terça-feira, agosto 28, 2007

Abismo

Como era hábito, ela enroscava-se mansamente no sofá enquanto ele dedilhava, absorto, as teclas do computador – ela folheando uma revista, ele compondo infindáveis poemas.

Era o hábito de sempre. O mundo ficava, inteiro, lá fora e a intimidade reinava, em silêncio.

Dessa vez, porém, ela pousou a revista e ficou a olhá-lo. Intensamente. Enternecida. Longo tempo.

Deixa-me saber o que escreveste.

Ele um sobressalto. Pancada de gelo. Náusea. E depois, em voz arrancada, a leitura sussurrada do poema. Grande e ácido, compulsivo, um poema de solidão, feito de muros implacáveis, desencantos e securas. Nele jazia, irremediavelmente excluído, o poeta que o lia. E era autêntico, o poeta, na angústia do seu dolorido fiel.

Afundava-se a madrugada, corriam, punhais, os versos pela sala.

Silenciosa, hirta, ela ergueu-se e saiu. Como se nunca ali tivesse entrado.

Carlos Pinto Coelho, Magazine Artes, nº53, Agosto 07, p.26.

segunda-feira, agosto 27, 2007


Me ver-me

O ardor que procede
a contenda interior
no terror do encontro
a promessa da invenção
manto com que me cubro
para não me ver
-me

Miguel Godinho

segunda-feira, agosto 20, 2007

A mancha do tempo

Há um hiato na memória
entre o hoje e o ontem
uma linha difusa onde tudo
se mistura um espaço adulterado onde
me perco - uma frase com as
palavras misturadas. Com o tempo
tudo acaba por se ajeitar a linha
torna-se mais clara o espaço translúcido
e as palavras reescrevem a frase
ainda que completamente manchadas
pela tinta do tempo

Miguel Godinho

quinta-feira, agosto 16, 2007

Os macacos

os palhaços do circo jamaica
ficavam roídos de inveja
quando os macacos
entravam primeiro em cena

faz-me lembrar aqueles
que por aí andam e que
se tornam palhaços
quando o circo da vida
não os deixa actuar
quando querem

Miguel Godinho

terça-feira, agosto 14, 2007

DE COSTAS PARTI

miguel godinho

segunda-feira, agosto 13, 2007

És a tua ficção

És a tua ficção
uma ilusão criada
para te esqueceres de ti
um delírio exaltado
engendrado na infância
um pensamento heróico
para te esqueceres de ti

Miguel Godinho

terça-feira, agosto 07, 2007


No fim de semana passado visitei um local bastante interessante...
Aqui fica uma imagem do que se pode ver...
Exposição actual: "Pensa / Piensa / Think (a million ways to think)"
Felix Gonzalez Torres, Andreas Slominski, Aneta Grzeszykowska, Kris Martin, Tere Recarens, Elmgreen&Dragset, Guy Ben Ner, Gitte Shäffer, Ahmet Ogur e outros...

Centro d'Art de Santa Monica - Barcelona

Agosto 2007

segunda-feira, julho 30, 2007

O que nos fica de ontem
são ruínas nebulosas
simulacros que emendamos
conforme nos convém

Miguel Godinho

sexta-feira, julho 27, 2007


e um dia percebes que
há palavras que
só consegues pronunciar
depois de alguém te
ter ensinado a senti-las

Miguel Godinho

quarta-feira, julho 25, 2007

A ilusão

um desejo constante
essa vontade de retorno
à precedência da percepção
a uma inocência adolescente

recordas-te de ti
quando ainda não questionavas
as ausências de teu pai
quando desconhecias
a tormenta que se seguiria
recordas-te de ti
quando tudo era azul
quando ainda não te havias
transformado numa ilusão

Miguel Godinho

sexta-feira, julho 13, 2007

Sentado aqui


miguel godinho

quinta-feira, julho 12, 2007




que palavras

Que terminologia empregas
para que te alcancem
que lentes distribuis
para que te enxerguem
que paleta utilizas
para que te matizem
que palavras
para que te entendam
que palavras

Miguel Godinho

terça-feira, julho 10, 2007



quando as palavras encontram as imagens que as desenham

Miguel Godinho

terça-feira, julho 03, 2007

Mostra-me agora

Explica-me como é que
a memória não te recorda
da forma que desejavas

tantas histórias
que não me contaste
a ternura

mostra-me agora
que eu não
percebi em menino

fala-me das tuas ausências
da tua indiferença

mostra-me agora
para que eu consiga
olhar-te nos olhos

mostra-me agora

Miguel Godinho

segunda-feira, julho 02, 2007


Queria permanecer
sentado aqui
para sempre
a sentir
a sentir

Miguel Godinho

quarta-feira, junho 27, 2007

A teia

Ele próprio uma sombra indefinida
numa teia desarrumada
como se uma névoa de incertezas
elucidasse aquele passado desordenado
por onde o devir se foi entranhando

Miguel Godinho

quarta-feira, junho 20, 2007

domingo, junho 17, 2007


Está-se a compôr...

O teu alagar

Assisti ao teu alagar
(como numa inundação)
à ideia de esconderes as glórias
numa planície distante
para que ninguém mais (nem tu)
soubesse delas

Transformaste as tuas virtudes
em demências constantes
- o teu existir

Lembra-te que
essa tua tendência para o abismo
- um vórtice de loucuras constantes,
uma espera por algo que desconheces
pode de repente demolir-te
a decência e então escoas
por entre a caleira da vida

Miguel Godinho

quinta-feira, junho 14, 2007

Uma farda que te servia

Nas profundezas da tua pessoa
tu a olhares para ti
a gritares-te em tom de protesto
vaiado pela insegurança
vestiste uma farda que te servia
converteste-te numa coisa que não és tu
e agora… tu a olhares para ti
a gritares-te em tom de protesto
nas profundezas da tua pessoa
tu escondido de ti
diminuído de vergonha
numa farda que te servia
numa figura que agora é a tua

Miguel Godinho