segunda-feira, fevereiro 11, 2008

O vazio

Alienação
desinteresse
indiferença
apatia
torpor
marasmo
inércia
preguiça

tantas palavras para explicar o vazio

Miguel Godinho
Um extenso mar de crude

Entre o real e o que nos oferecem
o intervalo que nos separa de nós mesmos
uma densa camada de lama
besuntada no cérebro

nos dias que correm somos gaivotas
atascadas num extenso mar de crude

Miguel Godinho

domingo, fevereiro 10, 2008

Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos.

in O Anjo literário de Eduardo Alfon [o livro será publicado pela Editora Cavalo de Ferro e será lançado no evento Correntes d’Escritas – Póvoa de Varzim, de 13 a 16 de Fevereiro).
Uma pesquisa sobre o “momento da primeira inspiração literária” e sobre porque é que alguém começa a escrever. Uma proposta que, a julgar pelo excerto que li no Público de hoje, me pareceu muito interessante.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O fruto proibido

Uma ansiedade incontrolável
enquanto não são horas de te aspergir novamente
os lábios enxutos e deixar depois a saliva
escorrer pelo pescoço como se fosse
uma ribeira de luxúria em que me afogo

Imagino-te já desprovida de roupagens
descalça numa concha de um cetim índigo
com os cabelos soltos nos ombros nus
numa provocação premeditada

Já sonho acordado contigo meu amor
prometo-te que esta noite não terá fim
deixemos que os nossos corpos sejam prensados um contra o outro
pela tensão dos céus
e que os remorsos nos incomodem só pela manhã
(quando acordarmos)

Miguel Godinho

domingo, fevereiro 03, 2008

Das diferenças

Na inscrição do tempo ela revelava-se sempre
alguém que não sentia o instante
de uma forma tão violenta quanto eu

depois da escrita do momento
o questionar da conjectura
num ensaio interpretativo

um vago exercício de justificação
irrompia então no seu sossego
e na candura do meu olhar submisso
um vasto corpo de sensações devolvia-nos
a ambivalência da situação

sabes, consigo experimentar a intensidade
de uma maneira muito diferente da tua
(conseguia ler-lhe isso nos olhos)

era como se quisesse mostrar-me
de uma forma fácil de entender
que eu não era aquele

E no entanto, se soubesse dela morta
ainda hoje lhe oferecia
a minha cova

Miguel Godinho

quarta-feira, janeiro 30, 2008

O jazz

Sopros de um vento abstracto
num crescendo inconstante de luzes e sombras
e sentir o vazio a encher-se de harmonias
numa floresta povoada de delírios
– é como contar uma história a alguém
que já a viveu na pele e agora se descobre de novo
e dizê-la e senti-la de uma forma tão natural
como o jazz

Miguel Godinho

Bom, muito bom [2]

Root 70

para quê palavras?

Bom, muito bom [1]

A minha mais recente descoberta (e aquisição) musical

segunda-feira, janeiro 28, 2008

O Martim Moniz

Em que pensam estas criaturas anónimas
dormentes imunes à vida
enquanto transferem beatas sonhadoras apagadas
de uma mão nervosa para outra
numa alienação prostituída?

Uma voz surda penetra constantemente
as ruas num canto solene ao deus dará
enquanto cadáveres deambulam
por entre ilusões extintas de uma vida melhor

A dor insiste constantemente em despir-se
nas calçadas encardidas
e nós comodamente sentados a passar de carro
e a desviar o olhar da pureza da cena
ninguém gosta de ver uma velha a caminhar nua pelas ruas
nem que queiramos ver nisso uma encenação teatral

O que esperam estas criaturas da vida?
o mundo esqueceu-se delas
como elas se esqueceram do mundo

Ao fundo da rua um homem foge dele mesmo
envolto numa nuvem branca de fumo esbracejando
a ressaca que teima em desgrenhar-lhe os longos cabelos sujos de carcoma
os suores frios são lâminas que dilaceram
e eu quase que as sinto a cortar-lhes a pele

Miguel Godinho

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Ó nosso Algarve do céu azuli
[versão actualizada de um texto antigo]

em homenagem a Jean Pierre Fonseca dos Santos

Antigamente, eram muitas as bocas com fome
mas ainda assim se decoravam casas e carroças e barcos
e o que fosse sem que o aparato precisasse de um Mercedes
estacionado a uma porta de madeira podre, sem que o prato
do almoço se esvaziasse de conteúdo só para que o vizinho soubesse que

- aqui o papá tem um 320 enquanto ele, um simples 220!
Eram tempos em que não faltavam banhos de luz, de um sol
tão ofuscante que queimou passados e fez arder
memórias de dias duros, de miséria, de sangue.
Hoje em dia, já não há barcos nem campos de figueiras
nem alfarrobas nem burros cansados de dorso marreco.
Agora, já só se conhecem marrecos cansados e sujeitos burros.
O algarvio cantante ficou dormente e comprou um barco
que não pesca, nem apanha choco à luz da candeia
nem sai da doca que agora é marina. Mas o barco lá está
à espera da penhora para poder navegar para outras bandas.

Esta é agora a terra do algarvio de segunda geração
e primeiríssimo nível, que partiu para França há vinte anos
e que vem constantemente de vacances com uma ideia para a retraite:
investir numa pastelaria, lá na aldeia, é isso que faz falta.
Traz sempre um casaquinho novo de cabedal,
uma gravatinha verde e bolinhas amarelas
e muitas calças de fato de treino para combinar com a malhinha.
Tudo novo – para que se saiba.
Saltou do anonimato por causa da casinha branca lá no monte
que o avô deixou (à custa do contrabando trazido do lado de lá da fronteira)
e pintada agora de rosinha-choque para dar no olho
Dá que falar na vizinhança pela ligeira transformação da moradia
acrescentou-lhe quatro quartos, duas suites, uma piscininha. E as divisões
têm boas áreas! Os compadres não se cansam:- É um bom vizinho, não faz barulho,

só cá vem uma semana por ano!

Miguel Godinho

segunda-feira, janeiro 21, 2008

A louça suja

Massajas a louça suja
como quem mexe num bordão para o excitar
deixando-me firme só de olhar
queres nos lábios ou lá em baixo, meu tesouro?
era aqui mesmo enquanto esfregas
os restos dos pratos oleados do peixe frito
nas mãos ocupadas de coisas insignificantes
sepulta-o enquanto a água quente cai
e grita por mais
eu estou cá é para te auxiliar

Miguel Godinho

domingo, janeiro 20, 2008

Four Tet-Hands

Da complexidade

O entendimento escarnece de nós constantemente
sempre que a vida ganha um sentido diferente
e a nomeação da matéria volátil incendeia-se
junto com a efemeridade do seu novo significado
As palavras
tudo o que elas dizem é insuficiente
para descrever as CORES os SONS o SILÊNCIO
Escrevemos a vida de uma maneira e logo depois
obrigamo-nos a queimar o papel
na impossibilidade de um sentir absoluto
As mãos jamais agarrarão a complexidade
resplandeceremos sempre com o insondável
ainda que uma ingénua tendência pretenda sempre
agarrar o todo ainda que a certeza da intangibilidade
oriente essa busca incessante pelo inexprimível

Miguel Godinho

quarta-feira, janeiro 16, 2008

O disparo

Um tiro certeiro às palavras
numa visão que as sangra no papel

Na fúria de dizer
primeiro o sentir, depois o disparo
e a energia da bala propagada
na folha moribunda

(escrevo para matar um sentir)

Miguel Godinho

terça-feira, janeiro 15, 2008

Os dias do fim

Um dia habitarei uma ilha silenciosa
onde nenhuma voz se sinta bem
e aí permanecerei acordado
eternamente na transparência
apenas a olhar as palavras
sem as reconhecer

Miguel Godinho

sábado, janeiro 12, 2008

A corda

Nada nos prende
para além da memória

ao virar da página
a adolescência

o tempo (es)corre como numa enxurrada
e nós sempre
agarrados à corda das reminiscências
com medo de ir na corrente


Miguel Godinho


[escrito a propósito da questão dos "muros" das idades - tertúlia de Cabanas - quem lá esteve entenderá e quem não esteve basta reflectir minimamente sobre a vida]