O perfume da tua ausência
Revi-me no teu olhar transparente
na dor residual da tua voz surda
senti-me na quietude da tua óbvia falta
de comparência
por breves instantes pareci acordar
carregar de cor um mundo cinzento, pálido
uma nuvem que cobre este
sol que tarda em surgir
não eras tu que suavemente me seduzias
enquanto pedia à noite para se demorar?
não eras tu que me permitias ver-te sem te olhar?
não eras tu a brisa quente que me aquecia a face
nesta fria tarde de Dezembro?
senti-me na tua ausência
no teu perfume a nada, que teima em desaparecer
Miguel Godinho
quarta-feira, dezembro 06, 2006
segunda-feira, dezembro 04, 2006
O bom turismo
Como em tudo na vida, existem coisas boas e coisas más. Costuma dizer-se que as boas atraem as boas e as más, naturalmente, atraem as más. Um pouco por influência, por propensão, como que uma tendência. E no que toca ao turismo, penso que se possa perfeitamente aplicar esta fórmula. Se num determinado local o tipo de oferta começa por ter em conta aquele tipo de turismo que não traz nada de benéfico (mas que rende, minimamente – por enquanto...) à zona onde se instala, parece que logo atrás nascem (qual cogumelos) uma série de equipamentos que apontam exactamente nesse mesmo sentido. Fica no entanto por esclarecer o que é que se enquadra num bom turismo e que, no seguimento da ideia atrás defendida, poderá trazer vantagens à região.
Em minha opinião (e de uma maneira utópica), o bom turismo não é aquele em que a oferta presenteia o turista com o que ele quer mas sim aquele em que o turista vem descobrir na região que visita aquilo que ela tem para oferecer. É óbvio que na realidade não deverá ser bem assim uma vez que a oferta tem de possuir resposta para as exigências do turista.
Assim sendo, aquilo que está em jogo num turismo sadio não é mais que o seu nível de informação e, mais importante, o grau de formação do visitante e, logicamente o nível em que a oferta se enquadra. Se a região não possui um tipo de oferta que aponta no “bom” sentido, o problema agravar-se-á sempre porque uma vez adaptado ao tipo de oferta “fácil”, descuidada, torna-se muito difícil inverter a questão com a implicação de ter de se dar a volta a uma toda uma série de coisas, como que se de uma bola-de-neve se tratasse.
O viajante que está informado não vem certamente à procura do que existe em todas as outras regiões do globo, vem antes em demanda da diferença, do autêntico, do genuíno, do preservado, da essência do local que visita. O que não se revela muito interessado vem à procura do hotel onde se come muito e não bem, das piscinas grandes, de bares onde a bebida é barata e as canecas são grandes, de locais onde se “oferece” a sua língua em qualquer canto. Por sua vez, o turista informado procura uma oferta relacionada com o local onde se encontra. O que quero dizer com isto? O visitante informado não se importa que não falem a sua língua em todo o lado porque também se diverte a tentar comunicar na língua local. Não se importa também que num determinado local não exista uma piscina 20mx40m nem que num hotel não lhe sirvam a comida até o prato transbordar, será mais interessante se o prato apresentar um certo requinte, um toque de mestria na sua apresentação, de preferência enquadrado numa receita local. Não se importa que esteja mau tempo e não seja possível ir à praia, desde que a oferta cultural local cubra essa impossibilidade. Esse tipo de turismo não gosta de visitar um local onde existam cem aldeamentos, carradas de prédios e shoppings à farta em torno da sua residência – porque isso há em todo o lado, de uma maneira excessiva. Procura antes a tranquilidade, própria do período de férias, a preservação da natureza, a amabilidade das pessoas locais (não corrompidas pela ambição desmedida e pela mesquinhez assanhada que o excesso de visitantes famintos lhes incute na mente), a gastronomia sem muitos Macdonalds por perto. Não sei, mas parece-me que este tipo de turismo está meio abolido da nossa região. Muito por culpa da mesma se ter moldado no sentido contrário praticamente desde que se abriu ao turismo. Preferiu-se desde o início a quantidade em detrimento da qualidade.
Regressando às duas ideias iniciais deste texto, volto a lembrar que as coisas boas costumam atrair as coisas boas e as más arrastam as más. Da mesma forma, digo sem complexos que a formação e a informação (quer dos turistas, quer da oferta) é uma coisa que resolve praticamente todos os problemas. E é uma coisa que nesta região, está meio apagada. E isso reflecte-se no tipo de turismo que temos actualmente.
É absolutamente vital uma maior aposta na formação e na educação dos agentes responsáveis pela oferta turística uma vez que estes são domínios chave, prioritários para a definição de um plano turístico coeso. Sem uma oferta instruída não se consegue uma procura com qualidade. E sem uma procura de qualidade não saímos do mesmo tipo de turismo de baixo nível, sem referências, sem identidade e, como tal, sem relevância para o desenvolvimento de um turismo com interesse. E quem paga é a região e, em primeira instância, quem cá vive e que tem de levar com o turistazeco habitual que não respeita ninguém.
Como em tudo na vida, existem coisas boas e coisas más. Costuma dizer-se que as boas atraem as boas e as más, naturalmente, atraem as más. Um pouco por influência, por propensão, como que uma tendência. E no que toca ao turismo, penso que se possa perfeitamente aplicar esta fórmula. Se num determinado local o tipo de oferta começa por ter em conta aquele tipo de turismo que não traz nada de benéfico (mas que rende, minimamente – por enquanto...) à zona onde se instala, parece que logo atrás nascem (qual cogumelos) uma série de equipamentos que apontam exactamente nesse mesmo sentido. Fica no entanto por esclarecer o que é que se enquadra num bom turismo e que, no seguimento da ideia atrás defendida, poderá trazer vantagens à região.
Em minha opinião (e de uma maneira utópica), o bom turismo não é aquele em que a oferta presenteia o turista com o que ele quer mas sim aquele em que o turista vem descobrir na região que visita aquilo que ela tem para oferecer. É óbvio que na realidade não deverá ser bem assim uma vez que a oferta tem de possuir resposta para as exigências do turista.
Assim sendo, aquilo que está em jogo num turismo sadio não é mais que o seu nível de informação e, mais importante, o grau de formação do visitante e, logicamente o nível em que a oferta se enquadra. Se a região não possui um tipo de oferta que aponta no “bom” sentido, o problema agravar-se-á sempre porque uma vez adaptado ao tipo de oferta “fácil”, descuidada, torna-se muito difícil inverter a questão com a implicação de ter de se dar a volta a uma toda uma série de coisas, como que se de uma bola-de-neve se tratasse.
O viajante que está informado não vem certamente à procura do que existe em todas as outras regiões do globo, vem antes em demanda da diferença, do autêntico, do genuíno, do preservado, da essência do local que visita. O que não se revela muito interessado vem à procura do hotel onde se come muito e não bem, das piscinas grandes, de bares onde a bebida é barata e as canecas são grandes, de locais onde se “oferece” a sua língua em qualquer canto. Por sua vez, o turista informado procura uma oferta relacionada com o local onde se encontra. O que quero dizer com isto? O visitante informado não se importa que não falem a sua língua em todo o lado porque também se diverte a tentar comunicar na língua local. Não se importa também que num determinado local não exista uma piscina 20mx40m nem que num hotel não lhe sirvam a comida até o prato transbordar, será mais interessante se o prato apresentar um certo requinte, um toque de mestria na sua apresentação, de preferência enquadrado numa receita local. Não se importa que esteja mau tempo e não seja possível ir à praia, desde que a oferta cultural local cubra essa impossibilidade. Esse tipo de turismo não gosta de visitar um local onde existam cem aldeamentos, carradas de prédios e shoppings à farta em torno da sua residência – porque isso há em todo o lado, de uma maneira excessiva. Procura antes a tranquilidade, própria do período de férias, a preservação da natureza, a amabilidade das pessoas locais (não corrompidas pela ambição desmedida e pela mesquinhez assanhada que o excesso de visitantes famintos lhes incute na mente), a gastronomia sem muitos Macdonalds por perto. Não sei, mas parece-me que este tipo de turismo está meio abolido da nossa região. Muito por culpa da mesma se ter moldado no sentido contrário praticamente desde que se abriu ao turismo. Preferiu-se desde o início a quantidade em detrimento da qualidade.
Regressando às duas ideias iniciais deste texto, volto a lembrar que as coisas boas costumam atrair as coisas boas e as más arrastam as más. Da mesma forma, digo sem complexos que a formação e a informação (quer dos turistas, quer da oferta) é uma coisa que resolve praticamente todos os problemas. E é uma coisa que nesta região, está meio apagada. E isso reflecte-se no tipo de turismo que temos actualmente.
É absolutamente vital uma maior aposta na formação e na educação dos agentes responsáveis pela oferta turística uma vez que estes são domínios chave, prioritários para a definição de um plano turístico coeso. Sem uma oferta instruída não se consegue uma procura com qualidade. E sem uma procura de qualidade não saímos do mesmo tipo de turismo de baixo nível, sem referências, sem identidade e, como tal, sem relevância para o desenvolvimento de um turismo com interesse. E quem paga é a região e, em primeira instância, quem cá vive e que tem de levar com o turistazeco habitual que não respeita ninguém.
Miguel Godinho
quarta-feira, novembro 29, 2006
terça-feira, novembro 28, 2006
Ainda o Algarve
Antigamente, eram muitas as bocas com fome mas ainda assim se decoravam casas e carroças e barcos e o que fosse sem que o aparato precisasse de um Mercedes estacionado a uma porta de madeira podre, sem que o prato do almoço se esvaziasse de conteúdo só para que o vizinho soubesse que
- aqui o papá tem um 320 enquanto ele, um simples 220!
Eram tempos em que não faltavam banhos de luz, de um sol tão ofuscante que queimou consciências e fez arder memórias de tempos de luta, de miséria, de sangue. Já não há barcos nem campos de figueiras nem alfarrobas nem burros cansados de dorso marreco. Agora, já só se conhecem marrecos cansados e sujeitos burros. O algarvio cantante ficou dormente e comprou um barco que não pesca, nem apanha choco à luz do petromax nem sai da doca que agora é marina. Mas o barco lá está à espera da hipoteca para poder navegar para outras bandas.
É a terra do algarvio de segunda geração e primeiríssimo nível que partiu para França há vinte anos e que voltou recentemente para “investir”. Trouxe um casaco novo de cabedal, uma gravata verde e bolinhas amarelas e muitas calças novas de fato de treino para combinar com as também novas camisas Lacoste. Tudo novo – para que se saiba. Saltou do anonimato por causa da mansarda rosa-choque que o avô deixou à custa do contrabando trazido de Ayamonte e que ele “remodelou” com dinheiros amealhados na mala de cartão que levou de cá. Dá que falar na vizinhança por ter transformado ligeiramente a casa acrescentando-lhe seis quartos, duas suites, uma piscina. E as divisões têm boas áreas! Os compadres não se cansam
- É um bom vizinho, não faz barulho, só cá vem uma semana por ano!
(a continuar)
Miguel Godinho
Antigamente, eram muitas as bocas com fome mas ainda assim se decoravam casas e carroças e barcos e o que fosse sem que o aparato precisasse de um Mercedes estacionado a uma porta de madeira podre, sem que o prato do almoço se esvaziasse de conteúdo só para que o vizinho soubesse que
- aqui o papá tem um 320 enquanto ele, um simples 220!
Eram tempos em que não faltavam banhos de luz, de um sol tão ofuscante que queimou consciências e fez arder memórias de tempos de luta, de miséria, de sangue. Já não há barcos nem campos de figueiras nem alfarrobas nem burros cansados de dorso marreco. Agora, já só se conhecem marrecos cansados e sujeitos burros. O algarvio cantante ficou dormente e comprou um barco que não pesca, nem apanha choco à luz do petromax nem sai da doca que agora é marina. Mas o barco lá está à espera da hipoteca para poder navegar para outras bandas.
É a terra do algarvio de segunda geração e primeiríssimo nível que partiu para França há vinte anos e que voltou recentemente para “investir”. Trouxe um casaco novo de cabedal, uma gravata verde e bolinhas amarelas e muitas calças novas de fato de treino para combinar com as também novas camisas Lacoste. Tudo novo – para que se saiba. Saltou do anonimato por causa da mansarda rosa-choque que o avô deixou à custa do contrabando trazido de Ayamonte e que ele “remodelou” com dinheiros amealhados na mala de cartão que levou de cá. Dá que falar na vizinhança por ter transformado ligeiramente a casa acrescentando-lhe seis quartos, duas suites, uma piscina. E as divisões têm boas áreas! Os compadres não se cansam
- É um bom vizinho, não faz barulho, só cá vem uma semana por ano!
(a continuar)
Miguel Godinho
Tempus fugit
As recordações
de uma época que não perdura
mais
cessam
os saberes que já não vingam
os cantares que já não soam
as vozes que emudecem são
riscadas pelo lápis da memória
não se guardam
coisas que já não servem para nada que
já não fazem sentido
estas são as notas que o tempo guarda
para si próprio, egoisticamente
vislumbres
de um tempo concreto, ultrapassado
tudo é de ontem
tudo se esquece
menos esta certeza
que imprimo no papel.
Miguel Godinho
As recordações
de uma época que não perdura
mais
cessam
os saberes que já não vingam
os cantares que já não soam
as vozes que emudecem são
riscadas pelo lápis da memória
não se guardam
coisas que já não servem para nada que
já não fazem sentido
estas são as notas que o tempo guarda
para si próprio, egoisticamente
vislumbres
de um tempo concreto, ultrapassado
tudo é de ontem
tudo se esquece
menos esta certeza
que imprimo no papel.
Miguel Godinho
segunda-feira, novembro 27, 2006
O silêncio
Será no preciso momento em que o silêncio principia que o “ruído” se faz notar. A confrontação com o eu sucede-se e pode tornar-se muito mais ruidosa do que uma sala cheia de gente a falar bem alto. E muito mais difícil de suportar. Nesta última não se exige uma confrontação, não nos é solicitada uma auto-consciência, uma apreensão do ser, do existir, do que somos, do que fomos, do que podemos ser, do que sentimos, do que queremos, do que nos preocupa.
Um espaço de desocupação oral e auditiva traduz sempre um ambiente de confrontação pessoal. Conduz-nos sempre àquele momento em que nos olhamos ao espelho e somos obrigados a olhar para ele, para nós próprios. A introspecção é sempre um momento de desafio, de confrontação e, ao mesmo tempo, um caminho. Uma estrada que nos leva ao auto-conhecimento, à essência do que somos e, por isso, é sempre uma descoberta. Pode revelar-se agradável ou não, mas é sempre uma descoberta. No silêncio, há muito diálogo. Interior.
Neste sentido, será que o silêncio existe?
Miguel Godinho
Será no preciso momento em que o silêncio principia que o “ruído” se faz notar. A confrontação com o eu sucede-se e pode tornar-se muito mais ruidosa do que uma sala cheia de gente a falar bem alto. E muito mais difícil de suportar. Nesta última não se exige uma confrontação, não nos é solicitada uma auto-consciência, uma apreensão do ser, do existir, do que somos, do que fomos, do que podemos ser, do que sentimos, do que queremos, do que nos preocupa.
Um espaço de desocupação oral e auditiva traduz sempre um ambiente de confrontação pessoal. Conduz-nos sempre àquele momento em que nos olhamos ao espelho e somos obrigados a olhar para ele, para nós próprios. A introspecção é sempre um momento de desafio, de confrontação e, ao mesmo tempo, um caminho. Uma estrada que nos leva ao auto-conhecimento, à essência do que somos e, por isso, é sempre uma descoberta. Pode revelar-se agradável ou não, mas é sempre uma descoberta. No silêncio, há muito diálogo. Interior.
Neste sentido, será que o silêncio existe?
Miguel Godinho
sábado, novembro 25, 2006
O Warholismo
Outro dia, quando folheava o catálogo de uma exposição que esteve patente em Lagos (“zoologia dos trópicos”, obras de Nelson Leirner e Jorge Dias), dei de caras com um termo que designa uma atitude com a qual há muito me identifico embora nunca tenha encontrado uma expressão adequada para a designar. O termo warholismo assenta na perfeição. Warholismo deriva de Warhol, e assim sendo, warholar designa o acto de fazer despreocupadamente sem ter responsabilidade alguma sobre os resultados, seguindo a linha artística do criador que lhe dá nome.
Assim sendo, Warhol talvez tenha inventado uma terapia sem que o saiba. É tão bom warholar de vez em quando. Não raras vezes sinto que a criação não passa disso mesmo. Ou então, dito de uma outra forma (sim, porque dizer que a criação não passa disso parece-me muito redutor...), criar é isso mesmo: fazer despreocupadamente, embora tendo sempre em conta as preocupações...
Será este texto pop?
Miguel Godinho
Outro dia, quando folheava o catálogo de uma exposição que esteve patente em Lagos (“zoologia dos trópicos”, obras de Nelson Leirner e Jorge Dias), dei de caras com um termo que designa uma atitude com a qual há muito me identifico embora nunca tenha encontrado uma expressão adequada para a designar. O termo warholismo assenta na perfeição. Warholismo deriva de Warhol, e assim sendo, warholar designa o acto de fazer despreocupadamente sem ter responsabilidade alguma sobre os resultados, seguindo a linha artística do criador que lhe dá nome.
Assim sendo, Warhol talvez tenha inventado uma terapia sem que o saiba. É tão bom warholar de vez em quando. Não raras vezes sinto que a criação não passa disso mesmo. Ou então, dito de uma outra forma (sim, porque dizer que a criação não passa disso parece-me muito redutor...), criar é isso mesmo: fazer despreocupadamente, embora tendo sempre em conta as preocupações...
Será este texto pop?
Miguel Godinho
terça-feira, novembro 21, 2006
Como se tivesse 18
Escreves com a mesma mão
com que me apalpas
e agarras na caneta com
os dedos que me apontam
usas e abusas das palavras que me seduzem
e me magoam
Sei que assim o é
e que lá tornarás
assim que de novo te esqueças
que essa ferida em mim
és tu.
Regresso sempre a este tema
escrito há tanto tempo
numa folha macilenta
é medonho como
as cores do tempo me escorrem pela cara
como se tivesse 18
envergonho-me porque a idade de hoje
é igual à de
quando me pediste
para te ver realmente.
Miguel Godinho
Escreves com a mesma mão
com que me apalpas
e agarras na caneta com
os dedos que me apontam
usas e abusas das palavras que me seduzem
e me magoam
Sei que assim o é
e que lá tornarás
assim que de novo te esqueças
que essa ferida em mim
és tu.
Regresso sempre a este tema
escrito há tanto tempo
numa folha macilenta
é medonho como
as cores do tempo me escorrem pela cara
como se tivesse 18
envergonho-me porque a idade de hoje
é igual à de
quando me pediste
para te ver realmente.
Miguel Godinho
terça-feira, novembro 14, 2006
Al garvios de ontem
por amarem demais a vida simples
por quererem viver vivendo
fazendo do gerúndio um
estilo de vida
quis o céu que a pachorra
se abatesse sobre estas gentes
reprovam hoje os líderes
por não ser esta a forma de vida que
haveria de trazer
riqueza e grandiosidade
pois eu lhes digo que
quem tinha o mar ao fundo da rua
os figos a secar na eira
o sol como candeia
não podia querer ser maior
Miguel Godinho
por amarem demais a vida simples
por quererem viver vivendo
fazendo do gerúndio um
estilo de vida
quis o céu que a pachorra
se abatesse sobre estas gentes
reprovam hoje os líderes
por não ser esta a forma de vida que
haveria de trazer
riqueza e grandiosidade
pois eu lhes digo que
quem tinha o mar ao fundo da rua
os figos a secar na eira
o sol como candeia
não podia querer ser maior
Miguel Godinho
segunda-feira, novembro 13, 2006
Memória que se esquece
Curva descendente
no cantar que enrouquece
na memória que se esquece
saber de ontem
numa versão falada
e ninguém escreve
caneta que perde a tinta
numa mão que atrofia
gelado que se derrete nas mãos do tempo
Devolve-se à terra o que é seu
o que dela nunca devia ter brotado
flor que murcha e que se aplaude
ninguém se importa com isso
Miguel Godinho
Curva descendente
no cantar que enrouquece
na memória que se esquece
saber de ontem
numa versão falada
e ninguém escreve
caneta que perde a tinta
numa mão que atrofia
gelado que se derrete nas mãos do tempo
Devolve-se à terra o que é seu
o que dela nunca devia ter brotado
flor que murcha e que se aplaude
ninguém se importa com isso
Miguel Godinho
sexta-feira, novembro 10, 2006
quinta-feira, novembro 09, 2006
Entendo a poesia e a escrita como a arqueologia do Ser. Aprofundar, descobrir, retirar aquilo que se encontra em mim e que foi soterrado pelo tempo, aquilo que necessita de uma reinterpretação, que precisa de ver novamente a luz do dia. O que escrevo tem que ver portanto, com assuntos que se querem revolvidos, com matérias passadas, com temas pretéritos que reclamam uma nova abordagem. Nesse sentido, acho que um qualquer assunto nunca fica de todo resolvido, nunca se esgota no momento em que me confronto primeiramente com ele. Há sempre uma questão que fica, uma história que pode sempre ter um final diferente, mesmo que aparentemente tenha já terminado. Por isso, sou completamente contra quem acha que quando se fecha um livro, ele não deve ser lido de novo, com uma renovada percepção, tentando novas acepções aos seus conteúdos. Tudo isto para dizer: terei sempre de me olhar ao espelho e terei sempre de regressar à origem. É lá que vive a minha constância, aquilo que nunca muda em mim. O meu cenário.
Miguel Godinho
Miguel Godinho
quarta-feira, novembro 08, 2006
terça-feira, novembro 07, 2006
Maria
Revela-me
o que sempre quiseste explicar
o que a boca quis pronunciar
e o coração não tolerou.
as dores de uma vida
Cerradas numa memória amarga
O pai não foi bom.
Toda tu és uma Maria
nome que trazias gravado
na alma
estigma que não cura porque sempre infecta
engoles e avassalas as mágoas como ninguém.
Miguel Godinho
Revela-me
o que sempre quiseste explicar
o que a boca quis pronunciar
e o coração não tolerou.
as dores de uma vida
Cerradas numa memória amarga
O pai não foi bom.
Toda tu és uma Maria
nome que trazias gravado
na alma
estigma que não cura porque sempre infecta
engoles e avassalas as mágoas como ninguém.
Miguel Godinho
segunda-feira, novembro 06, 2006
sexta-feira, novembro 03, 2006
quinta-feira, novembro 02, 2006
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