quarta-feira, novembro 29, 2006

O que as palavras [não] dizem

Por vezes as palavras certas não saem
e dizemos o que não queremos
por vezes nem certas nem nada
e não dizemos
por vezes não há palavras para dizer
e não se diz
outras vezes diz-se sem se dizer mas
quase sempre fica por dizer
o que as palavras não dizem.


Miguel Godinho

terça-feira, novembro 28, 2006

Ainda o Algarve

Antigamente, eram muitas as bocas com fome mas ainda assim se decoravam casas e carroças e barcos e o que fosse sem que o aparato precisasse de um Mercedes estacionado a uma porta de madeira podre, sem que o prato do almoço se esvaziasse de conteúdo só para que o vizinho soubesse que
- aqui o papá tem um 320 enquanto ele, um simples 220!
Eram tempos em que não faltavam banhos de luz, de um sol tão ofuscante que queimou consciências e fez arder memórias de tempos de luta, de miséria, de sangue. Já não há barcos nem campos de figueiras nem alfarrobas nem burros cansados de dorso marreco. Agora, já só se conhecem marrecos cansados e sujeitos burros. O algarvio cantante ficou dormente e comprou um barco que não pesca, nem apanha choco à luz do petromax nem sai da doca que agora é marina. Mas o barco lá está à espera da hipoteca para poder navegar para outras bandas.
É a terra do algarvio de segunda geração e primeiríssimo nível que partiu para França há vinte anos e que voltou recentemente para “investir”. Trouxe um casaco novo de cabedal, uma gravata verde e bolinhas amarelas e muitas calças novas de fato de treino para combinar com as também novas camisas Lacoste. Tudo novo – para que se saiba. Saltou do anonimato por causa da mansarda rosa-choque que o avô deixou à custa do contrabando trazido de Ayamonte e que ele “remodelou” com dinheiros amealhados na mala de cartão que levou de cá. Dá que falar na vizinhança por ter transformado ligeiramente a casa acrescentando-lhe seis quartos, duas suites, uma piscina. E as divisões têm boas áreas! Os compadres não se cansam
- É um bom vizinho, não faz barulho, só cá vem uma semana por ano!

(a continuar)

Miguel Godinho
Tempus fugit

As recordações
de uma época que não perdura
mais

cessam

os saberes que já não vingam
os cantares que já não soam
as vozes que emudecem são

riscadas pelo lápis da memória

não se guardam
coisas que já não servem para nada que
já não fazem sentido

estas são as notas que o tempo guarda
para si próprio, egoisticamente
vislumbres
de um tempo concreto, ultrapassado

tudo é de ontem
tudo se esquece
menos esta certeza
que imprimo no papel.

Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 27, 2006

Se me calo

observo, questiono, discuto, contesto
analiso, argumento, contrario,
contradigo, debato, apuro,
comento, critico, ouço


-me.
O silêncio

Será no preciso momento em que o silêncio principia que o “ruído” se faz notar. A confrontação com o eu sucede-se e pode tornar-se muito mais ruidosa do que uma sala cheia de gente a falar bem alto. E muito mais difícil de suportar. Nesta última não se exige uma confrontação, não nos é solicitada uma auto-consciência, uma apreensão do ser, do existir, do que somos, do que fomos, do que podemos ser, do que sentimos, do que queremos, do que nos preocupa.
Um espaço de desocupação oral e auditiva traduz sempre um ambiente de confrontação pessoal. Conduz-nos sempre àquele momento em que nos olhamos ao espelho e somos obrigados a olhar para ele, para nós próprios. A introspecção é sempre um momento de desafio, de confrontação e, ao mesmo tempo, um caminho. Uma estrada que nos leva ao auto-conhecimento, à essência do que somos e, por isso, é sempre uma descoberta. Pode revelar-se agradável ou não, mas é sempre uma descoberta. No silêncio, há muito diálogo. Interior.
Neste sentido, será que o silêncio existe?


Miguel Godinho

sábado, novembro 25, 2006

O tempo que circula

de tempos a tempos

idades assuntos desígnios
e máculas
regressam
como se a borracha do tempo
não apagasse a tinta que o mesmo escreve
como se o agora fosse apenas
uma cilada do findado
uma espera pelo amanhã
uma necessidade antiga

trazida de volta.

Miguel Godinho
O Warholismo

Outro dia, quando folheava o catálogo de uma exposição que esteve patente em Lagos (“zoologia dos trópicos”, obras de Nelson Leirner e Jorge Dias), dei de caras com um termo que designa uma atitude com a qual há muito me identifico embora nunca tenha encontrado uma expressão adequada para a designar. O termo warholismo assenta na perfeição. Warholismo deriva de Warhol, e assim sendo, warholar designa o acto de fazer despreocupadamente sem ter responsabilidade alguma sobre os resultados, seguindo a linha artística do criador que lhe dá nome.

Assim sendo, Warhol talvez tenha inventado uma terapia sem que o saiba. É tão bom warholar de vez em quando. Não raras vezes sinto que a criação não passa disso mesmo. Ou então, dito de uma outra forma (sim, porque dizer que a criação não passa disso parece-me muito redutor...), criar é isso mesmo: fazer despreocupadamente, embora tendo sempre em conta as preocupações...
Será este texto pop?

Miguel Godinho

terça-feira, novembro 21, 2006

Como se tivesse 18

Escreves com a mesma mão
com que me apalpas
e agarras na caneta com
os dedos que me apontam
usas e abusas das palavras que me seduzem
e me magoam

Sei que assim o é
e que lá tornarás
assim que de novo te esqueças

que essa ferida em mim
és tu.

Regresso sempre a este tema
escrito há tanto tempo
numa folha macilenta

é medonho como
as cores do tempo me escorrem pela cara
como se tivesse 18
envergonho-me porque a idade de hoje
é igual à de
quando me pediste
para te ver realmente.

Miguel Godinho

terça-feira, novembro 14, 2006

Al garvios de ontem

por amarem demais a vida simples
por quererem viver vivendo
fazendo do gerúndio um
estilo de vida
quis o céu que a pachorra
se abatesse sobre estas gentes

reprovam hoje os líderes
por não ser esta a forma de vida que
haveria de trazer
riqueza e grandiosidade
pois eu lhes digo que
quem tinha o mar ao fundo da rua
os figos a secar na eira
o sol como candeia

não podia querer ser maior


Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 13, 2006

Memória que se esquece

Curva descendente
no cantar que enrouquece
na memória que se esquece
saber de ontem
numa versão falada
e ninguém escreve
caneta que perde a tinta
numa mão que atrofia
gelado que se derrete nas mãos do tempo

Devolve-se à terra o que é seu
o que dela nunca devia ter brotado
flor que murcha e que se aplaude
ninguém se importa com isso

Miguel Godinho

sexta-feira, novembro 10, 2006

Presente pretérito

Tão apressadamente me torci para
perceber de onde brotava
tão distinto aroma
tão rápido que nem percebi que
não eras mais que isso
um perfume ou uma química
um vapor que tão depressa se dissipou
como assim se consumiu.

Miguel Godinho

quinta-feira, novembro 09, 2006

Entendo a poesia e a escrita como a arqueologia do Ser. Aprofundar, descobrir, retirar aquilo que se encontra em mim e que foi soterrado pelo tempo, aquilo que necessita de uma reinterpretação, que precisa de ver novamente a luz do dia. O que escrevo tem que ver portanto, com assuntos que se querem revolvidos, com matérias passadas, com temas pretéritos que reclamam uma nova abordagem. Nesse sentido, acho que um qualquer assunto nunca fica de todo resolvido, nunca se esgota no momento em que me confronto primeiramente com ele. Há sempre uma questão que fica, uma história que pode sempre ter um final diferente, mesmo que aparentemente tenha já terminado. Por isso, sou completamente contra quem acha que quando se fecha um livro, ele não deve ser lido de novo, com uma renovada percepção, tentando novas acepções aos seus conteúdos. Tudo isto para dizer: terei sempre de me olhar ao espelho e terei sempre de regressar à origem. É lá que vive a minha constância, aquilo que nunca muda em mim. O meu cenário.

Miguel Godinho

quarta-feira, novembro 08, 2006

Ensinam-nos as coisas
segundo métodos subtis
lógicas sabedoras
da calosidade da vida.
Mostram-nos um caminho que
à partida parece fácil
óbvio e disposto
segundo métricas tão simples

equívoco profundo

a vida não é simples nem se calcorreia
assim

Miguel Godinho

terça-feira, novembro 07, 2006

Maria

Revela-me
o que sempre quiseste explicar
o que a boca quis pronunciar
e o coração não tolerou.
as dores de uma vida
Cerradas numa memória amarga

O pai não foi bom.

Toda tu és uma Maria
nome que trazias gravado
na alma
estigma que não cura porque sempre infecta
engoles e avassalas as mágoas como ninguém.

Miguel Godinho

segunda-feira, novembro 06, 2006

Mais um ano que passa na minha vida. Continua no entanto a dúvida:
Quantas letras são necessárias para me escrever?

Miguel Godinho

sexta-feira, novembro 03, 2006

Não raras vezes, as perguntas mais difíceis de se responder são compostas por uma só palavra.

Miguel Godinho

quinta-feira, novembro 02, 2006

Relembrar um tédio que esteve
no futuro e estará
no passado presente
como que uma peça que nunca
saiu de cena
num palco onde sempre actuo.

Miguel Godinho

quarta-feira, novembro 01, 2006

Quero o que não tenho
nem nunca tive nem sei o que é
o que não calhou mas devia
o que sempre foi sem nunca ter sido

como se andasse constantemente
a entoar uma canção
composta com o som das palavras
de um livro em branco.

Miguel Godinho

terça-feira, outubro 31, 2006


um silêncio em mim que transporta a dúvida simbólica existente na violência das minhas certezas.

Miguel Godinho

segunda-feira, outubro 30, 2006

A música das nossas vidas

Há tempos tive esta conversa com uns amigos e agora, quando li no Público o artigo de Vítor Belaciano [de 29 de Outubro de 2006], achei que era uma boa altura para escrever sobre o assunto. O tema da conversa e do artigo andavam à volta do excesso de música na actualidade, sobre a forma como a experimentamos e em que medida isso nos afecta. Referia-se naquele texto o facto do acesso à música estar hoje em dia demasiado facilitado e ser muito mais imediato. À distância de um clíque. Afirmava-se a necessidade de procurar a qualidade da experiência e não da quantidade, admitindo-se no entanto, a dificuldade em procurar essa mesma qualidade no meio das infinitas possibilidades. Por fim, concluía-se que o problema não está na proliferação da música mas na maneira como ela pode e deve ser consumida. Não poderia estar mais de acordo.
Antes de mais, possuir e ouvir música implica uma gestão das escolhas e das aquisições. Poderá então falar-se da necessidade de uma “dieta musical”, tal como refere Belaciano? Penso que sim. É necessário escolher, ainda que, muitas das vezes, tal seja impossível. Se pensarmos bem, já ouvimos música em todo o lado, muitas vezes imposta. Na rua, no centro comercial, na loja de roupa, no telefone (em espera), no supermercado, no elevador. No entanto, escutar a música que é imposta é uma coisa e incorporá-la nas nossas vidas é outra. Mas o que é certo é que de alguma forma essas imposições sempre nos afectam…
Há uns anos atrás, mais ou menos na altura em que apareceram os gravadores domésticos de CDs e em que na Internet se começou a disponibilizar muita música grátis, dei por mim a gravar tudo aquilo que me parecia agradável ao ouvido, passando grande parte dos meus dias a ouvir e a extrair música da web e a arquivá-la no computador e/ou CDs. Atitude que, agora me apercebo, não muito exigente (porque desregrada) e que muitas vezes resultava de escolhas que não eram totalmente voluntárias. Muitas vezes procurava na Net coisas que tinha ouvido num sítio qualquer, talvez mesmo numa loja de roupa, quem sabe? Mas, quanto a mim, a descoberta musical também passa por aí. Por outro lado, esse acesso a um leque muito grande de escolhas provocou com que a minha capacidade de selecção ficasse reduzida porque não estava habituado a lidar isso. E até conseguir perceber que não podemos usufruir tudo, andei meio baralhado, meio confuso com tanta opção. A certa altura, comecei a reparar que tinha uma colecção de CDs tão grande que, por vezes, quando os colocava no leitor nem sabia bem o que é que estava a tocar. Muitos (a maioria) nem capa tinham (porque o site não a disponibilizava), alguns nem sabia sequer o nome. Deve dizer-se que muita dessa música era simplesmente virtual, não tinha suporte físico (não a transportava para CD) e agora percebo que, pelo menos no meu entender, a música não pode ser somente virtual, tem de ter um suporte em que possamos agarrar, tocar e colocar no leitor, em que seja possível folhear o livro de apresentação do artista. Nessa altura, achava por bem gravar tudo, adquirir tudo, arquivar tudo, mesmo que não gostasse muito. Hoje em dia, a atitude é bastante diferente.
Tal como acho que ler um livro a partir de fotocópias não é exactamente a mesma coisa que folhear a obra, também acho que um CD precisa de ser original. É também por isso que nos identificamos com ele (que saudades do vinil!...). E como um original custa dinheiro (principalmente neste país!), não se pode ter tudo. E a atitude de tentar ter tudo implica uma certa desordem mental, uma incapacidade na gestão dos afectos, dos gostos. Assim, a minha maneira de resolver o problema foi passar a comprar somente originais. As escolhas passariam assim a ser mais apuradas porque só compraria aquilo que realmente gostasse e com o qual me identificasse. E resultou que passei a renunciar àquilo que gosto “mais ou menos” para passar a comprar unicamente aquilo que “gosto mesmo”. Nesse sentido acho que não importa de onde provêm as nossas escolhas porque, na realidade, nada nos é imposto mas sim proposto. Ainda assim, acho que há ambientes onde o silêncio faz muito mais sentido…
O facto de haver hoje em dia muita música e muita facilidade (talvez até demais) em aceder a ela não é, portanto, problemático, pelo menos no meu entender. É sinal de que existem mais criadores, uma maior facilidade na sua exposição e, por isso, mais formas de sentir a própria realidade uma vez que, por isso também, se nota um acesso facilitado a um conjunto de sensações que resultam dessa combinação música-ambiente-indivíduo. Assim, mais do que coleccionar tudo, o importante é coleccionar a música que faz parte de determinado período, determinada vivência ou momento da nossa vida, independentemente da forma como nos foi proposto. Para que possamos pegar nisso num outro momento da vida e vermos que tem uma contextura real e está associado a uma memória ou a um período da nossa vida. Assim, fará sempre sentido, em qualquer altura e em qualquer lugar. E, na maioria das vezes, isso não é possível com a musiquinha que nos dão no supermercado.

Miguel Godinho