Morreu o meu outro eu. Este pensamento que me confortava, esta cor que me distinguia, enfraqueceu até morrer. Tornou-se velho muito rapidamente. Queria ver tudo, perceber a essência do mundo e entender a distância que me afastava de ti. Foi-se embora, não avisou. Partiu sem demora não sem antes questionar qual de nós era real.
Quando o eu pergunta ao outro eu qual de nós é real é porque nenhum dos dois sabe se existe. Afinal qual de nós terá morrido?
Miguel Godinho
quinta-feira, março 16, 2006
quarta-feira, março 15, 2006
Existir, ao teu lado
Gostava de ser o mar
Dançar ondulante e exprimir-me em espuma
Confortar o teu barco.
Gostava de ser o mar.
Queria ser a lua
Conter em mim a luz que
Aclara o teu terraço
Numa noite de Agosto.
Gostava de ser aquela flor
Renascer com a primavera
E ser de novo colhida por ti.
No fundo queria apenas ser
Para existir, ao teu lado.
Miguel Godinho
Gostava de ser o mar
Dançar ondulante e exprimir-me em espuma
Confortar o teu barco.
Gostava de ser o mar.
Queria ser a lua
Conter em mim a luz que
Aclara o teu terraço
Numa noite de Agosto.
Gostava de ser aquela flor
Renascer com a primavera
E ser de novo colhida por ti.
No fundo queria apenas ser
Para existir, ao teu lado.
Miguel Godinho
sexta-feira, março 03, 2006
Esquecer-te
Protejo esta indecisão permanente
Este amor irresoluto.
Empato um afecto dúbio,
Hesitante, apesar de decidido.
É como uma afeição que se divide entre o mar e a terra
Entre o sol e a lua.
Quadros de luz e penumbra
Fazem regressar esta memória
Esta incerteza que me estanca o juízo.
Esquecer-te, ainda que por agora.
Miguel Godinho
Protejo esta indecisão permanente
Este amor irresoluto.
Empato um afecto dúbio,
Hesitante, apesar de decidido.
É como uma afeição que se divide entre o mar e a terra
Entre o sol e a lua.
Quadros de luz e penumbra
Fazem regressar esta memória
Esta incerteza que me estanca o juízo.
Esquecer-te, ainda que por agora.
Miguel Godinho
quarta-feira, março 01, 2006

A novidade contemporânea e os recortes artísticos
Os criadores eficazes, sejam eles músicos, artistas plásticos, escritores, não são catalogáveis. O seu eclectismo, a sua capacidade para agregar e captar de forma inigualável outras formas de entendimento da vida e dos aspectos desta, atribuindo-lhes novas formas através das suas criações, conferem-lhes o mistério e a aura que tanto nos apraz (enquanto fruidores das suas obras), concedendo-lhes ao mesmo tempo uma dimensão que impossibilita a sua inserção em categorias rígidas de classificação.
Aquilo que de fabuloso a arte constantemente nos apresenta é o facto de afirmar que não existem sistemas suficientemente válidos na vida que não valham a pena serem desmontados, reinterpretados e fundidos em novos esclarecimentos.
É sobre esta base específica que a contemporâneidade actua. Apesar de, desde sempre a arte se apresentar como uma reinterpretação de algo (uma vez que tem de partir de um ponto, tem de ter uma referência), hoje em dia, essa premissa foi levada ao extremo, talvez reflectindo a complexidade da vida dos nossos dias, resultante da quantidade de informação que a toda a hora se torna crescente.
Veja-se o caso da música ocidental contemporânea. No que concerne a esta e nos dias que correm, já não existe praticamente nenhuma composição que não disponha de uma brisa electrónica. Nascem músicas nas quais apenas se reorganizam elementos já produzidos e utilizados vezes sem conta. Usam-se e abusam-se dos samples – elementos pré-concebidos, muitas vezes extraídos de pequenos fragmentos sonoros de outras composições anteriormente executadas ou de dados captados que provêm de sons da natureza, do quotidiano, do dia-a-dia, repetindo-os continuamente através de loops. Nesta linha, o termo remix sugere uma remistura de elementos que provêm do já executado.
Com o resultado dessas práticas aclama-se nascer o novo uma vez que este se introduz como tal e porque, de facto, é novidade. Os mais puritanos estremecem quando se lhes impõe esta ideia porque afirmam que o novo não pode partir de máquinas que apenas recolhem elementos já executados. Nesse caso, qualquer composição contemporânea (dentro das mais variadas artes) seria uma farsa. E no fundo, não o será? Utilizam-se, adaptam-se, mexem-se, apropriam-se e transformam-se os componentes de uma (ou várias) composições para se atribuir uma nova leitura, uma nova interpretação do(s) elemento(s) primordiais.
E que elementos primordiais podem ser estes? Dir-se-ía acertadamente que tudo e nada. Porque para algo ser considerado primordial (primordial vem de primeiro, primo – único; sem igual), e embora a partir do momento em que nasce se torne único, esse algo necessita de um ponto de partida, de um nascimento. E é esse momento que define a novidade.
Ao mesmo tempo e como a própria raiz etimológica da palavra indica, a partir do momento que se mexe nalguma coisa, essa mesma coisa passa a ser uma outra coisa - Tudo se gera a partir de algo e, como tal, tudo se desenvolve a partir de vários pontos de partida que por sua vez têm outros pontos de partida. Sem que isso implique uma noção de evolução, de progresso artístico. Apenas se vão explorando elementos a partir de novos rumos, novos campos, novas linguagens.
A arte e a vida tinham de nos conduzir a este ponto quando se propôs o industrial e o massificado, se é que não foi sempre isso. Sempre nos apoderámos do que é dos outros e do já feito, para o transformar, afirmando-o como se fosse nosso. E de facto, não passa a ser?
Quando Duchamp expôs um urinol virado ao contrário, afirmando ser uma “fonte”, estava a fazer isso mesmo. Descontextualizou um elemento que passou a ser outra coisa, quando mudado de sítio. Atribuiu-lhe um nome que nada tem que ver com o fim para que foi executado e, assinando-o, afirmou ser uma composição sua. E não era?
A arte e a vida são feitas de recortes e de apropriações, pequenas dentadas do que vemos e do que aprendemos, engolidas e digeridas por cada um. Nada é novo porque já existe de alguma forma mas tudo passa a ser novo, quando se medita e se mexe no assimilado.
Miguel Godinho
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Sou pai desta dor
Sou pai desta dor
Prossigo na minha recusa de azul, embalando o meu retiro negro
Proclamo a sede desta melancolia
como que se parisse todos os dias uma dor que me apraz
porque me faz sentir
sensações de sangue.
Cortejei tanto tempo uma afeição que imaginei,
fantasiei uma necessidade constante de me provocar,
de agredir aquilo que me conforta.
Eu não posso gostar desse eu
porque esse eu não me deixa ser
eu.
Miguel Godinho
Sou pai desta dor
Prossigo na minha recusa de azul, embalando o meu retiro negro
Proclamo a sede desta melancolia
como que se parisse todos os dias uma dor que me apraz
porque me faz sentir
sensações de sangue.
Cortejei tanto tempo uma afeição que imaginei,
fantasiei uma necessidade constante de me provocar,
de agredir aquilo que me conforta.
Eu não posso gostar desse eu
porque esse eu não me deixa ser
eu.
Miguel Godinho
terça-feira, fevereiro 21, 2006

Locais sem lei
Existem sítios no Algarve (e com certeza em muitos mais locais do país) onde as leis que regulamentam os licenciamentos de construção se encontram apenas sujeitas à aprovação dos municípios que oferecerem melhores condições para o cumprimento dos objectivos de quem quer construir. E é só escolher entre dois, com sorte três ou quatro, conforme o número de concelhos que constituem a fronteira onde esses terrenos se encontrem situados. São aquilo que se poderia chamar de terrenos sem lei, parcelas de terreno que estão localizadas em zonas nebulosas, algo obscuras, zonas situadas num limbo capaz de destruir o conceito de “clandestinidade”, pela sua inequívoca capacidade de equivocar. Terrenos ambíguos pelas suas margens de manobra, mas inocentes pela indefinição geográfica.
A deficiente organização do nosso território traz por vezes ao de cima situações bastante interessantes no que toca às suas não-tutelas administrativas. Desta vez, o palco da acção localiza-se à saída de Faro, ou à entrada de Loulé (entenda-se como convier), junto ao restaurante Austrália. Ao que parece, aquilo que se pretende é que aquele sítio venha a albergar o novo stand da Fialgar, licenciando-o enquanto inserido numa acção justificada pela necessidade de remodelação e ampliação das instalações industriais da empresa Madeisul, Lda. O município de Loulé deu luz vermelha aos trabalhos após verificar que as obras já estavam em andamento (sem licença desta autarquia). No entanto, o município de Faro já tinha dado luz verde por entender que o terreno estava abrangido pelo seu PDM. Qual das vereações tem poder para decidir sobre esta questão quando se descobre que os PDM’s destas duas autarquias se sobrepõem?
A juntar ao problema de indefinição da tutela, deve dizer-se que aquele terreno se encontra inserido numa zona classificada como Reserva Agrícola Nacional. Já não toco neste assunto porque quem conhece aquela zona, observa perfeitamente que não existem batatas naqueles terrenos mas sim quantidades imensas de automóveis a necessitar de serem podados. Ainda assim, no PDM de Faro, lê-se que aquela área “consta como zona interdita a actividades não ligadas à agricultura, mas admite actividades ligadas ao licenciamento industrial”. Manobra muito difícil de contornar, pelo menos no meu entendimento.
No entanto, aquela que me parece a questão central, consiste na tentativa de deslindar que município tem a obrigação de definir o licenciamento e em que moldes tal se pode efectuar. É certo que o PROTAL virá ajudar a clarificar a questão, mas até lá, como solucionar o problema?
Deverá ainda dizer-se que no local onde actualmente se localiza a Fialgar (junto ao Teatro Municipal de Faro) virá a nascer um Hotel. Portanto, temos aqui três elementos extremamente importantes na consumação de todo este processo: 1) a vontade de nascimento de um Hotel; 2) a necessidade de transferência de local de uma empresa para a implantação do Hotel e 3) a autorização no licenciamento de construção por parte de uma autarquia que não tem competências claramente definidas na matéria.
Convém por fim afirmar que não sou contra a construção, mas sim contra as intransparências e contra os limbos que por aí existem, para além de querer apenas alertar a população e as autarquias para o problema na falta de organização e gestão do território.
Miguel Godinho
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
A Triste História da Cultura
A Cultura sempre foi uma criança com graves problemas de saúde. Teve dificuldades no crescimento, chamavam-lhe “minorca”. Talvez por isso, desenvolveu fortes problemas emocionais e psicológicos, perdendo o amor pelos amigos e principalmente pelos pais, já que estes estavam constantemente preocupados com outros assuntos e nunca com ela. Sem que se apercebesse bem disso, também eles deixaram de acreditar nela, ao vê-la afastar-se progressivamente, basicamente porque – dizia – não foram capazes de acompanhar os tempos, sendo não raras vezes, bastante conservadores nas suas opiniões e nas atitudes que tinham para com ela.
A Cultura nunca amadureceu verdadeiramente e continuava a usar com os mesmos brinquedos, mesmo partidos, já sem pintura e descolorados pelo tempo. Brincava sozinha, tinha uma grave fobia social. Escolhia frequentemente os mesmos sítios para se esconder, isolando-se nas suas diversões simplesmente porque tinha medo de partir à descoberta doutras. Tinha medo de ser confrontada, ajudada pelo facto dos pais, inúmeras vezes, lhe vestir roupas que ela achava ridículas.
Apesar de já ter tentado por várias vezes afirmar-se entre os outros, parecia manifestar agora uma tendência algo depressiva. Seria talvez resultado do clima de desconfiança e descrédito na vida. Tudo à sua volta parecia estar a desmoronar-se. Já não conhecia a casa, os seus pais decidiram “arranjar” e restaurar (alegavam eles!) a moradia, com dinheiro que lhes emprestaram a custo, mas a verdade é que acabaram por desvirtuá-la por completo. A vista que a Cultura tinha dantes para o mar tinha agora sido trocada por um prédio em frente porque os seus pais, a fim de “melhorar” a casa, tiveram também de vender o lote de terreno ao lado já que o dinheiro emprestado não chegava. Decidiram entregá-lo a um casal espanhol que anos antes havia manifestado interesse em adquirir parte da propriedade. A Cultura ficou desolada. Não se sentia mais em casa.
Era demasiado jovem quando assistiu ao divórcio dos pais, perdendo as referências que a ajudavam na sua fraca estabilidade. Não era mais capaz de dar resposta às necessidades sociais de integração. Ficou como que desorientada.
Bem perto da maturidade, quando os pais, já velhos e falidos, em resultado dos vários empréstimos desmedidos e de uma vida faustosa que não conseguiram manter, lhe disseram que era já altura de se fazer à vida e se aguentar sozinha, não foi capaz, tendo como única hipótese de sobrevivência, a mendigagem. Resiste ainda hoje com as esmolas dos turistas, os quais, diga-se de passagem, só lhe dão dinheiro por pena.
É triste vê-la neste estado, neste meio onde não pertence. Definitivamente não merece o triste fado que a vida lhe reservou. Pode dizer-se que não teve culpa. Como criança que era, cabia aos que tinham a sua tutela mostrar-lhe o caminho, auxiliando-a nos momentos em que mais necessitava. É mais triste ainda ver que não está a conseguir encarar a situação de uma maneira positiva. É compreensível. É muito difícil conseguir suportar uma situação onde não existe dignidade. Psicologicamente, está muito abatida e fisicamente não está saudável. Longe vãos os tempos em que mal ou bem, lá ia conseguindo levantar a cabeça. Está sem dinheiro e as roupas estão velhas – aquelas mesmas roupas que não gostava de vestir. Se passar por ela, ajude-a. Senão, dê-lhe pelo menos um pouco de atenção para evitar que o destino se torne ainda mais negro...
Miguel Godinho
Publicado no "Jornal do Algarve" em 02.03.2006
A Cultura sempre foi uma criança com graves problemas de saúde. Teve dificuldades no crescimento, chamavam-lhe “minorca”. Talvez por isso, desenvolveu fortes problemas emocionais e psicológicos, perdendo o amor pelos amigos e principalmente pelos pais, já que estes estavam constantemente preocupados com outros assuntos e nunca com ela. Sem que se apercebesse bem disso, também eles deixaram de acreditar nela, ao vê-la afastar-se progressivamente, basicamente porque – dizia – não foram capazes de acompanhar os tempos, sendo não raras vezes, bastante conservadores nas suas opiniões e nas atitudes que tinham para com ela.
A Cultura nunca amadureceu verdadeiramente e continuava a usar com os mesmos brinquedos, mesmo partidos, já sem pintura e descolorados pelo tempo. Brincava sozinha, tinha uma grave fobia social. Escolhia frequentemente os mesmos sítios para se esconder, isolando-se nas suas diversões simplesmente porque tinha medo de partir à descoberta doutras. Tinha medo de ser confrontada, ajudada pelo facto dos pais, inúmeras vezes, lhe vestir roupas que ela achava ridículas.
Apesar de já ter tentado por várias vezes afirmar-se entre os outros, parecia manifestar agora uma tendência algo depressiva. Seria talvez resultado do clima de desconfiança e descrédito na vida. Tudo à sua volta parecia estar a desmoronar-se. Já não conhecia a casa, os seus pais decidiram “arranjar” e restaurar (alegavam eles!) a moradia, com dinheiro que lhes emprestaram a custo, mas a verdade é que acabaram por desvirtuá-la por completo. A vista que a Cultura tinha dantes para o mar tinha agora sido trocada por um prédio em frente porque os seus pais, a fim de “melhorar” a casa, tiveram também de vender o lote de terreno ao lado já que o dinheiro emprestado não chegava. Decidiram entregá-lo a um casal espanhol que anos antes havia manifestado interesse em adquirir parte da propriedade. A Cultura ficou desolada. Não se sentia mais em casa.
Era demasiado jovem quando assistiu ao divórcio dos pais, perdendo as referências que a ajudavam na sua fraca estabilidade. Não era mais capaz de dar resposta às necessidades sociais de integração. Ficou como que desorientada.
Bem perto da maturidade, quando os pais, já velhos e falidos, em resultado dos vários empréstimos desmedidos e de uma vida faustosa que não conseguiram manter, lhe disseram que era já altura de se fazer à vida e se aguentar sozinha, não foi capaz, tendo como única hipótese de sobrevivência, a mendigagem. Resiste ainda hoje com as esmolas dos turistas, os quais, diga-se de passagem, só lhe dão dinheiro por pena.
É triste vê-la neste estado, neste meio onde não pertence. Definitivamente não merece o triste fado que a vida lhe reservou. Pode dizer-se que não teve culpa. Como criança que era, cabia aos que tinham a sua tutela mostrar-lhe o caminho, auxiliando-a nos momentos em que mais necessitava. É mais triste ainda ver que não está a conseguir encarar a situação de uma maneira positiva. É compreensível. É muito difícil conseguir suportar uma situação onde não existe dignidade. Psicologicamente, está muito abatida e fisicamente não está saudável. Longe vãos os tempos em que mal ou bem, lá ia conseguindo levantar a cabeça. Está sem dinheiro e as roupas estão velhas – aquelas mesmas roupas que não gostava de vestir. Se passar por ela, ajude-a. Senão, dê-lhe pelo menos um pouco de atenção para evitar que o destino se torne ainda mais negro...
Miguel Godinho
Publicado no "Jornal do Algarve" em 02.03.2006
Esta mão que se fechou
Mão plena de dor
Abrigo de sensações distantes
Cores escravas de um passado violento
Cheiros que ontem estavam vivos e que o tempo abafou
Esta mão que se fechou.
Mão febril e angustiada
Aturdida e insensível, calejada por essa dor
Essa mancha que não sai
Qual cor que desbotou.
Miguel Godinho
Mão plena de dor
Abrigo de sensações distantes
Cores escravas de um passado violento
Cheiros que ontem estavam vivos e que o tempo abafou
Esta mão que se fechou.
Mão febril e angustiada
Aturdida e insensível, calejada por essa dor
Essa mancha que não sai
Qual cor que desbotou.
Miguel Godinho
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
As praias que se vão
As cores deste progresso
Por cá são mais esquivas.
Marés politizadas por vontades egoístas
Que gritam morte aos desabonados
Condenam à extinção os desterrados.
Suplicam os barcos mortos na Ria
Por um último banho de mar
Recusam o destino imposto
De uma faina que não mais é.
Permitem-se crescer os corrompidos
Fazem-se cair os indefensáveis
Convertem-se as esperanças em derrotas
Adivinha-se o dia que se tornou noite.
As praias que se vão...
Miguel Godinho
As cores deste progresso
Por cá são mais esquivas.
Marés politizadas por vontades egoístas
Que gritam morte aos desabonados
Condenam à extinção os desterrados.
Suplicam os barcos mortos na Ria
Por um último banho de mar
Recusam o destino imposto
De uma faina que não mais é.
Permitem-se crescer os corrompidos
Fazem-se cair os indefensáveis
Convertem-se as esperanças em derrotas
Adivinha-se o dia que se tornou noite.
As praias que se vão...
Miguel Godinho
Vontade de
Revela-se diante de mim um desejo
Suaves fogachos de cinza e dor...
Inverte-se a mera impressão do não querer
Troca-se pela áspera insatisfação do não ter.
Desejo revelado de forma insana
Vontade de tudo sem balizas
Quero que me não digas não - sinto vontade de o fazer
Penetro na loucura do ter que ter
Faço porque tem de ser.
Miguel Godinho
Revela-se diante de mim um desejo
Suaves fogachos de cinza e dor...
Inverte-se a mera impressão do não querer
Troca-se pela áspera insatisfação do não ter.
Desejo revelado de forma insana
Vontade de tudo sem balizas
Quero que me não digas não - sinto vontade de o fazer
Penetro na loucura do ter que ter
Faço porque tem de ser.
Miguel Godinho
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Está tudo bem? Vai-se andando...
Outro dia tive uma conversa telefónica com um amigo do Norte (de Lisboa, convenhamos...) e, tal como é hábito (sem nos apercebermos disso) quando ele me perguntou se estava tudo bem, respondi: vai-se andando... Este facto fez-me pensar numa questão no mínimo curiosa, quando cruzada com algumas coisas que ultimamente tenho andado a ler e que, por isso, me têm despertado a atenção para certos assuntos. Enquadremos a situação:
A Rua de Portugal, em Faro, Lagos, Loulé (entre outras cidades) tem este nome já que seria através desta que os algarvios iam a Portugal. Reflectindo sobre este facto, vem-me à memória um Algarve de outros tempos (que só conheci por livro), dotado de um sistema de impostos particular (senão inexistente pelo menos ineficaz, contornado quase sempre pela lei do contrabando), enquadrado num país onde os Reis se apelidaram até aos século XVIII de Reis de Portugal e dos Algarves. O Algarve era então uma região distinta, apartada de Portugal, quase um país diferente anexado a Portugal, se quisermos... O que mudou com o passar dos tempos?
Esse tal amigo que atrás referi dizia-me pelo telefone – na próxima semana vou ao Algarve! – mesmo sabendo que vinha a Faro e que por aqui iria ficar. Afirmava-me, como sempre faz, à semelhança do que dizem aqueles que não são algarvios, que vinha ao Algarve, como se se deslocasse para o estrangeiro, referindo-se ao Algarve como um todo, tal como fazemos quando afirmamos ir a um país estrangeiro. A única região, sem ser o Algarve, em que se passa uma coisa do género é o Alentejo, não sucedendo no entanto, exactamente a mesma coisa. Referimo-nos sempre ao Algarve como um todo, como um país.
É interessante verificar-se que até há bem pouco tempo atrás, era costume os Algarvios dizerem que íam a Portugal quando se deslocavam acima da serra do Caldeirão. No sentido inverso, os serrenhos algarvios, quando desciam o Caldeirão, diziam que vinham ao Algarve. Como se o Algarve se compusesse somente por barrocal e praia e fosse entendido como inserido numa outra realidade.
Será que herdámos alguma coisa desse sentimento de desanexação em relação ao restante território?
O turismo veio reforçar esses dizeres e esse sentimento de divisão para com Portugal, transformando a região numa espécie de destino de férias (e não mais que isso), reforçando a ideia de ser esta uma outra região, um outro país para onde se vai quando se quer sair da rotina laboral.
A região serve agora unicamente para se passar férias. Quem visita vem para férias e quem aqui habita vive em função das férias dos outros. Não se produz, não há indústria (senão a do Turismo), há um vazio entre os períodos de verão. Espera-se simplesmente pela estação quente. Conheço muitos que aguardam calmamente (no conforto do fundo de desemprego) pelos seis meses de calor. Por cá há sempre tempo e não é necessário ter os bolsos muito cheios porque também pesam. Não existem modelos formais de vida, nem nos rendemos à necessidade efectiva de rendimento regular. Não se tem nem se faz, vai-se tendo e vai-se (calmamente) fazendo... É engraçada a maneira como o gerúndio é tantas vezes empregue nesta região. Será só influência do castelhano ou realmente a vida é entendida como um contínuum onde nada de verdadeiramente importante acontece? Entenda-se como se quiser mas se amanhã lhe perguntarem se está tudo bem, e você responder vai-se andando..., pelo menos pense porquê que está a usar essa expressão...
Miguel Godinho
Outro dia tive uma conversa telefónica com um amigo do Norte (de Lisboa, convenhamos...) e, tal como é hábito (sem nos apercebermos disso) quando ele me perguntou se estava tudo bem, respondi: vai-se andando... Este facto fez-me pensar numa questão no mínimo curiosa, quando cruzada com algumas coisas que ultimamente tenho andado a ler e que, por isso, me têm despertado a atenção para certos assuntos. Enquadremos a situação:
A Rua de Portugal, em Faro, Lagos, Loulé (entre outras cidades) tem este nome já que seria através desta que os algarvios iam a Portugal. Reflectindo sobre este facto, vem-me à memória um Algarve de outros tempos (que só conheci por livro), dotado de um sistema de impostos particular (senão inexistente pelo menos ineficaz, contornado quase sempre pela lei do contrabando), enquadrado num país onde os Reis se apelidaram até aos século XVIII de Reis de Portugal e dos Algarves. O Algarve era então uma região distinta, apartada de Portugal, quase um país diferente anexado a Portugal, se quisermos... O que mudou com o passar dos tempos?
Esse tal amigo que atrás referi dizia-me pelo telefone – na próxima semana vou ao Algarve! – mesmo sabendo que vinha a Faro e que por aqui iria ficar. Afirmava-me, como sempre faz, à semelhança do que dizem aqueles que não são algarvios, que vinha ao Algarve, como se se deslocasse para o estrangeiro, referindo-se ao Algarve como um todo, tal como fazemos quando afirmamos ir a um país estrangeiro. A única região, sem ser o Algarve, em que se passa uma coisa do género é o Alentejo, não sucedendo no entanto, exactamente a mesma coisa. Referimo-nos sempre ao Algarve como um todo, como um país.
É interessante verificar-se que até há bem pouco tempo atrás, era costume os Algarvios dizerem que íam a Portugal quando se deslocavam acima da serra do Caldeirão. No sentido inverso, os serrenhos algarvios, quando desciam o Caldeirão, diziam que vinham ao Algarve. Como se o Algarve se compusesse somente por barrocal e praia e fosse entendido como inserido numa outra realidade.
Será que herdámos alguma coisa desse sentimento de desanexação em relação ao restante território?
O turismo veio reforçar esses dizeres e esse sentimento de divisão para com Portugal, transformando a região numa espécie de destino de férias (e não mais que isso), reforçando a ideia de ser esta uma outra região, um outro país para onde se vai quando se quer sair da rotina laboral.
A região serve agora unicamente para se passar férias. Quem visita vem para férias e quem aqui habita vive em função das férias dos outros. Não se produz, não há indústria (senão a do Turismo), há um vazio entre os períodos de verão. Espera-se simplesmente pela estação quente. Conheço muitos que aguardam calmamente (no conforto do fundo de desemprego) pelos seis meses de calor. Por cá há sempre tempo e não é necessário ter os bolsos muito cheios porque também pesam. Não existem modelos formais de vida, nem nos rendemos à necessidade efectiva de rendimento regular. Não se tem nem se faz, vai-se tendo e vai-se (calmamente) fazendo... É engraçada a maneira como o gerúndio é tantas vezes empregue nesta região. Será só influência do castelhano ou realmente a vida é entendida como um contínuum onde nada de verdadeiramente importante acontece? Entenda-se como se quiser mas se amanhã lhe perguntarem se está tudo bem, e você responder vai-se andando..., pelo menos pense porquê que está a usar essa expressão...
Miguel Godinho
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
terça-feira, janeiro 24, 2006
Produções tradicionais II – A Tradição não significa cristalização
No último artigo que escrevi (Produções tradicionais – Um Mercado sem potencial? – JA, Nº2546) senti que dei a entender que o meu ponto de vista no que toca à temática das produções tradicionais defende que estas são melhores que as de produção industrial porque não inovam, são imutáveis e valem por isso mesmo. Estaria assim de acordo com uma perspectiva que defende a autenticidade da tradição produtiva devido à cristalização e antiguidade nos procedimentos. Não é de todo isso que defendo. Aquilo que proclamo encaminha-se exclusivamente no sentido de alertar para a carência de revitalização deste tipo de produções enquanto alternativa às produções industriais, a par de todos os outros factores referidos no artigo precedente. Quer um tipo de produção quer outro são necessários. Torna-se obvio que também estas produções de tipo tradicional precisam de inovar, de melhorar na sua tecnologia de produção e/ou qualidade, e, mais importante, na forma de se mostrarem – na sua promoção.
As produções tradicionais resultam de um saber-fazer aliado a um tipo de matéria prima. No entanto, já só esses dois factores não bastam para a sua sobrevivência. Estas têm sofrido bastante porque necessitam de estratégias promocionais adequadas e de investimento ao nível da produção. É aí que entra a necessidade de criação de uma rede que as defenda e apoie e, ao mesmo tempo, que possibilite uma mais fácil circulação pelos postos de venda, na tentativa de facilitar também a chegada ao consumidor.
Já muito pouca gente acha interessante comprar um cesto de verga simplesmente porque este resulta de uma produção de tipo tradicional. As pessoas tornaram-se mais exigentes e esse facto também ajuda na revitalização deste tipo de mercado. Mas também pode deitá-lo a baixo. E é por isso que estas produções necessitam de se renovar, sem que para isso percam o carácter tradicional. Ao nível da produção as técnicas podem bem ser as mesmas que antigamente mas os produtos é que precisam de ser outros, mais apelativos, quer pela inovação na qualidade, quer pela adaptação aos critérios do gosto actual. Falo por exemplo, como já havia referido no artigo anterior, nos produtos de design. Se o tal cesto de verga atrás referido for visualmente apelativo de certeza que muito mais facilmente se vende. As técnicas continuam a ser as mesmas que no antigamente, mas a apresentação do produto é que é diferente.
Pensemos no sal. Para além do sal extraído na região ser de altíssima qualidade (comparativamente com o de produção industrial), se este for correctamente promocionado, com um invólucro apelativo e com uma estratégia de mercado (auxiliada pela multiplicação dos postos de venda de produtos tradicionais, que começam a nascer), obviamente que se venderá muito melhor.
Com tudo isto quero apenas dizer que a tradição não vale pela inalterabilidade mas sim pela adaptação. A tradição já não é o que era...
Miguel Godinho
No último artigo que escrevi (Produções tradicionais – Um Mercado sem potencial? – JA, Nº2546) senti que dei a entender que o meu ponto de vista no que toca à temática das produções tradicionais defende que estas são melhores que as de produção industrial porque não inovam, são imutáveis e valem por isso mesmo. Estaria assim de acordo com uma perspectiva que defende a autenticidade da tradição produtiva devido à cristalização e antiguidade nos procedimentos. Não é de todo isso que defendo. Aquilo que proclamo encaminha-se exclusivamente no sentido de alertar para a carência de revitalização deste tipo de produções enquanto alternativa às produções industriais, a par de todos os outros factores referidos no artigo precedente. Quer um tipo de produção quer outro são necessários. Torna-se obvio que também estas produções de tipo tradicional precisam de inovar, de melhorar na sua tecnologia de produção e/ou qualidade, e, mais importante, na forma de se mostrarem – na sua promoção.
As produções tradicionais resultam de um saber-fazer aliado a um tipo de matéria prima. No entanto, já só esses dois factores não bastam para a sua sobrevivência. Estas têm sofrido bastante porque necessitam de estratégias promocionais adequadas e de investimento ao nível da produção. É aí que entra a necessidade de criação de uma rede que as defenda e apoie e, ao mesmo tempo, que possibilite uma mais fácil circulação pelos postos de venda, na tentativa de facilitar também a chegada ao consumidor.
Já muito pouca gente acha interessante comprar um cesto de verga simplesmente porque este resulta de uma produção de tipo tradicional. As pessoas tornaram-se mais exigentes e esse facto também ajuda na revitalização deste tipo de mercado. Mas também pode deitá-lo a baixo. E é por isso que estas produções necessitam de se renovar, sem que para isso percam o carácter tradicional. Ao nível da produção as técnicas podem bem ser as mesmas que antigamente mas os produtos é que precisam de ser outros, mais apelativos, quer pela inovação na qualidade, quer pela adaptação aos critérios do gosto actual. Falo por exemplo, como já havia referido no artigo anterior, nos produtos de design. Se o tal cesto de verga atrás referido for visualmente apelativo de certeza que muito mais facilmente se vende. As técnicas continuam a ser as mesmas que no antigamente, mas a apresentação do produto é que é diferente.
Pensemos no sal. Para além do sal extraído na região ser de altíssima qualidade (comparativamente com o de produção industrial), se este for correctamente promocionado, com um invólucro apelativo e com uma estratégia de mercado (auxiliada pela multiplicação dos postos de venda de produtos tradicionais, que começam a nascer), obviamente que se venderá muito melhor.
Com tudo isto quero apenas dizer que a tradição não vale pela inalterabilidade mas sim pela adaptação. A tradição já não é o que era...
Miguel Godinho
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Do solo ao sul – A nova poesia algarvia
A música inundou a poesia, como se da fundição das duas se transcendesse a tradicional apresentação de uma obra escrita. Ao som da palavra “musicada” (alguns dos poemas que se apresentam na obra foram recitados ao som de composições musicais, criadas com o fim de suscitar ambientes / cenários poéticos) os presentes na apresentação desta “Antologia de novos poetas algarvios – Do solo ao sul”, oferecida no dia 20 de Janeiro na Biblioteca Municipal de Faro, puderam saborear esta mútua iluminação, provando da colaboração fascinante que este modelo criativo introduz. A palavra coloriu-se de um fundo melódico e a música ganhou, através da palavra, um lirismo diferente.
Ao sul, a poesia ganhou um fôlego renascido, atestando uma força crescente na vida cultural desta região e mostrando acima de tudo o nascimento da “nova” poesia algarvia e não da poesia “dos novos”. Esta assume-se na sua plenitude, vigorante, motivada e motivadora. É uma oferta do Algarve ao Algarve e resume-se numa palavra: luz.
Importa agradecer à Associação Recreativa e Cultural do Algarve [ARCA], a par de todas as outras entidades (nomeadamente a Faro – Capital Nacional da Cultura) que contribuíram para a realização deste projecto, devendo também salientar-se a importância desta nova actividade que é a acção editorial que a associação referida agora comporta. Facto que deve ser realçado tendo em conta o potencial criativo literário que existe na cidade e na região em si. Por isso mesmo, espera-se então que esta obra nascida na passada sexta-feira, se torne apenas na primeira de muitas e espera-se também que possa servir de estímulo criativo para todos os poetas e escritores que ainda não tornaram públicos os seus escritos.
Um grande bem haja aos autores e amigos – João Bentes, Pedro Afonso, Pedro Sousa, Ricardo Paulo e Ruben Gonçalves, pelo seu contributo enriquecedor à cultura, à região, aos espíritos, e à Dra. Maria Aliete Galhoz pelas excelentes apresentação e organização dos textos dos autores. È caso para dizer que uma nova geração de criadores algarvios está a ganhar forma...
Miguel Godinho
A música inundou a poesia, como se da fundição das duas se transcendesse a tradicional apresentação de uma obra escrita. Ao som da palavra “musicada” (alguns dos poemas que se apresentam na obra foram recitados ao som de composições musicais, criadas com o fim de suscitar ambientes / cenários poéticos) os presentes na apresentação desta “Antologia de novos poetas algarvios – Do solo ao sul”, oferecida no dia 20 de Janeiro na Biblioteca Municipal de Faro, puderam saborear esta mútua iluminação, provando da colaboração fascinante que este modelo criativo introduz. A palavra coloriu-se de um fundo melódico e a música ganhou, através da palavra, um lirismo diferente.
Ao sul, a poesia ganhou um fôlego renascido, atestando uma força crescente na vida cultural desta região e mostrando acima de tudo o nascimento da “nova” poesia algarvia e não da poesia “dos novos”. Esta assume-se na sua plenitude, vigorante, motivada e motivadora. É uma oferta do Algarve ao Algarve e resume-se numa palavra: luz.
Importa agradecer à Associação Recreativa e Cultural do Algarve [ARCA], a par de todas as outras entidades (nomeadamente a Faro – Capital Nacional da Cultura) que contribuíram para a realização deste projecto, devendo também salientar-se a importância desta nova actividade que é a acção editorial que a associação referida agora comporta. Facto que deve ser realçado tendo em conta o potencial criativo literário que existe na cidade e na região em si. Por isso mesmo, espera-se então que esta obra nascida na passada sexta-feira, se torne apenas na primeira de muitas e espera-se também que possa servir de estímulo criativo para todos os poetas e escritores que ainda não tornaram públicos os seus escritos.
Um grande bem haja aos autores e amigos – João Bentes, Pedro Afonso, Pedro Sousa, Ricardo Paulo e Ruben Gonçalves, pelo seu contributo enriquecedor à cultura, à região, aos espíritos, e à Dra. Maria Aliete Galhoz pelas excelentes apresentação e organização dos textos dos autores. È caso para dizer que uma nova geração de criadores algarvios está a ganhar forma...
Miguel Godinho
segunda-feira, janeiro 09, 2006
O Algarve
“Ultrapassada a Planície heróica de Manuel Ribeiro, o descampado de trigo ou os povoamentos artificiais de sobreiros; cansados os olhos das linhas rectas e das planura que ao longe se perde no horizonte, começam as pequenas elevações, chega-se a Almodôvar, atinge-se o alto do Caldeirão e eis o Algarve; eis a Província mais bela, mais alegre e mais característica de Portugal, onde o clima é mais ameno e onde o ar é mais leve e a vida mais despreocupada. A terra, exposta ao Sul, amorosamente banhada pela brisa do mar e afagada pelo calor do sol, cheira mais a terra; a flora, xerolífitica, compostas por plantas espinhosas, de folhas pequeninas, coreáceas, levada pela acção do homem ao estado de maquis ou de uma garrigue típica e aromática, exala por toda a Província um perfume característico, estonteante por vezes, que vem do alecrim, da murta, do rosmaninho, alfazema, do tomilho, da aroeira e do xaral viscoso e extenso da serra a que se junta o aroma das flores das amendoeiras e laranjeiras. As cores da terra são mais quentes e a beleza +e mais sensula e polícroma; o povo, de tez morena, é mais alegre, mais ardente e mais emotivo; tem menos preconceitos que no Norte e tem um ar acolhedor, franco e sociável aliado ao gosto de palrar, de rir e de cantar.”
Guerreiro, Manuel Gomes (1999) – O Litoral, o barrocal e a serra no ordenamento agro-florestal do Algarve, Faro, Edição da Direcção Regional de Agricultura do Algarve, p.14.
“Ultrapassada a Planície heróica de Manuel Ribeiro, o descampado de trigo ou os povoamentos artificiais de sobreiros; cansados os olhos das linhas rectas e das planura que ao longe se perde no horizonte, começam as pequenas elevações, chega-se a Almodôvar, atinge-se o alto do Caldeirão e eis o Algarve; eis a Província mais bela, mais alegre e mais característica de Portugal, onde o clima é mais ameno e onde o ar é mais leve e a vida mais despreocupada. A terra, exposta ao Sul, amorosamente banhada pela brisa do mar e afagada pelo calor do sol, cheira mais a terra; a flora, xerolífitica, compostas por plantas espinhosas, de folhas pequeninas, coreáceas, levada pela acção do homem ao estado de maquis ou de uma garrigue típica e aromática, exala por toda a Província um perfume característico, estonteante por vezes, que vem do alecrim, da murta, do rosmaninho, alfazema, do tomilho, da aroeira e do xaral viscoso e extenso da serra a que se junta o aroma das flores das amendoeiras e laranjeiras. As cores da terra são mais quentes e a beleza +e mais sensula e polícroma; o povo, de tez morena, é mais alegre, mais ardente e mais emotivo; tem menos preconceitos que no Norte e tem um ar acolhedor, franco e sociável aliado ao gosto de palrar, de rir e de cantar.”
Guerreiro, Manuel Gomes (1999) – O Litoral, o barrocal e a serra no ordenamento agro-florestal do Algarve, Faro, Edição da Direcção Regional de Agricultura do Algarve, p.14.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
Produções tradicionais – Um mercado sem potencial?
No actual mundo em que vivemos somos constantemente confrontados com a máxima que se rege pela afirmação de que todos os produtos de mercado têm obrigatoriamente de ser “melhores” que os que nasceram anteriormente, tentando sempre “envergonhar” esses que para trás ficam. Afirma-se constantemente que caminhamos num sentido evolutivo, numa tentativa desenfreada de provarmos a nós próprios que a novidade é que interessa e que quem pensa o contrário é porque parou no tempo... Digo isto mas também, como qualquer um, faço parte deste tipo de concepção mental...
Pensando em termos da produção massificada e a industrializada (de tudo, desde as calças ou as camisas que vestimos, passando pelos produtos que colocamos na mesa e por muitos outros que possamos imaginar...) podemos seguir o ponto de vista que defende que por assim se processar, existe uma tendência para a baixa dos custos. Tal afirmação não deixa de ter o seu fundamento, mas também é certo que implica um ponto de vista bastante simplista pelo sentido redutor que transporta. Está mais que visto que no que toca à qualidade, quanto maiores e mais massificadas as produções, maior a tendência para a adulteração da qualidade e para a perda de identidade dos produtos. Mas tudo isto não interessa porque os mesmos se tornam mais baratos... Acabamos assim por poder comprar mais...
É certo que a novidade é essencial e está na base do actual sistema de trocas mas também é evidente que para tal não se devem nunca perder de vista produções que apenas necessitam de estratégias promocionais adequadas. A inovação na oferta não passa exclusivamente por um suposto “progresso” na renovação da tecnologia da produção. Um exemplo claro do que se pretende demonstrar está nas chamadas “produções tradicionais”. A região do Algarve (tal como muitas outras no nosso país com as suas características específicas) apresenta alguns bons exemplos com historial de séculos, nalguns casos milénios. É o caso de produtos como o sal (flor de sal), da azeitona britada, dos queijos e do figo, entre muitos outros, já para não falar da cestaria, da olaria, dos trabalhos em cobre, enfim, do chamado artesanato. Este tipo de produções não podem nem devem (pelo risco de perderem o valor de excelência que transportam) aspirar a produções em larga escala. São produções que, se inseridas em estratégias de produção muito localizadas e correctamente promocionadas, podem adquirir valorizações muito eficazes, fazendo com que a tradição não se perca, podendo até, produzir ao mesmo tempo, uma “ponte” com a modernidade (produtos de “design”), dando valor a localidades que de outra forma não o possuíam e empregando artífices (nalguns casos verdadeiros artistas!) que de outra forma não tinham meios de expressão devido à industrialização exacerbada da produção que não permite a sobrevivência da manufactura pelos altos custos que isso representa.
No entanto, é certo que este tipo de produtos não interessam nem estão acessíveis enquanto prática comum de aquisição, a todas as bolsas. Nas palavras de Oliveira Neves, são produções que se devem efectuar numa “escala de produção economicamente viável e preencher, com eficácia e eficiência, procuras típicas de nichos de mercado”, pelas razões que atrás se referiram. Apresentam uma qualidade muito superior e um “carinho” de produção especial em relação às produções de tipo industrial mas que também (por isso) se tornam mais caros.
Seria interessante pensar numa forma de dinamização deste tipo de produções, por tudo aquilo que se disse – são uma forma de preservação das tradições, de valorização de modos de vida e de territórios, de alternativa aos produtos industrializados, de desenvolvimento de produções de qualidade. São razões mais que suficientes para que se consiga chamar a atenção para a necessidade de desenvolvimento deste tipo de produções. Já começam, é certo, a nascer locais um pouco por toda a região onde é possível adquirir este tipo de produtos, mas é necessário que se desenvolva toda uma rede associada a estes. Há já muito tempo que se fala por exemplo (para a zona do baixo Guadiana) numa marca de excelência que garanta um processo de certificação, aplicável a produtos que sejam produzidos nesta zona. Seria realmente bom começar a efectivar essa ideia...
Miguel Godinho
Licenciado em Património Cultural
No actual mundo em que vivemos somos constantemente confrontados com a máxima que se rege pela afirmação de que todos os produtos de mercado têm obrigatoriamente de ser “melhores” que os que nasceram anteriormente, tentando sempre “envergonhar” esses que para trás ficam. Afirma-se constantemente que caminhamos num sentido evolutivo, numa tentativa desenfreada de provarmos a nós próprios que a novidade é que interessa e que quem pensa o contrário é porque parou no tempo... Digo isto mas também, como qualquer um, faço parte deste tipo de concepção mental...
Pensando em termos da produção massificada e a industrializada (de tudo, desde as calças ou as camisas que vestimos, passando pelos produtos que colocamos na mesa e por muitos outros que possamos imaginar...) podemos seguir o ponto de vista que defende que por assim se processar, existe uma tendência para a baixa dos custos. Tal afirmação não deixa de ter o seu fundamento, mas também é certo que implica um ponto de vista bastante simplista pelo sentido redutor que transporta. Está mais que visto que no que toca à qualidade, quanto maiores e mais massificadas as produções, maior a tendência para a adulteração da qualidade e para a perda de identidade dos produtos. Mas tudo isto não interessa porque os mesmos se tornam mais baratos... Acabamos assim por poder comprar mais...
É certo que a novidade é essencial e está na base do actual sistema de trocas mas também é evidente que para tal não se devem nunca perder de vista produções que apenas necessitam de estratégias promocionais adequadas. A inovação na oferta não passa exclusivamente por um suposto “progresso” na renovação da tecnologia da produção. Um exemplo claro do que se pretende demonstrar está nas chamadas “produções tradicionais”. A região do Algarve (tal como muitas outras no nosso país com as suas características específicas) apresenta alguns bons exemplos com historial de séculos, nalguns casos milénios. É o caso de produtos como o sal (flor de sal), da azeitona britada, dos queijos e do figo, entre muitos outros, já para não falar da cestaria, da olaria, dos trabalhos em cobre, enfim, do chamado artesanato. Este tipo de produções não podem nem devem (pelo risco de perderem o valor de excelência que transportam) aspirar a produções em larga escala. São produções que, se inseridas em estratégias de produção muito localizadas e correctamente promocionadas, podem adquirir valorizações muito eficazes, fazendo com que a tradição não se perca, podendo até, produzir ao mesmo tempo, uma “ponte” com a modernidade (produtos de “design”), dando valor a localidades que de outra forma não o possuíam e empregando artífices (nalguns casos verdadeiros artistas!) que de outra forma não tinham meios de expressão devido à industrialização exacerbada da produção que não permite a sobrevivência da manufactura pelos altos custos que isso representa.
No entanto, é certo que este tipo de produtos não interessam nem estão acessíveis enquanto prática comum de aquisição, a todas as bolsas. Nas palavras de Oliveira Neves, são produções que se devem efectuar numa “escala de produção economicamente viável e preencher, com eficácia e eficiência, procuras típicas de nichos de mercado”, pelas razões que atrás se referiram. Apresentam uma qualidade muito superior e um “carinho” de produção especial em relação às produções de tipo industrial mas que também (por isso) se tornam mais caros.
Seria interessante pensar numa forma de dinamização deste tipo de produções, por tudo aquilo que se disse – são uma forma de preservação das tradições, de valorização de modos de vida e de territórios, de alternativa aos produtos industrializados, de desenvolvimento de produções de qualidade. São razões mais que suficientes para que se consiga chamar a atenção para a necessidade de desenvolvimento deste tipo de produções. Já começam, é certo, a nascer locais um pouco por toda a região onde é possível adquirir este tipo de produtos, mas é necessário que se desenvolva toda uma rede associada a estes. Há já muito tempo que se fala por exemplo (para a zona do baixo Guadiana) numa marca de excelência que garanta um processo de certificação, aplicável a produtos que sejam produzidos nesta zona. Seria realmente bom começar a efectivar essa ideia...
Miguel Godinho
Licenciado em Património Cultural
segunda-feira, dezembro 05, 2005
A Triste História da Cultura
A Cultura sempre foi uma criança com graves problemas de saúde. Teve dificuldades de crescimento, chamavam-lhe “minorca”. Talvez por isso, desenvolveu fortes problemas emocionais e psicológicos, perdendo o amor pelos amigos e principalmente pelos pais, já que estes estavam constantemente preocupados com outros assuntos e nunca com ela. Sem que se apercebesse bem disso, também eles deixaram de acreditar nela, ao vê-la afastar-se progressivamente, basicamente porque – dizia – não foram capazes de acompanhar os tempos, sendo não raras vezes, bastante conservadores nas suas opiniões e nas atitudes que tinham para com ela.
A Cultura nunca amadureceu verdadeiramente e continuava a usar com os mesmos brinquedos, mesmo partidos, já sem pintura e descolorados pelo tempo. Brincava sozinha, tinha uma grave fobia social. Escolhia frequentemente os mesmos sítios para se esconder, isolando-se nas suas diversões simplesmente porque tinha medo de partir à descoberta doutras. Tinha medo de ser confrontada, ajudada pelo facto dos pais, inúmeras vezes, lhe vestir roupas que ela achava ridículas.
Apesar de já ter tentado por várias vezes afirmar-se entre os outros, parecia manifestar agora uma tendência algo depressiva. Seria talvez resultado do clima de desconfiança e descrédito na vida. Tudo à sua volta parecia estar a desmoronar-se. Já não conhecia a casa, os seus pais decidiram “arranjar” e restaurar (diziam eles!) a moradia, com dinheiro que o Banco lhes emprestou a custo, mas a verdade é que acabaram por desvirtuá-la por completo. A vista que a Cultura tinha dantes para o mar tinha agora sido trocada por um prédio em frente porque os seus pais, a fim de “melhorar” a casa, tiveram também de vender o lote de terreno ao lado já que o dinheiro emprestado não chegava. Decidiram entregá-lo a um casal espanhol que anos antes havia manifestado interesse em adquirir parte da propriedade. A Cultura ficou desolada. Não se sentia mais em casa.
Era demasiado jovem quando assistiu ao divórcio dos pais, perdendo as referências que a ajudavam na sua fraca estabilidade. Não era mais capaz de dar resposta às necessidades sociais de integração. Ficou como que desorientada.
Bem perto da maturidade, quando os pais, já velhos e falidos (resultado de uma vida faustosa que não conseguiram manter), lhe disseram que era já altura de se fazer à vida e se aguentar sozinha, não foi capaz e foi viver para debaixo da ponte. É lá que ainda hoje habita, sobrevivendo com as esmolas dos turistas, os quais, diga-se de passagem, só lhe dão dinheiro por pena.
É triste vê-la neste estado, neste meio onde não pertence. Definitivamente não merece o triste fado que a vida lhe reservou. Quase que se pode dizer que não teve culpa. Como criança que era, cabia aos que tinham a sua tutela mostrar-lhe o caminho, auxiliando-a nos momentos em que mais necessitava. É mais triste ainda ver que não está a conseguir encarar a situação de uma maneira positiva. É compreensível. É muito difícil conseguir suportar uma situação onde não existe dignidade. Psicologicamente, está muito abatida e fisicamente não está saudável. Longe vãos os tempos em que mal ou bem, lá ia conseguindo levantar a cabeça. Está sem dinheiro e as roupas estão velhas – aquelas mesmas roupas que não gostava de vestir. Se passar por ela, ajude-a. Senão, dê-lhe pelo menos um pouco de atenção para evitar que o destino se torne ainda mais negro...
Miguel Godinho
A Cultura sempre foi uma criança com graves problemas de saúde. Teve dificuldades de crescimento, chamavam-lhe “minorca”. Talvez por isso, desenvolveu fortes problemas emocionais e psicológicos, perdendo o amor pelos amigos e principalmente pelos pais, já que estes estavam constantemente preocupados com outros assuntos e nunca com ela. Sem que se apercebesse bem disso, também eles deixaram de acreditar nela, ao vê-la afastar-se progressivamente, basicamente porque – dizia – não foram capazes de acompanhar os tempos, sendo não raras vezes, bastante conservadores nas suas opiniões e nas atitudes que tinham para com ela.
A Cultura nunca amadureceu verdadeiramente e continuava a usar com os mesmos brinquedos, mesmo partidos, já sem pintura e descolorados pelo tempo. Brincava sozinha, tinha uma grave fobia social. Escolhia frequentemente os mesmos sítios para se esconder, isolando-se nas suas diversões simplesmente porque tinha medo de partir à descoberta doutras. Tinha medo de ser confrontada, ajudada pelo facto dos pais, inúmeras vezes, lhe vestir roupas que ela achava ridículas.
Apesar de já ter tentado por várias vezes afirmar-se entre os outros, parecia manifestar agora uma tendência algo depressiva. Seria talvez resultado do clima de desconfiança e descrédito na vida. Tudo à sua volta parecia estar a desmoronar-se. Já não conhecia a casa, os seus pais decidiram “arranjar” e restaurar (diziam eles!) a moradia, com dinheiro que o Banco lhes emprestou a custo, mas a verdade é que acabaram por desvirtuá-la por completo. A vista que a Cultura tinha dantes para o mar tinha agora sido trocada por um prédio em frente porque os seus pais, a fim de “melhorar” a casa, tiveram também de vender o lote de terreno ao lado já que o dinheiro emprestado não chegava. Decidiram entregá-lo a um casal espanhol que anos antes havia manifestado interesse em adquirir parte da propriedade. A Cultura ficou desolada. Não se sentia mais em casa.
Era demasiado jovem quando assistiu ao divórcio dos pais, perdendo as referências que a ajudavam na sua fraca estabilidade. Não era mais capaz de dar resposta às necessidades sociais de integração. Ficou como que desorientada.
Bem perto da maturidade, quando os pais, já velhos e falidos (resultado de uma vida faustosa que não conseguiram manter), lhe disseram que era já altura de se fazer à vida e se aguentar sozinha, não foi capaz e foi viver para debaixo da ponte. É lá que ainda hoje habita, sobrevivendo com as esmolas dos turistas, os quais, diga-se de passagem, só lhe dão dinheiro por pena.
É triste vê-la neste estado, neste meio onde não pertence. Definitivamente não merece o triste fado que a vida lhe reservou. Quase que se pode dizer que não teve culpa. Como criança que era, cabia aos que tinham a sua tutela mostrar-lhe o caminho, auxiliando-a nos momentos em que mais necessitava. É mais triste ainda ver que não está a conseguir encarar a situação de uma maneira positiva. É compreensível. É muito difícil conseguir suportar uma situação onde não existe dignidade. Psicologicamente, está muito abatida e fisicamente não está saudável. Longe vãos os tempos em que mal ou bem, lá ia conseguindo levantar a cabeça. Está sem dinheiro e as roupas estão velhas – aquelas mesmas roupas que não gostava de vestir. Se passar por ela, ajude-a. Senão, dê-lhe pelo menos um pouco de atenção para evitar que o destino se torne ainda mais negro...
Miguel Godinho
O Algarvio
“O Algarvio é um Andaluz. Ao contrário do Alentejano, tudo o interessa, de tudo fala, agita-se em permanência, com uma vivacidade quase infantil. No Algarve não há o silêncio e a impassibilidade: há o movimento constante, o falar, o cantar de uma população como a dos Gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios costeiros, ora ocupados nos seus campos, que são jardins. Se a planície e os longos horizontes das montanhas dão ao espírito a placidez solene, também o arrulhar constante da onda, sobre a qual, debruçado como um eirado, esta o Algarve, põe no pensamento uma agitação permanente, meio tonta mas encantadora”.
(Oliveira Martins, História de Portugal, Lisboa, 1908, I, 42; [I ed.]1879.)
“O Algarvio é um Andaluz. Ao contrário do Alentejano, tudo o interessa, de tudo fala, agita-se em permanência, com uma vivacidade quase infantil. No Algarve não há o silêncio e a impassibilidade: há o movimento constante, o falar, o cantar de uma população como a dos Gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios costeiros, ora ocupados nos seus campos, que são jardins. Se a planície e os longos horizontes das montanhas dão ao espírito a placidez solene, também o arrulhar constante da onda, sobre a qual, debruçado como um eirado, esta o Algarve, põe no pensamento uma agitação permanente, meio tonta mas encantadora”.
(Oliveira Martins, História de Portugal, Lisboa, 1908, I, 42; [I ed.]1879.)
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