Quero o que não tenho
nem nunca tive nem sei o que é
o que não calhou mas devia
o que sempre foi sem nunca ter sido
como se andasse constantemente
a entoar uma canção
composta com o som das palavras
de um livro em branco.
Miguel Godinho
quarta-feira, novembro 01, 2006
terça-feira, outubro 31, 2006
segunda-feira, outubro 30, 2006
A música das nossas vidas
Há tempos tive esta conversa com uns amigos e agora, quando li no Público o artigo de Vítor Belaciano [de 29 de Outubro de 2006], achei que era uma boa altura para escrever sobre o assunto. O tema da conversa e do artigo andavam à volta do excesso de música na actualidade, sobre a forma como a experimentamos e em que medida isso nos afecta. Referia-se naquele texto o facto do acesso à música estar hoje em dia demasiado facilitado e ser muito mais imediato. À distância de um clíque. Afirmava-se a necessidade de procurar a qualidade da experiência e não da quantidade, admitindo-se no entanto, a dificuldade em procurar essa mesma qualidade no meio das infinitas possibilidades. Por fim, concluía-se que o problema não está na proliferação da música mas na maneira como ela pode e deve ser consumida. Não poderia estar mais de acordo.
Antes de mais, possuir e ouvir música implica uma gestão das escolhas e das aquisições. Poderá então falar-se da necessidade de uma “dieta musical”, tal como refere Belaciano? Penso que sim. É necessário escolher, ainda que, muitas das vezes, tal seja impossível. Se pensarmos bem, já ouvimos música em todo o lado, muitas vezes imposta. Na rua, no centro comercial, na loja de roupa, no telefone (em espera), no supermercado, no elevador. No entanto, escutar a música que é imposta é uma coisa e incorporá-la nas nossas vidas é outra. Mas o que é certo é que de alguma forma essas imposições sempre nos afectam…
Há uns anos atrás, mais ou menos na altura em que apareceram os gravadores domésticos de CDs e em que na Internet se começou a disponibilizar muita música grátis, dei por mim a gravar tudo aquilo que me parecia agradável ao ouvido, passando grande parte dos meus dias a ouvir e a extrair música da web e a arquivá-la no computador e/ou CDs. Atitude que, agora me apercebo, não muito exigente (porque desregrada) e que muitas vezes resultava de escolhas que não eram totalmente voluntárias. Muitas vezes procurava na Net coisas que tinha ouvido num sítio qualquer, talvez mesmo numa loja de roupa, quem sabe? Mas, quanto a mim, a descoberta musical também passa por aí. Por outro lado, esse acesso a um leque muito grande de escolhas provocou com que a minha capacidade de selecção ficasse reduzida porque não estava habituado a lidar isso. E até conseguir perceber que não podemos usufruir tudo, andei meio baralhado, meio confuso com tanta opção. A certa altura, comecei a reparar que tinha uma colecção de CDs tão grande que, por vezes, quando os colocava no leitor nem sabia bem o que é que estava a tocar. Muitos (a maioria) nem capa tinham (porque o site não a disponibilizava), alguns nem sabia sequer o nome. Deve dizer-se que muita dessa música era simplesmente virtual, não tinha suporte físico (não a transportava para CD) e agora percebo que, pelo menos no meu entender, a música não pode ser somente virtual, tem de ter um suporte em que possamos agarrar, tocar e colocar no leitor, em que seja possível folhear o livro de apresentação do artista. Nessa altura, achava por bem gravar tudo, adquirir tudo, arquivar tudo, mesmo que não gostasse muito. Hoje em dia, a atitude é bastante diferente.
Tal como acho que ler um livro a partir de fotocópias não é exactamente a mesma coisa que folhear a obra, também acho que um CD precisa de ser original. É também por isso que nos identificamos com ele (que saudades do vinil!...). E como um original custa dinheiro (principalmente neste país!), não se pode ter tudo. E a atitude de tentar ter tudo implica uma certa desordem mental, uma incapacidade na gestão dos afectos, dos gostos. Assim, a minha maneira de resolver o problema foi passar a comprar somente originais. As escolhas passariam assim a ser mais apuradas porque só compraria aquilo que realmente gostasse e com o qual me identificasse. E resultou que passei a renunciar àquilo que gosto “mais ou menos” para passar a comprar unicamente aquilo que “gosto mesmo”. Nesse sentido acho que não importa de onde provêm as nossas escolhas porque, na realidade, nada nos é imposto mas sim proposto. Ainda assim, acho que há ambientes onde o silêncio faz muito mais sentido…
O facto de haver hoje em dia muita música e muita facilidade (talvez até demais) em aceder a ela não é, portanto, problemático, pelo menos no meu entender. É sinal de que existem mais criadores, uma maior facilidade na sua exposição e, por isso, mais formas de sentir a própria realidade uma vez que, por isso também, se nota um acesso facilitado a um conjunto de sensações que resultam dessa combinação música-ambiente-indivíduo. Assim, mais do que coleccionar tudo, o importante é coleccionar a música que faz parte de determinado período, determinada vivência ou momento da nossa vida, independentemente da forma como nos foi proposto. Para que possamos pegar nisso num outro momento da vida e vermos que tem uma contextura real e está associado a uma memória ou a um período da nossa vida. Assim, fará sempre sentido, em qualquer altura e em qualquer lugar. E, na maioria das vezes, isso não é possível com a musiquinha que nos dão no supermercado.
Miguel Godinho
Há tempos tive esta conversa com uns amigos e agora, quando li no Público o artigo de Vítor Belaciano [de 29 de Outubro de 2006], achei que era uma boa altura para escrever sobre o assunto. O tema da conversa e do artigo andavam à volta do excesso de música na actualidade, sobre a forma como a experimentamos e em que medida isso nos afecta. Referia-se naquele texto o facto do acesso à música estar hoje em dia demasiado facilitado e ser muito mais imediato. À distância de um clíque. Afirmava-se a necessidade de procurar a qualidade da experiência e não da quantidade, admitindo-se no entanto, a dificuldade em procurar essa mesma qualidade no meio das infinitas possibilidades. Por fim, concluía-se que o problema não está na proliferação da música mas na maneira como ela pode e deve ser consumida. Não poderia estar mais de acordo.
Antes de mais, possuir e ouvir música implica uma gestão das escolhas e das aquisições. Poderá então falar-se da necessidade de uma “dieta musical”, tal como refere Belaciano? Penso que sim. É necessário escolher, ainda que, muitas das vezes, tal seja impossível. Se pensarmos bem, já ouvimos música em todo o lado, muitas vezes imposta. Na rua, no centro comercial, na loja de roupa, no telefone (em espera), no supermercado, no elevador. No entanto, escutar a música que é imposta é uma coisa e incorporá-la nas nossas vidas é outra. Mas o que é certo é que de alguma forma essas imposições sempre nos afectam…
Há uns anos atrás, mais ou menos na altura em que apareceram os gravadores domésticos de CDs e em que na Internet se começou a disponibilizar muita música grátis, dei por mim a gravar tudo aquilo que me parecia agradável ao ouvido, passando grande parte dos meus dias a ouvir e a extrair música da web e a arquivá-la no computador e/ou CDs. Atitude que, agora me apercebo, não muito exigente (porque desregrada) e que muitas vezes resultava de escolhas que não eram totalmente voluntárias. Muitas vezes procurava na Net coisas que tinha ouvido num sítio qualquer, talvez mesmo numa loja de roupa, quem sabe? Mas, quanto a mim, a descoberta musical também passa por aí. Por outro lado, esse acesso a um leque muito grande de escolhas provocou com que a minha capacidade de selecção ficasse reduzida porque não estava habituado a lidar isso. E até conseguir perceber que não podemos usufruir tudo, andei meio baralhado, meio confuso com tanta opção. A certa altura, comecei a reparar que tinha uma colecção de CDs tão grande que, por vezes, quando os colocava no leitor nem sabia bem o que é que estava a tocar. Muitos (a maioria) nem capa tinham (porque o site não a disponibilizava), alguns nem sabia sequer o nome. Deve dizer-se que muita dessa música era simplesmente virtual, não tinha suporte físico (não a transportava para CD) e agora percebo que, pelo menos no meu entender, a música não pode ser somente virtual, tem de ter um suporte em que possamos agarrar, tocar e colocar no leitor, em que seja possível folhear o livro de apresentação do artista. Nessa altura, achava por bem gravar tudo, adquirir tudo, arquivar tudo, mesmo que não gostasse muito. Hoje em dia, a atitude é bastante diferente.
Tal como acho que ler um livro a partir de fotocópias não é exactamente a mesma coisa que folhear a obra, também acho que um CD precisa de ser original. É também por isso que nos identificamos com ele (que saudades do vinil!...). E como um original custa dinheiro (principalmente neste país!), não se pode ter tudo. E a atitude de tentar ter tudo implica uma certa desordem mental, uma incapacidade na gestão dos afectos, dos gostos. Assim, a minha maneira de resolver o problema foi passar a comprar somente originais. As escolhas passariam assim a ser mais apuradas porque só compraria aquilo que realmente gostasse e com o qual me identificasse. E resultou que passei a renunciar àquilo que gosto “mais ou menos” para passar a comprar unicamente aquilo que “gosto mesmo”. Nesse sentido acho que não importa de onde provêm as nossas escolhas porque, na realidade, nada nos é imposto mas sim proposto. Ainda assim, acho que há ambientes onde o silêncio faz muito mais sentido…
O facto de haver hoje em dia muita música e muita facilidade (talvez até demais) em aceder a ela não é, portanto, problemático, pelo menos no meu entender. É sinal de que existem mais criadores, uma maior facilidade na sua exposição e, por isso, mais formas de sentir a própria realidade uma vez que, por isso também, se nota um acesso facilitado a um conjunto de sensações que resultam dessa combinação música-ambiente-indivíduo. Assim, mais do que coleccionar tudo, o importante é coleccionar a música que faz parte de determinado período, determinada vivência ou momento da nossa vida, independentemente da forma como nos foi proposto. Para que possamos pegar nisso num outro momento da vida e vermos que tem uma contextura real e está associado a uma memória ou a um período da nossa vida. Assim, fará sempre sentido, em qualquer altura e em qualquer lugar. E, na maioria das vezes, isso não é possível com a musiquinha que nos dão no supermercado.
Miguel Godinho
quarta-feira, outubro 25, 2006
Um amigo de outrora
Vi um amigo de outrora.
Apresentou-me um enredo. Foi uma história tão mal contada que ninguém acreditou. Também não se importara nada com isso. Pretendia apenas uns trocos para que pudesse satisfazer o vício e perder-se de novo em sonhos e delírios heróicos que lhe acalmariam as dores físicas e a ansiedade espiritual. Daquela cabeça brotava apenas uma necessidade: colocar o cinto no braço, premir o gatilho da pistola e disparar a bala que o transportaria para o purgatório do deleite, esse limbo de lama e trepadeiras de cor escura que se afilam pelas paredes e pelos corpos estendidos, amontoados em torno daquela substância que lhes dá vida e que ao mesmo tempo os mata.
Foi triste observar esse cenário de dor.
Miguel Godinho
Vi um amigo de outrora.
Apresentou-me um enredo. Foi uma história tão mal contada que ninguém acreditou. Também não se importara nada com isso. Pretendia apenas uns trocos para que pudesse satisfazer o vício e perder-se de novo em sonhos e delírios heróicos que lhe acalmariam as dores físicas e a ansiedade espiritual. Daquela cabeça brotava apenas uma necessidade: colocar o cinto no braço, premir o gatilho da pistola e disparar a bala que o transportaria para o purgatório do deleite, esse limbo de lama e trepadeiras de cor escura que se afilam pelas paredes e pelos corpos estendidos, amontoados em torno daquela substância que lhes dá vida e que ao mesmo tempo os mata.
Foi triste observar esse cenário de dor.
Miguel Godinho
terça-feira, outubro 24, 2006

Já saiu a obra "A vinha e o vinho no Algarve - O renascer de uma velha tradição", editada pela CCDRA.
O livro foi escrito por mim e pelos profs. Orlando simões, João Luís Fontes, Luis Oliveira e João Bernardes (sendo que os últimos dois foram os coordenadores da obra), a par de outros colaboradores. Podem encontrá-lo nas livrarias (pelo menos já o encontrei à venda na Bertrand,em Faro).
segunda-feira, outubro 23, 2006
Chuva de palavras
Num lago de frases por escrever
junto a uma estrada com uma história para contar
Caminho lamacento repleto de vírgulas
E pontos de exclamação junto a uma cascata de letras
Paisagem de quadras verdes
como árvores que aguardam pelo Outono para deixar cair as estrofes
que adubarão o terreno
onde alguém há-de semear o que sente
para outros depois colherem
aquilo que também sentirão.
Miguel Godinho
Num lago de frases por escrever
junto a uma estrada com uma história para contar
Caminho lamacento repleto de vírgulas
E pontos de exclamação junto a uma cascata de letras
Paisagem de quadras verdes
como árvores que aguardam pelo Outono para deixar cair as estrofes
que adubarão o terreno
onde alguém há-de semear o que sente
para outros depois colherem
aquilo que também sentirão.
Miguel Godinho
quarta-feira, outubro 18, 2006
segunda-feira, outubro 16, 2006
sexta-feira, outubro 13, 2006
Al-gharb 1146
Não fosse a obstinação de um filho da mãe impaciente pelo direito à terra, devido à morte prematura de seu pai (seria?) e talvez ainda hoje no Gharb Al-andalus se passassem as tardes à luz de poesia e de acordes “alaúdescos”. Ao invés, esta mesma região viria a tornar-se num Portucale cristão, obsceno e altamente promíscuo, carregado de insensibilidade e intolerância perante o refinamento da cultura oriental. Como que por vingança, Allah viria a impor ao Deus Cristão uma pena que obriga ainda hoje a vida neste território (especialmente nas regiões mais a sul) a correr de uma forma mais lenta... É uma das heranças dos tempos em que a vida era branda e requintada, onde a Cultura era sublime e um dos pilares do Ser.
Após a leitura de Al-Gharb 1146 de Alberto Xavier é esta a impressão que nos fica. Esta obra de ficção histórica, recentemente lançada pela Editora Bertrand, transporta-nos para os tempos do Al-Andalus (a zona que correspondia à P. Ibérica, governada pelos muçulmanos). O Al-Gharb designava a parte mais ocidental deste território (a Lusitânia romana), inserida numa pequena parcela da Estremadura espanhola.
O autor inventa uma história a partir de dados históricos concretos, transportando o leitor para aquele passado perfumado e carregado de cor, quase que numa empresa académica, propondo ao mesmo tempo, explicações para os nomes actuais das terras, para as relações políticas, para os ambientes de época, embora as personagens não sejam mais do que o motor para apresentar o panorama histórico dos conflitos existentes à época, sendo que, muito possivelmente, e de acordo com os dados históricos, esta narrativa não foi mas poderia muito bem ter sido verídica.
Assim, somos convidados, de uma forma muito apurada e pormenorizada, a “visitar” a paisagem cultural da época, as formas de inter-relacionamento entre as várias autoridades, as ocupações das mesmas, os interesses, a alimentação, o vestuário, a visão sobre o “Outro”, a visão do mundo.
Uma proposta de leitura obrigatória. Para nos fazer almejar com o Gharb refinado e perfumado dos tempos em que este se orientava para Meca.
Miguel Godinho
publicado no "Jornal do Algarve" de 2 de Novembro de 2006
Não fosse a obstinação de um filho da mãe impaciente pelo direito à terra, devido à morte prematura de seu pai (seria?) e talvez ainda hoje no Gharb Al-andalus se passassem as tardes à luz de poesia e de acordes “alaúdescos”. Ao invés, esta mesma região viria a tornar-se num Portucale cristão, obsceno e altamente promíscuo, carregado de insensibilidade e intolerância perante o refinamento da cultura oriental. Como que por vingança, Allah viria a impor ao Deus Cristão uma pena que obriga ainda hoje a vida neste território (especialmente nas regiões mais a sul) a correr de uma forma mais lenta... É uma das heranças dos tempos em que a vida era branda e requintada, onde a Cultura era sublime e um dos pilares do Ser.
Após a leitura de Al-Gharb 1146 de Alberto Xavier é esta a impressão que nos fica. Esta obra de ficção histórica, recentemente lançada pela Editora Bertrand, transporta-nos para os tempos do Al-Andalus (a zona que correspondia à P. Ibérica, governada pelos muçulmanos). O Al-Gharb designava a parte mais ocidental deste território (a Lusitânia romana), inserida numa pequena parcela da Estremadura espanhola.
O autor inventa uma história a partir de dados históricos concretos, transportando o leitor para aquele passado perfumado e carregado de cor, quase que numa empresa académica, propondo ao mesmo tempo, explicações para os nomes actuais das terras, para as relações políticas, para os ambientes de época, embora as personagens não sejam mais do que o motor para apresentar o panorama histórico dos conflitos existentes à época, sendo que, muito possivelmente, e de acordo com os dados históricos, esta narrativa não foi mas poderia muito bem ter sido verídica.
Assim, somos convidados, de uma forma muito apurada e pormenorizada, a “visitar” a paisagem cultural da época, as formas de inter-relacionamento entre as várias autoridades, as ocupações das mesmas, os interesses, a alimentação, o vestuário, a visão sobre o “Outro”, a visão do mundo.
Uma proposta de leitura obrigatória. Para nos fazer almejar com o Gharb refinado e perfumado dos tempos em que este se orientava para Meca.
Miguel Godinho
publicado no "Jornal do Algarve" de 2 de Novembro de 2006
quinta-feira, outubro 12, 2006
O dia nasceu sombrio
A água do lago estava turva e a chuva que começou a brotar dos ceús vinha suja, enegrecida pelo fumo daquela fábrica lá ao longe.
Despi-me e entrei na água como que a carecer de uma ablução. Sabia que água não estava limpa mas ainda assim entrei, mesmo sabendo de antemão que de lá não sairia lavado. É daquelas coisas que não podemos controlar, temos simplesmente de atender aos instintos porque não há outra forma. Perguntas-me se realmente sabia o que estava a fazer. Não importa, nem sequer pensei nisso. Fi-lo. Sujei-me e chafurdei na lama. Foi o melhor banho que alguma vez tomei. Lavou-me a alma.
Miguel Godinho
A água do lago estava turva e a chuva que começou a brotar dos ceús vinha suja, enegrecida pelo fumo daquela fábrica lá ao longe.
Despi-me e entrei na água como que a carecer de uma ablução. Sabia que água não estava limpa mas ainda assim entrei, mesmo sabendo de antemão que de lá não sairia lavado. É daquelas coisas que não podemos controlar, temos simplesmente de atender aos instintos porque não há outra forma. Perguntas-me se realmente sabia o que estava a fazer. Não importa, nem sequer pensei nisso. Fi-lo. Sujei-me e chafurdei na lama. Foi o melhor banho que alguma vez tomei. Lavou-me a alma.
Miguel Godinho
terça-feira, outubro 10, 2006
Uma demorada ausência para contemplar as belas paisagens da Tunísia e aperceber-me uma vez mais que este Algarve onde agora regresso pertence a uma grande casa de família com vista para o mediterrâneo, esse grande pátio comum que agrega à sua volta um casario branco com pinceladas de azul de onde se avistam oliveiras, alfarrobeiras e laranjeiras. E sobretudo, mediterrânicos(as) de tez bronzeada.
Miguel Godinho
Miguel Godinho
quarta-feira, setembro 27, 2006
segunda-feira, setembro 25, 2006
Carrego nestas teclas para que decifres o que penso
jogando sobre uma página
esta mancha de letras,
este conjunto de palavras.
Pintura de letras agrupadas uma a uma
e espaços em branco usados para intercalar os substantivos, os adjectivos,
os pronomes, artigos e por aí.
Quão distinta fica esta folha
cheia de caracteres arredondados, pontiagudos, disformes.
estas palavras delineadas como formas usadas para esboçar
o que de repente se desenhou no meu pensamento
mãos que, como instrumentos,
ordenaram as teclas
para que a imagem que agora observas passasse a existir.
Miguel Godinho
jogando sobre uma página
esta mancha de letras,
este conjunto de palavras.
Pintura de letras agrupadas uma a uma
e espaços em branco usados para intercalar os substantivos, os adjectivos,
os pronomes, artigos e por aí.
Quão distinta fica esta folha
cheia de caracteres arredondados, pontiagudos, disformes.
estas palavras delineadas como formas usadas para esboçar
o que de repente se desenhou no meu pensamento
mãos que, como instrumentos,
ordenaram as teclas
para que a imagem que agora observas passasse a existir.
Miguel Godinho
segunda-feira, setembro 11, 2006
Algarvio com muito gosto...Mas há muito por fazer (ou por desfazer) nesta minha região...
New Millenium Algarve
O Algarve, a citação de uma civilização e de uma paisagem mediterrânica ou a síntese de um desejo mal conduzido de entrada no mundo “evoluído” de hotéis da última moda, iguaizinhos aos que vi em Cancun. Também nós por cá temos uns mamarrachos na falésia de Albufeiracun.
Neste formigueiro desenfreado do mês de Agosto, as formigas são feias, não respeitam o carreiro que aperta o intenso tráfego e atropelam-se por todos os lados. Fumegam pelo nariz frases de impaciência, convencidos de que a vida aqui tem de correr ao mesmo ritmo da metrópole. Ora é o barco que acede à praia que não circula mais rápido, ora é o velho que vai de pasteleira na estrada e que não deixa o BMW de matrícula francesa passar.
Quis ver nesta região onde vivo uma paisagem que os postais antigos mostram, de casas caiadas de branco, ocre e óxido de ferro, derramadas ordenadamente pelos campos cobertos de figueiras, laranjeiras e amendoeiras em flor, mas esta minha imaginação fértil já não consegue fantasiar quando tenho a janela da sala aberta.
Terra de eiras e de noras, poços e castelos de taipa. Chaminés rendilhadas e platibandas decoradas. Quem me prova que não é mais um produto da minha imaginação? Conheço um senhor que diz que se lembra mas eu não sei bem se hei-de acreditar. Nora, só conheço o “Aldeamento da Nora”, ali para os lados de Portimão.
O meu pai está sempre a dizer que antigamente gostava de ir ao mercado de Estói comprar botas de couro que um senhor que vivia ali para os lados de Quelfes fazia. Mas a ultima vez que lá fui com ele, apareceu a GNR e apreendeu todos os CDs da Floribela ao filho desse mesmo senhor.
Algarve. New Millenium Algarve.
Miguel Godinho
New Millenium Algarve
O Algarve, a citação de uma civilização e de uma paisagem mediterrânica ou a síntese de um desejo mal conduzido de entrada no mundo “evoluído” de hotéis da última moda, iguaizinhos aos que vi em Cancun. Também nós por cá temos uns mamarrachos na falésia de Albufeiracun.
Neste formigueiro desenfreado do mês de Agosto, as formigas são feias, não respeitam o carreiro que aperta o intenso tráfego e atropelam-se por todos os lados. Fumegam pelo nariz frases de impaciência, convencidos de que a vida aqui tem de correr ao mesmo ritmo da metrópole. Ora é o barco que acede à praia que não circula mais rápido, ora é o velho que vai de pasteleira na estrada e que não deixa o BMW de matrícula francesa passar.
Quis ver nesta região onde vivo uma paisagem que os postais antigos mostram, de casas caiadas de branco, ocre e óxido de ferro, derramadas ordenadamente pelos campos cobertos de figueiras, laranjeiras e amendoeiras em flor, mas esta minha imaginação fértil já não consegue fantasiar quando tenho a janela da sala aberta.
Terra de eiras e de noras, poços e castelos de taipa. Chaminés rendilhadas e platibandas decoradas. Quem me prova que não é mais um produto da minha imaginação? Conheço um senhor que diz que se lembra mas eu não sei bem se hei-de acreditar. Nora, só conheço o “Aldeamento da Nora”, ali para os lados de Portimão.
O meu pai está sempre a dizer que antigamente gostava de ir ao mercado de Estói comprar botas de couro que um senhor que vivia ali para os lados de Quelfes fazia. Mas a ultima vez que lá fui com ele, apareceu a GNR e apreendeu todos os CDs da Floribela ao filho desse mesmo senhor.
Algarve. New Millenium Algarve.
Miguel Godinho
quinta-feira, agosto 31, 2006

De repente
lembrei-me das cores de ontem
dos cheiros daquele presente
desse passado que é de novo agora
como se nunca tivesse deixado de ser
Como que um presente sempre
presente nesta memória de agora
agora e por agora
porque de repente
a muleta do tempo tropeça
na vontade do teu regresso
de repente
Miguel godinho
quarta-feira, agosto 16, 2006
Os banhos das plumas caprichosas
Folheio o jornal e mais uma vez ouço alguém dizer na sua crónica caprichosa que o Algarve não presta e que o Algarve não presta mesmo.
E o que faria essa pessoa naquela praia algarvia ontem? Teria apanhado boleia para a praia errada? Estaria ela a pensar, enquanto se estendia na rebentação das ondas, que estava em Carcavelos? Enganar-se-ía na citação da região mencionada no artigo de jornal? O que faria ela nesta praia reduzida e superlotada algarvia?
Ah...Alguém me disse que chegou ao Algarve na semana passada. Adora esta confusão dos meses de Julho e Agosto mas não pode dizer nada aos seus amigos lá da redacção porque parece mal. Uma pessoa com a sua classe tem de explicar que detesta o Algarve porque é o que se diz hoje em dia. Por isso, prefere dizer que são os meninos lá em casa é que a obrigam a rumar a sul.
É o habitual. Pseudo-turistas portugueses, intelectualóides convencidos que vêm dar de comer ao suleco esfomeado que não vive mas sobrevive o resto do ano, à espera do lisboeta de Mercedes por pagar que aluga um quarto duplo para sete e que pede uma dourada para dividir com a mulher e a sogra. Os filhos que partilhem uma omeleta entre eles.
São estes excursionistas que nos abarrotam as praias, famintos, sequiosos por um metro quadrado de areia fina. Nenhum deles aprecia o Algarve... Cuidado com esses bandos maledicentes mas viciados em Algarve, esse produto que só podem consumir em Agosto e que nós algarvios temos acesso durante todo o ano. A inveja fá-los criticar o que não têm e quem tem. É o habitué do pessoal que gosta de glosar o que consome. É bem entre a classe.
Pois por cá o sol brilha todo o ano e as praias também lá (aqui) estão em Setembro, em Março, em Maio, enfim, acho que durante todo o ano. E vazias desta gente! E quão bom é sair do trabalho e em cinco minutos estar ali, a banhar-me nas águas atlânticas que o Mediterrâneo aqueceu.
E os restaurantes que tanto tempo demoram a atender esses portuguesinhos de língua afiada continuam a servir o mesmo peixe fresco quando o mês de Agosto acaba. Podem demorar um pouco no atendimento mas por cá o tempo não corre à mesma velocidade. Por cá há sempre tempo. E paciência. Heranças de outrora, de um tempo em que estes turistazecos ainda não tinham descoberto as maravilhas desta linda região.
Se esta se corrompeu tanto ultimamente como gostam de apregoar, pensem porquê.
Miguel Godinho
Folheio o jornal e mais uma vez ouço alguém dizer na sua crónica caprichosa que o Algarve não presta e que o Algarve não presta mesmo.
E o que faria essa pessoa naquela praia algarvia ontem? Teria apanhado boleia para a praia errada? Estaria ela a pensar, enquanto se estendia na rebentação das ondas, que estava em Carcavelos? Enganar-se-ía na citação da região mencionada no artigo de jornal? O que faria ela nesta praia reduzida e superlotada algarvia?
Ah...Alguém me disse que chegou ao Algarve na semana passada. Adora esta confusão dos meses de Julho e Agosto mas não pode dizer nada aos seus amigos lá da redacção porque parece mal. Uma pessoa com a sua classe tem de explicar que detesta o Algarve porque é o que se diz hoje em dia. Por isso, prefere dizer que são os meninos lá em casa é que a obrigam a rumar a sul.
É o habitual. Pseudo-turistas portugueses, intelectualóides convencidos que vêm dar de comer ao suleco esfomeado que não vive mas sobrevive o resto do ano, à espera do lisboeta de Mercedes por pagar que aluga um quarto duplo para sete e que pede uma dourada para dividir com a mulher e a sogra. Os filhos que partilhem uma omeleta entre eles.
São estes excursionistas que nos abarrotam as praias, famintos, sequiosos por um metro quadrado de areia fina. Nenhum deles aprecia o Algarve... Cuidado com esses bandos maledicentes mas viciados em Algarve, esse produto que só podem consumir em Agosto e que nós algarvios temos acesso durante todo o ano. A inveja fá-los criticar o que não têm e quem tem. É o habitué do pessoal que gosta de glosar o que consome. É bem entre a classe.
Pois por cá o sol brilha todo o ano e as praias também lá (aqui) estão em Setembro, em Março, em Maio, enfim, acho que durante todo o ano. E vazias desta gente! E quão bom é sair do trabalho e em cinco minutos estar ali, a banhar-me nas águas atlânticas que o Mediterrâneo aqueceu.
E os restaurantes que tanto tempo demoram a atender esses portuguesinhos de língua afiada continuam a servir o mesmo peixe fresco quando o mês de Agosto acaba. Podem demorar um pouco no atendimento mas por cá o tempo não corre à mesma velocidade. Por cá há sempre tempo. E paciência. Heranças de outrora, de um tempo em que estes turistazecos ainda não tinham descoberto as maravilhas desta linda região.
Se esta se corrompeu tanto ultimamente como gostam de apregoar, pensem porquê.
Miguel Godinho
segunda-feira, agosto 14, 2006
Mulher do sul
Cores claras numa névoa indiciada
Mancha de luz num leito de penumbra
Revelas-te como que quimera.
Questiono as tuas ausências
Mesmo sem saber quem és
Rebelde, fugaz nos sinais,
Devaneio de experiências inconstantes
Inebrio de loucura salutar
Fumo embriagante de haxixe berbere
Sonho mediterrânico de mulher quente
Qual cobra que se enrosca na alma.
Veneno que não dói mas inflama
Sofro quando te vejo
Morro se não te sinto.
Miguel Godinho
Cores claras numa névoa indiciada
Mancha de luz num leito de penumbra
Revelas-te como que quimera.
Questiono as tuas ausências
Mesmo sem saber quem és
Rebelde, fugaz nos sinais,
Devaneio de experiências inconstantes
Inebrio de loucura salutar
Fumo embriagante de haxixe berbere
Sonho mediterrânico de mulher quente
Qual cobra que se enrosca na alma.
Veneno que não dói mas inflama
Sofro quando te vejo
Morro se não te sinto.
Miguel Godinho
quarta-feira, julho 19, 2006
O meu tédio não dorme
Cansado existe em mim
Como uma dor informe
Que não tem causa ou fim.
Não sei o que desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói-me realmente.
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Eu não sou eu nem o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
In Alberto Xavier, “Al-Gharb 1146”
Cansado existe em mim
Como uma dor informe
Que não tem causa ou fim.
Não sei o que desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói-me realmente.
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Eu não sou eu nem o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
In Alberto Xavier, “Al-Gharb 1146”
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