segunda-feira, dezembro 18, 2006

O cinema da Encarnação

Lembro-me do meu tio, cheio de vida, a desafiar o meu pai quando lá íamos a casa para ir beber um copo de vinho ao cinema da Encarnação. Esse cinema não passava filmes, o próprio sítio era um filme. Daqueles antigos, a preto e branco, mudos, com cenários de salas cheias de fumo, toda a gente a gesticular muito, uma banda sonora muito agitada. Eu era pequeno mas recordo-me bastante bem. Era o local onde se encontravam (e encontram) os amigos lá da zona. Um género de grémio associativo onde se jogava às cartas, dominó, onde se fumava e bebia. Muito. Falava-se da vida. O meu tio ria, falava alto, gritava mesmo, desafiava toda a gente. Nunca foi uma pessoa muito próxima mas por ser um sujeito muito alegre, gostava dele. Fazia-me sentir bem, brincava comigo. Tenho pena. Tenho muita pena. Fui encontrá-lo há pouco tempo confinado a um quarto onde havia um prato cheio de rebuçados, numa Clínica de Cuidados Paliativos em Idanha, num estado que se afasta em muito dessa memória que tenho dele. Não somos nada. Tão depressa estamos bem, como de um momento para o outro caímos a pique para o chão, por vezes sem ninguém que nos ampare a queda. Felizmente não é este o caso. Não somos realmente nada.
Acho que o tal cinema ainda funciona, pelo menos agora quando lá fui ainda vi a mesma agitação na zona, depois de tantos anos. Descobri o mesmo corrupio de senhores de meia-idade (e mesmo jovens) que lá confluem em busca do conforto dos amigos, esses amigos que parece que lá estão sempre, nunca saindo verdadeiramente do sítio. É uma rotina diária. É quase uma família. Vão a casa mas regressam sempre, todos os dias. Por isso nunca chegam verdadeiramente a sair de lá. No fim do dia vão a casa, não vão para casa.
A zona da Encarnação continua a mesma. A família cresceu, eu cresci. Mas houve uma pessoa que desapareceu entretanto. A minha tia. O meu tio está a desaparecer. Não somos nada. O cinema sente a falta dele. E eu sinto que devia ter sentido a falta dele quando ainda me conseguia reconhecer. Vim meio tristonho da clínica porque é sempre doloroso encontrar uma pessoa assim. Mas lembrei-me que a família mais próxima está praticamente todos os dias com ele e que no cinema da Encarnação toda a gente se lembra dele como se ainda continuasse a descer aquelas escadas todos os dias, para ir beber o seu copito de vinho com a malta amiga e dar dois dedos de conversa. Fiquei mais aliviado e, antes de me vir embora e de o deixar a repousar, peguei num dos rebuçados daquele prato que se encontra no quarto onde por agora descansa.

Miguel Godinho

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Um afecto ondulante

Quero beijar as águas gélidas que me separam de ti
deixar o tempo passar de propósito para te perder
sabendo que te encontrarei em cada esquina
quero consumir o veneno que me intoxica de ilusões
e me derruba, me acalma, me sustenta de amores fáceis
mais fáceis que o que tenho por ti

acaba sempre por ser como na primeira vez,
é sempre uma primeira vez
quase uma volúpia de frágeis enganos, tão claros
uma sensualidade que não se dissimula, sabêmo-lo
e gostamos tanto de atropelar o afecto, de chorá-lo
como que sabendo que esse engano é o Amor
e é dor, é desejo, é calor, são duas almas
que se completam, que se contorcem
por um desejo mais forte que o sol.


Miguel Godinho

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Porque não disse bem o queria, vou tentar de novo...

O que as palavras [não] dizem II

Por vezes as palavras certas
não saem
e dizemos

o que não queremos
outras vezes

nem certas nem nada
e não dizemos
outras ainda

não há palavras para dizer
e não se diz
muitas vezes

também se diz
sem se dizer
mas raramente
fica por dizer
o que as palavras

não dizem.

Acontece pensar-se
que
se diz uma coisa

e diz-se outra
às vezes acha-se que

se ouve algo
quando o que se disse

não foi isso
outras vezes diz-se

mesmo sem se achar
que se disse
mas diga-se
o que se disser
a verdade é que

quase nunca
se diz
o que se devia dizer.

Miguel Godinho

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Put some heresy where your heart is.

Ursula Rucker

terça-feira, dezembro 12, 2006

Aparição

Há um vazio essencial que antecede a escrita

depois vem um perfume que se vai espalhando

uma presença que se constrói quase sozinha

e se revela discretamente

vagueias progressivamente neste poema

espreitando timidamente por entre as palavras

tentando que te sinta e te

dê a forma das letras que te escrevem

só assim consegues que

te vá calmamente descobrindo

até que o esplendor que te nomeia

ilustre finalmente a fresca

claridade da folha de papel

e eu te sinta plenamente.

Miguel Godinho

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Uma vida a 2 (ou 1x1)

Secreções líquidas e sensações translúcidas
foi assim que
tentámos que o coração brilhasse de amor por nós
ainda assim não importa o modo como nos olham
como nos julgam e decidem a impossibilidade
latente, demasiado óbvia da insegurança existente
nestas duas almas antagónicas, tão diferentes
é verdade que uma melodia distante rasga
constantemente a vela do barco que nos transforma
neste mar agitado que é uma vida em comum
dia após dia aprendemos novas lições
novas ideias que apontam para a dificuldade real
de nos aturarmos um ao outro
ou tentarmos fazê-lo
daí a conclusão tão evidente
um vezes um nem sempre é igual a um
raras vezes deixa de ser
um vezes um

Miguel Godinho

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O perfume da tua ausência

Revi-me no teu olhar transparente
na dor residual da tua voz surda
senti-me na quietude da tua óbvia falta
de comparência

por breves instantes pareci acordar
carregar de cor um mundo cinzento, pálido
uma nuvem que cobre este
sol que tarda em surgir

não eras tu que suavemente me seduzias
enquanto pedia à noite para se demorar?
não eras tu que me permitias ver-te sem te olhar?
não eras tu a brisa quente que me aquecia a face
nesta fria tarde de Dezembro?

senti-me na tua ausência
no teu perfume a nada, que teima em desaparecer

Miguel Godinho

segunda-feira, dezembro 04, 2006

O bom turismo

Como em tudo na vida, existem coisas boas e coisas más. Costuma dizer-se que as boas atraem as boas e as más, naturalmente, atraem as más. Um pouco por influência, por propensão, como que uma tendência. E no que toca ao turismo, penso que se possa perfeitamente aplicar esta fórmula. Se num determinado local o tipo de oferta começa por ter em conta aquele tipo de turismo que não traz nada de benéfico (mas que rende, minimamente – por enquanto...) à zona onde se instala, parece que logo atrás nascem (qual cogumelos) uma série de equipamentos que apontam exactamente nesse mesmo sentido. Fica no entanto por esclarecer o que é que se enquadra num bom turismo e que, no seguimento da ideia atrás defendida, poderá trazer vantagens à região.
Em minha opinião (e de uma maneira utópica), o bom turismo não é aquele em que a oferta presenteia o turista com o que ele quer mas sim aquele em que o turista vem descobrir na região que visita aquilo que ela tem para oferecer. É óbvio que na realidade não deverá ser bem assim uma vez que a oferta tem de possuir resposta para as exigências do turista.
Assim sendo, aquilo que está em jogo num turismo sadio não é mais que o seu nível de informação e, mais importante, o grau de formação do visitante e, logicamente o nível em que a oferta se enquadra. Se a região não possui um tipo de oferta que aponta no “bom” sentido, o problema agravar-se-á sempre porque uma vez adaptado ao tipo de oferta “fácil”, descuidada, torna-se muito difícil inverter a questão com a implicação de ter de se dar a volta a uma toda uma série de coisas, como que se de uma bola-de-neve se tratasse.
O viajante que está informado não vem certamente à procura do que existe em todas as outras regiões do globo, vem antes em demanda da diferença, do autêntico, do genuíno, do preservado, da essência do local que visita. O que não se revela muito interessado vem à procura do hotel onde se come muito e não bem, das piscinas grandes, de bares onde a bebida é barata e as canecas são grandes, de locais onde se “oferece” a sua língua em qualquer canto. Por sua vez, o turista informado procura uma oferta relacionada com o local onde se encontra. O que quero dizer com isto? O visitante informado não se importa que não falem a sua língua em todo o lado porque também se diverte a tentar comunicar na língua local. Não se importa também que num determinado local não exista uma piscina 20mx40m nem que num hotel não lhe sirvam a comida até o prato transbordar, será mais interessante se o prato apresentar um certo requinte, um toque de mestria na sua apresentação, de preferência enquadrado numa receita local. Não se importa que esteja mau tempo e não seja possível ir à praia, desde que a oferta cultural local cubra essa impossibilidade. Esse tipo de turismo não gosta de visitar um local onde existam cem aldeamentos, carradas de prédios e shoppings à farta em torno da sua residência – porque isso há em todo o lado, de uma maneira excessiva. Procura antes a tranquilidade, própria do período de férias, a preservação da natureza, a amabilidade das pessoas locais (não corrompidas pela ambição desmedida e pela mesquinhez assanhada que o excesso de visitantes famintos lhes incute na mente), a gastronomia sem muitos Macdonalds por perto. Não sei, mas parece-me que este tipo de turismo está meio abolido da nossa região. Muito por culpa da mesma se ter moldado no sentido contrário praticamente desde que se abriu ao turismo. Preferiu-se desde o início a quantidade em detrimento da qualidade.
Regressando às duas ideias iniciais deste texto, volto a lembrar que as coisas boas costumam atrair as coisas boas e as más arrastam as más. Da mesma forma, digo sem complexos que a formação e a informação (quer dos turistas, quer da oferta) é uma coisa que resolve praticamente todos os problemas. E é uma coisa que nesta região, está meio apagada. E isso reflecte-se no tipo de turismo que temos actualmente.
É absolutamente vital uma maior aposta na formação e na educação dos agentes responsáveis pela oferta turística uma vez que estes são domínios chave, prioritários para a definição de um plano turístico coeso. Sem uma oferta instruída não se consegue uma procura com qualidade. E sem uma procura de qualidade não saímos do mesmo tipo de turismo de baixo nível, sem referências, sem identidade e, como tal, sem relevância para o desenvolvimento de um turismo com interesse. E quem paga é a região e, em primeira instância, quem cá vive e que tem de levar com o turistazeco habitual que não respeita ninguém.

Miguel Godinho

quarta-feira, novembro 29, 2006

O que as palavras [não] dizem

Por vezes as palavras certas não saem
e dizemos o que não queremos
por vezes nem certas nem nada
e não dizemos
por vezes não há palavras para dizer
e não se diz
outras vezes diz-se sem se dizer mas
quase sempre fica por dizer
o que as palavras não dizem.


Miguel Godinho

terça-feira, novembro 28, 2006

Ainda o Algarve

Antigamente, eram muitas as bocas com fome mas ainda assim se decoravam casas e carroças e barcos e o que fosse sem que o aparato precisasse de um Mercedes estacionado a uma porta de madeira podre, sem que o prato do almoço se esvaziasse de conteúdo só para que o vizinho soubesse que
- aqui o papá tem um 320 enquanto ele, um simples 220!
Eram tempos em que não faltavam banhos de luz, de um sol tão ofuscante que queimou consciências e fez arder memórias de tempos de luta, de miséria, de sangue. Já não há barcos nem campos de figueiras nem alfarrobas nem burros cansados de dorso marreco. Agora, já só se conhecem marrecos cansados e sujeitos burros. O algarvio cantante ficou dormente e comprou um barco que não pesca, nem apanha choco à luz do petromax nem sai da doca que agora é marina. Mas o barco lá está à espera da hipoteca para poder navegar para outras bandas.
É a terra do algarvio de segunda geração e primeiríssimo nível que partiu para França há vinte anos e que voltou recentemente para “investir”. Trouxe um casaco novo de cabedal, uma gravata verde e bolinhas amarelas e muitas calças novas de fato de treino para combinar com as também novas camisas Lacoste. Tudo novo – para que se saiba. Saltou do anonimato por causa da mansarda rosa-choque que o avô deixou à custa do contrabando trazido de Ayamonte e que ele “remodelou” com dinheiros amealhados na mala de cartão que levou de cá. Dá que falar na vizinhança por ter transformado ligeiramente a casa acrescentando-lhe seis quartos, duas suites, uma piscina. E as divisões têm boas áreas! Os compadres não se cansam
- É um bom vizinho, não faz barulho, só cá vem uma semana por ano!

(a continuar)

Miguel Godinho
Tempus fugit

As recordações
de uma época que não perdura
mais

cessam

os saberes que já não vingam
os cantares que já não soam
as vozes que emudecem são

riscadas pelo lápis da memória

não se guardam
coisas que já não servem para nada que
já não fazem sentido

estas são as notas que o tempo guarda
para si próprio, egoisticamente
vislumbres
de um tempo concreto, ultrapassado

tudo é de ontem
tudo se esquece
menos esta certeza
que imprimo no papel.

Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 27, 2006

Se me calo

observo, questiono, discuto, contesto
analiso, argumento, contrario,
contradigo, debato, apuro,
comento, critico, ouço


-me.
O silêncio

Será no preciso momento em que o silêncio principia que o “ruído” se faz notar. A confrontação com o eu sucede-se e pode tornar-se muito mais ruidosa do que uma sala cheia de gente a falar bem alto. E muito mais difícil de suportar. Nesta última não se exige uma confrontação, não nos é solicitada uma auto-consciência, uma apreensão do ser, do existir, do que somos, do que fomos, do que podemos ser, do que sentimos, do que queremos, do que nos preocupa.
Um espaço de desocupação oral e auditiva traduz sempre um ambiente de confrontação pessoal. Conduz-nos sempre àquele momento em que nos olhamos ao espelho e somos obrigados a olhar para ele, para nós próprios. A introspecção é sempre um momento de desafio, de confrontação e, ao mesmo tempo, um caminho. Uma estrada que nos leva ao auto-conhecimento, à essência do que somos e, por isso, é sempre uma descoberta. Pode revelar-se agradável ou não, mas é sempre uma descoberta. No silêncio, há muito diálogo. Interior.
Neste sentido, será que o silêncio existe?


Miguel Godinho

sábado, novembro 25, 2006

O tempo que circula

de tempos a tempos

idades assuntos desígnios
e máculas
regressam
como se a borracha do tempo
não apagasse a tinta que o mesmo escreve
como se o agora fosse apenas
uma cilada do findado
uma espera pelo amanhã
uma necessidade antiga

trazida de volta.

Miguel Godinho
O Warholismo

Outro dia, quando folheava o catálogo de uma exposição que esteve patente em Lagos (“zoologia dos trópicos”, obras de Nelson Leirner e Jorge Dias), dei de caras com um termo que designa uma atitude com a qual há muito me identifico embora nunca tenha encontrado uma expressão adequada para a designar. O termo warholismo assenta na perfeição. Warholismo deriva de Warhol, e assim sendo, warholar designa o acto de fazer despreocupadamente sem ter responsabilidade alguma sobre os resultados, seguindo a linha artística do criador que lhe dá nome.

Assim sendo, Warhol talvez tenha inventado uma terapia sem que o saiba. É tão bom warholar de vez em quando. Não raras vezes sinto que a criação não passa disso mesmo. Ou então, dito de uma outra forma (sim, porque dizer que a criação não passa disso parece-me muito redutor...), criar é isso mesmo: fazer despreocupadamente, embora tendo sempre em conta as preocupações...
Será este texto pop?

Miguel Godinho

terça-feira, novembro 21, 2006

Como se tivesse 18

Escreves com a mesma mão
com que me apalpas
e agarras na caneta com
os dedos que me apontam
usas e abusas das palavras que me seduzem
e me magoam

Sei que assim o é
e que lá tornarás
assim que de novo te esqueças

que essa ferida em mim
és tu.

Regresso sempre a este tema
escrito há tanto tempo
numa folha macilenta

é medonho como
as cores do tempo me escorrem pela cara
como se tivesse 18
envergonho-me porque a idade de hoje
é igual à de
quando me pediste
para te ver realmente.

Miguel Godinho

terça-feira, novembro 14, 2006

Al garvios de ontem

por amarem demais a vida simples
por quererem viver vivendo
fazendo do gerúndio um
estilo de vida
quis o céu que a pachorra
se abatesse sobre estas gentes

reprovam hoje os líderes
por não ser esta a forma de vida que
haveria de trazer
riqueza e grandiosidade
pois eu lhes digo que
quem tinha o mar ao fundo da rua
os figos a secar na eira
o sol como candeia

não podia querer ser maior


Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 13, 2006

Memória que se esquece

Curva descendente
no cantar que enrouquece
na memória que se esquece
saber de ontem
numa versão falada
e ninguém escreve
caneta que perde a tinta
numa mão que atrofia
gelado que se derrete nas mãos do tempo

Devolve-se à terra o que é seu
o que dela nunca devia ter brotado
flor que murcha e que se aplaude
ninguém se importa com isso

Miguel Godinho

sexta-feira, novembro 10, 2006

Presente pretérito

Tão apressadamente me torci para
perceber de onde brotava
tão distinto aroma
tão rápido que nem percebi que
não eras mais que isso
um perfume ou uma química
um vapor que tão depressa se dissipou
como assim se consumiu.

Miguel Godinho

quinta-feira, novembro 09, 2006

Entendo a poesia e a escrita como a arqueologia do Ser. Aprofundar, descobrir, retirar aquilo que se encontra em mim e que foi soterrado pelo tempo, aquilo que necessita de uma reinterpretação, que precisa de ver novamente a luz do dia. O que escrevo tem que ver portanto, com assuntos que se querem revolvidos, com matérias passadas, com temas pretéritos que reclamam uma nova abordagem. Nesse sentido, acho que um qualquer assunto nunca fica de todo resolvido, nunca se esgota no momento em que me confronto primeiramente com ele. Há sempre uma questão que fica, uma história que pode sempre ter um final diferente, mesmo que aparentemente tenha já terminado. Por isso, sou completamente contra quem acha que quando se fecha um livro, ele não deve ser lido de novo, com uma renovada percepção, tentando novas acepções aos seus conteúdos. Tudo isto para dizer: terei sempre de me olhar ao espelho e terei sempre de regressar à origem. É lá que vive a minha constância, aquilo que nunca muda em mim. O meu cenário.

Miguel Godinho