segunda-feira, setembro 24, 2007

A precedência

onde estão as palavras
do texto que ainda não escrevi
da precedência da invenção

que motores para a concepção
das ideias ainda nulas no vazio
esse sentir dormente

quem rega os solos de onde nasce
a vontade de olhar
a vontade de dizer

Miguel Godinho

terça-feira, setembro 18, 2007

As rãs

No meio das silvas que
sempre transpunhas timidamente
escondida de quem te observava
as rãs boiavam absortas
em largos nenúfares dourados
e o bucolismo da cena
não fazia prever o fim

Miguel Godinho

sexta-feira, setembro 14, 2007

O medo

às vezes assustas-te quando te digo
que me vou embora
não porque tenhas medo que eu vá
mas porque pensas que eu talvez
não esteja a falar a sério

Miguel Godinho

quarta-feira, setembro 12, 2007

Miguel Godinho

sexta-feira, setembro 07, 2007

Pormenores

admites-me os erros
porque te toco na alma
como se tudo o resto
pudesse ser omitido
como se lamber-me as feridas
fosse uma virtude
e os enganos que suportas
fossem apenas pormenores
tapo-te as frestas
por onde o sol espreita
por onde a brisa corre
e esperas por algo
- algo tão impossível
quanto eu, limpo de mim

Miguel Godinho

terça-feira, setembro 04, 2007

A fé

Queria ser mais e melhor que ela própria, sem saber bem porquê. Sem que algo alguma vez lhe tenha despertado real interesse. Nunca conseguiu ler um livro até ao fim. Nunca pensou profundamente nos filmes que viu. Nunca se questionou acerca dessa determinação em querer ser mais e melhor. Nunca se questionou a si própria. Queria apenas ser capaz de ser mais e melhor.

Miguel Godinho

segunda-feira, setembro 03, 2007

terça-feira, agosto 28, 2007

Abismo

Como era hábito, ela enroscava-se mansamente no sofá enquanto ele dedilhava, absorto, as teclas do computador – ela folheando uma revista, ele compondo infindáveis poemas.

Era o hábito de sempre. O mundo ficava, inteiro, lá fora e a intimidade reinava, em silêncio.

Dessa vez, porém, ela pousou a revista e ficou a olhá-lo. Intensamente. Enternecida. Longo tempo.

Deixa-me saber o que escreveste.

Ele um sobressalto. Pancada de gelo. Náusea. E depois, em voz arrancada, a leitura sussurrada do poema. Grande e ácido, compulsivo, um poema de solidão, feito de muros implacáveis, desencantos e securas. Nele jazia, irremediavelmente excluído, o poeta que o lia. E era autêntico, o poeta, na angústia do seu dolorido fiel.

Afundava-se a madrugada, corriam, punhais, os versos pela sala.

Silenciosa, hirta, ela ergueu-se e saiu. Como se nunca ali tivesse entrado.

Carlos Pinto Coelho, Magazine Artes, nº53, Agosto 07, p.26.

segunda-feira, agosto 27, 2007


Me ver-me

O ardor que procede
a contenda interior
no terror do encontro
a promessa da invenção
manto com que me cubro
para não me ver
-me

Miguel Godinho

segunda-feira, agosto 20, 2007

A mancha do tempo

Há um hiato na memória
entre o hoje e o ontem
uma linha difusa onde tudo
se mistura um espaço adulterado onde
me perco - uma frase com as
palavras misturadas. Com o tempo
tudo acaba por se ajeitar a linha
torna-se mais clara o espaço translúcido
e as palavras reescrevem a frase
ainda que completamente manchadas
pela tinta do tempo

Miguel Godinho

quinta-feira, agosto 16, 2007

Os macacos

os palhaços do circo jamaica
ficavam roídos de inveja
quando os macacos
entravam primeiro em cena

faz-me lembrar aqueles
que por aí andam e que
se tornam palhaços
quando o circo da vida
não os deixa actuar
quando querem

Miguel Godinho

terça-feira, agosto 14, 2007

DE COSTAS PARTI

miguel godinho

segunda-feira, agosto 13, 2007

És a tua ficção

És a tua ficção
uma ilusão criada
para te esqueceres de ti
um delírio exaltado
engendrado na infância
um pensamento heróico
para te esqueceres de ti

Miguel Godinho

terça-feira, agosto 07, 2007


No fim de semana passado visitei um local bastante interessante...
Aqui fica uma imagem do que se pode ver...
Exposição actual: "Pensa / Piensa / Think (a million ways to think)"
Felix Gonzalez Torres, Andreas Slominski, Aneta Grzeszykowska, Kris Martin, Tere Recarens, Elmgreen&Dragset, Guy Ben Ner, Gitte Shäffer, Ahmet Ogur e outros...

Centro d'Art de Santa Monica - Barcelona

Agosto 2007

segunda-feira, julho 30, 2007

O que nos fica de ontem
são ruínas nebulosas
simulacros que emendamos
conforme nos convém

Miguel Godinho

sexta-feira, julho 27, 2007


e um dia percebes que
há palavras que
só consegues pronunciar
depois de alguém te
ter ensinado a senti-las

Miguel Godinho

quarta-feira, julho 25, 2007

A ilusão

um desejo constante
essa vontade de retorno
à precedência da percepção
a uma inocência adolescente

recordas-te de ti
quando ainda não questionavas
as ausências de teu pai
quando desconhecias
a tormenta que se seguiria
recordas-te de ti
quando tudo era azul
quando ainda não te havias
transformado numa ilusão

Miguel Godinho

sexta-feira, julho 13, 2007

Sentado aqui


miguel godinho

quinta-feira, julho 12, 2007




que palavras

Que terminologia empregas
para que te alcancem
que lentes distribuis
para que te enxerguem
que paleta utilizas
para que te matizem
que palavras
para que te entendam
que palavras

Miguel Godinho

terça-feira, julho 10, 2007



quando as palavras encontram as imagens que as desenham

Miguel Godinho