sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Dos nossos espinhos nasce

Ouço o silêncio das nossas vozes e
declaro o som da tua
da nossa
ausência. Que clara a luz
distante da escura névoa que nos esclarece
que branda flor aquela
que nasce dos nossos espinhos
a chuva já cai num breve punhado de lágrimas
e o espectro de luz assoma-se
como que numa memória
de um tempo que é sempre igual
de uma história já contada

espero aqui por ti
enquanto a censura acontece
enquanto este segundo durar

Miguel Godinho

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Depois disso

Depois disso
anuncio constantemente uma
nova compreensão de vida uma
reinvenção da moral abstracta tento
renovadamente um parto
de mim próprio uma
nova postura uma
ideia reformada um
novo olhar
acabo por retornar sempre
à mesma realidade como
se não soubesse outra como
se nunca tivesse reservado nada como
se o conceito que imaginei deixasse de
fazer sentido no
preciso momento em que
é engendrado
depois disso sou outro
depois disso sou o mesmo
sempre sou sempre
eu

Miguel Godinho

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

As palavras certas

Há dias em que as mãos insistem nas teclas erradas. Dias em que após várias horas passadas em frente ao ecrã, à espera de ver sair “as” palavras, finalmente apercebemo-nos que isso não é possível. Nestes dias, raramente passamos das três primeiras linhas. Podemos até conseguir mais que isso, mas mais cedo ou mais tarde, voltamos atrás e apagamos tudo, de novo. E a tarefa, repetir-se-á umas boas vezes. Porque simplesmente, nesses dias, não é possível. E este é um desses.

Nos dias em que as certezas não têm palavras
as palavras certas não existem.

Miguel Godinho

domingo, fevereiro 11, 2007

As danças fúteis

Há uma sombra cósmica existencial,
uma imortalidade adjacente, como que
uma justificação transcendental em tudo isto.
A intemporalidade das ideias essenciais,
presente nas palavras que nunca mudam
converte-se numa sequência
constante de descobrimentos do nosso ser.
É aí que permanece a noção do Eu,
essa que nunca se chega a ter
nestes espaços adulterados de hoje,
neste baile de danças fúteis.

Miguel Godinho

sábado, fevereiro 10, 2007

Haraquiri da mente é corromper o presente, tentando reanimar uma sombra inflamada pela chuva de um Inverno sem silhueta.

De vez em quando, verte uma memória de ausência.

Miguel Godinho

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Tudo é causa de tudo e provoca consequências que se tornam causa de outras consequências.

Teoria do caos

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

A Nora de Cacela [II]

A água que jaz no fundo da nora
de Cacela espera pelo alcatruz que
já não circula na corrente daquele
engenho oxidado. A mula que fazia girar
o eixo corroído pela idade já não se presta
ao esforço e o senhor que pacientemente
lhe cobria os olhos com o ferrolho
trava agora uma sólida luta contra o tempo.
A nora estranha a condição de já não
poder puxar a água do fundo do poço
depois de tantos litros de labor
e a labuta das terras por agricultar
já não pertence nem aos homens nem
às bestas deste Algarve apartado
de hoje. A paisagem de esquecimento de
anos e anos de dor, sofrimento e alegria
é óbvia e vai ditando o cessar da essência
deste cantinho plantado por entre
serra, prédios e mar.

Miguel Godinho

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A corrente do esquecimento

Que forma tem uma ideia?
qual o seu peso, a sua estrutura,
a sua materialidade?
E que cheiro tem essa ideia,
qual o seu sabor, a sua textura?
Onde se reclamam as ideias perdidas?

Houve um conceito que repetia o nome da eternidade. Abruptamente, deixou-se seguir na corrente do esquecimento e escoou, remando nos braços da sorte que tão depressa a trouxe a esta cabeça como assim a levou de volta, repondo a preços de súplica um retorno à inocência dos bolsos vazios… de ideias.

Miguel Godinho

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Cumprimos rigorosamente o ritual da mais
antiga solidão. Desenhamos palavras, que se
inscrevem no papel, como se fosse pedra,
para que as chuvas as amaciem, roubando-lhes
a rudeza das consoantes. Limpo-as da sua casca,
como os lenhadores fazem aos troncos,
descobrindo a matéria fresca que enche as
veias da frase, humedecendo a boca. Mas tu,
que te apressas em direcção à saída, ouve
ainda o que te dizem: «Viajante, aqui te
esperamos, sempre.» E quando saíres, o sol
intenso da manhã impedir-te-á de saber onde
estás, ou se cada um dos prédios que te rodeiam
é, afinal, um fragmento de coluna, que um
deus irado quebrou. Depois, habitua-te ao presente;
e faz da árvore do centro, a que resiste no seu
canto, guarida de sombras e de aves,
a provisória habitação do seu sonho.

Nuno Júdice, Geografia do caos, Assírio & Alvim, 2005, p.64.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Aqui agora para sempre

Escondíamo-nos das palavras débeis
que nos definiam
e borrávamos o texto que escreviam aqueles
cujas canetas compunham
pesadas arquitecturas imaginadas
tentámos apenas uma vez
abrir o livro que
contava a história das nossas infâncias
e compreendemos os passados de cada um
Foi assim que a desconexão do mundo
nos colocou no mesmo tabuleiro
e eis que nos encontramos aqui agora
para sempre

Miguel Godinho

terça-feira, janeiro 30, 2007

A minha morada

Revelar na dor do Ser
o estimado e imprevisto regaço
indefinido presente na imaculada
sensação de constância
- um empenho inscrito no desejo constante
de retorno ao desgosto criativo de sensações
cálidas e genuínas

Estranhas a minha tendência
para o negro, ainda que saibas que
é essa a minha morada, ainda que custe a
crer na terna doçura que é a melancolia,
essa suave brisa de sensações
cálidas e genuínas

Miguel Godinho

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Os espelhos nem sempre falam verdade
nem sempre dizem tudo
nem sempre têm palavras para
mostrar que aquilo que vêm
nem sempre é o que olham


Miguel Godinho

sexta-feira, janeiro 26, 2007

A mão que te devora

Gritar-te palavras inquinadas e
extrair-te dos lábios palavras sujas
A turva definição do pensamento
é a imagem que descreve
a mão que te devora
agora
Roça-me a razão com a insónia
que te adormece de prazer
e permite-me manar o fluxo
que nos completa

Miguel Godinho

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Um texto que se reescreve

Há um texto que nos acompanha
toda a vida qual escultura que se
vai talhando. Uma peça de barro que
se modela sem que nunca se ajeite
um assunto que nunca se finaliza, que
jamais se encerra, um tema sem tema.
Esse texto escreve-se com o passar dos anos
é o vento que o pontua, a chuva que
o desfigura e o sol que alvitra
a luz que lhe corrige e castiga os erros.
Todos temos um texto que se reescreve
que se apaga, que não queremos finalizar
demorando a caneta, tentando que
não perca a tinta e que alguém consiga
entender a caligrafia por vezes nervosa
por vezes impaciente, por vezes excitada
Como se a vida se pudesse escrever
num mesmo texto, como se
o texto fossemos nós.

Miguel Godinho

quarta-feira, janeiro 24, 2007

É um vírus em mim

É um vírus em mim
uma máquina que labuta
e desconexa
um pensamento que acorda violenta e
afronta a razão que me prende
suavemente constantemente
É assim que esqueço que o anseio sempre
me avassala

é um desejo que não alcanço
uma intenção deliberada
uma peçonha
uma luta essencial que
se ganha hoje e se
desbarata amanhã
É um vírus em mim


Miguel Godinho

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O dilatar das pupilas

Não estranhei o dilatar das pupilas nem
a ausência que sempre adornou o sentir
uma incomunicabilidade latente
numa fadiga de axilas receosas

desta vez seria diferente, poderia ter sido

uma dor exígua num espaço vulgar
quase sempre o mesmo, perpetuamente indistinto
uma sensação estranha, imperturbável
um embrulho que se paga caro

uma vida que deixa de o ser

um ardor

Sinto que breves se tornam as memórias
e os rasgos da calosidade da alma
fazem-me experimentar
estes nocturnos pesares, insuportáveis

e é assim que por breves instantes
desço do extâse e caio em desgraça
no imenso mar de uma dor que é
existir desta forma.

Miguel Godinho
"Escrevo livros porque quero saber como terminam"

José Eduardo Agualusa

domingo, janeiro 21, 2007

Wax Tailor - Hypnosis Theme

A vida é um estado hipnótico. Ao contar até 3 irão acordar e não recordar nada. Nada. Por muito que custe a alguns.

Miguel Godinho

sexta-feira, janeiro 19, 2007








Foi no grande lago salgado da Tunísia que vi pela primeira vez uma miragem. Quão sublime é um imenso espaço vazio, onde o chão é sal, onde o sal é água, onde o sal é céu.





Miguel Godinho