quinta-feira, janeiro 11, 2007

Ser e não ser eu ou
ser eu não o sendo
acabo por ser dois
sem saber qual deles sou
acabo não sendo nada
por querer ser
quem não sou
sendo que sou tudo
por não saber já
quem sou.


Miguel Godinho
Por vezes dou por mim a tentar perceber o presente. Parece que de repente me escapa o passado, como se me tirassem o tapete da memória debaixo dos pés. Paro, escuto e não ouço a memória. E então tenho de aguardar que ela regresse, como se esta fosse autónoma, como se tivesse vida própria. Sou eu a tentar aceder a um ficheiro da memória, eu a tentar aceder a mim. Um pouco à semelhança do que acontece com os computadores, quando não respondem de imediato a uma ordem e ficam a pensar até que finalmente executam a operação. Por vezes qualquer coisa corre mal e é necessário encerrar a operação para executá-la de novo. Há ficheiros que por vezes não abrem porque se danificam, sem que ninguém lhes mexa. A memória é isso mesmo. Uma série de ficheiros que necessitam de uma duplicação de suportes para que não se danifiquem e se percam. Convém reproduzi-los materialmente para que isso não aconteça. A escrita pode cumprir essa função.

Miguel Godinho

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Sinto que o meu destino se define como um gato que trepou uma árvore e escolheu um galho para se sentar porque lhe pareceu bem, a dada altura. Acomodou-se bem para que não caísse, para se aquecer convenientemente e ali ficou. Não se interessou muito se o galho do lado oposto da árvore era mais confortável, talvez viesse a experimenta-lo um dia, talvez não, who cares? Enquanto aquele galho não se partisse e enquanto se sentisse confortável, ali permaneceria.

Miguel Godinho

segunda-feira, janeiro 08, 2007

A sombra de uma luz fugidia
na memória – a tua face
Cor revelada numa
forma nocturna – o teu corpo
Epígrafe tatuada numa
derme sensível– o teu nome
Vapor etílico de noites
estratégicas – o teu cheiro

Reconstruo o castelo que te define
numa alvenaria de pedra disforme e
recupero a muralha caída que
o nosso tempo abandonou.
É assim o teu novo Ser:
uma calma póstuma,
uma fortaleza melindrosa que
apenas permanece
numa ideia nostálgica.


Miguel Godinho

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Aparição (2)

Convences a quietude primordial
da caneta a descobrir o caminho das
vozes que afagam uma memória
silenciosa. Permites-me ver-te
a face escondida na bruma do medo,
obrigando-me ao receio de fabricar uma lembrança
que nunca existiu e que se inventa de novo.
É como se ganhasses vida própria,
sem que nem eu nem essa caneta consigam
orientar o vento que da folha escrita advém.
És força sem motor nem combustível,
uma vontade autónoma, um fogo que arde
sem que ninguém o inflame.
Sei que existes porque assim o ditas,
porque a vontade de te dizeres é
o meu desejo de te consumir.


Miguel Godinho

Enquadra-se na série de aparições do sulscrito.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

O silêncio [2]

O silêncio não é vazio
penetra no mar de nós
navega por entre sentires
naufraga nas conjecturas

O silêncio é angular
uma estrada que não se conhece
um mapa desactualizado
um trilho que nos percorre

o silêncio é
uma mudez desbocada
uma palavra, um texto que
sem se dizer já foi dito.


Miguel Godinho

sábado, dezembro 30, 2006

A beleza intelectual de uma pessoa consiste na forma
como esta se despe, na gentileza com que se desnuda.

Um texto é uma forma de se despir um assunto.
Há uma sensualidade na forma como este deixa cair a sua roupagem.

Miguel Godinho

quinta-feira, dezembro 28, 2006

A rarefacção do ar
neste ambiente infectado
obriga-me a
respirar o ar que me consome, a
consumir o ar que me respira, a
definhar para respirar o ar que
consumo quando tento
respirar. É assim que
fico sem fôlego quando
respiro este ar de contágio
quando sorvo esse ar para o respirar
quando respiro de um só
fôlego esse ar que me consome.
É assim que sobrevivo,
é assim que vou existindo
neste ambiente pervertido e
é assim que me corrompo também.

Miguel Godinho

domingo, dezembro 24, 2006

Expressão curiosa:
"O Natal não interessa nem ao menino Jesus".
Dá que pensar...

sábado, dezembro 23, 2006

É um eu que provém do eu

É um eu que provém do eu
Um corpo sem corpo que parte
desta matriz primordial
de uma mãe que sou eu
de um pai que é o vento
Descaramento amniótico de um ventre
que deixa nascer e pode matar
Imagem translúcida mutável, uma
aparição que pare imprime e comprime
a imagem espectral do que sempre somos:
frutos procedentes do Outro,
seres uterinos, umbilicais
sem figuração real
sem tão pouco sabermos
se somos um ou o outro.

Miguel Godinho

sexta-feira, dezembro 22, 2006

A dor das árvores

As árvores lacrimejam e padecem
lembram-se das folhas
que sempre tombam
A terra ampara
e oculta essa dor
como que tentando conceber e
assimilar o trânsito das estações
penetrando no silêncio impenetrável
desse pesar que só as árvores
desnudam.

Miguel Godinho

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Uma parte do texto

Abrir esse livro
Consumir uma parte do texto
e deixar-me consumir
Como se a mensagem que transporta
fosse suficiente para perceber toda uma vida
e entender o caminho que me leva
até ao momento
em que abro esse livro
e o fecho de seguida, saciado.


Miguel Godinho

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Sentado na nora percebi

Sentado na nora de Cacela percebi que
os figos secos têm o sabor da inocência
e que a luz deste sol de Dezembro
traz a palavra que me conforta
madurada numa memória
de um Dezembro intemporal
reflectida na cal
que se renova mas que
juntamente com o azul do céu
e do mar lá longe conserva
as cores da constância
deste Algarve onde nasci.

Miguel Godinho
Lúcidos silêncios

O gesto inocente na linguagem corporal
a tua violenta forma de ser sem se ver,
um incêndio. Vibram as enérgicas esferas
de luz ferem-me a íris - como que
lúcidos silêncios habitados pelo
respirar de uma ausência que é falsa
e então estremeço com a delicadeza
com que nomeias a palavra que me define
Consome-se o ar irrespirável projecta-se
em mim a sombra desse lugar
desse espaço que não é completamente vazio
Uma incandescência que se esconde
numa volúpia de vibrações
gravitam em mim as curvas óbvias da essência
que te compõem e resplandeço
ainda que sejas ferida que não cura
ainda que não sintas a transparência

Miguel Godinho

segunda-feira, dezembro 18, 2006

O cinema da Encarnação

Lembro-me do meu tio, cheio de vida, a desafiar o meu pai quando lá íamos a casa para ir beber um copo de vinho ao cinema da Encarnação. Esse cinema não passava filmes, o próprio sítio era um filme. Daqueles antigos, a preto e branco, mudos, com cenários de salas cheias de fumo, toda a gente a gesticular muito, uma banda sonora muito agitada. Eu era pequeno mas recordo-me bastante bem. Era o local onde se encontravam (e encontram) os amigos lá da zona. Um género de grémio associativo onde se jogava às cartas, dominó, onde se fumava e bebia. Muito. Falava-se da vida. O meu tio ria, falava alto, gritava mesmo, desafiava toda a gente. Nunca foi uma pessoa muito próxima mas por ser um sujeito muito alegre, gostava dele. Fazia-me sentir bem, brincava comigo. Tenho pena. Tenho muita pena. Fui encontrá-lo há pouco tempo confinado a um quarto onde havia um prato cheio de rebuçados, numa Clínica de Cuidados Paliativos em Idanha, num estado que se afasta em muito dessa memória que tenho dele. Não somos nada. Tão depressa estamos bem, como de um momento para o outro caímos a pique para o chão, por vezes sem ninguém que nos ampare a queda. Felizmente não é este o caso. Não somos realmente nada.
Acho que o tal cinema ainda funciona, pelo menos agora quando lá fui ainda vi a mesma agitação na zona, depois de tantos anos. Descobri o mesmo corrupio de senhores de meia-idade (e mesmo jovens) que lá confluem em busca do conforto dos amigos, esses amigos que parece que lá estão sempre, nunca saindo verdadeiramente do sítio. É uma rotina diária. É quase uma família. Vão a casa mas regressam sempre, todos os dias. Por isso nunca chegam verdadeiramente a sair de lá. No fim do dia vão a casa, não vão para casa.
A zona da Encarnação continua a mesma. A família cresceu, eu cresci. Mas houve uma pessoa que desapareceu entretanto. A minha tia. O meu tio está a desaparecer. Não somos nada. O cinema sente a falta dele. E eu sinto que devia ter sentido a falta dele quando ainda me conseguia reconhecer. Vim meio tristonho da clínica porque é sempre doloroso encontrar uma pessoa assim. Mas lembrei-me que a família mais próxima está praticamente todos os dias com ele e que no cinema da Encarnação toda a gente se lembra dele como se ainda continuasse a descer aquelas escadas todos os dias, para ir beber o seu copito de vinho com a malta amiga e dar dois dedos de conversa. Fiquei mais aliviado e, antes de me vir embora e de o deixar a repousar, peguei num dos rebuçados daquele prato que se encontra no quarto onde por agora descansa.

Miguel Godinho

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Um afecto ondulante

Quero beijar as águas gélidas que me separam de ti
deixar o tempo passar de propósito para te perder
sabendo que te encontrarei em cada esquina
quero consumir o veneno que me intoxica de ilusões
e me derruba, me acalma, me sustenta de amores fáceis
mais fáceis que o que tenho por ti

acaba sempre por ser como na primeira vez,
é sempre uma primeira vez
quase uma volúpia de frágeis enganos, tão claros
uma sensualidade que não se dissimula, sabêmo-lo
e gostamos tanto de atropelar o afecto, de chorá-lo
como que sabendo que esse engano é o Amor
e é dor, é desejo, é calor, são duas almas
que se completam, que se contorcem
por um desejo mais forte que o sol.


Miguel Godinho

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Porque não disse bem o queria, vou tentar de novo...

O que as palavras [não] dizem II

Por vezes as palavras certas
não saem
e dizemos

o que não queremos
outras vezes

nem certas nem nada
e não dizemos
outras ainda

não há palavras para dizer
e não se diz
muitas vezes

também se diz
sem se dizer
mas raramente
fica por dizer
o que as palavras

não dizem.

Acontece pensar-se
que
se diz uma coisa

e diz-se outra
às vezes acha-se que

se ouve algo
quando o que se disse

não foi isso
outras vezes diz-se

mesmo sem se achar
que se disse
mas diga-se
o que se disser
a verdade é que

quase nunca
se diz
o que se devia dizer.

Miguel Godinho

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Put some heresy where your heart is.

Ursula Rucker

terça-feira, dezembro 12, 2006

Aparição

Há um vazio essencial que antecede a escrita

depois vem um perfume que se vai espalhando

uma presença que se constrói quase sozinha

e se revela discretamente

vagueias progressivamente neste poema

espreitando timidamente por entre as palavras

tentando que te sinta e te

dê a forma das letras que te escrevem

só assim consegues que

te vá calmamente descobrindo

até que o esplendor que te nomeia

ilustre finalmente a fresca

claridade da folha de papel

e eu te sinta plenamente.

Miguel Godinho

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Uma vida a 2 (ou 1x1)

Secreções líquidas e sensações translúcidas
foi assim que
tentámos que o coração brilhasse de amor por nós
ainda assim não importa o modo como nos olham
como nos julgam e decidem a impossibilidade
latente, demasiado óbvia da insegurança existente
nestas duas almas antagónicas, tão diferentes
é verdade que uma melodia distante rasga
constantemente a vela do barco que nos transforma
neste mar agitado que é uma vida em comum
dia após dia aprendemos novas lições
novas ideias que apontam para a dificuldade real
de nos aturarmos um ao outro
ou tentarmos fazê-lo
daí a conclusão tão evidente
um vezes um nem sempre é igual a um
raras vezes deixa de ser
um vezes um

Miguel Godinho