quarta-feira, julho 19, 2006

O meu tédio não dorme
Cansado existe em mim
Como uma dor informe
Que não tem causa ou fim.

Não sei o que desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói-me realmente.

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Eu não sou eu nem o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

In Alberto Xavier, “Al-Gharb 1146”

quarta-feira, julho 12, 2006

A bomba que vive em ti
Sabe que as coisas não são como aparentam ser
Sobrevive como se fosses Deus
como se soubesses que tudo isto é um sonho
Que tudo é uma coisa só

Miguel

terça-feira, junho 27, 2006



Do mundo, da vida, do que aqui fazemos
Tentam-se descrições, caracterizações, definições, aproximações, explicações
Granjeiam-se conclusões.
Revelam-se verdades prontas e asseadas, produções de bolso,
certezas impingidas,
premissas associadas à força.
Sustentam-se embustes pois são o alento dos eruditos.

Miguel Godinho

segunda-feira, junho 19, 2006



A criação dos céus

Começou por desenhar este espaço na Sua cabeça
Ilustrou-o com as cores da tua presença
Derramou demasiado azul, ofuscado que estava com a luz dos teus olhos.

Miguel Godinho

sexta-feira, junho 16, 2006



Warhol meets Pessoa


Dizem que nos tornamos psicóticos quando tentamos ver por detrás do que se vê.
Dizem que não se deve penetrar no mistério do imperceptível.
Agrada-me bastante contrariar o que por aí dizem.

quarta-feira, maio 17, 2006

Lendas de Mouras Encantadas – a recuperação de um património imaterial

Na semana inaugural da exposição “Mouras Encantadas e Tesouros” (inserida no projecto “Mouras Encantadas e os encantamentos no Algarve”) patente no recém-criado Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela, torna-se necessário reafirmar a importância que projectos deste tipo assumem para a recuperação e revitalização deste património imaterial tão valioso, especialmente nesta região.
Numa tentativa de registar e reanimar a memória que esta zona possui sobre esta realidade, procura-se de uma forma alternativa à tradicional, uma vez que esta já não se processa antes - de frente para a lareira, durante os longos serões sem televisão ou Internet, fazê-la transitar para as gerações mais jovens, quer através da própria exposição, quer através das restantes actividades de todo o projecto (apresentação de lendas recorrendo a performances lúdicas, exibições de diaporamas interactivos sobre a presença islâmica, nas escolas da freguesia, recolha de lendas junto dos mais velhos, apresentação de jogos didácticos).
Através de uma linguagem adequada às gerações mais novas, o projecto aventura-se na tentativa de desenvolver nas crianças um primeiro contacto com as lendas e com o imaginário relacionado com o “universo mouro”, numa tentativa de transportar o passado para a atmosfera do presente, cruzando-o com a disponibilidade dos mais jovens na recepção do imaginado e do fantástico.
Entroncadas num contexto que logicamente alude para um passado islâmico, estas heranças são reflexo de uma memória comum que se conserva há tantos séculos no misterioso mundo do imaginário popular, tendo continuadamente, ao longo dos séculos, vindo a transformar-se e a reinventar-se, satisfazendo a necessidade de transitar por gerações e gerações, até aos nossos dias. Está no entanto, nos últimos tempos, de alguma forma ameaçada a sua continuidade, em resultado das alterações operadas no modo de estar familiar e comunitário. Praticamente já não existem serões em família, os mais velhos (que detinham a sabedoria oral) já não assumem a importância que avocavam no seio familiar. É também por isso que projectos deste tipo são tão importantes: para além de darem continuidade à circulação geracional de um património, promovem ainda o contacto dos mais jovens com as gerações mais velhas. Assim, tentam “a partir de restos (...) colocar o presente, em suposta continuidade com o passado” e, assim, contrariar “(...) a característica das sociedades modernas, homogéneas” que “é precisamente esse corte com o passado, com o heterogéneo, com o invisível”, como diria Marc Guillaume.
Numa sociedade como a actual (que tem alguns problemas em lidar com o tempo) torna-se importante “adequar” o passado aos modos actuais de apreensão, sem que nesse intento se procure simplesmente “facilitar” a compreensão dos fenómenos. Aquilo que por assim dizer está “facilitado” é apenas o acesso ao seu universo. Como se afirmou, já não existem os serões em família, os mais jovens já não procuram aprender com os mais velhos, quer porque os mesmos já não estão presentes como estavam antes, quer porque já não são vistos como uma fonte de sabedoria. E se já não existem esses contextos em que se processava a assimilação deste património oral, torna-se muito difícil que continuem a transitar no tempo da mesma forma (que transitavam). A vida das pessoas e dos mais jovens tornou-se solitária. Os processos de aprendizagem e de assimilação são mais complexos e, portanto, há que adequá-los a estas novas exigências sem que se os transforme numa “obrigação” de assimilação de um passado simplesmente pelo seu “peso”...
Como tal, resta apenas agradecer às entidades que tornaram possível este projecto não sem antes fazer um balanço (ainda que muito provisório) da primeira semana de contacto com as escolas da freguesia de Vila Nova de Cacela, dizendo que todas as crianças adoraram a visita ao Centro de Investigação e Informação do Património de Cacela (local onde decorre uma das três actividades do projecto). Se nenhuma delas conhecia ou sequer sabia o que eram “Mouras Encantadas” quando entrou no Centro, à saída todas elas foram capazes de criar uma peça teatral sobre a temática, com enredo criado pelas próprias.
Foi por assim dizer, para todos, e certamente continuará a ser, com o desenvolvimento das restantes actividades, muito positiva a experiência.

Miguel Godinho

quarta-feira, maio 03, 2006

Quem sou

Cingindo os alicerces da noite
ao emprego desta escrita,
protelando o meu desvio.
Demente por não pisar este chão
não sentindo como tu sentes.

Emaranhado na minha ausência
Afastado, apartado.
Longe da multidão dispersa
Aqui, neste canto, quieto,
consigo ser quem sou.

Miguel Godinho

sexta-feira, abril 28, 2006

Quando nos apercebemos que o futuro próximo é incerto, buscamos sempre o conforto da constância (aparente) do passado...

quarta-feira, abril 19, 2006

Transfigurar esta beleza natural
Fragmentar uma realidade aparente
Questionar o nome de uma cor
Reivindicar a existência de um novo verbo.

Miguel Godinho

quarta-feira, abril 05, 2006

Abro os olhos,
Cor.
Sol. Sensação de espuma.
Renascer. Olhar o infinito.
Permanecer quieto e comungar
Partilhar este estado de graça
Gritar calado esta sublime beleza
Sonhar acordado, esquecer esta tristeza.
Tarde de sol, fonte de luz,
Névoa de paz, força, leque verbal.
Percepção de ascese
Circunstancial, porém.
Questiono
Esconde-se esse sol
Perde-se essa graça
Repõe-se esse negro.
Impõe-se a solidão.
Névoa de dor, fraqueza, inverbalidade
Incapacidade espiritual.
Sentimento monocromático.
Envelheço forçosamente.
Faleço.

Miguel Godinho

quarta-feira, março 29, 2006

És uma cor
Lançada numa tela branca
Pelo meu pincel de pau.
Não preenches nenhuma forma,
nenhum quadrado ou circulo mal desenhado
Deleguei-te uma tarefa
Animar esta tela
Quis que não mais pertencesses
À caixa onde vivias
Para passares a existir num sítio onde fazes mais sentido
A minha pintura.

Miguel Godinho

quarta-feira, março 22, 2006

Sou escultor e obra da introversão

Sossego desassossego
Agora não sou eu. Agora sou
Agora quero ser eu. Agora não consigo
- Certezas goradas.

Solta-se um imenso pesar.
Desamarra-se uma raiva profunda
Apercebo-me de novo
do que não consigo mostrar.

É o outro eu a tentar e eu a não deixar – repito.

Agora eu:
Manifesto um sincero desgosto
Por não conseguir exprimir a minha existência mental.
Quero muito mostrar que sou
Aquilo que não consigo ser.
Eu ainda não sei se
quererei ser
O que não consigo ser.

Acho que sou escultor e
obra da introversão.

Miguel Godinho

sexta-feira, março 17, 2006

Semáforo [i]moral

Reaviva-se na mente
uma vontade de explodir
Solta-se um pensamento que caduca a sanidade.
Entrega-se a alma
ao som de um terror
Anestesia-se este corpo, preparando-o para esquecer

Despreza-se por ora esta higiene mental.

Descura-se a rigidez a que nos impusemos
De novo, a necessidade de alienação. Escape. Frescura mental.
Quão bom é poder sentir
este quebrar de rotina
Quão mau é experimentar essa culpa.

Uma necessidade de despudor
Como que se a dor valesse a pena.
Como que se o inferno fosse irmão da claridade.
Luz de sangue, defeito clemente.
Rasgo de negritude alva numa alma programada
Por um semáforo [i]moral.

Nota: A moralidade só se distingue da imoralidade por causa de uma letra.

Miguel Godinho

quinta-feira, março 16, 2006

Morreu o meu outro eu. Este pensamento que me confortava, esta cor que me distinguia, enfraqueceu até morrer. Tornou-se velho muito rapidamente. Queria ver tudo, perceber a essência do mundo e entender a distância que me afastava de ti. Foi-se embora, não avisou. Partiu sem demora não sem antes questionar qual de nós era real.

Quando o eu pergunta ao outro eu qual de nós é real é porque nenhum dos dois sabe se existe. Afinal qual de nós terá morrido?


Miguel Godinho

quarta-feira, março 15, 2006

Existir, ao teu lado

Gostava de ser o mar
Dançar ondulante e exprimir-me em espuma
Confortar o teu barco.

Gostava de ser o mar.

Queria ser a lua
Conter em mim a luz que
Aclara o teu terraço
Numa noite de Agosto.
Gostava de ser aquela flor
Renascer com a primavera
E ser de novo colhida por ti.
No fundo queria apenas ser
Para existir, ao teu lado.

Miguel Godinho

sexta-feira, março 03, 2006

Esquecer-te

Protejo esta indecisão permanente
Este amor irresoluto.
Empato um afecto dúbio,
Hesitante, apesar de decidido.

É como uma afeição que se divide entre o mar e a terra
Entre o sol e a lua.
Quadros de luz e penumbra
Fazem regressar esta memória
Esta incerteza que me estanca o juízo.

Esquecer-te, ainda que por agora.

Miguel Godinho

quarta-feira, março 01, 2006


A novidade contemporânea e os recortes artísticos

Os criadores eficazes, sejam eles músicos, artistas plásticos, escritores, não são catalogáveis. O seu eclectismo, a sua capacidade para agregar e captar de forma inigualável outras formas de entendimento da vida e dos aspectos desta, atribuindo-lhes novas formas através das suas criações, conferem-lhes o mistério e a aura que tanto nos apraz (enquanto fruidores das suas obras), concedendo-lhes ao mesmo tempo uma dimensão que impossibilita a sua inserção em categorias rígidas de classificação.
Aquilo que de fabuloso a arte constantemente nos apresenta é o facto de afirmar que não existem sistemas suficientemente válidos na vida que não valham a pena serem desmontados, reinterpretados e fundidos em novos esclarecimentos.
É sobre esta base específica que a contemporâneidade actua. Apesar de, desde sempre a arte se apresentar como uma reinterpretação de algo (uma vez que tem de partir de um ponto, tem de ter uma referência), hoje em dia, essa premissa foi levada ao extremo, talvez reflectindo a complexidade da vida dos nossos dias, resultante da quantidade de informação que a toda a hora se torna crescente.
Veja-se o caso da música ocidental contemporânea. No que concerne a esta e nos dias que correm, já não existe praticamente nenhuma composição que não disponha de uma brisa electrónica. Nascem músicas nas quais apenas se reorganizam elementos já produzidos e utilizados vezes sem conta. Usam-se e abusam-se dos samples – elementos pré-concebidos, muitas vezes extraídos de pequenos fragmentos sonoros de outras composições anteriormente executadas ou de dados captados que provêm de sons da natureza, do quotidiano, do dia-a-dia, repetindo-os continuamente através de loops. Nesta linha, o termo remix sugere uma remistura de elementos que provêm do já executado.
Com o resultado dessas práticas aclama-se nascer o novo uma vez que este se introduz como tal e porque, de facto, é novidade. Os mais puritanos estremecem quando se lhes impõe esta ideia porque afirmam que o novo não pode partir de máquinas que apenas recolhem elementos já executados. Nesse caso, qualquer composição contemporânea (dentro das mais variadas artes) seria uma farsa. E no fundo, não o será? Utilizam-se, adaptam-se, mexem-se, apropriam-se e transformam-se os componentes de uma (ou várias) composições para se atribuir uma nova leitura, uma nova interpretação do(s) elemento(s) primordiais.
E que elementos primordiais podem ser estes? Dir-se-ía acertadamente que tudo e nada. Porque para algo ser considerado primordial (primordial vem de primeiro, primo – único; sem igual), e embora a partir do momento em que nasce se torne único, esse algo necessita de um ponto de partida, de um nascimento. E é esse momento que define a novidade.
Ao mesmo tempo e como a própria raiz etimológica da palavra indica, a partir do momento que se mexe nalguma coisa, essa mesma coisa passa a ser uma outra coisa - Tudo se gera a partir de algo e, como tal, tudo se desenvolve a partir de vários pontos de partida que por sua vez têm outros pontos de partida. Sem que isso implique uma noção de evolução, de progresso artístico. Apenas se vão explorando elementos a partir de novos rumos, novos campos, novas linguagens.
A arte e a vida tinham de nos conduzir a este ponto quando se propôs o industrial e o massificado, se é que não foi sempre isso. Sempre nos apoderámos do que é dos outros e do já feito, para o transformar, afirmando-o como se fosse nosso. E de facto, não passa a ser?
Quando Duchamp expôs um urinol virado ao contrário, afirmando ser uma “fonte”, estava a fazer isso mesmo. Descontextualizou um elemento que passou a ser outra coisa, quando mudado de sítio. Atribuiu-lhe um nome que nada tem que ver com o fim para que foi executado e, assinando-o, afirmou ser uma composição sua. E não era?
A arte e a vida são feitas de recortes e de apropriações, pequenas dentadas do que vemos e do que aprendemos, engolidas e digeridas por cada um. Nada é novo porque já existe de alguma forma mas tudo passa a ser novo, quando se medita e se mexe no assimilado.

Miguel Godinho

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Sou pai desta dor

Sou pai desta dor
Prossigo na minha recusa de azul, embalando o meu retiro negro
Proclamo a sede desta melancolia
como que se parisse todos os dias uma dor que me apraz
porque me faz sentir
sensações de sangue.

Cortejei tanto tempo uma afeição que imaginei,
fantasiei uma necessidade constante de me provocar,
de agredir aquilo que me conforta.
Eu não posso gostar desse eu
porque esse eu não me deixa ser
eu.

Miguel Godinho

terça-feira, fevereiro 21, 2006


Locais sem lei

Existem sítios no Algarve (e com certeza em muitos mais locais do país) onde as leis que regulamentam os licenciamentos de construção se encontram apenas sujeitas à aprovação dos municípios que oferecerem melhores condições para o cumprimento dos objectivos de quem quer construir. E é só escolher entre dois, com sorte três ou quatro, conforme o número de concelhos que constituem a fronteira onde esses terrenos se encontrem situados. São aquilo que se poderia chamar de terrenos sem lei, parcelas de terreno que estão localizadas em zonas nebulosas, algo obscuras, zonas situadas num limbo capaz de destruir o conceito de “clandestinidade”, pela sua inequívoca capacidade de equivocar. Terrenos ambíguos pelas suas margens de manobra, mas inocentes pela indefinição geográfica.
A deficiente organização do nosso território traz por vezes ao de cima situações bastante interessantes no que toca às suas não-tutelas administrativas. Desta vez, o palco da acção localiza-se à saída de Faro, ou à entrada de Loulé (entenda-se como convier), junto ao restaurante Austrália. Ao que parece, aquilo que se pretende é que aquele sítio venha a albergar o novo stand da Fialgar, licenciando-o enquanto inserido numa acção justificada pela necessidade de remodelação e ampliação das instalações industriais da empresa Madeisul, Lda. O município de Loulé deu luz vermelha aos trabalhos após verificar que as obras já estavam em andamento (sem licença desta autarquia). No entanto, o município de Faro já tinha dado luz verde por entender que o terreno estava abrangido pelo seu PDM. Qual das vereações tem poder para decidir sobre esta questão quando se descobre que os PDM’s destas duas autarquias se sobrepõem?
A juntar ao problema de indefinição da tutela, deve dizer-se que aquele terreno se encontra inserido numa zona classificada como Reserva Agrícola Nacional. Já não toco neste assunto porque quem conhece aquela zona, observa perfeitamente que não existem batatas naqueles terrenos mas sim quantidades imensas de automóveis a necessitar de serem podados. Ainda assim, no PDM de Faro, lê-se que aquela área “consta como zona interdita a actividades não ligadas à agricultura, mas admite actividades ligadas ao licenciamento industrial”. Manobra muito difícil de contornar, pelo menos no meu entendimento.
No entanto, aquela que me parece a questão central, consiste na tentativa de deslindar que município tem a obrigação de definir o licenciamento e em que moldes tal se pode efectuar. É certo que o PROTAL virá ajudar a clarificar a questão, mas até lá, como solucionar o problema?
Deverá ainda dizer-se que no local onde actualmente se localiza a Fialgar (junto ao Teatro Municipal de Faro) virá a nascer um Hotel. Portanto, temos aqui três elementos extremamente importantes na consumação de todo este processo: 1) a vontade de nascimento de um Hotel; 2) a necessidade de transferência de local de uma empresa para a implantação do Hotel e 3) a autorização no licenciamento de construção por parte de uma autarquia que não tem competências claramente definidas na matéria.
Convém por fim afirmar que não sou contra a construção, mas sim contra as intransparências e contra os limbos que por aí existem, para além de querer apenas alertar a população e as autarquias para o problema na falta de organização e gestão do território.

Miguel Godinho