A dormência da tarde
Sentado
na mesa corrida
a brasa crepita
e o cheiro a sardinha
irrompe no ar.
O vinho caseiro descansa
no jarro estalado
e as sombras abrandam
a língua estendida
do cão a arfar.
É a cal que me ofusca
e uma turva visão tua
na dormência da tarde
Miguel Godinho
quarta-feira, outubro 17, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
O que me punha sempre a pensar
O que me punha sempre a pensar
era o facto de saberes sempre as marés
mesmo que o cheiro metálico a mar
não te inundasse com a sua presença
do que melhor me lembro é do bigode
sujo de peixe fresco e de mim
a rir-me de ti enquanto a noite
na praia consumia o momento
esse, que a espuma das ondas datou
Miguel Godinho
O que me punha sempre a pensar
era o facto de saberes sempre as marés
mesmo que o cheiro metálico a mar
não te inundasse com a sua presença
do que melhor me lembro é do bigode
sujo de peixe fresco e de mim
a rir-me de ti enquanto a noite
na praia consumia o momento
esse, que a espuma das ondas datou
Miguel Godinho
domingo, outubro 14, 2007
O poeta inseguro II
Não se sentia realmente um poeta
porque pensava nunca encontrar
as palavras certas. Não conseguia ser objectivo
vendo-se frequentemente à deriva
na folha em branco, perdido no papel,
em busca das ideias.
Talvez ser poeta não fosse mais que isso:
um conquistador da percepção
um escultor de realidades, um idiota
sem catálogos à disposição,
um apóstolo das incertezas.
Ainda assim, desejava um dia
vir a experimentar o que imaginava sentir
um poeta poeta porque aí seria capaz
de exprimir o olhar sem hesitar,
sem sentir o erro nas palavras,
já que as palavras seriam o olhar
e o olhar não é impreciso
Miguel Godinho
Não se sentia realmente um poeta
porque pensava nunca encontrar
as palavras certas. Não conseguia ser objectivo
vendo-se frequentemente à deriva
na folha em branco, perdido no papel,
em busca das ideias.
Talvez ser poeta não fosse mais que isso:
um conquistador da percepção
um escultor de realidades, um idiota
sem catálogos à disposição,
um apóstolo das incertezas.
Ainda assim, desejava um dia
vir a experimentar o que imaginava sentir
um poeta poeta porque aí seria capaz
de exprimir o olhar sem hesitar,
sem sentir o erro nas palavras,
já que as palavras seriam o olhar
e o olhar não é impreciso
Miguel Godinho
quinta-feira, outubro 11, 2007
O poeta inseguro
O poeta inseguro olhava atento o mundo,
percorrendo todos os pormenores, qual leão faminto
que persegue a gazela, enquanto reparava
naqueles que a seu lado marchavam
sem a necessidade de cálculos pré-fabricados
para direccionar o olhar e escrever todos os instantes.
De novo, aquelas questões na sua cabeça:
Por que raio a convicção na verdade do olhar?
Para quê as repetidas notas sobre as coisas?
Não serão mais poéticos os instantes que se apagam
sem ninguém para os registar?
Miguel Godinho
O poeta inseguro olhava atento o mundo,
percorrendo todos os pormenores, qual leão faminto
que persegue a gazela, enquanto reparava
naqueles que a seu lado marchavam
sem a necessidade de cálculos pré-fabricados
para direccionar o olhar e escrever todos os instantes.
De novo, aquelas questões na sua cabeça:
Por que raio a convicção na verdade do olhar?
Para quê as repetidas notas sobre as coisas?
Não serão mais poéticos os instantes que se apagam
sem ninguém para os registar?
Miguel Godinho
quarta-feira, outubro 10, 2007
O olhar
Ele estava quimicamente alterado
pela embriaguês do momento.
Descobrira-lhe a inocência de repente
algures por entre o erotismo evidente
e a loucura feroz
de nada lhe valia tudo
o que aprendera até então porque
o importante agora era apenas o olhar
desnudo e imoral numa bala
direita ao seu corpo
em busca do sangue
Miguel Godinho
Ele estava quimicamente alterado
pela embriaguês do momento.
Descobrira-lhe a inocência de repente
algures por entre o erotismo evidente
e a loucura feroz
de nada lhe valia tudo
o que aprendera até então porque
o importante agora era apenas o olhar
desnudo e imoral numa bala
direita ao seu corpo
em busca do sangue
Miguel Godinho
segunda-feira, outubro 08, 2007
segunda-feira, setembro 24, 2007
terça-feira, setembro 18, 2007
sexta-feira, setembro 14, 2007
quarta-feira, setembro 12, 2007
sexta-feira, setembro 07, 2007
Pormenores
admites-me os erros
porque te toco na alma
como se tudo o resto
pudesse ser omitido
como se lamber-me as feridas
fosse uma virtude
e os enganos que suportas
fossem apenas pormenores
tapo-te as frestas
por onde o sol espreita
por onde a brisa corre
e esperas por algo
- algo tão impossível
quanto eu, limpo de mim
Miguel Godinho
admites-me os erros
porque te toco na alma
como se tudo o resto
pudesse ser omitido
como se lamber-me as feridas
fosse uma virtude
e os enganos que suportas
fossem apenas pormenores
tapo-te as frestas
por onde o sol espreita
por onde a brisa corre
e esperas por algo
- algo tão impossível
quanto eu, limpo de mim
Miguel Godinho
terça-feira, setembro 04, 2007
A fé
Queria ser mais e melhor que ela própria, sem saber bem porquê. Sem que algo alguma vez lhe tenha despertado real interesse. Nunca conseguiu ler um livro até ao fim. Nunca pensou profundamente nos filmes que viu. Nunca se questionou acerca dessa determinação em querer ser mais e melhor. Nunca se questionou a si própria. Queria apenas ser capaz de ser mais e melhor.
Miguel Godinho
Queria ser mais e melhor que ela própria, sem saber bem porquê. Sem que algo alguma vez lhe tenha despertado real interesse. Nunca conseguiu ler um livro até ao fim. Nunca pensou profundamente nos filmes que viu. Nunca se questionou acerca dessa determinação em querer ser mais e melhor. Nunca se questionou a si própria. Queria apenas ser capaz de ser mais e melhor.
Miguel Godinho
segunda-feira, setembro 03, 2007
terça-feira, agosto 28, 2007
Abismo
Como era hábito, ela enroscava-se mansamente no sofá enquanto ele dedilhava, absorto, as teclas do computador – ela folheando uma revista, ele compondo infindáveis poemas.
Era o hábito de sempre. O mundo ficava, inteiro, lá fora e a intimidade reinava, em silêncio.
Dessa vez, porém, ela pousou a revista e ficou a olhá-lo. Intensamente. Enternecida. Longo tempo.
Deixa-me saber o que escreveste.
Ele um sobressalto. Pancada de gelo. Náusea. E depois, em voz arrancada, a leitura sussurrada do poema. Grande e ácido, compulsivo, um poema de solidão, feito de muros implacáveis, desencantos e securas. Nele jazia, irremediavelmente excluído, o poeta que o lia. E era autêntico, o poeta, na angústia do seu dolorido fiel.
Afundava-se a madrugada, corriam, punhais, os versos pela sala.
Silenciosa, hirta, ela ergueu-se e saiu. Como se nunca ali tivesse entrado.
Carlos Pinto Coelho, Magazine Artes, nº53, Agosto 07, p.26.
Como era hábito, ela enroscava-se mansamente no sofá enquanto ele dedilhava, absorto, as teclas do computador – ela folheando uma revista, ele compondo infindáveis poemas.
Era o hábito de sempre. O mundo ficava, inteiro, lá fora e a intimidade reinava, em silêncio.
Dessa vez, porém, ela pousou a revista e ficou a olhá-lo. Intensamente. Enternecida. Longo tempo.
Deixa-me saber o que escreveste.
Ele um sobressalto. Pancada de gelo. Náusea. E depois, em voz arrancada, a leitura sussurrada do poema. Grande e ácido, compulsivo, um poema de solidão, feito de muros implacáveis, desencantos e securas. Nele jazia, irremediavelmente excluído, o poeta que o lia. E era autêntico, o poeta, na angústia do seu dolorido fiel.
Afundava-se a madrugada, corriam, punhais, os versos pela sala.
Silenciosa, hirta, ela ergueu-se e saiu. Como se nunca ali tivesse entrado.
Carlos Pinto Coelho, Magazine Artes, nº53, Agosto 07, p.26.
segunda-feira, agosto 27, 2007
segunda-feira, agosto 20, 2007
A mancha do tempo
Há um hiato na memória
entre o hoje e o ontem
uma linha difusa onde tudo
se mistura um espaço adulterado onde
me perco - uma frase com as
palavras misturadas. Com o tempo
tudo acaba por se ajeitar a linha
torna-se mais clara o espaço translúcido
e as palavras reescrevem a frase
ainda que completamente manchadas
pela tinta do tempo
Miguel Godinho
Há um hiato na memória
entre o hoje e o ontem
uma linha difusa onde tudo
se mistura um espaço adulterado onde
me perco - uma frase com as
palavras misturadas. Com o tempo
tudo acaba por se ajeitar a linha
torna-se mais clara o espaço translúcido
e as palavras reescrevem a frase
ainda que completamente manchadas
pela tinta do tempo
Miguel Godinho
quinta-feira, agosto 16, 2007
terça-feira, agosto 14, 2007
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