segunda-feira, julho 30, 2007

O que nos fica de ontem
são ruínas nebulosas
simulacros que emendamos
conforme nos convém

Miguel Godinho

sexta-feira, julho 27, 2007


e um dia percebes que
há palavras que
só consegues pronunciar
depois de alguém te
ter ensinado a senti-las

Miguel Godinho

quarta-feira, julho 25, 2007

A ilusão

um desejo constante
essa vontade de retorno
à precedência da percepção
a uma inocência adolescente

recordas-te de ti
quando ainda não questionavas
as ausências de teu pai
quando desconhecias
a tormenta que se seguiria
recordas-te de ti
quando tudo era azul
quando ainda não te havias
transformado numa ilusão

Miguel Godinho

sexta-feira, julho 13, 2007

Sentado aqui


miguel godinho

quinta-feira, julho 12, 2007




que palavras

Que terminologia empregas
para que te alcancem
que lentes distribuis
para que te enxerguem
que paleta utilizas
para que te matizem
que palavras
para que te entendam
que palavras

Miguel Godinho

terça-feira, julho 10, 2007



quando as palavras encontram as imagens que as desenham

Miguel Godinho

terça-feira, julho 03, 2007

Mostra-me agora

Explica-me como é que
a memória não te recorda
da forma que desejavas

tantas histórias
que não me contaste
a ternura

mostra-me agora
que eu não
percebi em menino

fala-me das tuas ausências
da tua indiferença

mostra-me agora
para que eu consiga
olhar-te nos olhos

mostra-me agora

Miguel Godinho

segunda-feira, julho 02, 2007


Queria permanecer
sentado aqui
para sempre
a sentir
a sentir

Miguel Godinho

quarta-feira, junho 27, 2007

A teia

Ele próprio uma sombra indefinida
numa teia desarrumada
como se uma névoa de incertezas
elucidasse aquele passado desordenado
por onde o devir se foi entranhando

Miguel Godinho

quarta-feira, junho 20, 2007

domingo, junho 17, 2007


Está-se a compôr...

O teu alagar

Assisti ao teu alagar
(como numa inundação)
à ideia de esconderes as glórias
numa planície distante
para que ninguém mais (nem tu)
soubesse delas

Transformaste as tuas virtudes
em demências constantes
- o teu existir

Lembra-te que
essa tua tendência para o abismo
- um vórtice de loucuras constantes,
uma espera por algo que desconheces
pode de repente demolir-te
a decência e então escoas
por entre a caleira da vida

Miguel Godinho

quinta-feira, junho 14, 2007

Uma farda que te servia

Nas profundezas da tua pessoa
tu a olhares para ti
a gritares-te em tom de protesto
vaiado pela insegurança
vestiste uma farda que te servia
converteste-te numa coisa que não és tu
e agora… tu a olhares para ti
a gritares-te em tom de protesto
nas profundezas da tua pessoa
tu escondido de ti
diminuído de vergonha
numa farda que te servia
numa figura que agora é a tua

Miguel Godinho

quarta-feira, junho 13, 2007

As sombras nocturnas

Nos desejos adolescentes
a inocência talhada
será sempre assim
o Junho de 98
de novo aqui
e o cheiro a ria
eu deitado
na sombra nocturna
da casa fechada
na praia da ilha
o vento sussurra
será sempre assim

Miguel Godinho

terça-feira, junho 05, 2007

Continuando a conversa do outro dia...

Há indivíduos (na maioria das vezes relativamente jovens) que assim que se vêem com um cargo hierarquicamente interessante, passam a trajar uma pose bastante curiosa (...)

(...) São putos de trinta e poucos, talvez uns anitos mais velhos, alguma experiência laboral mas com a “lição já toda sabida”, afinal já adquiriram “as” manhas e um pouco de blá-blá-blá. Já têm a escola toda… É o género de pessoas que traz sempre a barbinha bem feitinha e o sorrisinho bem vincadinho na carinha, o típico Engº ou Drº que faz questão de franzir o grau como se vivêssemos ainda numa monarquia. É também o tipo de gente que se dirige aos “catraios” recém integrados no trabalho e que os trata como miúdos, como palermas, ou coisa que o valha, ralé, enfim, gentinha a quem é preciso mostrar quem manda.

Miguel Godinho

segunda-feira, junho 04, 2007



O mar em mim

Continuo a sentir-te
em tons de azul
de cada vez que olho o mar

não é verdade que as ondas
sejam uma metáfora
da tua inconstância

são apenas ondas
e eu gosto do mar ondulado


Miguel Godinho

quinta-feira, maio 31, 2007


O carimbo do tempo

Olhas as mãos
e não vês apenas as rugas,
a calosidade.
vês a vida, o ardor do carimbo arrebatado do tempo e
os cânticos das longas jornas de trabalho
no suor que te escorria a face

Sentes o cheiro a terra e a estrume
e [qual nódoas] regressam as pintas da cal
com que cobriste
os muros altos da quinta em ruína

Olhas as mãos e vês-te a ti, jovem
à espera de as tornares a olhar, velho
para que percebas que o tempo que corre
de um momento ao outro
só faz sentido agora,
ao olhares as mãos.


Miguel Godinho

domingo, maio 27, 2007



Faro

Aqui me encontrei
Uma e outra vez
Aqui me descobri
uma e mais vezes
nos covis desta cidade
nas entranhas das ruelas

aqui me perdi
uma e outra vez
como se dançasse
ao som dos lampiões urbanos
nunca era tarde demais
nunca me detinham com palavras
as palavras eram sempre poucas
o som era o que me movia
as luzes, os cheiros
as flores lilases dos jacarandás
o pôr do sol na sé
e os amanhãs despreocupados
os aliados sempre ali
e eu sem me aperceber que era eu
sem necessidade de ser eu
vagabundo errante
na sombra dos dias
nas longas esperas pela noite

Miguel Godinho

sábado, maio 26, 2007













As silhuetas talhadas

A cal em chamas
recortada na casa e
as silhuetas talhadas
no silêncio dos campos.
Há poesia nas sombras,
nos telhados, na nora
e no sol ardente
derramado no horizonte crepuscular
em sopros de ventos perfumados


Miguel Godinho

terça-feira, maio 22, 2007

Uma última vez

o teu olhar nu ou
a lancinante elegância que arruinou
o escudo que inventei

na confusão da escrita
deixo bem claro
na escura folha
que não te verei
uma última vez

Miguel Godinho