terça-feira, junho 05, 2007
Continuando a conversa do outro dia...
Há indivíduos (na maioria das vezes relativamente jovens) que assim que se vêem com um cargo hierarquicamente interessante, passam a trajar uma pose bastante curiosa (...)
(...) São putos de trinta e poucos, talvez uns anitos mais velhos, alguma experiência laboral mas com a “lição já toda sabida”, afinal já adquiriram “as” manhas e um pouco de blá-blá-blá. Já têm a escola toda… É o género de pessoas que traz sempre a barbinha bem feitinha e o sorrisinho bem vincadinho na carinha, o típico Engº ou Drº que faz questão de franzir o grau como se vivêssemos ainda numa monarquia. É também o tipo de gente que se dirige aos “catraios” recém integrados no trabalho e que os trata como miúdos, como palermas, ou coisa que o valha, ralé, enfim, gentinha a quem é preciso mostrar quem manda.
Miguel Godinho
Há indivíduos (na maioria das vezes relativamente jovens) que assim que se vêem com um cargo hierarquicamente interessante, passam a trajar uma pose bastante curiosa (...)
(...) São putos de trinta e poucos, talvez uns anitos mais velhos, alguma experiência laboral mas com a “lição já toda sabida”, afinal já adquiriram “as” manhas e um pouco de blá-blá-blá. Já têm a escola toda… É o género de pessoas que traz sempre a barbinha bem feitinha e o sorrisinho bem vincadinho na carinha, o típico Engº ou Drº que faz questão de franzir o grau como se vivêssemos ainda numa monarquia. É também o tipo de gente que se dirige aos “catraios” recém integrados no trabalho e que os trata como miúdos, como palermas, ou coisa que o valha, ralé, enfim, gentinha a quem é preciso mostrar quem manda.
Miguel Godinho
segunda-feira, junho 04, 2007
quinta-feira, maio 31, 2007

O carimbo do tempo
Olhas as mãos
e não vês apenas as rugas, a calosidade.
vês a vida, o ardor do carimbo arrebatado do tempo e
os cânticos das longas jornas de trabalho
no suor que te escorria a face
Sentes o cheiro a terra e a estrume
e [qual nódoas] regressam as pintas da cal
com que cobriste
os muros altos da quinta em ruína
Olhas as mãos e vês-te a ti, jovem
à espera de as tornares a olhar, velho
para que percebas que o tempo que corre
de um momento ao outro
só faz sentido agora,
ao olhares as mãos.
Olhas as mãos
e não vês apenas as rugas, a calosidade.
vês a vida, o ardor do carimbo arrebatado do tempo e
os cânticos das longas jornas de trabalho
no suor que te escorria a face
Sentes o cheiro a terra e a estrume
e [qual nódoas] regressam as pintas da cal
com que cobriste
os muros altos da quinta em ruína
Olhas as mãos e vês-te a ti, jovem
à espera de as tornares a olhar, velho
para que percebas que o tempo que corre
de um momento ao outro
só faz sentido agora,
ao olhares as mãos.
Miguel Godinho
domingo, maio 27, 2007

Faro
Aqui me encontrei
Uma e outra vez
Aqui me descobri
uma e mais vezes
nos covis desta cidade
nas entranhas das ruelas
aqui me perdi uma e outra vez
como se dançasse
ao som dos lampiões urbanos
nunca era tarde demais
nunca me detinham com palavras
as palavras eram sempre poucas
o som era o que me movia
as luzes, os cheiros
as flores lilases dos jacarandás
o pôr do sol na sé
e os amanhãs despreocupados
os aliados sempre ali
e eu sem me aperceber que era eu
sem necessidade de ser eu
vagabundo errante
na sombra dos dias
nas longas esperas pela noite
Miguel Godinho
sábado, maio 26, 2007
terça-feira, maio 22, 2007
sábado, maio 19, 2007
A imagem
Assim de súbito
uma memória de sangue
e a cristalina imagem:
tu diante de mim
imaculada
como se nunca
te tivesses ausentado
de novo
uma lágrima que escorre
e tu a rires-te da estulta figura
que confecciono
de cada vez que a brisa de Verão
traz de volta
o sabor dos teus lábios
a lua continua cheia lá no alto
é como se permanecêssemos
para sempre deitados
na praia onde tudo começou
Miguel Godinho
Assim de súbito
uma memória de sangue
e a cristalina imagem:
tu diante de mim
imaculada
como se nunca
te tivesses ausentado
de novo
uma lágrima que escorre
e tu a rires-te da estulta figura
que confecciono
de cada vez que a brisa de Verão
traz de volta
o sabor dos teus lábios
a lua continua cheia lá no alto
é como se permanecêssemos
para sempre deitados
na praia onde tudo começou
Miguel Godinho
quinta-feira, maio 10, 2007
Esculpir o silêncio
O vazio dos meus suspiros
e as lágrimas vespertinas
nos desertos áridos do nosso ser
as ilusões sensíveis nas curvas do olhar
e os sonhos recortados a cada instante
inflamo a dor com esses suspiros
esses hálitos inúteis esculpidos de bafio
agora é o olhar caído que pensa saudade
saudade dos tempos
em que pouco queria dizer muito
Miguel Godinho
O vazio dos meus suspiros
e as lágrimas vespertinas
nos desertos áridos do nosso ser
as ilusões sensíveis nas curvas do olhar
e os sonhos recortados a cada instante
inflamo a dor com esses suspiros
esses hálitos inúteis esculpidos de bafio
agora é o olhar caído que pensa saudade
saudade dos tempos
em que pouco queria dizer muito
Miguel Godinho
quarta-feira, maio 09, 2007
Há individuos (senhores e senhoras) na função pública que assim que se vêem com um cargo hierarquicamente interessante, passam a trajar uma pose bastante curiosa. Aderem ao clube dos chico-espertos e resolvem trocar as fraldinhas por camisinhas bem engomadinhas combinadinhas com calçinha de pinça creme já que assim pensam que conseguem algum respeito, como se não cheirasse a arrogância sempre que se esquecem de fechar a porta dos seus gabinetes.
Vidinhas...
terça-feira, maio 08, 2007
quarta-feira, abril 25, 2007
De mão dada
um dia descobrimos
nas desordens de hoje
as mentiras que construímos
os pilares em ruptura
um dia espreitamos
pela reixa da memória
e entramos em colapso
uma paranóia que se instala
um dia desobstruímos
o túnel de acesso
aos pretéritos imperfeitos
uma viagem assombrosa
um dia tombamos
nas lembranças inexistentes
como uma que tenho de ti
de mão dada comigo
Miguel Godinho
um dia descobrimos
nas desordens de hoje
as mentiras que construímos
os pilares em ruptura
um dia espreitamos
pela reixa da memória
e entramos em colapso
uma paranóia que se instala
um dia desobstruímos
o túnel de acesso
aos pretéritos imperfeitos
uma viagem assombrosa
um dia tombamos
nas lembranças inexistentes
como uma que tenho de ti
de mão dada comigo
Miguel Godinho
terça-feira, abril 24, 2007
Em carne viva
Descubro a tua voz
nos destroços das minhas indústrias
nos vícios que me definem
na clemência com que me exibo
retrato emoldurado na memória
- é como se existissem palavras que
só o teu silêncio soubesse dizer,
que só na tua imagem fizessem sentido
sons que se me inscrevem na pele
como se passasses por aqui
em carne viva, para me alentar
Miguel Godinho
Descubro a tua voz
nos destroços das minhas indústrias
nos vícios que me definem
na clemência com que me exibo
retrato emoldurado na memória
- é como se existissem palavras que
só o teu silêncio soubesse dizer,
que só na tua imagem fizessem sentido
sons que se me inscrevem na pele
como se passasses por aqui
em carne viva, para me alentar
Miguel Godinho
segunda-feira, abril 23, 2007
sábado, abril 21, 2007
quarta-feira, abril 18, 2007
segunda-feira, abril 16, 2007
A ponte da Sé
Nus nos nossos sítios
era assim que nos sentíamos
sentados serenos sem necessidade
de roupagens nem regras
Rente à linha a ponte da Sé
o cheiro a óleo e a maresia
os barcos e
a constância despreocupada
daqueles crepúsculos tão extensos
agora reparo
a noite já não cai na ria assim
é como se tivéssemos vestido as roupas
outrora desnecessárias
Miguel Godinho
Nus nos nossos sítios
era assim que nos sentíamos
sentados serenos sem necessidade
de roupagens nem regras
Rente à linha a ponte da Sé
o cheiro a óleo e a maresia
os barcos e
a constância despreocupada
daqueles crepúsculos tão extensos
agora reparo
a noite já não cai na ria assim
é como se tivéssemos vestido as roupas
outrora desnecessárias
Miguel Godinho
sábado, abril 14, 2007
sexta-feira, abril 13, 2007
Os soldados anónimos da vida
Os soldados anónimos da vida
esses que deambulam por entre
um existir incógnito
são a imaculada memória do nada
numa inocente batalha pelo espaço.
Por onde vagueiam sabemos
- esses gélidos sítios de ausência
na bruma da noite invernal
Ainda assim se preocupam
como se alguém se fosse lembrar deles
como se valesse a pena estarem vivos
e merecessem permanecer aqui
junto de quem nunca os chorará
junto de quem os finge não ver
Miguel Godinho
Os soldados anónimos da vida
esses que deambulam por entre
um existir incógnito
são a imaculada memória do nada
numa inocente batalha pelo espaço.
Por onde vagueiam sabemos
- esses gélidos sítios de ausência
na bruma da noite invernal
Ainda assim se preocupam
como se alguém se fosse lembrar deles
como se valesse a pena estarem vivos
e merecessem permanecer aqui
junto de quem nunca os chorará
junto de quem os finge não ver
Miguel Godinho
quinta-feira, abril 12, 2007
Do passado o presente se apropria
Do passado o presente se apropria
reivindicando a prescrição do antigo
- esse passado enfarpelado de hoje
coberto com uma jaqueta moderna
uma fatiota ligeiramente recomposta
a camisa por dentro da calça
e um corte de cabelo mais aprumado
num corpo que é sempre o mesmo
para mim o progresso é um embuste
uma imitação, um decalque, um dejá vu
uma visão renovada do que sempre foi
uma passagem pela constância
por onde o tempo vai circulando
Miguel Godinho
Do passado o presente se apropria
reivindicando a prescrição do antigo
- esse passado enfarpelado de hoje
coberto com uma jaqueta moderna
uma fatiota ligeiramente recomposta
a camisa por dentro da calça
e um corte de cabelo mais aprumado
num corpo que é sempre o mesmo
para mim o progresso é um embuste
uma imitação, um decalque, um dejá vu
uma visão renovada do que sempre foi
uma passagem pela constância
por onde o tempo vai circulando
Miguel Godinho
quarta-feira, abril 11, 2007
O passeio das incertezas
Tropeçar nas esquinas do pensamento
e lavar a cara na chuva reminiscente
a face escondida num espectro de luz e
o cheiro na sombra que me embala
escorrego no passeio das incertezas
e embato nos pilares que me sustentam
- os trajectos das ideias são perigosos
as cartografias dos terrenos não existem
e os caminhos conduzem-me sempre ao mesmo destino
uma memória tua
Miguel Godinho
Tropeçar nas esquinas do pensamento
e lavar a cara na chuva reminiscente
a face escondida num espectro de luz e
o cheiro na sombra que me embala
escorrego no passeio das incertezas
e embato nos pilares que me sustentam
- os trajectos das ideias são perigosos
as cartografias dos terrenos não existem
e os caminhos conduzem-me sempre ao mesmo destino
uma memória tua
Miguel Godinho
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