quinta-feira, novembro 08, 2007

Uma pausa para ir dar ao pedal...



AMSTERDAM
Novembro 2007

segunda-feira, outubro 29, 2007

terça-feira, outubro 23, 2007

Se ao menos conseguisse

Soluçava ele:
se ao menos conseguisse esquecer-te
como me esqueço de mim
arrancar da memória
o teu olhar
e o perfume
na brancura do silêncio
a tua presença, sempre a tua presença

e o corpo ardia-lhe
num êxtase nocturno:
(o suor nas costas)

se ao menos conseguisse esquecer-te
como me esqueço de mim

Miguel Godinho

quarta-feira, outubro 17, 2007

A dormência da tarde

Sentado
na mesa corrida
a brasa crepita
e o cheiro a sardinha
irrompe no ar.
O vinho caseiro descansa
no jarro estalado
e as sombras abrandam
a língua estendida
do cão a arfar.
É a cal que me ofusca
e uma turva visão tua
na dormência da tarde

Miguel Godinho

terça-feira, outubro 16, 2007

O que me punha sempre a pensar

O que me punha sempre a pensar
era o facto de saberes sempre as marés
mesmo que o cheiro metálico a mar
não te inundasse com a sua presença

do que melhor me lembro é do bigode
sujo de peixe fresco e de mim
a rir-me de ti enquanto a noite
na praia consumia o momento
esse, que a espuma das ondas datou

Miguel Godinho

domingo, outubro 14, 2007

O poeta inseguro II

Não se sentia realmente um poeta
porque pensava nunca encontrar
as palavras certas. Não conseguia ser objectivo
vendo-se frequentemente à deriva
na folha em branco, perdido no papel,
em busca das ideias.

Talvez ser poeta não fosse mais que isso:
um conquistador da percepção
um escultor de realidades, um idiota
sem catálogos à disposição,
um apóstolo das incertezas.

Ainda assim, desejava um dia
vir a experimentar o que imaginava sentir
um poeta poeta porque aí seria capaz
de exprimir o olhar sem hesitar,
sem sentir o erro nas palavras,
já que as palavras seriam o olhar
e o olhar não é impreciso

Miguel Godinho

sexta-feira, outubro 12, 2007



Torre AGBAR - Barcelona

Arquitecturas fálicas

Agosto 2007

quinta-feira, outubro 11, 2007

O poeta inseguro

O poeta inseguro olhava atento o mundo,
percorrendo todos os pormenores, qual leão faminto
que persegue a gazela, enquanto reparava
naqueles que a seu lado marchavam
sem a necessidade de cálculos pré-fabricados
para direccionar o olhar e escrever todos os instantes.
De novo, aquelas questões na sua cabeça:
Por que raio a convicção na verdade do olhar?
Para quê as repetidas notas sobre as coisas?
Não serão mais poéticos os instantes que se apagam
sem ninguém para os registar?

Miguel Godinho

quarta-feira, outubro 10, 2007

O olhar

Ele estava quimicamente alterado
pela embriaguês do momento.
Descobrira-lhe a inocência de repente

algures por entre o erotismo evidente
e a loucura feroz

de nada lhe valia tudo
o que aprendera até então
porque
o importante agora era apenas o olhar
desnudo e imoral numa bala
direita ao seu corpo
em busca do sangue

Miguel Godinho

segunda-feira, outubro 08, 2007


Em busca do vento


Círculos em busca do vento
que lento escorre o vapor
motor que gira e percorre
não morre sincero na bruma
esfuma a vontade de ver
morrer aqui de frente
para ti


Miguel Godinho

Caramulo - [Outubro 2007]

segunda-feira, setembro 24, 2007

A precedência

onde estão as palavras
do texto que ainda não escrevi
da precedência da invenção

que motores para a concepção
das ideias ainda nulas no vazio
esse sentir dormente

quem rega os solos de onde nasce
a vontade de olhar
a vontade de dizer

Miguel Godinho

terça-feira, setembro 18, 2007

As rãs

No meio das silvas que
sempre transpunhas timidamente
escondida de quem te observava
as rãs boiavam absortas
em largos nenúfares dourados
e o bucolismo da cena
não fazia prever o fim

Miguel Godinho

sexta-feira, setembro 14, 2007

O medo

às vezes assustas-te quando te digo
que me vou embora
não porque tenhas medo que eu vá
mas porque pensas que eu talvez
não esteja a falar a sério

Miguel Godinho

quarta-feira, setembro 12, 2007

Miguel Godinho

sexta-feira, setembro 07, 2007

Pormenores

admites-me os erros
porque te toco na alma
como se tudo o resto
pudesse ser omitido
como se lamber-me as feridas
fosse uma virtude
e os enganos que suportas
fossem apenas pormenores
tapo-te as frestas
por onde o sol espreita
por onde a brisa corre
e esperas por algo
- algo tão impossível
quanto eu, limpo de mim

Miguel Godinho

terça-feira, setembro 04, 2007

A fé

Queria ser mais e melhor que ela própria, sem saber bem porquê. Sem que algo alguma vez lhe tenha despertado real interesse. Nunca conseguiu ler um livro até ao fim. Nunca pensou profundamente nos filmes que viu. Nunca se questionou acerca dessa determinação em querer ser mais e melhor. Nunca se questionou a si própria. Queria apenas ser capaz de ser mais e melhor.

Miguel Godinho

segunda-feira, setembro 03, 2007

terça-feira, agosto 28, 2007

Abismo

Como era hábito, ela enroscava-se mansamente no sofá enquanto ele dedilhava, absorto, as teclas do computador – ela folheando uma revista, ele compondo infindáveis poemas.

Era o hábito de sempre. O mundo ficava, inteiro, lá fora e a intimidade reinava, em silêncio.

Dessa vez, porém, ela pousou a revista e ficou a olhá-lo. Intensamente. Enternecida. Longo tempo.

Deixa-me saber o que escreveste.

Ele um sobressalto. Pancada de gelo. Náusea. E depois, em voz arrancada, a leitura sussurrada do poema. Grande e ácido, compulsivo, um poema de solidão, feito de muros implacáveis, desencantos e securas. Nele jazia, irremediavelmente excluído, o poeta que o lia. E era autêntico, o poeta, na angústia do seu dolorido fiel.

Afundava-se a madrugada, corriam, punhais, os versos pela sala.

Silenciosa, hirta, ela ergueu-se e saiu. Como se nunca ali tivesse entrado.

Carlos Pinto Coelho, Magazine Artes, nº53, Agosto 07, p.26.

segunda-feira, agosto 27, 2007


Me ver-me

O ardor que procede
a contenda interior
no terror do encontro
a promessa da invenção
manto com que me cubro
para não me ver
-me

Miguel Godinho

segunda-feira, agosto 20, 2007

A mancha do tempo

Há um hiato na memória
entre o hoje e o ontem
uma linha difusa onde tudo
se mistura um espaço adulterado onde
me perco - uma frase com as
palavras misturadas. Com o tempo
tudo acaba por se ajeitar a linha
torna-se mais clara o espaço translúcido
e as palavras reescrevem a frase
ainda que completamente manchadas
pela tinta do tempo

Miguel Godinho