante é o facto do livro estar dividido em 31 capítulos, tantos quantos os dias de um mês, como se cada capítulo tratasse um problema (ou os problemas de um dia, se quisermos) com que um casal se depara. Mais interessante ainda é o facto de no primeiro, Olga começar por se lamentar porque acha que o marido tem outra mulher, para, no último, essa mesma Olga acabar por recuperar o desejo sexual, revitalizando a relação, acabando se quisermos, de certa forma, preenchida sexualmente (e afectivamente). Podemos imaginar que no capítulo seguinte, que acabaria por ser o primeiro dia de um novo mês, ela voltasse outra vez ao mesmo estado de espírito, incerta no amor, cheia de dúvidas, com falta de se sentir amada.
Por fim, de referir somente que é sublime a forma com que o Fernando nos apresenta esta vidinha em que nos corrompemos e nos enganamos a nós próprios, esta realidade tão universal, apresentada numa linguagem tão acessível e clara, por vezes com uma poética sedutora, por vezes áspera, por vezes irónica, numa atitude quase de sátira com o ridículo das atitudes comportamentais. São textos pequenos mas intensos, carregados de verdade e de precisão. Dizer apenas que a pornografia contida neste livro não decorre do facto do tema andar à volta da sexualidade, decorre sim, da realidade ser ela própria pornográfica, como se diz no próprio livro. Henrique M. B. Fialho recordou no excelente prefácio as palavras do filósofo francês Michel Onfry que escreveu a este propósito: “casar [talvez mais não seja] (…) do que arranjar forma de lidar com a vida na base da ilusão, da mentira e da hipocrisia.” E, como diz o mesmo Henrique, “agora o melhor mesmo, é não pensar muito neste assunto”.

Vila Real de Santo António

terça-feira, março 17, 2009

Sexta-feira lá estarei em Faro, no Pátio de Letras, a apresentar o novo livro ("Privado") do amigo Fernando Esteves Pinto.
Mais informações, aqui.

domingo, março 15, 2009

Popcorns, playstations e tiros na cabeça (3 e um quarto)

Às vezes confunde-se a realidade com os videogames, eu sei. Custa-me a acreditar mas esta malta que anda no Iraque aos tiros já nasceu no final dos eightys e já cresceu neste mundo virtual onde a guerra se faz desde os 3 anos de idade, com um comando na mão, a olhar para o monitor, enquanto se comem pipocas e se grita, Dye you bastard! Dye!
É lixado andar no meio do deserto, you bet your ass on. Eu imagino, por entre árabes emporcalhados e casas feitas de terra. É tudo árido, pessoal estranho, que nunca foi a shopping-malls. O power que dá atirar nesta gente enquanto se ouve rap ou heavy-metal . Fuck man! À maneira...

Miguel Godinho

segunda-feira, março 09, 2009

Popcorns, playstations e tiros na cabeça (2 e meio)

(...) Os putos o dia inteiro a serem putos, até aos trinta. Tenho muitos amigos que ficaram agarrados. Não conseguem largar aquilo, não se trabalha, não se estuda, vive-se no sofá do quarto, não faz mal, os papás suportam, tá-se bem, a mamã deposita. Uma cambada de malta bué de fixe, a viver num mundo irreal, sem muito para se fazer, sem muito para se preocupar. O mundo é o nosso quarto, esquizofrenia, que se lixe, nada mais interessante que viver apartado, longe da vida, longe da vidinha, não se passa nada, tá tudo bem, os papás suportam, a mamã deposita. Hão-de ter quarenta e cinco, no pasa nada, os papás suportam (já bem velhinhos), a mamã deposita (já bem velhinha). É o filhote, coitadinho, já quarentão, mas tá-se bem. Geração florzinhas.

Miguel Godinho

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Os nossos dias (26)

Às vezes a exaltação é tão alta
que a fadiga afoga a razão
e então só a inércia vigora

nos teus olhos cansados da vida
quem melhor que tu
para explicares a dor

chega de sorrisos áureos
e de sim senhor doutor engenheiro
e de é para já senhor engenheiro doutor
e de claro que sim senhora majestade
quando a tua vontade é demolir
e puxar fogo à brilhantina

basta de ilusões e de fantasias
da ideia de que no futuro tudo se resolverá
quem melhor que tu para acabar com a dor

deixa-te de enganos e subtracções
amanhã o espelho contar-te-á coisas
que já sabes de cor

e mais uma vez serás pequeno
na tua ânsia de elevação
enquanto o fogo te consome
por mais um dia que passou

Miguel Godinho

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Beardyman - 'Teardrop' (original dos Massiveattack )

Goste-se ou não, há muita arte no meio disto.
Brilhante.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Popcorns, playstations e tiros na cabeça (1)

Era adequado para o tipo de trabalho que estávamos a desempenhar. Era assim que o John, Carl, Peter, whatever his name was, descrevia o som do cd que escolhia para pôr a tocar no tanque de guerra americano enquanto desesperadamente procurava alguém para fuzilar. That gets you relly fired up. Como quem diz, isso dá-nos uma tusa do caraças. Meter o som no aparelho aos altos berros, deixar a metalada subir ao miolo e disparar até ver alguém tombar.
Music is great to kill, dá ganas, os furores saem cá para fora e depois é só carregar no pedal, lenço na cabeça, M16 na mão, ‘bora lá com isso, já eras.

Miguel Godinho

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

"God is the only being who, in order to reign, doesn't need to exist"

Charles Baudelaire

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Entre 356 poemas - um para cada dia do ano - um deles é meu.
Lançamento: Sábado, 14 de Fevereiro [17h00], Livraria Pátio de Letras, Faro
Mais informação, aqui.

terça-feira, janeiro 27, 2009

O passo seguinte


Chegava quase sempre esgotado a casa. Mais um dia a tentar desesperadamente ser alguém. Uma luta diária, uma preocupação aflitiva, uma necessária realização pessoal, o sonho dos papás que lhe diziam que as Economias dariam boas saídas, bom dinheiro e uma progressão certa na carreira. O dinheiro é uma coisa que nunca há-de acabar e é imprescindível que aprendas a lidar com o teu e, mais importante que tudo, com o dos outros. Parece que após tantos anos ainda aquelas palavras lhe ecoavam nos ouvidos.
Dizia a todos que estava contente porque tinha um emprego legítimo, nestes dias que correm, é bom que se aproveite o que se tem pois isto está tudo menos fácil, embora no seu íntimo por vezes achasse esse combate diário uma completa inutilidade. Sabia que nada daquilo o poderia tornar uma pessoa melhor, no dia seguinte era como começar do zero, a angústia, a ansiedade, a raiva por ter de se aturar no mesmo palco, por ter de se representar no mesmo circo, com as mesmas feras, famintas por devorá-lo.
Olá muito bom dia Sr. Doutor, como está? A acta da reunião já está pronta; já despachou a documentação que lhe deixei ontem em cima da secretária? Sim, às quatro terei o relatório de contas terminado. Claro que as receitas têm de aumentar. Números, eu sei, são precisos números mais interessantes. Tenho feito horas nesse sentido. Tenho feito horas nesse sentido. Tenho feito muitas horas nesse sentido. Nesse sentido são horas a mais. Muitas horas a mais. Hora feitas por mim, não por si, que não sabe mais do que lamentar-se a toda a hora. Cale-se e não me chateie mais, que vontade de lhe gritar bem alto para não me chatear mais!
Não passava disto. A mesma linguagem de código, o mesmo discurso trôpego, a mesma sensação de ausência, um trabalho vazio, uma vontade de mandar tudo aquilo aos arames, uma vida sem vida. Mas será que haveria alguém com uma vida mais interessante que a dele? Às tantas estava tudo assim, a viver a sua vidinha, a engolir em seco a pretexto de uns euritos que dessem para pagar os créditos, porque a vida se calhar não passa mesmo disso. A minha vida não é diferente da vida dos outros. Eu sei que não há ninguém totalmente satisfeito e realizado, não pode haver. Ninguém é feliz porque eu também não sou. E de facto, aos olhos dele, o contentamento absoluto não era mais que uma completa utopia.
Havia dias em que acordava mais fresco e, absorto ainda no sono, esquecia a miséria que é não ser capaz de largar tudo e começar tudo outra vez ou talvez nem começar nada. Largar só. Deixar, abandonar uma vida que nem sequer vida é. O Sr. Doutor quer números, eu dou-lhe números: que tal um zero? Não serve? Então e dois? Também não? E três, que é a conta que Deus fez? O discurso, esse já estava ensaiado, mas faltava-lhe o passo seguinte, o mais importante. E a febre às vezes tão alta, e os suores como rios a galgarem-lhe o pescoço sempre que acordava para se ver ao espelho: quem sou eu? Que palco é este onde actuo? Para quê este disfarce neste mundo aberrante onde cada um tem de tentar sempre ter mais só para se poder dizer melhor que o próximo? No entanto, à parte disso, sabia que o despertador voltaria sempre a soar à mesma hora e que o fulgor de todos os dias voltaria de alguma forma a revelar-se subtilmente na violência desse toque que gritava alto sempre que eram horas de levantar para um novo assalto no combate pela vida. E que o facto de nunca se cansar de tentar encarar sempre a fadiga dos dias com um sorriso pensativo mas ilimitado, era como se soubesse que as horas que passam algum dia lhe consagrariam a claridade de um possível encontro consigo próprio. Quando isso viesse a acontecer, saberia com certeza já ter dado o passo seguinte.

[Publicado no Jornal do Baixo Guadiana]

Miguel Godinho

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Os nossos dias (25)

Estes dias devolvem-te em ricochete
o silêncio das ilusões
adulteradas por todas as horas
em que foste vivendo na cegueira
sem que te apercebesses da velhice

neste lugar de reencontro
olhas a vida antevendo a morte
e decides extraviar-te de tudo
sabendo que o vento nunca te
trará a adolescência de volta
e que uma loucura te atingirá
com a violência que quiser
já que a verdade só a sabes
na certeza de um fim


Miguel Godinho

terça-feira, janeiro 13, 2009

Os nossos dias [24]

acordar amanhã
como se fosse a primeira vez
o que gostavas verdadeiramente era de viver
foragido da brutalidade dos dias
e que te deixassem existir errante
querias apenas a paz da tua insipiência
nunca te interessaram outras matérias
a verdade é que nem tampouco queres saber
juras que não sabes e é a mais pura da verdade
perguntam-te quem és e não tens resposta
já tiveste mas já não queres ter
olhas em redor e não te encaixas
não consegues pertencer a parte alguma
só atmosferas que não convencem
e uma sucessão de coisa nenhuma

Miguel Godinho

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Pensamento para 2009

“There are two ways to conquer and enslave a nation.
One is by sword. The other is by debt.”

John Adams
1735-1826

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Natal 2008

Relembro por uns instantes
por uns sumários instantes,
várias vezes, todos os dias
que há tanta gente como eu mesmo
para quem o Natal não é gáudio
para quem o Natal é fingimento
e tanto se me dá como se me deu

assim transponho a hipocrisia
esquecendo-me da solidão
e do carrinho que ninguém me pagou
da casinha que bem velhinho saldarei
dos muitos euros que já gastei
em ofertas que ninguém ligou

e por isso decidi embriagar-me este ano
de exultação, vinho e camarão
enterrado na elevação
repisando os sorrisos de todos os anos
destes Natais tão tacanhos
esquecendo a miséria
com uma valente borracheira

Miguel Godinho