quarta-feira, março 29, 2006

És uma cor
Lançada numa tela branca
Pelo meu pincel de pau.
Não preenches nenhuma forma,
nenhum quadrado ou circulo mal desenhado
Deleguei-te uma tarefa
Animar esta tela
Quis que não mais pertencesses
À caixa onde vivias
Para passares a existir num sítio onde fazes mais sentido
A minha pintura.

Miguel Godinho

quarta-feira, março 22, 2006

Sou escultor e obra da introversão

Sossego desassossego
Agora não sou eu. Agora sou
Agora quero ser eu. Agora não consigo
- Certezas goradas.

Solta-se um imenso pesar.
Desamarra-se uma raiva profunda
Apercebo-me de novo
do que não consigo mostrar.

É o outro eu a tentar e eu a não deixar – repito.

Agora eu:
Manifesto um sincero desgosto
Por não conseguir exprimir a minha existência mental.
Quero muito mostrar que sou
Aquilo que não consigo ser.
Eu ainda não sei se
quererei ser
O que não consigo ser.

Acho que sou escultor e
obra da introversão.

Miguel Godinho

sexta-feira, março 17, 2006

Semáforo [i]moral

Reaviva-se na mente
uma vontade de explodir
Solta-se um pensamento que caduca a sanidade.
Entrega-se a alma
ao som de um terror
Anestesia-se este corpo, preparando-o para esquecer

Despreza-se por ora esta higiene mental.

Descura-se a rigidez a que nos impusemos
De novo, a necessidade de alienação. Escape. Frescura mental.
Quão bom é poder sentir
este quebrar de rotina
Quão mau é experimentar essa culpa.

Uma necessidade de despudor
Como que se a dor valesse a pena.
Como que se o inferno fosse irmão da claridade.
Luz de sangue, defeito clemente.
Rasgo de negritude alva numa alma programada
Por um semáforo [i]moral.

Nota: A moralidade só se distingue da imoralidade por causa de uma letra.

Miguel Godinho

quinta-feira, março 16, 2006

Morreu o meu outro eu. Este pensamento que me confortava, esta cor que me distinguia, enfraqueceu até morrer. Tornou-se velho muito rapidamente. Queria ver tudo, perceber a essência do mundo e entender a distância que me afastava de ti. Foi-se embora, não avisou. Partiu sem demora não sem antes questionar qual de nós era real.

Quando o eu pergunta ao outro eu qual de nós é real é porque nenhum dos dois sabe se existe. Afinal qual de nós terá morrido?


Miguel Godinho

quarta-feira, março 15, 2006

Existir, ao teu lado

Gostava de ser o mar
Dançar ondulante e exprimir-me em espuma
Confortar o teu barco.

Gostava de ser o mar.

Queria ser a lua
Conter em mim a luz que
Aclara o teu terraço
Numa noite de Agosto.
Gostava de ser aquela flor
Renascer com a primavera
E ser de novo colhida por ti.
No fundo queria apenas ser
Para existir, ao teu lado.

Miguel Godinho

sexta-feira, março 03, 2006

Esquecer-te

Protejo esta indecisão permanente
Este amor irresoluto.
Empato um afecto dúbio,
Hesitante, apesar de decidido.

É como uma afeição que se divide entre o mar e a terra
Entre o sol e a lua.
Quadros de luz e penumbra
Fazem regressar esta memória
Esta incerteza que me estanca o juízo.

Esquecer-te, ainda que por agora.

Miguel Godinho

quarta-feira, março 01, 2006


A novidade contemporânea e os recortes artísticos

Os criadores eficazes, sejam eles músicos, artistas plásticos, escritores, não são catalogáveis. O seu eclectismo, a sua capacidade para agregar e captar de forma inigualável outras formas de entendimento da vida e dos aspectos desta, atribuindo-lhes novas formas através das suas criações, conferem-lhes o mistério e a aura que tanto nos apraz (enquanto fruidores das suas obras), concedendo-lhes ao mesmo tempo uma dimensão que impossibilita a sua inserção em categorias rígidas de classificação.
Aquilo que de fabuloso a arte constantemente nos apresenta é o facto de afirmar que não existem sistemas suficientemente válidos na vida que não valham a pena serem desmontados, reinterpretados e fundidos em novos esclarecimentos.
É sobre esta base específica que a contemporâneidade actua. Apesar de, desde sempre a arte se apresentar como uma reinterpretação de algo (uma vez que tem de partir de um ponto, tem de ter uma referência), hoje em dia, essa premissa foi levada ao extremo, talvez reflectindo a complexidade da vida dos nossos dias, resultante da quantidade de informação que a toda a hora se torna crescente.
Veja-se o caso da música ocidental contemporânea. No que concerne a esta e nos dias que correm, já não existe praticamente nenhuma composição que não disponha de uma brisa electrónica. Nascem músicas nas quais apenas se reorganizam elementos já produzidos e utilizados vezes sem conta. Usam-se e abusam-se dos samples – elementos pré-concebidos, muitas vezes extraídos de pequenos fragmentos sonoros de outras composições anteriormente executadas ou de dados captados que provêm de sons da natureza, do quotidiano, do dia-a-dia, repetindo-os continuamente através de loops. Nesta linha, o termo remix sugere uma remistura de elementos que provêm do já executado.
Com o resultado dessas práticas aclama-se nascer o novo uma vez que este se introduz como tal e porque, de facto, é novidade. Os mais puritanos estremecem quando se lhes impõe esta ideia porque afirmam que o novo não pode partir de máquinas que apenas recolhem elementos já executados. Nesse caso, qualquer composição contemporânea (dentro das mais variadas artes) seria uma farsa. E no fundo, não o será? Utilizam-se, adaptam-se, mexem-se, apropriam-se e transformam-se os componentes de uma (ou várias) composições para se atribuir uma nova leitura, uma nova interpretação do(s) elemento(s) primordiais.
E que elementos primordiais podem ser estes? Dir-se-ía acertadamente que tudo e nada. Porque para algo ser considerado primordial (primordial vem de primeiro, primo – único; sem igual), e embora a partir do momento em que nasce se torne único, esse algo necessita de um ponto de partida, de um nascimento. E é esse momento que define a novidade.
Ao mesmo tempo e como a própria raiz etimológica da palavra indica, a partir do momento que se mexe nalguma coisa, essa mesma coisa passa a ser uma outra coisa - Tudo se gera a partir de algo e, como tal, tudo se desenvolve a partir de vários pontos de partida que por sua vez têm outros pontos de partida. Sem que isso implique uma noção de evolução, de progresso artístico. Apenas se vão explorando elementos a partir de novos rumos, novos campos, novas linguagens.
A arte e a vida tinham de nos conduzir a este ponto quando se propôs o industrial e o massificado, se é que não foi sempre isso. Sempre nos apoderámos do que é dos outros e do já feito, para o transformar, afirmando-o como se fosse nosso. E de facto, não passa a ser?
Quando Duchamp expôs um urinol virado ao contrário, afirmando ser uma “fonte”, estava a fazer isso mesmo. Descontextualizou um elemento que passou a ser outra coisa, quando mudado de sítio. Atribuiu-lhe um nome que nada tem que ver com o fim para que foi executado e, assinando-o, afirmou ser uma composição sua. E não era?
A arte e a vida são feitas de recortes e de apropriações, pequenas dentadas do que vemos e do que aprendemos, engolidas e digeridas por cada um. Nada é novo porque já existe de alguma forma mas tudo passa a ser novo, quando se medita e se mexe no assimilado.

Miguel Godinho

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Sou pai desta dor

Sou pai desta dor
Prossigo na minha recusa de azul, embalando o meu retiro negro
Proclamo a sede desta melancolia
como que se parisse todos os dias uma dor que me apraz
porque me faz sentir
sensações de sangue.

Cortejei tanto tempo uma afeição que imaginei,
fantasiei uma necessidade constante de me provocar,
de agredir aquilo que me conforta.
Eu não posso gostar desse eu
porque esse eu não me deixa ser
eu.

Miguel Godinho

terça-feira, fevereiro 21, 2006


Locais sem lei

Existem sítios no Algarve (e com certeza em muitos mais locais do país) onde as leis que regulamentam os licenciamentos de construção se encontram apenas sujeitas à aprovação dos municípios que oferecerem melhores condições para o cumprimento dos objectivos de quem quer construir. E é só escolher entre dois, com sorte três ou quatro, conforme o número de concelhos que constituem a fronteira onde esses terrenos se encontrem situados. São aquilo que se poderia chamar de terrenos sem lei, parcelas de terreno que estão localizadas em zonas nebulosas, algo obscuras, zonas situadas num limbo capaz de destruir o conceito de “clandestinidade”, pela sua inequívoca capacidade de equivocar. Terrenos ambíguos pelas suas margens de manobra, mas inocentes pela indefinição geográfica.
A deficiente organização do nosso território traz por vezes ao de cima situações bastante interessantes no que toca às suas não-tutelas administrativas. Desta vez, o palco da acção localiza-se à saída de Faro, ou à entrada de Loulé (entenda-se como convier), junto ao restaurante Austrália. Ao que parece, aquilo que se pretende é que aquele sítio venha a albergar o novo stand da Fialgar, licenciando-o enquanto inserido numa acção justificada pela necessidade de remodelação e ampliação das instalações industriais da empresa Madeisul, Lda. O município de Loulé deu luz vermelha aos trabalhos após verificar que as obras já estavam em andamento (sem licença desta autarquia). No entanto, o município de Faro já tinha dado luz verde por entender que o terreno estava abrangido pelo seu PDM. Qual das vereações tem poder para decidir sobre esta questão quando se descobre que os PDM’s destas duas autarquias se sobrepõem?
A juntar ao problema de indefinição da tutela, deve dizer-se que aquele terreno se encontra inserido numa zona classificada como Reserva Agrícola Nacional. Já não toco neste assunto porque quem conhece aquela zona, observa perfeitamente que não existem batatas naqueles terrenos mas sim quantidades imensas de automóveis a necessitar de serem podados. Ainda assim, no PDM de Faro, lê-se que aquela área “consta como zona interdita a actividades não ligadas à agricultura, mas admite actividades ligadas ao licenciamento industrial”. Manobra muito difícil de contornar, pelo menos no meu entendimento.
No entanto, aquela que me parece a questão central, consiste na tentativa de deslindar que município tem a obrigação de definir o licenciamento e em que moldes tal se pode efectuar. É certo que o PROTAL virá ajudar a clarificar a questão, mas até lá, como solucionar o problema?
Deverá ainda dizer-se que no local onde actualmente se localiza a Fialgar (junto ao Teatro Municipal de Faro) virá a nascer um Hotel. Portanto, temos aqui três elementos extremamente importantes na consumação de todo este processo: 1) a vontade de nascimento de um Hotel; 2) a necessidade de transferência de local de uma empresa para a implantação do Hotel e 3) a autorização no licenciamento de construção por parte de uma autarquia que não tem competências claramente definidas na matéria.
Convém por fim afirmar que não sou contra a construção, mas sim contra as intransparências e contra os limbos que por aí existem, para além de querer apenas alertar a população e as autarquias para o problema na falta de organização e gestão do território.

Miguel Godinho

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A paliação da dor

Concertam-se os estigmas de ontem
Quando se redescobre o prazer do amanhã.

Revela-se a imagem do dia
Compreendendo-se a negritude da noite.

Descobre-se a bonança da alma
Arrumando as intempéries mundanas.

Não se acalma uma alma dorida
Cobrindo-a de anestesias.

Miguel Godinho

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A Triste História da Cultura


A Cultura sempre foi uma criança com graves problemas de saúde. Teve dificuldades no crescimento, chamavam-lhe “minorca”. Talvez por isso, desenvolveu fortes problemas emocionais e psicológicos, perdendo o amor pelos amigos e principalmente pelos pais, já que estes estavam constantemente preocupados com outros assuntos e nunca com ela. Sem que se apercebesse bem disso, também eles deixaram de acreditar nela, ao vê-la afastar-se progressivamente, basicamente porque – dizia – não foram capazes de acompanhar os tempos, sendo não raras vezes, bastante conservadores nas suas opiniões e nas atitudes que tinham para com ela.
A Cultura nunca amadureceu verdadeiramente e continuava a usar com os mesmos brinquedos, mesmo partidos, já sem pintura e descolorados pelo tempo. Brincava sozinha, tinha uma grave fobia social. Escolhia frequentemente os mesmos sítios para se esconder, isolando-se nas suas diversões simplesmente porque tinha medo de partir à descoberta doutras. Tinha medo de ser confrontada, ajudada pelo facto dos pais, inúmeras vezes, lhe vestir roupas que ela achava ridículas.
Apesar de já ter tentado por várias vezes afirmar-se entre os outros, parecia manifestar agora uma tendência algo depressiva. Seria talvez resultado do clima de desconfiança e descrédito na vida. Tudo à sua volta parecia estar a desmoronar-se. Já não conhecia a casa, os seus pais decidiram “arranjar” e restaurar (alegavam eles!) a moradia, com dinheiro que lhes emprestaram a custo, mas a verdade é que acabaram por desvirtuá-la por completo. A vista que a Cultura tinha dantes para o mar tinha agora sido trocada por um prédio em frente porque os seus pais, a fim de “melhorar” a casa, tiveram também de vender o lote de terreno ao lado já que o dinheiro emprestado não chegava. Decidiram entregá-lo a um casal espanhol que anos antes havia manifestado interesse em adquirir parte da propriedade. A Cultura ficou desolada. Não se sentia mais em casa.
Era demasiado jovem quando assistiu ao divórcio dos pais, perdendo as referências que a ajudavam na sua fraca estabilidade. Não era mais capaz de dar resposta às necessidades sociais de integração. Ficou como que desorientada.
Bem perto da maturidade, quando os pais, já velhos e falidos, em resultado dos vários empréstimos desmedidos e de uma vida faustosa que não conseguiram manter, lhe disseram que era já altura de se fazer à vida e se aguentar sozinha, não foi capaz, tendo como única hipótese de sobrevivência, a mendigagem. Resiste ainda hoje com as esmolas dos turistas, os quais, diga-se de passagem, só lhe dão dinheiro por pena.
É triste vê-la neste estado, neste meio onde não pertence. Definitivamente não merece o triste fado que a vida lhe reservou. Pode dizer-se que não teve culpa. Como criança que era, cabia aos que tinham a sua tutela mostrar-lhe o caminho, auxiliando-a nos momentos em que mais necessitava. É mais triste ainda ver que não está a conseguir encarar a situação de uma maneira positiva. É compreensível. É muito difícil conseguir suportar uma situação onde não existe dignidade. Psicologicamente, está muito abatida e fisicamente não está saudável. Longe vãos os tempos em que mal ou bem, lá ia conseguindo levantar a cabeça. Está sem dinheiro e as roupas estão velhas – aquelas mesmas roupas que não gostava de vestir. Se passar por ela, ajude-a. Senão, dê-lhe pelo menos um pouco de atenção para evitar que o destino se torne ainda mais negro...

Miguel Godinho
Publicado no "Jornal do Algarve" em 02.03.2006
Esta mão que se fechou

Mão plena de dor
Abrigo de sensações distantes
Cores escravas de um passado violento
Cheiros que ontem estavam vivos e que o tempo abafou
Esta mão que se fechou.

Mão febril e angustiada
Aturdida e insensível, calejada por essa dor
Essa mancha que não sai
Qual cor que desbotou.

Miguel Godinho



segunda-feira, fevereiro 13, 2006

As praias que se vão

As cores deste progresso
Por cá são mais esquivas.
Marés politizadas por vontades egoístas
Que gritam morte aos desabonados
Condenam à extinção os desterrados.

Suplicam os barcos mortos na Ria
Por um último banho de mar
Recusam o destino imposto
De uma faina que não mais é.
Permitem-se crescer os corrompidos
Fazem-se cair os indefensáveis
Convertem-se as esperanças em derrotas
Adivinha-se o dia que se tornou noite.

As praias que se vão...

Miguel Godinho
Vontade de

Revela-se diante de mim um desejo
Suaves fogachos de cinza e dor...
Inverte-se a mera impressão do não querer
Troca-se pela áspera insatisfação do não ter.

Desejo revelado de forma insana

Vontade de tudo sem balizas

Quero que me não digas não - sinto vontade de o fazer

Penetro na loucura do ter que ter
Faço porque tem de ser.

Miguel Godinho

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Está tudo bem? Vai-se andando...

Outro dia tive uma conversa telefónica com um amigo do Norte (de Lisboa, convenhamos...) e, tal como é hábito (sem nos apercebermos disso) quando ele me perguntou se estava tudo bem, respondi: vai-se andando... Este facto fez-me pensar numa questão no mínimo curiosa, quando cruzada com algumas coisas que ultimamente tenho andado a ler e que, por isso, me têm despertado a atenção para certos assuntos. Enquadremos a situação:
A Rua de Portugal, em Faro, Lagos, Loulé (entre outras cidades) tem este nome já que seria através desta que os algarvios iam a Portugal. Reflectindo sobre este facto, vem-me à memória um Algarve de outros tempos (que só conheci por livro), dotado de um sistema de impostos particular (senão inexistente pelo menos ineficaz, contornado quase sempre pela lei do contrabando), enquadrado num país onde os Reis se apelidaram até aos século XVIII de Reis de Portugal e dos Algarves. O Algarve era então uma região distinta, apartada de Portugal, quase um país diferente anexado a Portugal, se quisermos... O que mudou com o passar dos tempos?
Esse tal amigo que atrás referi dizia-me pelo telefone – na próxima semana vou ao Algarve! – mesmo sabendo que vinha a Faro e que por aqui iria ficar. Afirmava-me, como sempre faz, à semelhança do que dizem aqueles que não são algarvios, que vinha ao Algarve, como se se deslocasse para o estrangeiro, referindo-se ao Algarve como um todo, tal como fazemos quando afirmamos ir a um país estrangeiro. A única região, sem ser o Algarve, em que se passa uma coisa do género é o Alentejo, não sucedendo no entanto, exactamente a mesma coisa. Referimo-nos sempre ao Algarve como um todo, como um país.
É interessante verificar-se que até há bem pouco tempo atrás, era costume os Algarvios dizerem que íam a Portugal quando se deslocavam acima da serra do Caldeirão. No sentido inverso, os serrenhos algarvios, quando desciam o Caldeirão, diziam que vinham ao Algarve. Como se o Algarve se compusesse somente por barrocal e praia e fosse entendido como inserido numa outra realidade.
Será que herdámos alguma coisa desse sentimento de desanexação em relação ao restante território?
O turismo veio reforçar esses dizeres e esse sentimento de divisão para com Portugal, transformando a região numa espécie de destino de férias (e não mais que isso), reforçando a ideia de ser esta uma outra região, um outro país para onde se vai quando se quer sair da rotina laboral.
A região serve agora unicamente para se passar férias. Quem visita vem para férias e quem aqui habita vive em função das férias dos outros. Não se produz, não há indústria (senão a do Turismo), há um vazio entre os períodos de verão. Espera-se simplesmente pela estação quente. Conheço muitos que aguardam calmamente (no conforto do fundo de desemprego) pelos seis meses de calor. Por cá há sempre tempo e não é necessário ter os bolsos muito cheios porque também pesam. Não existem modelos formais de vida, nem nos rendemos à necessidade efectiva de rendimento regular. Não se tem nem se faz, vai-se tendo e vai-se (calmamente) fazendo... É engraçada a maneira como o gerúndio é tantas vezes empregue nesta região. Será só influência do castelhano ou realmente a vida é entendida como um contínuum onde nada de verdadeiramente importante acontece? Entenda-se como se quiser mas se amanhã lhe perguntarem se está tudo bem, e você responder vai-se andando..., pelo menos pense porquê que está a usar essa expressão...

Miguel Godinho

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Eremitério

Vendi a minha sombra
Livrei-me do meu frio.
Curvei-me e recusei a minha aura.
Petrifiquei – não mais sinto
Negro é este nevoeiro que me assola
Fugi do mundo porque sim.

Miguel Godinho
Cacela

Suaves são as cores daquele véspero conforto
Quente é a brisa vinda de sul.
Escrevo. Penetro no infinito azul. Sou...
Reconheço-me naquele sabor oriental
O branco do casario casou com o azul do mar
E agora caminham para o amanhã
Se o amanhã lhes for fiel...

Miguel Godinho

terça-feira, janeiro 24, 2006

Produções tradicionais II – A Tradição não significa cristalização

No último artigo que escrevi (Produções tradicionais – Um Mercado sem potencial? – JA, Nº2546) senti que dei a entender que o meu ponto de vista no que toca à temática das produções tradicionais defende que estas são melhores que as de produção industrial porque não inovam, são imutáveis e valem por isso mesmo. Estaria assim de acordo com uma perspectiva que defende a autenticidade da tradição produtiva devido à cristalização e antiguidade nos procedimentos. Não é de todo isso que defendo. Aquilo que proclamo encaminha-se exclusivamente no sentido de alertar para a carência de revitalização deste tipo de produções enquanto alternativa às produções industriais, a par de todos os outros factores referidos no artigo precedente. Quer um tipo de produção quer outro são necessários. Torna-se obvio que também estas produções de tipo tradicional precisam de inovar, de melhorar na sua tecnologia de produção e/ou qualidade, e, mais importante, na forma de se mostrarem – na sua promoção.
As produções tradicionais resultam de um saber-fazer aliado a um tipo de matéria prima. No entanto, já só esses dois factores não bastam para a sua sobrevivência. Estas têm sofrido bastante porque necessitam de estratégias promocionais adequadas e de investimento ao nível da produção. É aí que entra a necessidade de criação de uma rede que as defenda e apoie e, ao mesmo tempo, que possibilite uma mais fácil circulação pelos postos de venda, na tentativa de facilitar também a chegada ao consumidor.
Já muito pouca gente acha interessante comprar um cesto de verga simplesmente porque este resulta de uma produção de tipo tradicional. As pessoas tornaram-se mais exigentes e esse facto também ajuda na revitalização deste tipo de mercado. Mas também pode deitá-lo a baixo. E é por isso que estas produções necessitam de se renovar, sem que para isso percam o carácter tradicional. Ao nível da produção as técnicas podem bem ser as mesmas que antigamente mas os produtos é que precisam de ser outros, mais apelativos, quer pela inovação na qualidade, quer pela adaptação aos critérios do gosto actual. Falo por exemplo, como já havia referido no artigo anterior, nos produtos de design. Se o tal cesto de verga atrás referido for visualmente apelativo de certeza que muito mais facilmente se vende. As técnicas continuam a ser as mesmas que no antigamente, mas a apresentação do produto é que é diferente.
Pensemos no sal. Para além do sal extraído na região ser de altíssima qualidade (comparativamente com o de produção industrial), se este for correctamente promocionado, com um invólucro apelativo e com uma estratégia de mercado (auxiliada pela multiplicação dos postos de venda de produtos tradicionais, que começam a nascer), obviamente que se venderá muito melhor.
Com tudo isto quero apenas dizer que a tradição não vale pela inalterabilidade mas sim pela adaptação. A tradição já não é o que era...

Miguel Godinho

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Do solo ao sul – A nova poesia algarvia

A música inundou a poesia, como se da fundição das duas se transcendesse a tradicional apresentação de uma obra escrita. Ao som da palavra “musicada” (alguns dos poemas que se apresentam na obra foram recitados ao som de composições musicais, criadas com o fim de suscitar ambientes / cenários poéticos) os presentes na apresentação desta “Antologia de novos poetas algarvios – Do solo ao sul”, oferecida no dia 20 de Janeiro na Biblioteca Municipal de Faro, puderam saborear esta mútua iluminação, provando da colaboração fascinante que este modelo criativo introduz. A palavra coloriu-se de um fundo melódico e a música ganhou, através da palavra, um lirismo diferente.
Ao sul, a poesia ganhou um fôlego renascido, atestando uma força crescente na vida cultural desta região e mostrando acima de tudo o nascimento da “nova” poesia algarvia e não da poesia “dos novos”. Esta assume-se na sua plenitude, vigorante, motivada e motivadora. É uma oferta do Algarve ao Algarve e resume-se numa palavra: luz.
Importa agradecer à Associação Recreativa e Cultural do Algarve [ARCA], a par de todas as outras entidades (nomeadamente a Faro – Capital Nacional da Cultura) que contribuíram para a realização deste projecto, devendo também salientar-se a importância desta nova actividade que é a acção editorial que a associação referida agora comporta. Facto que deve ser realçado tendo em conta o potencial criativo literário que existe na cidade e na região em si. Por isso mesmo, espera-se então que esta obra nascida na passada sexta-feira, se torne apenas na primeira de muitas e espera-se também que possa servir de estímulo criativo para todos os poetas e escritores que ainda não tornaram públicos os seus escritos.
Um grande bem haja aos autores e amigos – João Bentes, Pedro Afonso, Pedro Sousa, Ricardo Paulo e Ruben Gonçalves, pelo seu contributo enriquecedor à cultura, à região, aos espíritos, e à Dra. Maria Aliete Galhoz pelas excelentes apresentação e organização dos textos dos autores. È caso para dizer que uma nova geração de criadores algarvios está a ganhar forma...

Miguel Godinho

segunda-feira, janeiro 09, 2006

O Algarve

“Ultrapassada a Planície heróica de Manuel Ribeiro, o descampado de trigo ou os povoamentos artificiais de sobreiros; cansados os olhos das linhas rectas e das planura que ao longe se perde no horizonte, começam as pequenas elevações, chega-se a Almodôvar, atinge-se o alto do Caldeirão e eis o Algarve; eis a Província mais bela, mais alegre e mais característica de Portugal, onde o clima é mais ameno e onde o ar é mais leve e a vida mais despreocupada. A terra, exposta ao Sul, amorosamente banhada pela brisa do mar e afagada pelo calor do sol, cheira mais a terra; a flora, xerolífitica, compostas por plantas espinhosas, de folhas pequeninas, coreáceas, levada pela acção do homem ao estado de maquis ou de uma garrigue típica e aromática, exala por toda a Província um perfume característico, estonteante por vezes, que vem do alecrim, da murta, do rosmaninho, alfazema, do tomilho, da aroeira e do xaral viscoso e extenso da serra a que se junta o aroma das flores das amendoeiras e laranjeiras. As cores da terra são mais quentes e a beleza +e mais sensula e polícroma; o povo, de tez morena, é mais alegre, mais ardente e mais emotivo; tem menos preconceitos que no Norte e tem um ar acolhedor, franco e sociável aliado ao gosto de palrar, de rir e de cantar.”

Guerreiro, Manuel Gomes (1999) – O Litoral, o barrocal e a serra no ordenamento agro-florestal do Algarve, Faro, Edição da Direcção Regional de Agricultura do Algarve, p.14.