terça-feira, dezembro 18, 2007

Aceitando o desafio do Pedro Afonso, aqui seguem então os meus 6 filmes de eleição. Devo dizer que os referidos encontram-se a par de muitos outros. No entanto, serão estes talvez aqueles que mais fortemente marcaram a minha personalidade. Quem me conhece e já viu os filmes saberá dizer porquê. Nesse sentido, foram parte integrante da minha aprendizagem da vida. Fazem por isso parte da minha maneira de ver hoje as coisas. Lições, portanto. É isso que retiro dos filmes.

Kids – de Larry Clark

Lost in translation – de Sofia Coppola

A Clockwork Orange – de Stanley Kubrik

Pulp Fiction – de Quentin Tarantino

La Haine – de Mathieu Kassovitz

Crash – de David Cronenberg

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Das ausências

Queria apenas que me tivesses deixado
explicar-te a carência
para que agora não necessitasse
desta conversa muda
ou da percepção da incapacidade em abordar ainda
e sempre este assunto

palavras que custam tanto a dizer e
há assuntos que são tão difíceis de recordar
como este que há tanto tempo tento discutir contigo pai

logo logo serei capaz
ou talvez nem valha a pena
talvez seja melhor levares contigo o meu silêncio eterno
afinal foi essa a tua maior lição
com os teus silêncios me ensinaste
a emudecer

Miguel Godinho

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Tu antes de ti

Enterras-te nas areias movediças
num mergulho abrupto

penetras-te e destapas o negrume

o som metálico do nada

no fundo do abismo
e o escuro da noite

lembras-te de ti
antes de ti?

Miguel Godinho

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Tânia Carvalho canta António Variações

Deixemos a música explicar o que as palavras não sabem

O nosso nome

O nosso nome
por debaixo do tronco
e da raiz secreta

ele há sempre alguém
que também se apaga
junto com a árvore

nesse momento
quando o som do derrube
introduz o silêncio perpétuo
não há direito a palavras

a eternidade encarrega-se
de as escrever numa outra língua
inteligível para nós
que por cá vamos ficando à espera
da nossa hora

Miguel Godinho

terça-feira, dezembro 11, 2007

Do alto dos oitentas

E então subitamente
enquanto rachava lenha
do alto das suas 82 primaveras
a imagem num relance devolvida pelo reflexo
da janela da velha carrinha:
a inocência adolescente
essa que não tarda custaria a lembrar
apertada pelo espartilho do tempo
como se numa plena visão de consciência

o tronco lhe pudesse saltar dos pés
e a serra
acidentalmente fender-lhe a memória
separando-o de vez desses vestígios
que já começavam a esgotar-se

A infância é breve, dizia-me
enquanto pegava de novo no cepo
e se absorvia na tarefa que
há praticamente 70 anos cumpre
todos os Invernos.

Miguel Godinho


[alterado por engano na versão]

segunda-feira, dezembro 10, 2007

A cidade branca

Na cidade branca tudo é mais nítido
as formas, as cores, os cheiros, eu
em mim, translúcido

nas breves formas da manhã austera
rasgada pelo violento endoidecer
eu em mim a olhar para mim
na cidade branca
a enlouquecer em mim
foda-se

Miguel Godinho

domingo, dezembro 09, 2007

O fogo

Esperarei sempre por ti no fogo. E lembrar-me-ei sempre da dor que nos marcava. Sabia bem que o teu nome era fácil de pronunciar e que muitas eram as rosas no meu colo.
- Por onde andas hoje à noite?

Insisto em vociferar uma vez mais o teu nome na fria noite que se ergue. Se a chuva não cobrisse a vidraça desta forma os meus olhos arderiam nas chamas desta memória.

Miguel Godinho

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Tunning

Nos cruzamentos verbais
as palavras dizem-se
a alta velocidade

Miguel Godinho

quarta-feira, novembro 28, 2007

[R] ar

Fico sempre na dúvida
quando publico (quero dizer, quando torno público)
algo que me vai na alma
não sei se por receio que me julguem
se por medo de R ar nu portuguez

Miguel Godinho

terça-feira, novembro 27, 2007

A distância

Só os fortes sobrevivem à melancolia
que lenta se instala, à retaliação do tempo
que passa sem se ver

eu não sou um desses

penetra-me novamente a alma
com a chama dos teus olhos e
revela-me a falha que nos desagregou
para que não tenha de curvar-me
diante dos dias que passaram
sem que pudesse olhar-te e rever-me
na demência das tuas [das nossas] ideias

Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 26, 2007

sábado, novembro 24, 2007


Nos sonhos nunca conseguimos olhar-nos
sem que o desejo não nos percorra
rasga-me os olhos para que cegue
para que só veja negro no silêncio da noite

Miguel Godinho
Apagar a memória

Memória caos disforme
ruínas de histórias mortas
como pedradas no passado

para poderes apagá-lo

olhas em volta e
descobres-te contrariado
nesses momentos pretéritos

não são mais que conjecturas, dizes
não voltam a ser da mesma forma
não voltas a pertencer a esse caos

quem foste naquela reminiscência
com que direito te julgas agora
no futuro serás superior

memória caos disforme
retiras-te como se fosses senhor
de um tempo que querias ser só teu

para poderes apagá-lo

Miguel Godinho

sexta-feira, novembro 23, 2007

quinta-feira, novembro 22, 2007

As minhas ficções

À noite sou o som do vento
no silêncio da chuva
sempre que na calçada em lama
os teus passos imaginários
abraçam as minhas ficções

Miguel Godinho

terça-feira, novembro 20, 2007

A chuva

A chuva transporta-nos
clandestinamente
para os lugares antigos
enlameando-nos a memória

Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 19, 2007

No seguimento do texto anterior

Os sons minimais
[ou o justo tributo aos ruídos e às vivências contemporâneos]

Os sons espremidos em sinopses nocturnais
qual visões acústicas espectrais, reverberadas na toxicidade
Densas sensações químicas na propagação do negrume
e rápidas aparições voltaicas que te penetram o intelecto,
espargidas em raios eléctricos

a curiosidade

faz-te navegar na imensidão de estímulos que lentos se instalam e
então declaras com um fechar de olhos o contentamento descoberto
arriscando extrair o sumo da iniciativa que te inteirou
da existência de cristais que revelam essas realidades ocultas

Miguel Godinho

quarta-feira, novembro 14, 2007

Os textos

Eu não sou poeta
eu não quero ser poeta
escrevo apenas textos
textos que retratam
a poesia das coisas
a poesia não está nos textos
está no olhar e nas coisas
nas mãos existe o olhar
no papel existem textos
textos que descobrem a poesia
textos que destapam a poesia
a poesia está no olhar e nas coisas
a poesia não está nos textos
eu não sou poeta
eu escrevo textos

Miguel Godinho