segunda-feira, novembro 26, 2007

sábado, novembro 24, 2007


Nos sonhos nunca conseguimos olhar-nos
sem que o desejo não nos percorra
rasga-me os olhos para que cegue
para que só veja negro no silêncio da noite

Miguel Godinho
Apagar a memória

Memória caos disforme
ruínas de histórias mortas
como pedradas no passado

para poderes apagá-lo

olhas em volta e
descobres-te contrariado
nesses momentos pretéritos

não são mais que conjecturas, dizes
não voltam a ser da mesma forma
não voltas a pertencer a esse caos

quem foste naquela reminiscência
com que direito te julgas agora
no futuro serás superior

memória caos disforme
retiras-te como se fosses senhor
de um tempo que querias ser só teu

para poderes apagá-lo

Miguel Godinho

sexta-feira, novembro 23, 2007

quinta-feira, novembro 22, 2007

As minhas ficções

À noite sou o som do vento
no silêncio da chuva
sempre que na calçada em lama
os teus passos imaginários
abraçam as minhas ficções

Miguel Godinho

terça-feira, novembro 20, 2007

A chuva

A chuva transporta-nos
clandestinamente
para os lugares antigos
enlameando-nos a memória

Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 19, 2007

No seguimento do texto anterior

Os sons minimais
[ou o justo tributo aos ruídos e às vivências contemporâneos]

Os sons espremidos em sinopses nocturnais
qual visões acústicas espectrais, reverberadas na toxicidade
Densas sensações químicas na propagação do negrume
e rápidas aparições voltaicas que te penetram o intelecto,
espargidas em raios eléctricos

a curiosidade

faz-te navegar na imensidão de estímulos que lentos se instalam e
então declaras com um fechar de olhos o contentamento descoberto
arriscando extrair o sumo da iniciativa que te inteirou
da existência de cristais que revelam essas realidades ocultas

Miguel Godinho

quarta-feira, novembro 14, 2007

Os textos

Eu não sou poeta
eu não quero ser poeta
escrevo apenas textos
textos que retratam
a poesia das coisas
a poesia não está nos textos
está no olhar e nas coisas
nas mãos existe o olhar
no papel existem textos
textos que descobrem a poesia
textos que destapam a poesia
a poesia está no olhar e nas coisas
a poesia não está nos textos
eu não sou poeta
eu escrevo textos

Miguel Godinho
Conquistar
"é a consequência natural de um poder excessivo: é a mesma coisa que a criação e a procriação, quer dizer, a incorporação da sua própria imagem numa matéria estranha. É por isso que o homem superior tem que criar, quer dizer, imprimir sobre os outros a sua superioridade, seja enquanto professor seja também enquanto artista. Com efeito, o artista quer comunicar-se, e, na verdade, ao seu gosto: um artista para si próprio é uma contradição. Passa-se o mesmo com os filósofos: eles querem tornar o seu gosto dominante no mundo e é por isso que ensinam e é para isso que escrevem. Onde quer que esteja presente um poder excessivo, ele quer conquistar: a este impulso chama-se frequentemente amor, amor por aquilo sobre o qual se gostaria de se estender o instinto conquistador."
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, novembro 12, 2007

O real

Às vezes perdes-te
na percepção do tempo
e os canais da inteligência
violentam-te o entendimento
como se fosse razoável
esse caminho errante

é então que regressas
àquele olhar inocente
às paixões indizíveis
da loucura dos 18
esquecendo-te do guião
deste filme em que te meteste

às vezes perdes-te
nesse desejo de retorno
ao sofá da adolescência
como se pudesse
existir sensatez no facto de
termos de permanecer sempre
amarrados à brutalidade do real
ou lá o que quer que se chame
àquilo que nos obriga
a esquecer o interessante da vida


Miguel Godinho

sábado, novembro 10, 2007

As ruínas

Olho a nora em ruína e
penso nos milhares de milhas circulares
percorridas pelas mulas que
qual tractores pretéritos
acumulavam rodagens
sem carências lubrificantes
Olho a nora em ruína e penso
na ferrujem das engrenagens, no suor
das mãos antigas que tantas vezes inventaram
soluções para elevar as águas profundas
Olho a nora em ruína e vejo claramente
as ruínas da memória

Miguel Godinho

quinta-feira, novembro 08, 2007

Uma pausa para ir dar ao pedal...



AMSTERDAM
Novembro 2007

segunda-feira, outubro 29, 2007

terça-feira, outubro 23, 2007

Se ao menos conseguisse

Soluçava ele:
se ao menos conseguisse esquecer-te
como me esqueço de mim
arrancar da memória
o teu olhar
e o perfume
na brancura do silêncio
a tua presença, sempre a tua presença

e o corpo ardia-lhe
num êxtase nocturno:
(o suor nas costas)

se ao menos conseguisse esquecer-te
como me esqueço de mim

Miguel Godinho

quarta-feira, outubro 17, 2007

A dormência da tarde

Sentado
na mesa corrida
a brasa crepita
e o cheiro a sardinha
irrompe no ar.
O vinho caseiro descansa
no jarro estalado
e as sombras abrandam
a língua estendida
do cão a arfar.
É a cal que me ofusca
e uma turva visão tua
na dormência da tarde

Miguel Godinho

terça-feira, outubro 16, 2007

O que me punha sempre a pensar

O que me punha sempre a pensar
era o facto de saberes sempre as marés
mesmo que o cheiro metálico a mar
não te inundasse com a sua presença

do que melhor me lembro é do bigode
sujo de peixe fresco e de mim
a rir-me de ti enquanto a noite
na praia consumia o momento
esse, que a espuma das ondas datou

Miguel Godinho

domingo, outubro 14, 2007

O poeta inseguro II

Não se sentia realmente um poeta
porque pensava nunca encontrar
as palavras certas. Não conseguia ser objectivo
vendo-se frequentemente à deriva
na folha em branco, perdido no papel,
em busca das ideias.

Talvez ser poeta não fosse mais que isso:
um conquistador da percepção
um escultor de realidades, um idiota
sem catálogos à disposição,
um apóstolo das incertezas.

Ainda assim, desejava um dia
vir a experimentar o que imaginava sentir
um poeta poeta porque aí seria capaz
de exprimir o olhar sem hesitar,
sem sentir o erro nas palavras,
já que as palavras seriam o olhar
e o olhar não é impreciso

Miguel Godinho

sexta-feira, outubro 12, 2007



Torre AGBAR - Barcelona

Arquitecturas fálicas

Agosto 2007

quinta-feira, outubro 11, 2007

O poeta inseguro

O poeta inseguro olhava atento o mundo,
percorrendo todos os pormenores, qual leão faminto
que persegue a gazela, enquanto reparava
naqueles que a seu lado marchavam
sem a necessidade de cálculos pré-fabricados
para direccionar o olhar e escrever todos os instantes.
De novo, aquelas questões na sua cabeça:
Por que raio a convicção na verdade do olhar?
Para quê as repetidas notas sobre as coisas?
Não serão mais poéticos os instantes que se apagam
sem ninguém para os registar?

Miguel Godinho