quarta-feira, outubro 18, 2006

esta dor que sinto de novo
uma faca de punho violeta
rasura
perfura

cansaço estranho
despertar numa noite escura
tremer
por sentir que não sei
quem sou

Miguel Godinho

segunda-feira, outubro 16, 2006

O Som

Só importa agora
ouvir o som das ondas
que inscrevem na areia
a cor da sua morte.

Miguel Godinho

sexta-feira, outubro 13, 2006

Al-gharb 1146

Não fosse a obstinação de um filho da mãe impaciente pelo direito à terra, devido à morte prematura de seu pai (seria?) e talvez ainda hoje no Gharb Al-andalus se passassem as tardes à luz de poesia e de acordes “alaúdescos”. Ao invés, esta mesma região viria a tornar-se num Portucale cristão, obsceno e altamente promíscuo, carregado de insensibilidade e intolerância perante o refinamento da cultura oriental. Como que por vingança, Allah viria a impor ao Deus Cristão uma pena que obriga ainda hoje a vida neste território (especialmente nas regiões mais a sul) a correr de uma forma mais lenta... É uma das heranças dos tempos em que a vida era branda e requintada, onde a Cultura era sublime e um dos pilares do Ser.
Após a leitura de Al-Gharb 1146 de Alberto Xavier é esta a impressão que nos fica. Esta obra de ficção histórica, recentemente lançada pela Editora Bertrand, transporta-nos para os tempos do Al-Andalus (a zona que correspondia à P. Ibérica, governada pelos muçulmanos). O Al-Gharb designava a parte mais ocidental deste território (a Lusitânia romana), inserida numa pequena parcela da Estremadura espanhola.
O autor inventa uma história a partir de dados históricos concretos, transportando o leitor para aquele passado perfumado e carregado de cor, quase que numa empresa académica, propondo ao mesmo tempo, explicações para os nomes actuais das terras, para as relações políticas, para os ambientes de época, embora as personagens não sejam mais do que o motor para apresentar o panorama histórico dos conflitos existentes à época, sendo que, muito possivelmente, e de acordo com os dados históricos, esta narrativa não foi mas poderia muito bem ter sido verídica.
Assim, somos convidados, de uma forma muito apurada e pormenorizada, a “visitar” a paisagem cultural da época, as formas de inter-relacionamento entre as várias autoridades, as ocupações das mesmas, os interesses, a alimentação, o vestuário, a visão sobre o “Outro”, a visão do mundo.


Uma proposta de leitura obrigatória. Para nos fazer almejar com o Gharb refinado e perfumado dos tempos em que este se orientava para Meca.

Miguel Godinho
publicado no "Jornal do Algarve" de 2 de Novembro de 2006

quinta-feira, outubro 12, 2006

O dia nasceu sombrio
A água do lago estava turva e a chuva que começou a brotar dos ceús vinha suja, enegrecida pelo fumo daquela fábrica lá ao longe.
Despi-me e entrei na água como que a carecer de uma ablução. Sabia que água não estava limpa mas ainda assim entrei, mesmo sabendo de antemão que de lá não sairia lavado. É daquelas coisas que não podemos controlar, temos simplesmente de atender aos instintos porque não há outra forma. Perguntas-me se realmente sabia o que estava a fazer. Não importa, nem sequer pensei nisso. Fi-lo. Sujei-me e chafurdei na lama. Foi o melhor banho que alguma vez tomei. Lavou-me a alma.

Miguel Godinho

terça-feira, outubro 10, 2006

Uma demorada ausência para contemplar as belas paisagens da Tunísia e aperceber-me uma vez mais que este Algarve onde agora regresso pertence a uma grande casa de família com vista para o mediterrâneo, esse grande pátio comum que agrega à sua volta um casario branco com pinceladas de azul de onde se avistam oliveiras, alfarrobeiras e laranjeiras. E sobretudo, mediterrânicos(as) de tez bronzeada.

Miguel Godinho

quarta-feira, setembro 27, 2006


Amo a quietude da tua existência

segunda-feira, setembro 25, 2006

Carrego nestas teclas para que decifres o que penso
jogando sobre uma página
esta mancha de letras,
este conjunto de palavras.
Pintura de letras agrupadas uma a uma
e espaços em branco usados para intercalar os substantivos, os adjectivos,
os pronomes, artigos e por aí.
Quão distinta fica esta folha
cheia de caracteres arredondados, pontiagudos, disformes.

estas palavras delineadas como formas usadas para esboçar
o que de repente se desenhou no meu pensamento
mãos que, como instrumentos,
ordenaram as teclas
para que a imagem que agora observas passasse a existir.

Miguel Godinho

segunda-feira, setembro 11, 2006

Algarvio com muito gosto...Mas há muito por fazer (ou por desfazer) nesta minha região...

New Millenium Algarve

O Algarve, a citação de uma civilização e de uma paisagem mediterrânica ou a síntese de um desejo mal conduzido de entrada no mundo “evoluído” de hotéis da última moda, iguaizinhos aos que vi em Cancun. Também nós por cá temos uns mamarrachos na falésia de Albufeiracun.

Neste formigueiro desenfreado do mês de Agosto, as formigas são feias, não respeitam o carreiro que aperta o intenso tráfego e atropelam-se por todos os lados. Fumegam pelo nariz frases de impaciência, convencidos de que a vida aqui tem de correr ao mesmo ritmo da metrópole. Ora é o barco que acede à praia que não circula mais rápido, ora é o velho que vai de pasteleira na estrada e que não deixa o BMW de matrícula francesa passar.

Quis ver nesta região onde vivo uma paisagem que os postais antigos mostram, de casas caiadas de branco, ocre e óxido de ferro, derramadas ordenadamente pelos campos cobertos de figueiras, laranjeiras e amendoeiras em flor, mas esta minha imaginação fértil já não consegue fantasiar quando tenho a janela da sala aberta.

Terra de eiras e de noras, poços e castelos de taipa. Chaminés rendilhadas e platibandas decoradas. Quem me prova que não é mais um produto da minha imaginação? Conheço um senhor que diz que se lembra mas eu não sei bem se hei-de acreditar. Nora, só conheço o “Aldeamento da Nora”, ali para os lados de Portimão.

O meu pai está sempre a dizer que antigamente gostava de ir ao mercado de Estói comprar botas de couro que um senhor que vivia ali para os lados de Quelfes fazia. Mas a ultima vez que lá fui com ele, apareceu a GNR e apreendeu todos os CDs da Floribela ao filho desse mesmo senhor.

Algarve. New Millenium Algarve.

Miguel Godinho

quinta-feira, agosto 31, 2006


De repente
lembrei-me das cores de ontem
dos cheiros daquele presente
desse passado que é de novo agora
como se nunca tivesse deixado de ser

Como que um presente sempre
presente nesta memória de agora
agora e por agora
porque de repente
a muleta do tempo tropeça
na vontade do teu regresso

de repente

Miguel godinho

quarta-feira, agosto 16, 2006

Os banhos das plumas caprichosas

Folheio o jornal e mais uma vez ouço alguém dizer na sua crónica caprichosa que o Algarve não presta e que o Algarve não presta mesmo.
E o que faria essa pessoa naquela praia algarvia ontem? Teria apanhado boleia para a praia errada? Estaria ela a pensar, enquanto se estendia na rebentação das ondas, que estava em Carcavelos? Enganar-se-ía na citação da região mencionada no artigo de jornal? O que faria ela nesta praia reduzida e superlotada algarvia?
Ah...Alguém me disse que chegou ao Algarve na semana passada. Adora esta confusão dos meses de Julho e Agosto mas não pode dizer nada aos seus amigos lá da redacção porque parece mal. Uma pessoa com a sua classe tem de explicar que detesta o Algarve porque é o que se diz hoje em dia. Por isso, prefere dizer que são os meninos lá em casa é que a obrigam a rumar a sul.
É o habitual. Pseudo-turistas portugueses, intelectualóides convencidos que vêm dar de comer ao suleco esfomeado que não vive mas sobrevive o resto do ano, à espera do lisboeta de Mercedes por pagar que aluga um quarto duplo para sete e que pede uma dourada para dividir com a mulher e a sogra. Os filhos que partilhem uma omeleta entre eles.
São estes excursionistas que nos abarrotam as praias, famintos, sequiosos por um metro quadrado de areia fina. Nenhum deles aprecia o Algarve... Cuidado com esses bandos maledicentes mas viciados em Algarve, esse produto que só podem consumir em Agosto e que nós algarvios temos acesso durante todo o ano. A inveja fá-los criticar o que não têm e quem tem. É o habitué do pessoal que gosta de glosar o que consome. É bem entre a classe.
Pois por cá o sol brilha todo o ano e as praias também lá (aqui) estão em Setembro, em Março, em Maio, enfim, acho que durante todo o ano. E vazias desta gente! E quão bom é sair do trabalho e em cinco minutos estar ali, a banhar-me nas águas atlânticas que o Mediterrâneo aqueceu.
E os restaurantes que tanto tempo demoram a atender esses portuguesinhos de língua afiada continuam a servir o mesmo peixe fresco quando o mês de Agosto acaba. Podem demorar um pouco no atendimento mas por cá o tempo não corre à mesma velocidade. Por cá há sempre tempo. E paciência. Heranças de outrora, de um tempo em que estes turistazecos ainda não tinham descoberto as maravilhas desta linda região.
Se esta se corrompeu tanto ultimamente como gostam de apregoar, pensem porquê.

Miguel Godinho

segunda-feira, agosto 14, 2006

Mulher do sul

Cores claras numa névoa indiciada
Mancha de luz num leito de penumbra

Revelas-te como que quimera.

Questiono as tuas ausências
Mesmo sem saber quem és
Rebelde, fugaz nos sinais,
Devaneio de experiências inconstantes
Inebrio de loucura salutar
Fumo embriagante de haxixe berbere

Sonho mediterrânico de mulher quente
Qual cobra que se enrosca na alma.

Veneno que não dói mas inflama

Sofro quando te vejo
Morro se não te sinto.

Miguel Godinho

quarta-feira, julho 19, 2006

O meu tédio não dorme
Cansado existe em mim
Como uma dor informe
Que não tem causa ou fim.

Não sei o que desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói-me realmente.

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Eu não sou eu nem o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

In Alberto Xavier, “Al-Gharb 1146”

quarta-feira, julho 12, 2006

A bomba que vive em ti
Sabe que as coisas não são como aparentam ser
Sobrevive como se fosses Deus
como se soubesses que tudo isto é um sonho
Que tudo é uma coisa só

Miguel

terça-feira, junho 27, 2006



Do mundo, da vida, do que aqui fazemos
Tentam-se descrições, caracterizações, definições, aproximações, explicações
Granjeiam-se conclusões.
Revelam-se verdades prontas e asseadas, produções de bolso,
certezas impingidas,
premissas associadas à força.
Sustentam-se embustes pois são o alento dos eruditos.

Miguel Godinho

segunda-feira, junho 19, 2006



A criação dos céus

Começou por desenhar este espaço na Sua cabeça
Ilustrou-o com as cores da tua presença
Derramou demasiado azul, ofuscado que estava com a luz dos teus olhos.

Miguel Godinho

sexta-feira, junho 16, 2006



Warhol meets Pessoa


Dizem que nos tornamos psicóticos quando tentamos ver por detrás do que se vê.
Dizem que não se deve penetrar no mistério do imperceptível.
Agrada-me bastante contrariar o que por aí dizem.

quarta-feira, maio 17, 2006

Lendas de Mouras Encantadas – a recuperação de um património imaterial

Na semana inaugural da exposição “Mouras Encantadas e Tesouros” (inserida no projecto “Mouras Encantadas e os encantamentos no Algarve”) patente no recém-criado Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela, torna-se necessário reafirmar a importância que projectos deste tipo assumem para a recuperação e revitalização deste património imaterial tão valioso, especialmente nesta região.
Numa tentativa de registar e reanimar a memória que esta zona possui sobre esta realidade, procura-se de uma forma alternativa à tradicional, uma vez que esta já não se processa antes - de frente para a lareira, durante os longos serões sem televisão ou Internet, fazê-la transitar para as gerações mais jovens, quer através da própria exposição, quer através das restantes actividades de todo o projecto (apresentação de lendas recorrendo a performances lúdicas, exibições de diaporamas interactivos sobre a presença islâmica, nas escolas da freguesia, recolha de lendas junto dos mais velhos, apresentação de jogos didácticos).
Através de uma linguagem adequada às gerações mais novas, o projecto aventura-se na tentativa de desenvolver nas crianças um primeiro contacto com as lendas e com o imaginário relacionado com o “universo mouro”, numa tentativa de transportar o passado para a atmosfera do presente, cruzando-o com a disponibilidade dos mais jovens na recepção do imaginado e do fantástico.
Entroncadas num contexto que logicamente alude para um passado islâmico, estas heranças são reflexo de uma memória comum que se conserva há tantos séculos no misterioso mundo do imaginário popular, tendo continuadamente, ao longo dos séculos, vindo a transformar-se e a reinventar-se, satisfazendo a necessidade de transitar por gerações e gerações, até aos nossos dias. Está no entanto, nos últimos tempos, de alguma forma ameaçada a sua continuidade, em resultado das alterações operadas no modo de estar familiar e comunitário. Praticamente já não existem serões em família, os mais velhos (que detinham a sabedoria oral) já não assumem a importância que avocavam no seio familiar. É também por isso que projectos deste tipo são tão importantes: para além de darem continuidade à circulação geracional de um património, promovem ainda o contacto dos mais jovens com as gerações mais velhas. Assim, tentam “a partir de restos (...) colocar o presente, em suposta continuidade com o passado” e, assim, contrariar “(...) a característica das sociedades modernas, homogéneas” que “é precisamente esse corte com o passado, com o heterogéneo, com o invisível”, como diria Marc Guillaume.
Numa sociedade como a actual (que tem alguns problemas em lidar com o tempo) torna-se importante “adequar” o passado aos modos actuais de apreensão, sem que nesse intento se procure simplesmente “facilitar” a compreensão dos fenómenos. Aquilo que por assim dizer está “facilitado” é apenas o acesso ao seu universo. Como se afirmou, já não existem os serões em família, os mais jovens já não procuram aprender com os mais velhos, quer porque os mesmos já não estão presentes como estavam antes, quer porque já não são vistos como uma fonte de sabedoria. E se já não existem esses contextos em que se processava a assimilação deste património oral, torna-se muito difícil que continuem a transitar no tempo da mesma forma (que transitavam). A vida das pessoas e dos mais jovens tornou-se solitária. Os processos de aprendizagem e de assimilação são mais complexos e, portanto, há que adequá-los a estas novas exigências sem que se os transforme numa “obrigação” de assimilação de um passado simplesmente pelo seu “peso”...
Como tal, resta apenas agradecer às entidades que tornaram possível este projecto não sem antes fazer um balanço (ainda que muito provisório) da primeira semana de contacto com as escolas da freguesia de Vila Nova de Cacela, dizendo que todas as crianças adoraram a visita ao Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela (local onde decorre uma das três actividades do projecto). Se nenhuma delas conhecia ou sequer sabia o que eram “Mouras Encantadas” quando entrou no Centro, à saída todas elas foram capazes de criar uma peça teatral sobre a temática, com enredo criado pelas próprias.
Foi por assim dizer, para todos, e certamente continuará a ser, com o desenvolvimento das restantes actividades, muito positiva a experiência.

Miguel Godinho

quarta-feira, maio 03, 2006

Quem sou

Cingindo os alicerces da noite
ao emprego desta escrita,
protelando o meu desvio.
Demente por não pisar este chão
não sentindo como tu sentes.

Emaranhado na minha ausência
Afastado, apartado.
Longe da multidão dispersa
Aqui, neste canto, quieto,
consigo ser quem sou.

Miguel Godinho

sexta-feira, abril 28, 2006

Quando nos apercebemos que o futuro próximo é incerto, buscamos sempre o conforto da constância (aparente) do passado...