domingo, janeiro 21, 2007

Wax Tailor - Hypnosis Theme

A vida é um estado hipnótico. Ao contar até 3 irão acordar e não recordar nada. Nada. Por muito que custe a alguns.

Miguel Godinho

sexta-feira, janeiro 19, 2007








Foi no grande lago salgado da Tunísia que vi pela primeira vez uma miragem. Quão sublime é um imenso espaço vazio, onde o chão é sal, onde o sal é água, onde o sal é céu.





Miguel Godinho

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Primeiramente
Aquilo que procuro primeiramente ao ler um poema não é perceber o que o poeta estava a sentir ao escrever o texto. Pretendo sim que o poema me transmita algo, que me desperte algum tipo de emoção, que comunique comigo, que me acenda uma luz interior. No fundo, quero que o poema seja capaz de me arrancar algum tipo de agitação interior – é dessa forma que entendo que se deva processar o primeiro contacto. No fundo, espero que o poema me transmita uma imagem emotiva, sensorial. Primeiro o poema comunica comigo, por si só. Depois e só depois, o poeta e o seu poema.
O mesmo se aplica à pintura, à escultura e a todas as artes. É a obra isolada que deve comunicar primeiramente e não o artista. Para mim, o valor da obra reside nela mesma. Só depois me interesso por contextualizar a obra na vida, no sentir do artista. É certo que tudo na vida tem um contexto e deve ser entendido como tal, mas também é certo que a arte tem o poder de se abstrair do seu contexto para se fazer valer autonomamente. Porque no fundo, o seu contexto somos nós e não apenas quem a executou.
Miguel Godinho

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Amanhã quem sabe

Há uma arrogância excessiva na
forma do mundo olhar o mundo
Uma alienação aflitiva que absorve
e nem mastiga
o ruído disforme da cidade
É como que um indiferença que
impressiona pela imoralidade latente
Vidas que se corrompem
umas às outras sem que se apercebam
minimamente, descaradamente, evidentemente.
No entanto
Marcamos constantemente o compasso desta rotina
e cumprimos todos os dias à regra
o toque do alarme das oito
prometendo uma e outra vez que
não enlouquecemos hoje
amanhã quem sabe
Que palco este em que nos encontramos
de manhãs difíceis e tardes melancólicas,
hoje, amanhã e depois
é tão evidente quanto pagar impostos
e acabar deitado numa cama
oito palmos abaixo desse mundo
que olha o mundo com olhos de confiança
como se tudo fosse fácil de entender
Como se amanhã tudo se tornasse mais fácil...

Miguel Godinho

terça-feira, janeiro 16, 2007

O que é a Aparição?

Primeiro olho a folha em branco, depois sinto o perfume que dela brota, seguindo com a caneta os sinais indiciadores de uma presença que lentamente se assoma para finalmente se anunciar. De onde surgem estas inscrições com que marco as páginas? De onde provém a ideia que me força a exprimi-la? Que força é esta que me impele a borrar esta folha com um texto que há pouco não estava destinado a existir?
Importa perceber os mecanismos que levam este desejo (o qual existe primeiramente enquanto nada, depois sob a forma de ideia para por fim convocar obsessivamente a necessidade de materialização sob a forma de texto escrito) a tornar-se verdadeiramente um desejo. Porque primeiramente o desejo não existe, nem a concepção que o formula. Primeiro existe uma paz, depois um tormento, como se inicialmente fosse um sossego e posteriormente uma necessidade para, por fim, se tornar inteligibilidade. Que reacções se desencadeiam na mente para que sejamos compelidos a exprimir uma concepção, neste caso sob a forma escrita?
É o momento da inscrição, que se segue ao inferno da confrontação do moldar da ideia, que define a aparição. Primeiro o nada, depois a necessidade de confrontação para finalmente se permitir a inscrição. Quietude, pensar, inferno, beatitude. Primeiro a folha em branco, depois a necessidade seguida do confronto para finalmente se concretizar o registo.
O que sente uma pessoa no momento da aparição? Que luz é essa e de onde vem? De onde provirá esse rasgo de anunciação que subitamente nos assola, reclamando uma ordenação?
A aparição é o momento em que a ideia é expressa, em que a mesma se inscreve, ordenada. A aparição é a materialização (sob que forma seja) da ideia barroca, disforme e (ainda) incompreensível. A aparição é este texto que agora existe no papel e que anteriormente existia em bruto na minha cabeça. E que antes ainda, nem sequer existia.

Miguel Godinho

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Ser e não ser eu ou
ser eu não o sendo
acabo por ser dois
sem saber qual deles sou
acabo não sendo nada
por querer ser
quem não sou
sendo que sou tudo
por não saber já
quem sou.


Miguel Godinho
Por vezes dou por mim a tentar perceber o presente. Parece que de repente me escapa o passado, como se me tirassem o tapete da memória debaixo dos pés. Paro, escuto e não ouço a memória. E então tenho de aguardar que ela regresse, como se esta fosse autónoma, como se tivesse vida própria. Sou eu a tentar aceder a um ficheiro da memória, eu a tentar aceder a mim. Um pouco à semelhança do que acontece com os computadores, quando não respondem de imediato a uma ordem e ficam a pensar até que finalmente executam a operação. Por vezes qualquer coisa corre mal e é necessário encerrar a operação para executá-la de novo. Há ficheiros que por vezes não abrem porque se danificam, sem que ninguém lhes mexa. A memória é isso mesmo. Uma série de ficheiros que necessitam de uma duplicação de suportes para que não se danifiquem e se percam. Convém reproduzi-los materialmente para que isso não aconteça. A escrita pode cumprir essa função.

Miguel Godinho

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Sinto que o meu destino se define como um gato que trepou uma árvore e escolheu um galho para se sentar porque lhe pareceu bem, a dada altura. Acomodou-se bem para que não caísse, para se aquecer convenientemente e ali ficou. Não se interessou muito se o galho do lado oposto da árvore era mais confortável, talvez viesse a experimenta-lo um dia, talvez não, who cares? Enquanto aquele galho não se partisse e enquanto se sentisse confortável, ali permaneceria.

Miguel Godinho

segunda-feira, janeiro 08, 2007

A sombra de uma luz fugidia
na memória – a tua face
Cor revelada numa
forma nocturna – o teu corpo
Epígrafe tatuada numa
derme sensível– o teu nome
Vapor etílico de noites
estratégicas – o teu cheiro

Reconstruo o castelo que te define
numa alvenaria de pedra disforme e
recupero a muralha caída que
o nosso tempo abandonou.
É assim o teu novo Ser:
uma calma póstuma,
uma fortaleza melindrosa que
apenas permanece
numa ideia nostálgica.


Miguel Godinho

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Aparição (2)

Convences a quietude primordial
da caneta a descobrir o caminho das
vozes que afagam uma memória
silenciosa. Permites-me ver-te
a face escondida na bruma do medo,
obrigando-me ao receio de fabricar uma lembrança
que nunca existiu e que se inventa de novo.
É como se ganhasses vida própria,
sem que nem eu nem essa caneta consigam
orientar o vento que da folha escrita advém.
És força sem motor nem combustível,
uma vontade autónoma, um fogo que arde
sem que ninguém o inflame.
Sei que existes porque assim o ditas,
porque a vontade de te dizeres é
o meu desejo de te consumir.


Miguel Godinho

Enquadra-se na série de aparições do sulscrito.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

O silêncio [2]

O silêncio não é vazio
penetra no mar de nós
navega por entre sentires
naufraga nas conjecturas

O silêncio é angular
uma estrada que não se conhece
um mapa desactualizado
um trilho que nos percorre

o silêncio é
uma mudez desbocada
uma palavra, um texto que
sem se dizer já foi dito.


Miguel Godinho

sábado, dezembro 30, 2006

A beleza intelectual de uma pessoa consiste na forma
como esta se despe, na gentileza com que se desnuda.

Um texto é uma forma de se despir um assunto.
Há uma sensualidade na forma como este deixa cair a sua roupagem.

Miguel Godinho

quinta-feira, dezembro 28, 2006

A rarefacção do ar
neste ambiente infectado
obriga-me a
respirar o ar que me consome, a
consumir o ar que me respira, a
definhar para respirar o ar que
consumo quando tento
respirar. É assim que
fico sem fôlego quando
respiro este ar de contágio
quando sorvo esse ar para o respirar
quando respiro de um só
fôlego esse ar que me consome.
É assim que sobrevivo,
é assim que vou existindo
neste ambiente pervertido e
é assim que me corrompo também.

Miguel Godinho

domingo, dezembro 24, 2006

Expressão curiosa:
"O Natal não interessa nem ao menino Jesus".
Dá que pensar...

sábado, dezembro 23, 2006

É um eu que provém do eu

É um eu que provém do eu
Um corpo sem corpo que parte
desta matriz primordial
de uma mãe que sou eu
de um pai que é o vento
Descaramento amniótico de um ventre
que deixa nascer e pode matar
Imagem translúcida mutável, uma
aparição que pare imprime e comprime
a imagem espectral do que sempre somos:
frutos procedentes do Outro,
seres uterinos, umbilicais
sem figuração real
sem tão pouco sabermos
se somos um ou o outro.

Miguel Godinho

sexta-feira, dezembro 22, 2006

A dor das árvores

As árvores lacrimejam e padecem
lembram-se das folhas
que sempre tombam
A terra ampara
e oculta essa dor
como que tentando conceber e
assimilar o trânsito das estações
penetrando no silêncio impenetrável
desse pesar que só as árvores
desnudam.

Miguel Godinho

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Uma parte do texto

Abrir esse livro
Consumir uma parte do texto
e deixar-me consumir
Como se a mensagem que transporta
fosse suficiente para perceber toda uma vida
e entender o caminho que me leva
até ao momento
em que abro esse livro
e o fecho de seguida, saciado.


Miguel Godinho

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Sentado na nora percebi

Sentado na nora de Cacela percebi que
os figos secos têm o sabor da inocência
e que a luz deste sol de Dezembro
traz a palavra que me conforta
madurada numa memória
de um Dezembro intemporal
reflectida na cal
que se renova mas que
juntamente com o azul do céu
e do mar lá longe conserva
as cores da constância
deste Algarve onde nasci.

Miguel Godinho
Lúcidos silêncios

O gesto inocente na linguagem corporal
a tua violenta forma de ser sem se ver,
um incêndio. Vibram as enérgicas esferas
de luz ferem-me a íris - como que
lúcidos silêncios habitados pelo
respirar de uma ausência que é falsa
e então estremeço com a delicadeza
com que nomeias a palavra que me define
Consome-se o ar irrespirável projecta-se
em mim a sombra desse lugar
desse espaço que não é completamente vazio
Uma incandescência que se esconde
numa volúpia de vibrações
gravitam em mim as curvas óbvias da essência
que te compõem e resplandeço
ainda que sejas ferida que não cura
ainda que não sintas a transparência

Miguel Godinho